2008-05-23

a ternura no masculino

Um longo trecho de um livro de Philip Roth, onde ele conta com um realismo e uma sensibilidade emocional muito grandes, a descoberta de um tumor no cérebro do pai de oitenta e seis anos, e as várias etapas porque passaram os dois. Este que reproduzo é sublime:

Cheirou-me a trampa a meio da escada para o primeiro andar. Quando cheguei à casa de banho, encontrei a porta entreaberta e, no chão do corredor, do lado de fora, as suas calças de algodão e as suas cuecas. De pé, do outro lado da porta da casa de banho, vi o meu pai completamente nu, acabado de sair do chuveiro e a escorrer água. O fedor era pestilento.Ao ver-me, pouco faltou para se desfazer em lágrimas. Numa voz tão desolada como alguma que eu jamais ouvira, dele ou de qualquer outra pessoa, disse-me aquilo que não me tinha sido difícil de supor:
- Caguei-me.
Havia merda por todo o lado, espalhada pelos pés no tapete da casa de banho, a escorrer pelas bordas da sanita e, aos pés dela, numa poia no chão. Esparramada no vidro do nicho do chuveiro do qual ele acabara de sair e amontoada nas roupas que despira. E no canto da toalha com a qual começava a enxugar-se. Naquela pequena casa de banho, que geralmente era a minha, ele fizera os possíveis para sair daquela imundície sozinho, mas como estava quase cego e acabado de sair de uma cama de hospital, ao despir-se e entrar no chuveiro conseguira apenas espalhar a porcaria por todo o lado. Vi que chegara até às pontas das cerdas da minha escova de dentes, suspensa do suporte por cima do lavatório.
- Pronto, não se preocupe - disse eu - Tudo se vai resolver.
Estendi a mão para o chuveiro, voltei a abrir a água e manobrei as torneiras até conseguir a temperatura certa. Tirei-lhe a toalha das mãos e ajudei-o a voltar para o chuveiro.
- Pegue no sabonete e comece do princípio.
Enquanto ele recomeçara obedientemente a ensaboar o corpo, fiz um monte com a sua roupa, as toalhas e o tapete da casa de banho, segui pelo corredor até ao armário da roupa branca, tirei a fronha de uma almofada e meti tudo lá dentro. Arranjei também um lençol de banho limpo, para ele. Depois tirei-o do chuveiro, levei-o logo para o corredor, cujo chão ainda estava limpo, embrulhei-o no lençol e comecei a enxugá-lo.
-O seu esforço foi corajoso -comentei -, mas suponho que a situação era daquelas que não permitem vitórias.
- Caguei-me repetiu ele, e desta vez desfez-se em lágrimas.
Levei-o para o seu quarto, onde se sentou na beira da cama e começou a esfregar-se com a toalha enquanto eu saís com o meu roupão turco para ele vestir. Quando acabou de se enxugar, ajudei-o a vestir o roupão, puxei para trás o lençol de cima da cama e disse-lhe que se deitasse e dormisse uma sesta.
- Não digas às crianças - pediu, a olhar-me da cama com o olho que ainda via.
- Não digo a ninguém - tranquilizei-o. -Direi que está a descansar.
- Não digas à Claire.
- Não digo a ninguém. Não se preocupe com isso. Podia ter acontecido a qualquer pessoa. Esqueça o assunto e descanse o mais que puder.
Corri as persianas para obscurecer o quarto, saí e fechei a porta.
...

Foi mais fácil livrar-me da merda que se encontrava numa pasta mais ou menos contínua defronte da sanita: bastou recolhê-la com uma pá, deitá-la na sanita e puxar o autoclismo. E a porta do chuveiro, o parapeito da janela, o lavatório, a saboneteira, as tomadas da luz e os varões das toalhas também não constituíram nenhum problema. Montes de toalhas de papel e uma enorme quantidade de sabão. Mas onde ela se alojara nas fendas estreitas e irregulares do chão, entre as velhas e largas tábuas de castanheiro, as coisas complicaram-se. A escova parecia servir apenas para atrapalhar e, por fim, peguei na minha escova de dentes, fui-a metendo e tirando do balde cheio de água espumosa e avancei centímetro a centímetro, de parede a parede, uma greta de cada vez, até o chão ficar o mais limpo que consegui. Depois de passar cerca de um quarto de hora de joelhos, decidi que não teríamos outro remédio senão vivermos todos com os salpicos e as partículas entranhadas a que, apesar dos meus esforços, não conseguia chegar. Tirei a cortina da janela, apesar de parecer limpa, enfiei-a na fronha da almofada onde estavam as outras coisas sujas, fui à casa de banho de Claire, peguei num frasco de água-de-colónia e salpiquei com mãos-largas o aposento lavado e esfregado, sacudindo-a das pontas dos dedos como se fosse água-benta. Liguei uma pequena ventoinha que se encontrava a um canto, voltei à casa de banho de Claire e lavei os braços, as mãos e o rosto. Como tinha um salpico de merda no cabelo, também o lavei.
Voltei em bicos de pés ao quarto onde ele dormia, ainda a respirar, ainda vivo, ainda comigo - mais um revés desencadeado por aquele homem que eu conhecera interminavelmente como meu pai. Senti-me péssimo por causa da sua heróica e vã luta para se limpar antes de eu chegar à casa de banho, e da vergonha inerente, e da desgraça que ele próprio se considerava. No entanto, agora que terminara e o meu pai dormia profundamente, pensei que não podia ter pedido nada mais para mim próprio antes de ele morrer: isto também estava certo e era assim que devia ser. Limpamos a merda do nosso pai porque ela tem de ser limpa, mas na esteira desse limpar tudo o que nos resta para sentir é sentido como nunca antes foi. Também não era a primeira vez que compreendia isto: depois de contornarmos a repugnância, ignorarmos a náusea e mergulharmos para além dessas fobias fortificadas como tabus, resta uma grande quantidade de vida para acarinharmos.
Embora seja possível que uma única vez baste, acrescentei, dirigindo-me mentalmente ao cérebro adormecido, apertado pelo tumor cartilaginoso; se tiver de fazer isto todos os dias, é muito possível que não me sinta tão empolgado.
Levei a malcheirosa fronha para o andar de baixo, meti-a num saco de lixo preto, que atei bem atado, transportei o saco para o carro e atirei-o para a bagageira, a fim de o levar para a lavandaria. Agora que o trabalho estava feito, não poderia ser mais claro para mim o motivo por que isto estava certo e como devia ser. O património era, então, isso. E não porque limpar a porcaria fosse simbólico de qualquer outra coisa, porque não era; antes por não ser nada menos nem nada mais do que a realidade vivida que era.
Ali estava o meu património. Não era o dinheiro, não eram os filactérios, não era a tigela de barbear: era a merda.

Philip Roth - Património

2 comentários:

  1. a triste realidade da velhice, em que viver começa a ser um fardo, em quase todos os sentidos...

    o texto é muito bom...

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  2. a velhice, a doença...são fardos pesados mas inevitáveis. E não há como fantasiar sobre eles. Como diz P.R.: são o património que recebemos e que havemos de deixar.

    O livro é todo ele muito bom. Geralmente são as mulheres que cuidam e depois dão testemunho, aqui é um homem.

    Gostei muito do livro por várias razões.

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