2008-06-30

(Ferdinand Hodler, "calme de soir" 1904/05)





Te dehojé, como una rosa,
para verte tu alma,
Y no la vi.

Mas todo en torno
-horizontes de tierras y de mares-,
todo, hasta el infinito,
se colmó de una essencia,
inmensa y viva.

Juan Ramón Jiménez

2008-06-28

paradoxo da espera

com um cheirinho de murta

Uma conterrânea, faz uma recolha fabulosa, das plantas silvestres desta região.
São as minhas preferidas. Gosto de jardins desordenados e naturais. Tenho, actualmente, a graça de encher os olhos, todos os dias, destas belezas. E sentir-lhes o perfume. E invejar os insectos vorazes que entram por elas adentro e se banqueteiam.

Nunca é demais falar do mesmo:

"Houve um tempo em que sonhava com uma Igreja que segue o seu caminho na pobreza e na humildade, uma Igreja que não depende dos poderes deste mundo. Sonhei com o extermínio da desconfiança. Com um Igreja que dá espaço às pessoas que pensam mais longe. Com uma Igreja que anima sobretudo aqueles que se sentem pequenos e pecadores...

... "A Igreja deve ter a coragem de se reformar." "A Igreja precisa permanentemente de reformas." "Porque eu próprio sou tímido, digo a mim mesmo na dúvida: coragem!"


...É verdade que não poucas mulheres criticam justamente a Igreja porque se sentem discriminadas. Martini reconhece que "a nossa Igreja é um pouco tímida" e que o Novo Testamento trata melhor as mulheres do que a Igreja. A direcção de comunidades por mulheres é bíblica e não pode excluir-se o debate sobre a sua ordenação.

A Igreja de Cristo é a favor do Homem, da justiça e do Deus vivo. Mas não tem o monopólio de Deus. "Não podes tornar Deus católico." Por isso, a Igreja dialoga com os crentes das outras religiões e igualmente com os não crentes, também para conhecer as suas razões.

Anselmo Borges no DN, sobre o último livro do cardeal Martini

2008-06-27

assim esperamos:

(imagem-Lusa)

Ele enxugará todas as lágrimas dos seus olhos; e não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor. Porque as primeiras coisas passaram.» (Ap 21,4)

capítulo miminhos:

(René Burri)



Meu caro picheleiro:

Numa coisa tem razão: a mulher é um ser generoso por excelência.

A generosidade na mulher nunca é restrita. É ampla e diversificada. É perfeitamente capaz de se entregar às lides amorosas, sexuais para os cavalheiros, e enfiar a chupeta no pequeno, escutar a mais velha no quarto ao lado, espreitar pelo canto do olho se anda sogra por perto e pensar na ementa do próximo jantar. E quase no último grito do clímax ainda pensar nos despachos do escritório.

Tem razão, no capítulo miminhos, um fosso se abre entre machos e fêmeas.

2008-06-26

Para o picheleiro de serviço:

Abundantes vezes, a mulher se entusiasma na alegria de ter encontrado o brinquedo. Descobre, porém, que lhe saiu o menino para cuidar. E entreter. Mande sempre, caríssimo.

cuidai-vos: um homem abre o coração

(Foto de André Burri)



Eu, por mim, fico à espera da pichelice sobre as mulheres boas e os homens maus.
(Harriet Andersson in "Através de um espelho" de Ingmar Bergman)




Esta noite e outra


tenho pouco para dizer. quase não existo.
só me lembro do escuro.
tentei escrever-te estes dias com a água da chuva.
falar-te do frio.
do modo como a casa entrou nas pétalas do mundo.
as horas morrem-me no chão.
sei que estou cada vez mais doente .
as árvores
entraram-me pelo coração.
as rosas adormecem.
sonham em voz alta nas jarras dos campos.
uma fonte de luz brota de noite no meio da casa.
é o teu silêncio que o diz.
não quero pensar.

só quero sentir esta luz nas mãos.
esperar que os pássaros voem.
te reconheçam.
esta noite.
e outra.
até que me venham morrer na boca.



