2008-07-31

sonhos, quem os não tem?!

(Henry Fuseli, 1741-1825 - Thor battering the Midgard serpent)

Despachada a papelada, e em vez do "boa tarde, muito obrigado", resolveu esticar a conversa; nem se sentia muito bem. Tinha uma cadela (foi mesmo o nome que lhe chamou) duma tosse que não o deixou dormir toda a noite. E seguiram-se mais uns tantos ditos sobre a vida em geral e o sistema de saúde em particular, mas isso nem vinha ao caso, porque na vida só tinha um sonho. E esticou-se um pouco por cima da mesa para maior proximidade. Interiormente recuei, confesso que condicionada pelo aspecto em geral. Mas fisicamente não arredei um centímetro. Não podia travar alguém que me queria contar o sonho da sua vida. Ali, no meio do expediente da secretaria.
Com o ar de quem resolveu um dos enigmas do Universo, soltou o que tinha a dizer - queria morrer duas vezes!
Bom, pensei eu, aqui está alguém que não teme a morte. Até deseja passar duas vezes pela experiência. E, como o meu interlocutor esperava que eu reagisse com algo mais do que o silêncio atencioso com que o escutava, inquiri: - duas vezes? - Sim, duas - respondeu ele. E com um manifesto ar de gozo, tipo "esta é mesmo tãntãnzinha", acrescentou - uma para experimentar e vir contar como foi. E outra para morrer mesmo.

2008-07-30

"Voar, afinal é fácil"




No romance "Mr Vertigo", escreve Paul Auster:"Ria-me nalgumas partes, chorava noutras, e que mais pode uma pessoa querer de um livro senão isso mesmo - a possibilidade de sentir o delicioso aguilhão da alegria e a ferroada terrível da tristeza?"

Sem querer contrariar quem me está a proporcionar excelentes momentos de leitura, acrescento que gosto de livros que me façam voar. E este romance de Paul Auster, cumpre bem essa função. Voar ao centro de mim mesma, e encontrar coisas que o livro descreve bem, e eu não tenho dificuldade em reconhecer. E outras, completamente desconhecidas, que tenho de ler uma, duas, várias vezes até lhes descobrir o sentido.

Voar também para fora de mim, e confrontar-me com o(s) "outro(s)". E descobrir a maravilha da diversidade. Encontrar a beleza do mundo sempre renovada, mas também a malícia e a miséria.

"Mr Vertigo" conta a história de um jovem que, com a extremosa dedicação do mestre, aprende a voar. A ideia dos dois, era ficarem famosos e ricos à conta disso. Tal aprendizado, teve grandes custos, entre eles, a morte de pessoas queridas. É uma fábula que nos relembra que é sempre bom, sermos capazes de nos elevar acima da nossa realidade. Sem a perdermos de vista, mas por alguns instantes, olhá-la do alto. É para isso que fomos criados. Isto, vale tanto para os nossos destinos pessoais, como colectivos.

rescaldo do dia:

(Ferdinand Hodler, The Spring-1907)


Um utente soltou um "merda" bem sonoro, quando embateu na burocracia. Eu, ia sufocando ao reprimir uma gargalhada. Inesperadamente, acudiu-me à memória um episódio de um dos livros que ando a ler. Não é por nada, mas tenho uma reputação a defender.

2008-07-29

à escuta da Palavra:

O sábio de coração será tido por inteligente; as palavras doces são mais convincentes. (Pr 16,21)

(Alexandre Cabanel, The birth of Venus, 1863)



A Lua já se Pôs

A lua já se pôs,
as Plêiades também:
meia-noite; foge o tempo,
e estou deitada sozinha.

Safo

2008-07-28

delicada, 24h!


Uma (talvez a maior) expectativa dos homens em relação às mulheres, é a de que tenham uma transbordante delicadeza. Interior e exterior. O soberano mercado, profundamente conhecedor da alma humana, e sempre pronto a satisfazer as suas necessidades, pelo menos as mais palpáveis, põe à disposição do mundo feminino, uma panóplia de produtos e serviços capazes de preencher os mais exigentes imaginários. E nisso, o universo feminino é bastante fértil.


