2008-04-26

a pretinha não era tola. E nós?

A pretinha, a quem tinham ensinado a não ter medo de nada, sentiu o coração endurecer-se contra ele, por um lado porque pensava que os homens fortes deviam ser pretos e que só as senhoras missionárias eram brancas; por outro lado, porque ele tinha morto a sua amiga serpente; e também porque vestia uma longa túnica branca, ridícula. Este último facto sensibilizava o único ponto a respeito do qual a sua senhora nunca a tinha podido converter, ou seja, o dever de ter vergonha do corpo e de usar saias. Pelo que se detectou um certo despeito na sua voz quando lhe dirigiu a palavra.
- Ando à procura de Deus - disse ela. - Pode dar-me informações a seu respeito?
- Encontraste-o - respondeu ele. - Ajoelha-te e adora-me agora mesmo, criatura presunçosa, se não quiseres temer a minha cólera. Sou o Deus dos Exércitos. Fiz o Céu e a Terra e tudo o que neles se encontra.
Fiz o veneno da serpente e o leite do seio da tua mãe. Na minha mão estão a morte e todas as doenças, o trovão e os relâmpagos, o furacão e a peste e todos os outros testemunhos da minha grandeza e da minha magestade.
De joelhos, jovem, e a próxima vez que de mim te aproximares, traz o mais amado dos teus filhos, que degolarás aqui, diante de mim, à guisa de sacrifício; porque gosto do odor do sangue acabado de verter.
- Não tenho filhos - respondeu a negra. - Sou virgem.
- Então, vai procurar o teu pai, para que ele te degole - disse o Deus dos Exércitos. - E faz de modo que os teus parentes me tragam muitos carneiros, cabras e borregos e os assem diante de mim como oferendas, para eu me tornar complacente. Se não, lançarei sobre eles as calamidades mais tremendas, para que saibam que sou Deus.
- Não sou nenhuma tola...

"As aventuras de uma pretinha à procura de Deus"
Bernard Shaw

9 comentários:

  1. uma parábola bonita e moderna...

    abraço MC

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  2. Este não é o deus do velho testamento? claro que a pretinha não era tola

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  3. Não conhecia este texto de Bernard Shaw e fiquei deliciado...

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  4. Existe só uma religião católica, ou 200.000?

    Muitas delas reinventadas todos os dias por pessoas diferentes. Pouco mais têm em comum do que os edifícios onde vão rezar e a figura do papa, cuja autoridade não querem deixar de contestar.
    Antigamente as heresias eram combatidas pelo fio da espada ou pelo fogo. Agora a igreja já não se pode dar a esses luxos. O Cardeal de Nova York censura Rudy Giuliani por comungar apesar de defender o aborto, mas não se atreve a proibi-lo.

    Que existe de comum entre a MC e um servo do Bom Pastor? Muito pouco, ou quase nada.

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  5. As coisas chegaram a tal ponto que ninguém menciona que o Bernard Shaw até era ateu. Embora o padre Carreira das Neves subscrevesse certamente tudo isto.

    Até quando é que toda a gente vai assobiar para o lado e ignorar estas diferenças? Por mim tudo bem, mas a mim não me enganam:)

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  6. Olá, pessoal.

    Com tempo farei um post sobre este delicioso livro. recomendo-o a crentes e não crentes.

    Gosto quando os homens fazem um esforço para entrar no universo feminino. Bernard Shaw fá-lo muito bem.

    Quanto às questões do On,

    não é suposto cada pessoa andar a inventar uma religião para si. Mas existe uma relação pessoal com Deus, ou não existe nada. Só consigo crer num Deus assim.
    A Igreja Católica de livre vontade ou por acidente de percurso permite esse caminho. E é isso que me faz continuar a permanecer nela.

    E porque é que não nos é permitido o diálogo com os ateus? A jovem da parábola tinha uma moca para "dar" nos deuses que ia encontarndo. Eu também tenho, não uma, mas duas: a minha vontade e a minha liberdade.

    Os ateus ajudam-me a aprofundar a minha fé. Correndo riscos. Mas existe alguma forma de viver sem riscos?

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  7. (“Não é suposto cada pessoa andar a inventar uma religião para si. Mas existe uma relação pessoal com Deus, ou não existe nada. Só consigo crer num Deus assim.”)