Maria Azenha

2008-06-25

as alegrias da maternidade

A M. mandou-me uma foto com um novo penteado e uma cor flamejante. Imagino que ande a experimentar penteados. Mas não me deixei enganar. Devolvo-lhe mensagem a demonstrar que não me conseguiu enganar, nem de modo virtual. Creio que gostou de saber, que não é possível enganar uma mãe.

Por estes dias, recordo com insistência uma coisinha branca, bem pequenina, com um tufo de cabelo de rato completamente indomável e com um cheiro que, só para senti-lo, valeu a pena ter nascido. Vai fazer trinta anos.

nojo


senti ontem, ao ver este cromo a fazer de virgem mártir crucificada. Ai, Portugal...

por uma cristologia inclusiva:

...
Os cristãos têm especial dificuldade no diálogo com as religiões. Sustentam a crença de que são portadores de uma revelação única e de um Salvador universal, Jesus Cristo, o Filho de Deus encarnado. Em alguns, esta crença ganha foros de fundamentalismo, dizendo, sem atalhos, que fora do Cristianismo não há salvação, repetindo uma versão de cariz medieval. Outros, a partir da própria Bíblia e de uma reflexão teológica mais profunda, sustentam que todos os seres humanos, também o cosmos, estão permanentemente sob o arco-iris da graça de Deus. Para os primeiros onze capítulos do Gênesis, nos quais não se fala ainda em Israel, como "povo eleito", todos os povos da Terra, são povos de Deus. Isso permanece válido até os tempos atuais.
Ademais, dizem as Escrituras que o Espírito enche a face da Terra, perpassa a história, anima as pessoas a praticarem o bem, a viverem na verdade e a realizarem a justiça e o amor. O Espírito chega antes do missionário. Este, antes de anunciar sua mensagem, precisa reconhecer as obras que este Espírito fez no mundo e prolongá-las.


O Cristo não pode ser reduzido ao espaço palestinense. Ao assumir o homem Jesus de Nazaré, o Filho se inseriu no processo da evolução, tocou a realidade humana e ganhou uma dimensão cósmica. Coube ao teólogo franciscano Duns Scotus na idade média e a Teilhard de Chardin nos tempos modernos apontar que o Filho está presente na matéria e nas energias originarias e que foi densificando sua presença na medida em que se realizava a complexidade e crescia a consciência até irromper na forma de Jesus de Nazaré. Esta individuação não diminiu seu caráter divino e cósmico, de forma que pode irromper, sob outros nomes e sob outras figuras que revelam em suas vidas e obras a cercania do mistério de Deus. Para evitar certa "cristianização"do tema, podemos falar, como o fazem grandes tradições, da Sabedoria/Sofia. Ela está presente na criação, na vida dos povos e especialmente nas lições dos mestres e sábios. Ou se usa também a categoria Logos ou Verbo que revela o momento de inteligibilidade e ordenação do universo. Ele não fica uma Energia impessoal, mas revela suma subjetividade e suprema consciência.

Leonardo Boff, teólogo

artigo completo aqui


A dor é, também, Cristo e Moisés e os faraós e todos os judeus e todas as crianças judias e é, também, o lado mais violento da felicidade. Acredito nisso, sempre.


Marguerite Duras in "Escrever"

2008-06-21

stop com as obsessões!


As obssessões são perigosas? Claro que são! Impostas a outros, então, são catastróficas. Delas são escravos os indivíduos, as sociedades e claro - os governos.

O mundo da pós-modernidade, com os seus defeitos e qualidades, por vezes, pode tornar-se pavoroso. Senão, vejamos este artigo de opinião de António Pina, no Jornal de Notícias.

Globalizaram-se obsessões, que partindo de um pressuposto inócuo e até recomendável, atinge por vezes, limites insustentáveis, em nada contribuindo para tornar a vida menos áspera e sustentável.