Cá por mim, por vezes fico abismada, com as coisas que existem por esse mundo fora. Descobri um produto da "nívea" para peles delicadas, que tem na sua composição pérolas preciosas, atentem só: pérolas preciosas. Com preciosidades assim, mesmo à mão-de-semear, quem não se sente precioso? Preciosa, claro. E delicada, ao seu dispor.

conversa de mulheres: fundamento do Universo

(Renoir, 1879)


"Quando Baltasar entra em casa, ouve o murmúrio que vem da cozinha, é a voz da mãe, a voz de Blimunda, ora uma, ora outra, mal se conhecem e têm tanto para dizer, é a grande, interminável conversa das mulheres, parece coisa nenhuma, isto pensam os homens, nem eles imaginam que esta conversa é que segura o mundo na sua órbita, não fosse falarem as mulheres com as outras, já os homens teriam perdido o sentido da casa e do planeta."





José Saramago, in Memorial do Convento

2008-07-27

deve começar-se por aí...



imagem-www.oficinadavovo.com.br/


coitadinha da classe média: façam uma ONG para a proteger|

O senhor Alberto Gonçalves, sociólogo, acha que a pobreza é um desporto. E se é pobre porque se quer. Até pode ser, algumas vezes. Mas não o é para a maioria das situações.
Pode fazer-se demagogia à vontade com uns ciganos na Quinta de Fonte, mas isso não esgota o problema da pobreza.


"E não admira que muitos dos necessitados passeiem o relativo conforto que boa parte da classe média não possui. Depois de perder o salário a pagar a casa em que vive e os impostos a financiar as casas em que os necessitados vivem, a classe média não fica abonada. O exercício designa-se por justiça social e, confinado aos aglomerados dos subúrbios e aos gabinetes da administração pública, convém que passe despercebido ao mundo exterior. De vez em quando, como na Quinta da Fonte ou no Aleixo, os frutos da justiça social transbordam um bocadinho e o mundo contempla a redistribuição na sua glória plena. Suspeito que o mundo não gosta do que vê."
(Kazuo Wakabayashi, 1981-composição sobre branco)


Dai-me, Senhor, um coração inteligente para discernir entre o bem e o mal. (1ªRe 3,9)

2008-07-24

Paco De Lucia - escorrendo "lo miel"

Unidade no amor a Deus e ao próximo

(Bom Samaritano, Giovanni Baptista Langetti)


Amar a Deus é confiar-se a Ele em total entrega e disponibilidade de si. Isso significa que o amor a Deus não pode ser confundido com o realizar de todas as nossas necessidades, o que seria o contrário do "dom de si". Somente quando o ser humano "sai de si mesmo, se esquece em Deus, se perde verdadeiramente naquele inefável mistério ao qual se dá voluntariamente" (Karl Rahner) é que se realiza no autêntico amor a Deus. Isto é tão verdade quanto difícil de concretizar. É inerente à nossa condição de humana finitude, o reservarmos sempre algo para nós. Só Deus se dá sem reservas de Si.


Estamos em disponibilidade para com Deus, sempre que saímos de nós em direcção ao próximo. No próximo, é a própria carne de Cristo que encontramos. Isto não é reservado aos crentes, mas a todos os que saindo de si, cuidam de quem se tornam próximos.

as mulheres do jardim 9 - a Mena

Todos os dias nos encontramos. Geralmente, na minha hora de almoço e no regresso ao trabalho. Fui eu que iniciei os cumprimentos, mas foi ela que iniciou a primeira conversa: - "todos os dias a encontro". Não sei o seu verdadeiro nome, nem idade. Deve ter mais de sessenta, mas tem um brilho infantil no olhar e uma simpatia irrecusável. Tem dois passatempos favoritos - fazer grandes caminhadas e ir a todos os funerais. À igreja não vai porque se sente lá mal. - Já a mãe era assim -, conta ela.