    O homem que criou a idéia de deus foi um gênio dizia eurípedes e bernardo shaw acrescentava Cuidado com o homem cujo deus esta no céu .
    E então surge a pergunta porque as pessoas precisam da religião, ou o que colocar no lugar dela? Como consolar quem perde um ente querido, Como suprir carências. Etc etc como dizia alguém.
    ("Você e eu, é claro, somos inteligentes e cultos demais para precisar de religião. Mas as pessoas comuns, precisam da religião. Isso me faz lembrar de uma ocasião em que estava dando uma palestra numa conferência sobre a compreensão pública da ciência, e investi brevemente contra "baixar o nível". Na sessão de perguntas e respostas do final, uma pessoa da platéia ficou de pé e sugeriu que "baixar o nível" poderia ser necessário para "trazer as minorias e as mulheres para a ciência”)

    este livrinho do shaw foi tão polémico aquando da sua publicação que provocou escandalo, esta alegoria irreverente das manipulações das igrejas sobre a busca de uma vida religiosa que muitos empreendem para se orientarem no mundo, ou seja os mais ignorantes são aqueles que procuram respostas de joelhos e de olhos fechados. Pois rezar é melhor do que pensar.

    Mas este livrinho vale mais que muitos discursos do dawkins sobre ciencia e deus, as aventuras de uma pretinha à procura de deus.,ou seja quem não vê que a biblia começa num deus e acaba noutro é mentalmente inepto e não deveria ter direito de voto, dizem que shaw dizia isto, que é um facto , mas os cristãos, de alguma forma, conseguem acreditar em que Jesus – NT, não tem nada a ver com o brutal Javé – VT, apesar da doutrina trinitaria da mesma pessoa e da mesma essência. Contradições ou dupla personalidade, da brutalidade ao amor.

    O interessante é que este deus mau, egoista, racista, que escolhe entre filhos e enteados, cria a humanidade, põem a prova a sua fidelidade, exigindo o sacrificio do filho como prova em abrãao, tem humores como os humanos, em que se zanga com a humanidade e decide erradica-la da face da terra com um diluvio, escolhe um povo eleito etc. Apesar disso acha que deve mandar o seu filho a terra para nos demonstrar o seu amor e o perdão dos nossos pecados, e surge uma das maiores mensagens da humanidade que é o amor ao próximo, mas como os vicios não se perdem totalmente tem uma recaida no apocalipse levando a cabo novamente um massacre mundial como no dilúvio. deus é um louco contido, então não é que no apocalipse, deus vira um louco e quer exterminar tudo de novo. Num novo surto de megalomania punirá todos aqueles que não o seguem ou seguiram e glorificará os que nele crêem que viverão na terra renascida. Não ha lugar a perdões.

    Perguntaram a bernard shaw se ele acreditava que o espírito santo havia escrito a bíblia, e bernard shaw respondeu: (‘Todo o livro que valha a pena ser lido foi escrito pelo Espírito”)

    Mas sem o santo, reparo eu.

    Então como encontrar deus?

    (“ Mas existe uma relação pessoal com Deus, ou não existe nada. Só consigo crer num Deus assim”)

    Se isto pressupõe a existência de uma força extrinseca a nós, ou um ser espiritual autonómo, então discordo. E se esse ser existe é de facto preciso procura-lo, não basta melhorar as nossas atitudes, temos que o glorificar embora sendo uma das suas tres caracteristicas a omnipresença, deve estar em todo o lado que o procuremos.
    Mas para mim, a relação pessoal com deus é com a nossa espiritualidade, deus tem que ser um conceito intrinseco a nós e temos que alimentar e viver esse conceito, senão o vivermos, deus não vive, está morto, não dança, como eu acredito que o deus de muitas pessoas sempre esteve morto, porque é um ser espiritual autonomo, julgam que vive fora delas, é preciso rezar é preciso adorar e glorificar , não acredito nesse ser espiritual autonomo, mas consigo acreditar num deus que está em transformação, como Bernard Shaw disse, "um deus que trabalha através de nós, através das plantas e dos animais.”
    no imaginário da maioria das pessoas a face da Terra para encontra-lo basta abrir as cabeças, o que eu critico é aqueles que se agarram à fé diante de toda a argumentação lógica do ateísmo ou mesmo se recusam a analisá-la, mas não aqueles que sofreram lavagem cerebral desde a infância e nunca pararam para pensar em outras possibilidades, quase todas as religiões se preocupam com uma infinidade de coisas à toa e no fundo falam todas as mesmas coisas. Mas deus é amor, sejamos bons, vivamos uma boa vida. Se toda religião fala a mesma coisa, tanto faz esta como aquela. rezar é sempre rezar, seja no templo, na igreja, na mesquita, na sinagoga. E se esse ser existe e ve tudo isto, não se importa muito, pois nunca teve grande interesse em demonstar que uns estavam mais certos que outros, parece que nos aceita a todos mesmo assim.