Os exemplos são vastos: a obsessão de determinados estereótipos de beleza. A da vida saudável. A do prolongamento da mesma a qualquer custo. A de que a felicidade é ali ao virar da esquina.


2008-06-20

(Francis Bacon)

Do sentimento trágico da vida

Não há revolta no homem
que se revolta calçado.
O que nele se revolta
é apenas um bocado
que dentro fica agarrado
à tábua da teoria.

Aquilo que nele mente
e parte em filosofia
é porventura a semente
do fruto que nele nasce
e a sede não lhe alivia.

Revolta é ter-se nascido
sem descobrir o sentido
do que nos há-de matar.

Rebeldia é o que põe
na nossa mão um punhal
para vibrar naquela morte
que nos mata devagar.

E só depois de informado
só depois de esclarecido
rebelde nu e deitado
ironia de saber
o que só então se sabe
e não se pode contar.

Natália Correia

Alemanha?! Onde é que isso fica?


2008-06-16

Masturbação


Eis o centro do corpo
o nosso centro
onde os dedos escorregam devagar
e logo tornam onde nesse
centro
os dedos esfregam - correm
e voltam sem cessar

e então são os meus
já os teus dedos

e são meus dedos
já a tua boca

que vai sorvendo os lábios
dessa boca
que manipulo - conduzo
pensando em tua boca

Ardência funda
planta em movimento
que trepa e fende fundidas
já no tempo
calando o grito nos pulmões da tarde

E todo o corpo
é esse movimento
que trepa e fende fundidas
já no tempo
calando o grito nos pulmões da tarde

E todo o corpo
é esse movimento
em torno
em volta
no centro desses lábios

que a febre toma
engrossa
e vai cedendo a pouco e pouco
nos dedos e na palma


Maria Tereza Horta
imagem- Tamara Lempicka

Moral sexual


Para bem compreendermos e melhor nos situarmos, há que saber um pouco de história.Toda a moral sexual católica foi 'construída' no pressuposto de que só o homem é que é 'activo' na procriação: só ele é que tem a 'semente' que, uma vez depositada no terreno fértil da mulher, dá um novo ser. O homem, tem, assim, 100% de 'responsabilidade'. O sémen é 'sagrado' porque é o princípio de vida. Nunca se imaginava que o homem fosse infértil. Se não havia filhos, era porque a mulher, e só ela, era infértil.Daí nasceu a doutrina de que, tudo o que interrompesse o 'ciclo vital' da fecundação era pecado grave. Assim como era pecado grave a masturbação ou o uso de preservativo, ou a pílula (ela tornava o 'terreno' infértil). Tudo o que se referisse ao sexo era considerado de 'matéria grave'.Todos sabemos como a ciência evoluiu enormemente. Sabemos que o homem e a mulher têm 50% de 'responsabilidade' cada um. E sabemos muito mais coisas que não se sabiam anteriormente. Hoje até já sabemos que nem tudo o que diz respeito ao sexo é pecado grave. A ciência ajudou-nos a ter consciência disso mesmo.O grande problema da Igreja está em ter dificuldade em 'sair' do princípio pelo qual re tem regido até hoje. É que, ao sair, terá de 'reconstruir' todo o edifício da moral sexual, construído até hoje. Mas lá chegará. Pode levar algum tempo, mas acabará por acontecer. Assim como hoje já ninguém é capaz de acusar de pecado grave alguém que se suicide (a psicologia diz-nos que essa pessoa que atenta contra a vida está doente; e eu ainda sou do tempo em que não se dava funeral religioso a um 'suicida').Talvez eu não tenha sido capaz de esclarecer nem que seja um pouco. Mas, se soubermos história, isso nos levará a não sermos "mais cristãos que Jesus Cristo". E isto não é relativismo. Mas sim ter a noção da realidade do que somos e do que são as instituições humanas (e que, por isso, também são divinas).