É sensível aos meus elogios sobre a roupa que veste. Geralmente de umas épocas passadas, mas sempre bastante vistosas, nas cores e modelos.

Um dia contou-me que teve um filho. Ainda na maternidade, queriam retirar-lho para adopção. Respondeu - Não! Se fosse para dar não tinha feito o que fiz.

De há uns dias para cá, anda sempre com um pequeno rádio a ouvir música, enquanto caminha. Hoje mal me avistou, disse: - esta música é para si. Perante o meu ar divertido e incrédulo, acrescenta: - é a dos amores. Fiquei com um sorriso para o resto do dia.

2008-07-23

onde encontrar hoje o lugar da salvação?


Nota-se nos discursos da hierarquia católica, a preocupação pela nova configuração da Igreja. Se grandes acontecimentos/lugares de culto - Fatima, Lourdes, Santiago de Compostela, encontros mundiais da juventude - apresentam grandes concentrações de fiéis católicos, a fixação a uma paróquia/comunidade, vai sendo cada vez mais irregular. Até momentos celebrativos como baptizados, casamentos, primeiras comunhões, são cada vez em menor número.


O discurso da hierarquia da Igreja, é sempre a colocar os motivos , em causas externas à Igreja e em erros que encontram nas pessoas e no mundo. Se em alguns casos têm razão, não o terão em todos.

Também se tenta culpar sempre o tempo actual, como se o passado da cristandade fosse de igrejas cheias e práticas assíduas. A prática religiosa acompanhou sempre a história humana em que estava inserida. Hoje passa-se o mesmo.
Como canta José Mário Branco a partir de um poema de Luís de Camões:"...o tempo é composto de mudança...", não nos cabe, portanto, estar sempre a olhar o passado, mas compreender e aproveitar este tempo que temos.
O cristianismo acenta em duas bases que mutuamente se convocam - a dimensão pessoal da fé (relacionamento pessoal com Deus) e a comunitária. Nenhuma sobrevive sem a outra. Os locais onde se exercitam parece que estão a mudar. Não é mais o templo, nem o adro da igreja.

O teólogo Jean-Yves Leloup analisa e perspectiva de um modo diferente, para onde se podem encaminhar os passos da fé.

Doravante sabemos: todos os caminhos não levam mais a Roma, a Jerusalém ou à Meca... todos os lugares sagrados do Oriente e do Ocidente, todas as santas montanhas foram analisadas, exploradas, devastadas; só restam velhos e piedosos mercadores, múmias, grandes pessoas trajando roupas fora de moda; símbolos das nossas vidas anteriores ou mortas. Aí ainda são celebrados cultos sem êxtase, na presença de deuses todo-poderosos e muito propriamente empalhados, arquivos de civilização e de fés preciosas e em vias de desaparecimento.
...
Procuramos apenas um “lugar tranquilo”... uma praia deserta, sem dúvida, que não encontraremos nem no Rio, nem em lugar algum se ela já não estiver, primeiro, em nosso coração e em nossa cabeça antes de comunicar-se a todos nossos membros... uma praia de silêncio...

uma metáfora de não sei o quê


mas a verdade é que, os amores-perfeitos no meu jardim, continuam lindos. A cada manhã me encanto neles.

2008-07-22

a oração: abrir o coração

(olhares.aeiou.pt/)


...Realmente, não é fácil compreender o que é a oração.

