2008-06-26

(Harriet Andersson in "Através de um espelho" de Ingmar Bergman)




Esta noite e outra


tenho pouco para dizer. quase não existo.
só me lembro do escuro.
tentei escrever-te estes dias com a água da chuva.
falar-te do frio.
do modo como a casa entrou nas pétalas do mundo.
as horas morrem-me no chão.
sei que estou cada vez mais doente .
as árvores
entraram-me pelo coração.
as rosas adormecem.
sonham em voz alta nas jarras dos campos.
uma fonte de luz brota de noite no meio da casa.
é o teu silêncio que o diz.
não quero pensar.

só quero sentir esta luz nas mãos.
esperar que os pássaros voem.
te reconheçam.
esta noite.
e outra.
até que me venham morrer na boca.



Maria Azenha

2 comentários:

  1. poema tão triste como belo...

    abraço MC

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  2. não sei se é triste. Doloroso, sim. E a beleza coexiste com a dor.

    abraço, luís

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