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  8. uma tentativa de resposta ao comentário anónimo:

    O livro de B. Shaw é de 1932 mas mantém uma frescura enorme. Foi polémico e continuará a sê-lo. Vejam o On que ficou inqieto por eu o citar aqui.
    Como se os ateus não tivessem melhor missão neste mundo que andar a corromper os crentes.
    E os crentes sejam todos os folhinhas de alface que murcham com o primeiro raio de sol.
    A ortodoxia já pensou assim. Por isso o Index. Ainda pensam um bocadinho: têm teólogos proscritos.
    Mas estamos aqui só a trocar ideias, certo? E eu a pôr títulos provocadores...nenhum crente se chegou à frente.

    Mas vamos lá. Para mim a matemática é impenetrável. Deus também. Se eu entrasse um bocadinho na matemática talvez chegasse um pouco mais perto de Deus. Mas sendo um zero a matemática tenho de desistir de procurar Deus?
    Procuro Deus com as ferramentas de que disponho. Isso não me faz sentir num nível qualquer inferior. Nem por ser mulher, nem por não pescar nada de matemática.

    Porque é que as pessoas precisam da religião? Porquê?
    Bernard Shaw dá algumas respostas. Não podemos fugir à questão de onde viemos, para quê, para onde vamos...depois digo eu: porque é que o Deus dos Exércitos, o Deus que se alimenta do sacrifício humano colhe tantos adeptos? B. Shaw diz que "com muita facilidade acreditamos no que nos diverte, satisfaz as nossas necessidades." Já temos mais dificuldade em acreditar, digo eu, no que nos surpreende e compromete.
    Desde sempre foi muito mais fácil acreditar num Deus a quem achamos que podemos bajular de alguma forma, do que acreditar num que não escolhe pobres nem ricos, bons ou maus, sábios ou ignorantes. Que não quer oblações ou sacrifícios, mas corações amorosos.

    Creio que conheço suficientemente a minha religião. Frequentemente se passa do Deus de Jesus, o Nazareno, para um deus tapa-buracos de quem nos socorremos quando estamos com a corda no pescoço e que mandamos às urtigas na primeira oportunidade. Um Deus que achamos que compramos com meia dúzia de rezas e uns fumos de incenso. Não é esse o Deus de Abraão, dos profetas ou de Jesus.

    Claro que temos de procurar Deus dentro de nós. Mas não chega. Nunca chegou nem vai chegar. Basta olhar à nossa volta. Teríamos mais razões para descrer do que para crer. É preciso ter a noção de que o mundo não se perdeu. Anda a procurar encontrar-se. Temos a força criadora de Deus, mas não somos deuses.

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  9. Agradeço a referencia ao meu comentário e ja agora termino o meu pensamento sobre o caso.

    (“Porque é que as pessoas precisam da religião? Porquê?
    Bernard Shaw dá algumas respostas. Não podemos fugir à questão de onde viemos, para quê, para onde vamos..., B. Shaw diz que "com muita facilidade acreditamos no que nos diverte, satisfaz as nossas necessidades." Já temos mais dificuldade em acreditar, digo eu, no que nos surpreende e compromete.”)

    A ciencia ja da muitas destas respostas, a ciência é responsável por muitas das nossas informações por exemplo, sobre nossas origens e do universo.

    Ja agora esclarecendo de onde viemos e possivelmente para onde iremos um pequeno link. Com liberdade filosofica de interpretação

    http://www.kubrick2001.com/

    Vou citar uma leitura que fiz recentemente.