Talvez o homem outrora o soubesse, numa época em que o pobre coração ainda não fora gasto pelas mágoas e alegrias da vida, quando ainda, porventura, era capaz de se entregar a um amor puro. Mas depois, aos poucos, tudo mudou, sem o homem perceber. A caridade tornou-se hábito e, quiçá, um egoísmo [vivido] a dois – e esse homem iludiu-se, pensando que ainda rezava. Largou-o, em seguida, desapontado, enfadado, pensando que não valia a pena fazer algo que não tinha já qualquer sentido. Ou ainda: continuava a “rezar”, se é que se pode chamar oração ao que ele fazia. Parece tratar-se de um negócio, no qual tem de pagar ou receber, e assim se comporta – em nome de Deus. Precisa-se do bom Deus, portanto dirige-se-Lhe um pedido. Não quer perder a Sua amizade, eis por que se cumpre um dever. O homem, por assim dizer, faz uma visita de cerimónia (não por muito tempo); o que se há de falar é logo dito. Enfim, Deus há de compreender que ele não tem tempo e deve fazer coisas mais importantes. E essa petição junto do ofício supremo do governo do mundo (tem-se a impressão que é mister insistir muito e que lá tudo funciona com vagar), essa visita oficial ao Soberano do universo, junto ao qual não se quer cair em desgraça, (pois não se pode saber se, no além, depois da morte, o próprio destino correrá perigo) chama-se enfim oração. Ó meu Deus, não é oração, é o cadáver, a ilusão de uma oração.

O que é, na verdade, a oração? É difícil explicar. No final teremos falado muito e mostrado pouco. Em primeiro lugar, seja dito algo de muito simples, algo que está no início de toda a oração e que, em geral não se percebe: na oração abrimos a Deus o nosso coração. Para compreender isso, com o coração e não somente com a razão, devemos considerar duas coisas: os corações podem ser sufocados ou, pelo contrário, os corações podem abrir-se.


Karl Rahner
in Trevas e luz na Oração, Editora Herder, São Paulo, 1961, pp. 9-11


Aqui

Sendo a Igreja Católica um deles


Bento XVI denuncia a mentalidade machista


O Bento XVI não deixou de denunciar a “mentalidade machista” que subsiste por vezes ignorando “a novidade do cristianismo, que reconhece e proclama a igual dignidade e responsabilidade da mulher em relação ao homem”:
“Há lugares e culturas onde a mulher é discriminada ou depreciada pelo simples facto de ser mulher, onde se faz recurso até mesmo a argumentos religiosos e a pressões familiares, sociais e culturais para sustentar a disparidade dos sexos...

2008-07-21

diálogos prováveis


segundo Sr. Prof. Dr. César das Neves:

Marido católico chega a casa e diz:

- Querida, na pausa do almoço estive a pesquisar na net, e descobri uma fantasia que gostava muito que experimentássemos.

- Oh! meu amor, estou no 12º dia.

Ele tem um pequeno calendário de bolso, e no 25º dia, mal entra a porta:

- Adivinha que dia é hoje! VINTE E CINCO, do ciclo.

- Nem imaginas a dor de cabeça ...

serenamente


Como diz acertadamente, Henry Mencken, "à mulher católica é permitido evitar a gravidez recorrendo à matemática, contudo ela está ainda proibida de recorrer à física ou à química." Tudo em nome da serenidade, diz César das Neves, aqui: http://dn.sapo.pt/2008/07/21/opiniao/serenamente_centro_furacao.html

2008-07-20

delírios sobre Deus

Se de um lado ninguém pode explicar o que Deus é, de outro não se ouse afirmar o que Deus não é .
S. Leão Magno, PL 54, 402"



Com o pensamento de S. Leão Magno, vou tentar moderar os meus delírios sobre o tema deste post.

No Trento na Língua, um blogue quase místico (onde católicos e protestantes de base, encetam o diálogo que nos há-de levar a todos à comunhão dos santos), foi colocado um post de uma ingenuidade incomum, sobre Deus e o modo como Ele cuida de nós. Eram contadas duas histórias de paus de lápis e malas desaparecidas, que aparecem depois de os donos respectivos, orarem para esse fim. Eu fui lá tentar dizer que não é bem assim. Falei do silêncio de Deus. Uma coisa que nem eu sei bem o que é. Mas dava o tom de mistério que é preciso nestas coisas. É que eu até sou capaz de tratar Deus "tu lá, tu cá", mas andar feita criancinha birrenta que perde os brinquedos e vai logo a correr chamar o "Paizinho", já se me enche a alma de escrúpulos.