O migalhas escreveu este óptimo comentário no Confessionário

2008-06-15

aforismo quatro estações



O insensato nunca sabe, qual é o tempo certo da colheita.

imagem - Tamara Lempicka

mais ou menos assim:



-"Vossa Eminência está com óptimo aspecto! O branco fica-lhe mesmo bem".

-"Obrigada, amigo. Quero louvar a sua luta pela defesa da moral e dos bons costumes"

-"Oh! coisita de nada. É só no tempo que me sobra de começar uma guerra aqui, mais despejar uns mercenários acolá"

-"Ah! uma conversa entre os dois homens mais poderosos do mundo, tem mesmo de ser coisita amena e amorosa."

Imagem-Reuters

2008-06-14

in love


“Amar não é olhar um para o outro, mas sim, juntos e na mesma direcção”.

a sra bush também lá estava. vestida de preto, como manda o protocolo do vaticano. e foi posto a correr o boato, que o bush se vai converter ao catolicismo. tudo muito lindo.

ser david


"A felicidade do homem está em dizer:"Eu quero". A felicidade da mulher, está em poder dizer:"Ele quer".

"Eis que o mundo acaba de atingir a perfeição", tal é o pensamento de todas as mulheres no instante em que se submetem por amor.
F. Nietzsche, "assim falava Zaratustra"

2008-06-13

que grande ciganada!

Hoje foi dia de ciganos. Sem querer ser racista (defensora da raça, certo?) ;), digamos que o cuidado e atenção têm de ser redobrados, triplicados, sei lá...com a dica de um amigo, andei a ler os comentários num blogue de confissão católica...meu deus e nossa senhora me valham...que grande ciganada! deixam os verdadeiros a milhas.

vai um cheirinho?

Um bom exemplo


A Noruega aprovou a realização de casamentos homossexuais. Na Noruega a religião é estatal. Assim sendo, as uniões terão também carácter religioso, caso o desejem.


Sempre ouvi dizer de bocas avisadas (e é também a minha opinião), que os estados devem ser aconfessionais. Mas sendo a Noruega uma monarquia constitucional, com um Parlamento democraticamente eleito, parece que todos estes poderes temporais e religiosos convivem na maior normalidade e tranquilidade. Segundo a Wikipédia, é o país em primeiro lugar, no Índice Global da Paz. Pelos vistos, ser diferente ao senso comum, não é limitativo. Pode até ser sinal de progresso e bem estar para os cidadãos. Todos!

2008-06-12

A doutrina até há. Consciência também. Falta...

por vezes, a coerência necessária.

"O critério é sempre a pessoa humana

Têm sido reconhecidas e analisadas as dificuldades sociais e económicas da região, em especial no que toca às empresas e ao desemprego de muitos trabalhadores. Igualmente se verificam novos surtos emigratórios, em busca do trabalho que aqui escasseia. Reconhecem-se abandonos da escolaridade, atrasos na qualificação técnica e lacunas na formação especializada, precisamente onde mais urgente se torna para o desenvolvimento. É neste contexto que lembro o ponto essencial do discurso do Papa João Paulo II no Porto: a dignidade da pessoa humana, como referência constante da análise que se faça e da solução que se procure em qualquer situação social e económica.
...
Garantir trabalho, promover a habilitação escolar e profissional, desenvolver a formação contínua e obviar à ociosidade forçada, tudo são garantias de uma sociedade realmente desenvolvida. Longe de serem um dispêndio mais para quem tenha de gerir os recursos públicos ou privados, são o melhor investimento social e económico a médio e longo prazo e caracterizam uma sociedade saudável, a nível local, regional ou nacional e até europeu.