    (“Um grupo de cientistas da Universidade de Oxford, Reino Unido, vai gastar dois milhões e meio de euros para descobrir por que é que as pessoas acreditam em Deus.
    Os investigadores do Centro Ian Ramsey para a Ciência e Religião e do Centro de Antropologia e da Mente, em Oxford (Reino Unido), vão desenvolver uma “abordagem científica ao porquê de se acreditar em Deus e a outros assuntos em torno da natureza e da origem da crença religiosa”, explicaram na edição de hoje do jornal “The Times”. Os cientistas não tentarão responder sobre se Deus existe ou não: eles vão investigar se a crença em Deus foi uma vantagem que contribuiu para a sobrevivência e evolução da espécie humana, ou, ao contrário, se a fé é, tal como outras características do Homem, um produto dessa evolução.
    “Estamos interessados em explorar exactamente de que forma a crença em Deus é um fenómeno natural [na espécie humana]. Achamos que há mais de natural do que muitas pessoas supõem”, adiantou o psicólogo Justin Barret. O cientista compara os crentes a crianças de três anos de idade, que “assumem que os adultos sabem praticamente tudo o que há para saber”.
    Justin Barret, que é cristão, explicou que a tendência das crianças para acreditar na omnisciência dos outros, que é necessária para permitir que os seres humanos socializem e cooperem, é atenuada pela experiência ao longo do crescimento, mas continua no que diz respeito à crença em Deus. “Geralmente ela continua na vida adulta”, afirmou o investigador britânico, rematando: acreditar “é fácil, é intuitivo, é natural”.
    O estudo vai também tentar demonstrar se a crença na vida depois da morte é algo que tem de ser ensinado ou se é uma característica inata ao Homem, produto da selecção natural, tal como procurará investigar outras questões, por exemplo se os conflitos religiosos são inerentes à natureza humana.”)

    Isto não leva a nada não é verdade. (Eu ja conhecia o estudo sobre os efeitos da prece nos doentes financiado por uma fundação religiosa em que dos tres grupos de doentes, aquele pelo qual rezavam teve mais complicações que os outros). Mas por acaso vem de encontro ao meu pensamento formado ao longo da vida e de estudos, alias ja escrevi isto num outro comentário de um blog e passo a explicar a ideia, Não sei se deus existe, é me irrelevante esta questão. tive uma educação religiosa, mas pela minha visão historica, cientifica e religiosa da evolução do mundo e do aparecimento dos primeiros seres vivos, dos primeiros primatas e do homem erectus, há um momento na sua evolução que marca a diferença e em que ele começou a revelar espititualidade, coisa que ate essa época não fazia, se até essa data vivia em estado de natureza em estado animal, esse momento surgiu quando enterrou o primeiro morto que lhe era querido e que ate ai ficava abandonado onde morria a mercê das feras, demonstrando assim uma espiritualidade e uma afeição que perdurava para depois da morte. A partir desse momento dá-se uma tranformação e vai aparecer um culto da espiritualidade, começaram os primeiros deuses nas civilizações antigas, egipcios, maias, incas, astecas , na india na china etc. Depois grécia, roma e os primeiros deuses monoteistas, espirituais, todos no médio oriente, judaismo, cristianismo e muculmanos. Mas para mim é irrelevante o conceito de deus,e se existe ou não como entidade sobrenatural mas ja não são irrelevantes as qualidades do conceito de deus, o amor, a fraternidade, a justiça, a felicidade, procurando construir aqui na Terra um planeta mais justo, habitável, fraterno, saudável e feliz. Sendo nos os construtores do nosso proprio destino. Eu acredito no homem na sua caminhada para ideais de perfeição e na ideia de deus de criação humana, como tantos outros conceitos e valores morais que nos orientam na vida.
    As religiões foram feitas para defender e proteger o Homem, servir como apoio e conselho superior, desde os primórdios da Humanidade, procuramos algo superior para justificar o injustificável, para nos defendermos daquilo que julgamos demasiado lato para compreendermos ou mesmo para apoiar as nossas teses de uma vida após a morte, como que receosos de que esta seja a nossa única e derradeira passagem. Em nome destes Deuses, tudo se faz, tudo se constrói, tudo se destrói, nada se altera. E se não existisse religião? pois é dizem então alguns, as pessoas não teriam um sentido para a vida, e fariam o que bem quisessem, admito que as religiões tenham seu lado positivo, quando pela fé em deus, ou por certos ensinamentos que pregam o amor, a fraternidade e a caridade, o crente se esforça a se tornar melhor ser humano, mas so os crentes, só os religiosos podem ser bons, ou só a crença em Deus pode tornar alguém melhor. Basta olhar para os escândalos causados por membros de igrejas. A inteligência cósmica é amor, fraternidade, avessa as guerras e ao ódio. Não ha povo eleito, quem deu poder a um grupo de homens se autodenominarem intermediários de deus. O mundo pode ser bem melhor, se a ética e lei a serem seguidas não vier de livros inspirados, mas da razão, e do bom senso humano. O mundo seria bem melhor e as pessoas acredito que também.