Eu sei que numa bela parábola, Jesus conta a história de um homem que queria um pão emprestado e vai chatear a molécula ao vizinho até ele se levantar da cama e lhe dar o pão (se fosse comigo, levava o pão e uma descompustura). Mas continuo a achar que, na medida em que amadurecemos na fé, vamos aprendendo a colocar-mo-nos nas mãos de Deus em confiança (mesmo quando Ele permanece surdo e mudo aos nossos lamentos) e a fazermos as nossas diligências para acharmos os nossos "paus de lápis", porque corresponder ao Amor de Deus, não é pretender tê-lo vinte e quatro horas ao nosso serviço. Até porque Ele não é parvo. Alguém experimente fazer isso a outro ser humano. (Eu sei que ainda não desapareceram todas as mulheres submissas...)

à beira do Paraíso

(Franz von Stuck, Pecado)
1863-1928


Temê-lo-ei em breve, quando ele já não me temer. (Racine)

2008-07-18

uma sugestão para o fim-de-semana:

(Paul Gauguin)




Declamar todos os poemas para a menina com uma flor no cabelo.


(gamei daqui)

Homens do Jardim: Nelson Mandela

(N- 18/07/1918)




a Igreja como casa:


«Aproximai-vos do abraço amoroso de Cristo; reconhecei a Igreja como vossa casa. Ninguém está obrigado a ficar fora, já que desde o dia de Pentecostes a Igreja é una e universal»


Estou plenamente de acordo com esta mensagen de Bento XVI, aos jovens, em Sidney. Mas para que ela não permaneça apenas um slogan apelativo, a estrutura Igreja católica, tem de mudar. Os jovens fazendo umas economias, até são capazes de ir ao outro lado do mundo. Empreender um percurso de vida em Igreja, de coversão, de missão, já são precisos outros meios que a Igreja não tem estado disposta a dar. Ou a Igreja se abre ao presente (cultura, ciência, desenvolvimento social) que a envolve, ou continuará um lugar para anciãos que já se acomodaram e não questionam.

2008-07-15

o famoso sino de Valpaços


(para quem não sabe é a imagem de um sino *)


Contam os cronistas urbanos, que um sino de Valpaços parou de repicar, em protesto pelo barulho que, vindo de um bar, incomodava o sr. prior. A partir daí, desenvolveu uma forte campanha, onde alegava que além do ruído, no dito estabelecimento, desfilavam mulheres nuas (imagino que a curiosidade o espicaçasse para dar uma espreitadinha. E se ele não podia ver, também não via mais ninguém. Também imagino que, no grupo das beatas frequentadoras da sacristia, a coisa não era vista com bons olhos). Não precisou de fazer muito, porque decorrido um mês, a ASAE já tinha fechado o bar dos prevaricadores. Motivos: tinham apenas uma licença provisória para operar. O JN para nos comover, ainda diz que a empresária que explorava o bar, era uma pobre mulher de vinte e seis anos, com dois filhos menores para sustentar.

Eu pergunto-me: - que tem de importante um bar com mulheres, alegadamente, nuas a desfilar, um padre de aldeia, enfim, um sino?
Até o Daniel Oliveira, gasta umas linhas no Expresso, a falar do assunto (o artigo até está engraçadito).

Vamos lá tentar perceber: mulheres nuas, ainda espicaça um bocadinho (alegadamente, não esqueçamos). Um sino (isso já é estranho). O senhor padre "armado ao pingarelho", é sempre uma tentação.

Estão aqui várias coisas em causa. O padre e demais habitantes têm direito ao sossego (deus me livre e guarde, de um bar desses ao pé da minha porta). A empresária, munida das licenças necessárias, e cumprindo os requisitos de não ultrapassar os níveis de ruído estipulados por lei, tem direito a operar. Mas então, porque é que os cronistas urbanos se deram ao trabalho de escrever sobre o assunto?...Os famosos privilégios da Igreja Católica.