2. Trata-se essencialmente duma questão de cidadania, que a todos nos envolve a esse título, crentes ou não-crentes. Transportando uma tradição que une a causa de Deus e a causa do homem, a Igreja Católica tem tirado daí as necessárias consequências sócio-económicas. Reforça o que devia ser uma convicção básica e comum: a transcendência de cada pessoa, no que é e no que realiza, a respeitar convenientemente. Na sua primeira encíclica o Papa Bento XVI situou nestes termos a intervenção da Igreja: “A doutrina social da Igreja discorre a partir da razão e do direito natural, isto é, a partir daquilo que é conforme à natureza de todo o seu humano. […] A Igreja não pode nem deve tomar nas suas próprias mãos a batalha política para realizar a sociedade mais justa possível.


D. Manuel Clemente, bispo do Porto

fonte - ecclesia

freira expedita







Há dias, era noticiado que duas freiras septuagenárias tinham sido expulsas de um convento italiano. Motivo: desobediência. Também a congregação da Companhia de Jesus andou a fazer umas declarações de pedido de desculpas. Motivo: alguma insubordinação ao Papa.

Agora, lê-se no DN, que uma freira resolveu pôr a congregação de onde foi expulsa, em tribunal Cível, para pedir uma indemnização pelo trabalho prestado, e por unilateralmente prescindirem dos seus serviços.

Apenas três testemunhas de defesa foram chamadas, ontem, à sala de audiências do Tribunal da Guarda, no caso que levou uma ex-leiga da Liga dos Servos de Jesus a reclamar uma indemnização à instituição, depois de expulsa. O caso remonta a Março de 2001, quando Maria de Fátima Diogo foi chamada a um conselho extraordinário da instituição, onde foi informada que o melhor era sair da Liga dos Servos de Jesus.

Nenhuma instituição ou entidade, seja ela religiosa ou laica, está acima dos direitos humanos e das leis civis. Pelo contrário, quanto mais fielmente forem cumpridos e realizados, mais coerentes com o Evangelho se tornam. Não é lícito invocar alguma lei divina, para se cometerem atropelos à dignidade das pessoas. A Igreja Católica nem sempre tem isto presente. E não vale dizer que se deve sacrificar o indíviduo pela instituição. Isso não passa de uma atitude farisaica e anticristã. No Evangelho, o primado é sempre da pessoa. Por isso, Jesus chamou Zaqueu, Mateus, Tiago, Filipe, Maria Madalena..

Do evangelho da liturgia de hoje:
20Porque Eu vos digo: Se a vossa justiça não superar a dos doutores da Lei e dos fariseus, não entrareis no Reino do Céu.» (Mt 5,20)

2008-06-11

e não vi o futebol

e se eu disser que tenho o frigorífico cheio de "frescos", não me afectou nada (a curto e médio prazo) a hipótese de as bombas não pingarem combustível, descobri uma nova flor no jardim de aroma e beleza ímpares, posso admitir que não preciso de mais nada, para adormecer feliz.

"qual o livro bíblico que escolheria e porquê?"



Armando Silva Carvalho, Poeta

O Livro de Job. Por razões muito pessoais da minha vida. Sobretudo isso. Sempre que o leio, Job ajuda-me a encontrar uma possibilidade de resistir.



Carlos Pontes Leça, Consultor do Serviço de Música da Fundação Gulbenkian

Escolho o Evangelho de João, porque é nele que eu encontro de uma forma «incrível» a expressão da intimidade que existe entre Cristo e o Pai. Bastavam esses capítulos 13 a 17, onde tudo é dito por Jesus aos seus discípulos. Não podemos aspirar a mais!


Francisco Sarsfield Cabral, Director de Informação da Rádio Renascença


Escolho o Livro de Job. Trata do mistério que é talvez o maior, o mistério do mal, e trata-o de uma forma muito contrária a essa lógica tão fácil que é a culpabilização do sujeito sofrente. E isso é fascinante.

Marinho Antunes, Sociólogo


O Apocalipse. É um livro que me deixa fascinado. Obriga-me a ver que a Palavra de Deus não é a minha nem a nossa Palavra. Deixa-me sempre surpreendido. Faz-me buscar. E isso é fascinante.



