2008-06-25

por uma cristologia inclusiva:

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Os cristãos têm especial dificuldade no diálogo com as religiões. Sustentam a crença de que são portadores de uma revelação única e de um Salvador universal, Jesus Cristo, o Filho de Deus encarnado. Em alguns, esta crença ganha foros de fundamentalismo, dizendo, sem atalhos, que fora do Cristianismo não há salvação, repetindo uma versão de cariz medieval. Outros, a partir da própria Bíblia e de uma reflexão teológica mais profunda, sustentam que todos os seres humanos, também o cosmos, estão permanentemente sob o arco-iris da graça de Deus. Para os primeiros onze capítulos do Gênesis, nos quais não se fala ainda em Israel, como "povo eleito", todos os povos da Terra, são povos de Deus. Isso permanece válido até os tempos atuais.
Ademais, dizem as Escrituras que o Espírito enche a face da Terra, perpassa a história, anima as pessoas a praticarem o bem, a viverem na verdade e a realizarem a justiça e o amor. O Espírito chega antes do missionário. Este, antes de anunciar sua mensagem, precisa reconhecer as obras que este Espírito fez no mundo e prolongá-las.


O Cristo não pode ser reduzido ao espaço palestinense. Ao assumir o homem Jesus de Nazaré, o Filho se inseriu no processo da evolução, tocou a realidade humana e ganhou uma dimensão cósmica. Coube ao teólogo franciscano Duns Scotus na idade média e a Teilhard de Chardin nos tempos modernos apontar que o Filho está presente na matéria e nas energias originarias e que foi densificando sua presença na medida em que se realizava a complexidade e crescia a consciência até irromper na forma de Jesus de Nazaré. Esta individuação não diminiu seu caráter divino e cósmico, de forma que pode irromper, sob outros nomes e sob outras figuras que revelam em suas vidas e obras a cercania do mistério de Deus. Para evitar certa "cristianização"do tema, podemos falar, como o fazem grandes tradições, da Sabedoria/Sofia. Ela está presente na criação, na vida dos povos e especialmente nas lições dos mestres e sábios. Ou se usa também a categoria Logos ou Verbo que revela o momento de inteligibilidade e ordenação do universo. Ele não fica uma Energia impessoal, mas revela suma subjetividade e suprema consciência.

Leonardo Boff, teólogo

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6 comentários:

  1. mc

    Qualquer um pode inventar, estruturar, histórias, filosofias e teologias - uns terão mais jeito, outros menos. Mas o que eu gostava mesmo era saber como o frei Boff liga a sua teoria ao Novo Testamento...

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  2. Pedro,

    não vou aqui falar pelo Boff. Falarei por mim. Já te disse no teu blogue que não consegues ler de forma literal a Bíblia sem entrares em contradição. A Bíblia é Palavra de Deus em linguagem humana. Outra coisa seria impossível.
    A linguagem humana é contraditória. Está sujeita a inúmeras variáveis.

    Boff e outros...(e eu, de modo tosco, também) e no rasto deles, sem dúvida, estudando, rezando, meditando Jesus de Narazé, chegamos a esta cristologia.

    A vantagem desta cristologia é que não exclui. Não faz com que uns sejam eleitos iluminados e outros ímpios ignorantes.

    Pensas que não é preciso esforço para chegar a este ponto? Achas porventura que isto é o caminho mais fácil? Achas que isto é apenas uma questão de teoria e que não se compromete a vida? Com que direito achas isso? Foi o Lutero que to deu, Paulo...algum mensageiro divino?

    Podes querer ver ou não, as coisas assim. Não lhes podes é chamar invenções, histórias, teorias. Se o fizeres estás a assumir um papel que não é o teu.

    abraço

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  3. mc

    Eu tive o cuidado de usar o verbo estruturar, mas aceito que não tenha conseguido esvaziar o "inventar" que usei antes. É óbvio que não pretendo por em causa a sinceridade ou o trajecto de Leonardo Boff ou de quem quer que seja. Assim como não pronuncio sobre a eventual utilidade dessa cristologia. Porque a questão aqui não está na sinceridade, dificuldade ou utilidade. Está na verdade e na autoridade. O Novo Testamento, neste caso, é ou não a Palavra de Deus? Qualquer cristologia não terá que encaixar no que lá está escrito? Ou, porque não entendemos tudo, a Palavra deixa de contar como critério de verdade? Qual passa a ser então o critério? A filosofia, a teologia, a teoria - humanas? (Atenção: o que vale o comprometimento com uma teoria errada?)
    Se há pontes entre o que Boff escreveu e o Novo Testamento então tens todas a possibilidades de me convencer. Se não há, não julgando o frei nem os seus adeptos, não reconheço autoridade no que diz.

    Um abraço

    PS - Esta é a altura do ano em que não me importava nada de morar e trabalhar (sobretudo) na tua terra. :)

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  4. Pedro,

    tenho uma certa dificuldade em dialogar com uma pessoa que lê os Evangelhos de forma literal. Mas não é essa dificuldade que me inibe de manter o diálogo. Imagine-se, eu que sou frontalmente a favor, de cada pessoa se exprimir como o desejar, ir ficar inibida por alguém fazer uma leitura diferente da minha.

    Eu sou de opinião, que não se podem ler os Evangelhos de forma fiel, e anular a tensão que existe neles, entre o Jesus histórico e o Jesus da fé. A quem tu professas e eu idem.

    Dou-te um exemplo:

    No Evangelho de João, capítulo 6, vers. 42, é dito assim"Não é Jesus o filho de José...como é que o vemos a fazer estas coisas?"
    Não acho que fosse uma figura de estilo de João, pôr esta perplexidade na boca dos contemporâneos de Jesus.

    Se afirmamos e professamos que Jesus foi verdadeiro homem, não podemos, sob efeito de estar a criar um mito, ignorar isso na cristologia e atentar apenas à sua condição divina.

    É muito claro nos Evangelhos que Jesus não instituiu nenhum culto a si próprio, nem sequer a Deus. O Deus de Jesus não se revelou para ser cultuado. Mas, para que nele, nos amemos uns aos outros.

    João diz:"Deus é amor". O amor não quer ser adorado. Quer ser amado.

    Já reparei que nunca falas de amor. Falas de autoridade, verdade...e falas bem, mas elas estão na dinâmica do amor. Não são autónomas deste.

    As vantagens desta cristologia:

    Uma das coisas que Jesus veio revelar, foi que a salvação não estava restrita a um grupo de eleitos. Ela se alargava a todos os homens de boa-vontade. Esta cristologia é fiel a isso. Não limita a salvação apenas aos que professam Cristo.

    Deus é o Absoluto. Não é a soma das religiões todas que revela Deus. Muito menos apenas uma.



    Sabes o que dizia a avó Felismina? :) "a galinha da vizinha é sempre melhor do que a minha"

    estar num clima mais húmido é um desastre para a minha sinusite e para os ossos...mas actualmente até estou mais perto de ti. :)

    Abraço

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. mc

    Só uma nota, que não pode passar em claro (sobre o resto vamos conversando). Eu creio que Jesus foi completamente homem e completamente Deus. Como combinou isso numa só pessoa? Mais um mistério para a nossa mente finita... Mas só assim pôde ser tentado - e não pecou. Só assim viveu a condição humana, com os altos e baixos da vida inerentes, e se identificou plenamente connosco.

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