Não sei o que se passa no Portugal profundo. Na minha cidade, o padre manda menos que o jardineiro da câmara. Anda sempre "pianinho", não se vão perder alguns privilégios, que a bem dizer não fazem falta nenhuma. A Igreja Católica ainda detém privilégios em relação ao Estado (impostos etc), mas isso nada tem a ver com o "mandar" no burgo. Isso já "foi".

(* como não existem fotos de mulheres alegadamente nuas, fica o sino. No fundo a culpa é dele.)

felicidade

Qual é a felicidade possível


A felicidade é um dos bens mais ansiados pelo ser humano. Mas não pode ser comprada nem no mercado, nem bolsa, nem nos bancos. Apesar disso, ao redor dela se criou toda uma indústria que vem sob o nome de auto-ajuda. Com cacos de ciência e de psicologia se procura oferecer uma fórmula infalível para alcançar "a vida que você sempre sonhou". Confrontada, entretanto, com o curso irrefragável das coisas, ela se mostra insustentável e falaciosa. Curiosamente, a maioria dos que buscam a felicidade intui que não pode encontra-la na ciência pura ou nalgum centro tecnológico. Vai a um pai ou mãe de santo ou a um centro espírita ou freqüenta um grupo carismático, consulta um guru ou lê o horóscopo ou estuda o I-Ching da felicidade. Tem consciência de que a produção da felicidade não está na razão analítica e calculatória mas na razão sensível e na inteligência emocional e cordial. Isso porque a felicidade deve vir de dentro, do coração e da sensibilidade.
Para dizer logo, sem outras mediações, não se pode ir direto à felicidade. Quem o faz, é quase sempre infeliz. A felicidade resulta de algo anterior: da essência do ser humano e de um sentido de justa medida em tudo.


A essência do ser humano reside na capacidade de relações. Ele é um nó de relações, uma espécie de rizoma, cujas raízes apontam para todas as direções. Só se realiza quando ativa continuamente sua panrelacionalidade, com o universo, com a natureza, com a sociedade, com as pessoas, com o seu próprio coração e com Deus. Essa relação com o diferente lhe permite a troca, o enriquecimento e a transformação. Deste jogo de relações, nasce a felicidade ou a infelicidade na proporção da qualidade destes relacionamentos. Fora da relação não há felicidade possível.
Mas isso não basta. Importa viver um sentido profundo de justa medida no quadro da concreta condição humana. Esta é feita de realizações e de frustrações, de violência e de carinho, de monotonia do cotidiano e de emergências surpreeendentes, de saúde, de doença e, por fim, de morte.

Ser feliz é encontrar a justa medida em relação a estas polarizações. Dai nasce um equilíbrio criativo: sem ser pessimista demais porque vê as sombras, nem otimista demais porque percebe as luzes. Ser concretamente realista, assumindo criativamente a incompletude da vida humana, tentando, dia a dia, escrever direito por linhas tortas.
A felicidade depende desta atitude, especialmente quando nos confrontamos com os limites incontornáveis, como, por exemplo, as frustrações e a morte. De nada adianta ser revoltado ou resignado, Mas tudo muda se formos criativos: fazer dos limites fontes de energia e de crescimento. É o que chamamos de resiliência: a arte de tirar vantagens das dificuldades e dos fracassos.

Aqui tem seu lugar um sentido espiritual da vida, sem o qual a felicidade não se sustenta a médio e a longo prazo. Então aparece que a morte não é inimiga da vida, mas um salto rumo a uma outra ordem mais alta. Se nos sentimos na palma das mãos de Deus, serenamos. Morrer é mergulhar na Fonte. Desta forma, como diz Pedro Demo, um pensador que no Brasil melhor estudou a "Dialética da Felicidade" (em três volumes, pela Vozes): "Se não dá para trazer o céu para terra, pelo menos podemos aproximar o céu da terra". Eis a singela e possível felicidade que podemos penosamente conquistar como filhos e filhas de Adão e Eva decaídos.