Nuno Crato, Matemático


Infelizmente, conheço mal a Bíblia. Não me orgulho dessa ignorância, mas não seria honesto escondê-la. Responderei pois à pergunta: "Do pouco que conheço, qual o livro que escolho para ler primeiro com atenção?" Escolho, sem dúvida, o Génesis, pois é um dos textos que mais marcaram a nossa cultura e que mais reflectem as origens da nossa civilização.
fonte-ecclesia


infelizmente não é caso único:


Pede a declaração que ateste a qualidade de doméstica. Depois vem a explicação:"Estava a trabalhar, nasceu o meu filho mais novo, que saiu um grande rebelde. O trabalho implicava fazer vários turnos. Alguns, tinha o pai de ficar com eles. Cansou-se das traquinices do mais novo. Tive de me desempregar. Perdi autonomia..." E o pai perdeu uma boa oportunidade de ser um pai mais próximo, pensei eu, mas vão lá convencê-los disso...

2008-06-07

bailados


adelante


fragmentam-se as palavras
as rochas
e os olhares

na orla do silêncio
erguem-se dunas
e mais dunas
sem qualquer significado

mais cedo ou mais tarde
desaba a ponte
a areia toma conta de mim

de ora em diante
está interdito o horizonte


Maria Teresa Bispo - www.triplov.com/

imagem-www.fundacaopedroruivo.com/

real/virtual

Um interessante artido de frei Betto, frade dominicano e escritor:


Do mundo virtual ao espiritual


Ao viajar pelo Oriente, mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos em paz em seus mantos cor de açafrão. Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam. Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, todos comiam vorazmente. Aquilo me fez refletir: "Qual dos dois modelos produz felicidade?"
Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: "Não foi à aula?" Ela respondeu: "Não, tenho aula à tarde". Comemorei: "Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde". "Não", retrucou ela, "tenho tanta coisa de manhã..." "Que tanta coisa?", perguntei. "Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina", e começou a elencar seu programa de garota robotizada. Fiquei pensando: "Que pena, a Daniela não disse: "Tenho aula de meditação!"
Estamos construindo super-homens e supermulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados. Por isso as empresas consideram agora que, mais importante que o QI, é a IE, a Inteligência Emocional. Não adianta ser um superexecutivo se não se consegue se relacionar com as pessoas. Ora, como seria importante os currículos escolares incluírem aulas de meditação!


Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: "Como estava o defunto?". "Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!" Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?

Outrora, falava-se em realidade: análise da realidade, inserir-se na realidade, conhecer a realidade. Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Pode-se fazer sexo virtual pela internet: não se pega aids, não há envolvimento emocional, controla-se no mouse. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizi­nho de prédio ou de quadra! Tudo é virtual, entramos na virtualidade de todos os valores, não há compromisso com o real! É muito grave esse processo de abstração da linguagem, de sentimentos: somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. Enquanto isso, a realidade vai por outro lado, pois somos também eticamente virtuais…

A cultura começa onde a natureza termina. Cultura é o refinamento do espírito. Televisão, no Brasil - com raras e honrosas exceções -, é um problema: a cada semana que passa, temos a sensação de que ficamos um pouco menos cultos. A palavra hoje é ‘entretenimento’; domingo, então, é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: "Se tomar este refrigerante, vestir este tênis,­ usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!" O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba­ precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose.

Os psicanalistas tentam descobrir o que fazer com o desejo dos seus pacientes. Colocá-los onde? Eu, que não sou da área, posso me dar o direito de apresentar uma su­gestão. Acho que só há uma saída: virar o desejo para dentro. Porque, para fora, ele não tem aonde ir! O grande desafio é virar o desejo para dentro, gostar de si mesmo, começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis: amizades, auto-estima, ausência de estresse.

Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Se alguém vai à Europa e visita uma pequena cidade onde há uma catedral, deve procurar saber a história daquela cidade - a catedral é o sinal de que ela tem história. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center. É curioso: a maioria dos shopping centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingos. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas...
Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno... Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do McDonald’s…
Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: "Estou apenas fazendo um passeio socrático." Diante de seus olhares espantados, explico: "Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia: "Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz."


retirado de adital

2008-06-06

católicos e a Bíblia

A Igreja portuguesa não está apenas perante um problema de vocações ou, sequer, de diminuição de praticantes. É que mesmo os católicos com prática activa da fé estão mais distantes das actividades da paróquia e da própria Bíblia.
87,65% com a Bíblia em casa, o universo potencial de leitores da Bíblia é grande, segundo os números oficiais. 13,4%, só a lêem até duas vezes em cada ano - ou não chega mesmo a pegar nela, uma taxa reduzida, 9,3% lêem todos os dias.




Num país de terços e devoções, onde a leitura não faz parte dos hábitos diários dos portugueses, numa Igreja hierárquica piramidal, não admira que um dos signos importantes da vivência da fé, passe à margem da prática dos crentes. Na praxis católica ainda se concebe a Igreja como o sítio onde uns têm que dar e outros que receber.
O consumismo religioso é largamente encorajado, por uma hierarquia que faz da obediência, um dos pontos basilares da vida da fé. Sendo a Bíblia um signo de difícil assimilação, vai ficando como objecto de culto, quando não, apenas decorativo.

2008-06-05


Mas lembrai-vos também destas palavras:Todo o grande amor supera a sua própria piedade; porque ele quer - criar aquilo que ama.
Nietzsche - Assim falava Zaratustra

2008-06-03

numa relação não existem anónimos



O nome é em certo sentido a própria coisa; dar nome às coisas é conhecê-las e apropriar-se delas; a denominação é o acto da posse espiritual .


Miguel de Unamuno

2008-06-01

a Bíblia


A propósito de uma discussão no Trento, e desafiada pela Zazie, a responder a algumas questões sobre a Bíblia, aqui ficam algumas considerações sobre a mesma. Neste texto manifesto, sobretudo, a minha posição de crente em Deus revelado, também através da Palavra humana.

A Igreja Católica e a Bíblia

O Concílio Vaticano II, na Constituição Dogmática "Dei Verbum", diz no nº 11:"As coisas reveladas por Deus, contidas e manifestadas na Sagrada Escritura, foram escritas por inspiração do Espírito Santo...Todavia, para escrever os livros sagrados, Deus escolheu e serviu-se de homens na posse das suas faculdades e capacidades, para que agindo Ele neles e por eles, pusessem por escrito e como verdadeiros autores, tudo aquilo e só aquilo que Ele queria."

12 - Como, porém, Deus na Sagrada Escritura falou por meio dos homens e à maneira humana, o intérprete da Sagrada Escritura, para saber o que Ele quis comunicar-nos, deve investigar com atenção o que os hagiógrafos quiseram realmente significar e que aprouve a Deus manifestar por meio das suas palavras.
Daqui se deduz claramente que a Bíblia não é para ser lida em sentido literal e fora do seu contexto de "história da salvação". Devem atender-se aos estilos literários, contextos históricos, sociais etc. Como diz o Concílio:"Deve ser lida e interpretada com o mesmo espírito com que foi escrita" (História da salvação)

A palavra Bíblia provém do grego "biblfon" ("livro"); sendo um plural deveria traduzir-se por "livros". A Bíblia é uma colecção de livros que forma sendo escritos ao longo de 1.100 anos. Sendo os primeiros textos escritos por volta do séc X a.C. e os últimos cerca do ano 100 d.C.

Divide-se a Bíblia em duas grandes partes: o Antigo e o Novo Testamento. A palavra "testamento" é a tradução latina do grego "diatheke" e do hebraico "berit" (aliança). Porque a grande "mensagem" da Bíblia é a história da salvação. Nela se retratam as grandes alianças que Deus foi estabelecendo com a humanidade. Desde Noé, Abraão, Moisés...até Jesus Cristo (a Nova e eterna Aliança). É patente nos vários livros, que da parte de Deus a Aliança é sempre renovada e actualizada. Da parte dos homens inúmeras vezes quebrada.