    (“Mas vamos lá. Para mim a matemática é impenetrável. Deus também. Se eu entrasse um bocadinho na matemática talvez chegasse um pouco mais perto de Deus”)

    A linguagem da ciência a do livro do universo é matemática, rigorosa e exata. A Bíblia o livro da revelação está escrita em linguagem ordinária, aberta ao entendimento comum dos homens (dos leigos), descrevendo aparências e experiências, algumas vezes ambíguas e imprecisas, frequentemente metafóricas. Há duas linguagens, não dois mundos distintos ou dois domínios distintos de fenómenos, duas linguagens que freqüentemente se aplicam aos mesmos fenómenos mas, quando ambas se aplicam, reflectem interesses distintos. Quando as pessoas comuns dizem que o Sol se move pelos céus, descrevem o que observam sem tentar explicá–lo, não se perguntam se, realmente, é o Sol ou a Terra que está em movimento e, independentemente da resposta correcta, o que é visto percebido permanece o mesmo. Ambas as linguagens podem ser usadas para descrever os factos.

    Ha quem acredite que deus é inútil, pois a própria natureza cria seres que podem ter ideias de todas as coisas, inclusive da própria natureza. Não se trata, porém, da natureza oposta ao espírito ou à história ou à cultura ou à liberdade, mas da natureza omnienglobante, a physis grega, que inclui o homem nela. Essa é a Causa dos seres pensantes no seu efeito. Ao crente monoteísta parece mais razoável uma interpretação da realidade que implica a presença do deus transcendente, amor pessoal e criador. Afirma-se desse modo a infinita transcendência de deus e a sua mais íntima presença à criatura, tornando-se então claro o que parece paradoxal: precisamente porque deus está sempre presente como criador, faz o mundo fazer-se autonomamente, seguindo as leis próprias da natureza e a liberdade.

    Eu partilho de uma alegoria de bertrand russel sobre a origem das religioes, dizia ele:

    («Se eu sugerisse que entre Terra e Marte há um bule de chá da China a rodar à volta do Sol viajando numa órbita elíptica, ninguém o poderia contestar - desde que eu tivesse o cuidado de acrescentar que esse bule é demasiado pequeno para ser visto mesmo com os mais poderosos telescópios. Se prosseguisse nesta ideia (…), poder-se-ia dizer, e muito justamente, que estava a dizer disparates.
    (“Se, por outro lado, a existência de um bule de chá entre Terra e Marte fosse garantida em livros antigos e ensinada como verdade sagrada às crianças, qualquer um que hesitasse em acreditar na sua existência seria visto como um excêntrico que, numa Idade iluminada, devia ter atenções de psiquiatra, ou de Inquisidor, em tempos mais remotos».”)
    Bertrnad russel

    E continuava;
    “No que acredito”:
    (“Acredito que ao morrer apodrecerei e nada do meu eu sobreviverá. Não sou jovem e amo a vida. Mas desdenho tremer de terror à idéia do aniquilamento. A felicidade não se torna menos verdadeira por ter que chegar ao fim, e o pensamento e o amor não perdem o seu valor por não durarem para sempre. Muitos homens já se portaram orgulhosamente no cadafalso; certamente o mesmo orgulho deveria nos ensinar a pensar verdadeiramente sobre o posto do homem no mundo. Mesmo se inicialmente as janelas abertas da ciência fazem-nos tremer após o quente aconchego dos mitos antropomórficos tradicionais, no final o ar fresco revigora, e os grandes espaços têm o seu próprio esplendor.”)

    Cada um deve aplicar a velha frase de um velho filosofo conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo, dizem que estava escrita no templo de delfos

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