Leonardo Boff - Adital

2008-07-13

somos nascente,

ou reservatório de águas estagnadas?


A Sofia deu o mote, o ON continuou, e eu resolvi entrar na cadeia. Crescemos ou não crescemos?

Começo por uma pequena história que acabou por me divertir: depois de feito o atendimento, de ter escutado uma síntese demolidora do estado da Nação, acabei por ouvir de um senhor, com um sorriso delicioso que contrariava completamente (assim como um olhar extremamente vivo), o discurso: "sabe o que lhe digo?! O mundo só piora. Já os meus pais o diziam." Fiquei muda, perante o discurso retórico e testado por várias gerações.

Se formos fazer um inquérito de rua, teremos uma grande percentagem de pessoas a dizer o mesmo. Talvez os nossos amigos, a nossa família...Eu ouso pensar diferente. Correndo riscos de incoerência, com a prática de vida, mas já dizia o poeta:"pelo sonho é que vamos".

Depois, considerando-me cristã, não me devo alhear da sua mensagem. A mensagem do Evangelho, é de que somos chamados a crescer. Na Igreja, doutrinariamente, chama-se conversão.

O Evangelho de Lucas (2, 52) diz: "E Jesus crescia em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens". Parece uma frase lá posta para rematar o capítulo da infância de Jesus. Mas define aquilo que ele foi enquanto homem, e aquilo que (Nele), somos chamados a ser.

O crescimento, a conversão, não são medidos ao metro, em actos conquistados, mas traduz-se na maturidade das nossas opções, no medo que perdemos de enfrentar o vazio, a insegurança, a dor. Traduz-se numa atitude cada vez de maior confiança, em nós, e no mundo que nos rodeia.

É muito fácil de dizer (levei uma semana a remoer isto), mais complicada é a sua prática. Somos alérgicos às mudanças. Preferimos gastar esforços a "segurar" uma relação que nos é inconveniente (não nos permite crescer), um trabalho que não nos satisfaz, uma fé que não nos transforma, uma descrença que nos diminui, porque tememos aquele momento de abismo, que temos de enfrentar, sempre que empreendemos mudar alguma coisa.

Bernard Shaw, exemplifica isto duma forma bem mais talentosa que eu.

..."as ideias tolas perderão o encanto, passarão de moda e desaparecerão, as falsas promessas, quando tiverem sido quebradas, se tornarão uma irrisão cínica e cairão no esquecimento; e que, depois de terem passado no crivo, as ideias sãs sobreviverão e acrescentar-se-ão ao conjunto dos conhecimentos a que chamamos Ciência. As ideias sãs, com efeito, são indestrutíveis; e mesmo quando foram suprimidas e olvidadas, descobrimo-las de novo, ainda e ainda outra vez. Desta maneira adquirimos uma séria reserva de ideias para estofar os nossos espíritos, e é isso a educação propriamente dita.


Desgraçadamente, existe um nó neste sistema simplista. Ele despreza este velho preceito da prudência: "Não deite fora a água suja antes de ter água limpa." De resto, é muito diabólico se não for completado com este outro:"Digo-lhe também isto: quando tiver a sua água fresca, deve deitar fora a água suja e tomar muito cuidado para não misturar as duas."


Ora, é precisamente isto que nunca fazemos. Continuamos a deitar a água limpa na suja e, em consequência, os nossos espíritos estão sempre confusos."

a Igreja pede perdão:


Não é coisa pouca, o Papa, em poucos meses, por duas vezes pede perdão pelos pecados da Igreja. O pedir perdão é uma atitude nobre. Subjacente a ela deve estar a atitude de humildade. Porque não podemos ficar com a ideia, de que os crimes de pedofilia praticados por alguns padres, é coisa só deles, que aconteceu porque eram mal-formados, ou maus. Aconteceu porque o pecado convive com todos os homens, não está isolado nesta pessoa ou naquela.