A Bíblia, palavra de Deus.

Deus comunica-se. Comunica-se de muitas, variadas e insuspeitas formas. Comunica-se também pela Palavra. A Bíblia é a história de Deus que se faz Palavra. Não se esgotando nessa forma de comunicar. É também a história de um Povo que se descobre amado, querido por Deus e que O escuta e O revela.

O Antigo testamento (e também o Novo, mas já lá vamos), não recolhe toda a produção literária, legal, histórica, educativa do antigo Israel. Para a compilação dos livros que compõem o A.T. foi tido em conta o que era mais significativo para apresentar a "história da salvação".
A selecção de textos feita pelos judeus foi um processo longo. Não nos é possível aferir de forma clara quais foram os critérios usados para determinar se determinado livro era ou não inspirado por Deus. A título de exemplo, alguns grupos não aceitavam os livros escritos em grego como sagrados.
Para os cristãos, definir o cânone dos livros inspirados foi ainda mais difícil. Uns queriam apenas aceitar o cânone reduzido dos judeus, outros queriam um cânone mais alargado, porque os achavam importantes para a teologia e para a piedade. Foi o Concílio de Trento que aceitou definitivamente o cânone alargado.
Em toda a Bíblia, mas falando ainda do A.T., é na maior parte dos casos, impossível atribuir um autor a cada livro.

No livro do Génesis, encontramos as interrogações que sempre atravessaram toda a humanidade: "quem é Deus","qual o seu papel na vida dos homens", "como se relaciona Ele com o Homem". "Quem é o Homem", "como se relaciona ele com Deus e entre si". "De onde vem o pecado, o sofrimento, o mal". Encontramos na antiguidade, textos parecidos com os compilados no livro do Génesis. São eles do antigo Egipto, da Mesopotâmia, Babilónia...etc. Temos, portanto, que o Génesis não foi um livro escrito com principio meio e fim, sendo de um único autor. Mas uma compilação que pretendia revelar o fim a que se destinava (destina): a criação, a origem do Homem, o pecado, o sofrimento, a Aliança.

Novo Testamento ou "Nova Aliança"

O N.T. nasce da transmissão da fé no Ressuscitado, pelos testemunhos vivos dos Apóstolos. São eles que dizem:"O que vimos e ouvimos, isto vos transmitimos." Não pretendem eles, ser relatos fiéis, cronológicos e históricos dos acontecimentos. Todos eles são já, fruto das dificuldades e da reflexão teológica, das primeiras comunidades. No Evangelho de João (sem podermos comprovar que foi escrito pelo apóstolo João) que foi o mais tardiamente escrito, é muito clara essa reflexão teológica acerca de Jesus.

No livro do Apocalipse (um livro belíssimo) encontramos um discurso profético, dando alento à Igreja já imersa em dificuldades. Não é um livro de condenação, antes um livro de esperança e de luz.

Na estruturação do cânone bíblico, foram tidos em conta a reflexão teológica, doutrinária, apologética da Igreja desses tempos. Acredito que muitos mais textos fossem revelação de Deus. O cânone foi estruturado por homens, não por anjos. Em Cristo, Deus experimentou a condição humana, nas suas fraquezas e glórias. Na Palavra que nos quis comunicar, sujeitou-se a todos os condicionalismos experimentados pelos homens. Se a Bíblia desta forma, já se nos torna difícil de descodificar, imaginemos Deus revelar-Se tal qual é! E pensemos que as coisas mais simples, são as que temos mais dificuldade em ver.

porque hoje é dia da criança


dizem que em sua boca se realiza a flor
outros afirmam:
a sua invisibilidade é aparente
mas nunca toquei deus nesta escama de peixe
onde podemos compreender todos os oceanos
nunca tive a visão da sua bondosa mão

Al Berto - A invisibilidade de Deus

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