É assim, numa atitude humilde, que o Papa se deve encontrar com os milhares de jovens católicos, que se encontram na Austrália. Não pode, nem deve, fazer o discurso de que o mal está "lá fora", no mundo. O mal está em todo o lado. Assim como o bem. As escolhas são sempre nossas.

2008-07-12

a esperança que nos anima:



Eis o que diz o Senhor:“Assim como a chuva e a neve que descem do céu e não voltam para lá sem terem regado a terra, sem a terem fecundado e feito produzir, para que dê a semente ao semeador e o pão para comer, assim a palavra que sai da minha boca não volta sem ter produzido o seu efeito, sem ter cumprido a minha vontade, sem ter realizado a sua missão”. (Is 55,10-11)


Aos que crêm num Deus omnipotente, que de modo mágico resolva todos os problemas da Terra e sentem a desilusão, aos que, desiludidos por não verem os seus esforços de bondade, mansidão, paciência e entrega humilde, desistem de esperar, e, ainda, aos que se entregam à descrença porque os olhos do corpo, a luz da racionalidade, não lhes obtém "ver" Deus, o profeta dá uma palavra de alento.

Mesmo que não se vejam, no imediato, os resultados dos esforços empreendidos, nos caminhos da fé, da esperança e da caridade, um dia, oportunamente, - quando um "novo céu e uma nova terra" tiverem surgido, não haverá mais lugar à dúvida e ao desalento. Crer nisto - é viver já em eternidade.


2008-07-10

à procura da costeleta perdida

eu lhe digo, moço:

Não é preciso chegar ao ano da graça de 2038, nem a priora casar com o vendedor de chouriços, para os assados saberem a esturro. Pena que a ASAE não esteja ao serviço do Espírito Santo.

também nos diz respeito

http://ww1.rtp.pt/noticias/index.php?headline=98&visual=25&article=354254&tema=31

Catorze pessoas morreram. Nove eram crianças, que foram atiradas ao mar.
Não é porque não os conhecemos (não são dos nossos), são de outra raça, de outro continente, que não sujamos as mãos com o seu sangue. A mortes dele pesa-nos. Como é que somos capazes de pôr tanto empenho em assinar ou não um tratado de Constituição Europeia e marginalizamos estes problemas prementes? Diz o Evangelho:"Nem só de pão vive o homem". Mas tantos, nem o pão diário.

Aconteceu:

... A aprovação, hoje, pela Assembleia da República, de uma resolução, proposta por todos os partidos parlamentares, que considera a pobreza extrema como uma violação dos direitos humanos é uma notícia de grande relevo.



in Palombella Rossa.

A aprovação deve-se ao empenho da Comissão Nacional Justiça e Paz. É um primeiro passo importante da parte da Assembleia. Falta que os governantes promovam uma política económica, social, cultural, educativa de combate à pobreza. Fica o desafio para todos e cada um em particular.

2008-07-09

incomoda-me, pronto!

Anda a passar na TV Pública, um anúncio sobre a prevenção da VIH/SIDA. Como não encontrei imagem, passo a explicar: Um actor conhecido (mais ou menos, não sei o nome dele), com umas asas de anjo, saracoteia-se por aí. Volta não volta, pousa. Encontra sempre onde pousar. De regresso a casa, tem a família à espera - mulher e filhos. Vê-se que é um demónio.

Sabemos todos, que nos infectados com SIDA, um grande grupo é heterossexual. Que maioritariamente, são os homens que têm comportamentos de risco e acabam por infectar as mulheres. Há tempos, a Fernanda Câncio fez um apanhado de vários testemunhos de mulheres casadas e infectadas pelos maridos, que revoltava qualquer ser humano, com um pouco de sensibilidade.

Mas...também não é caso para pôr um homem a fazer o papel de demónio e as mulheres de anjinhas. Não gostei do anúncio, espero que não tenha sido feito por um grupo de mulheres ressabiadas. Ou de moços que bebem àgua com sabores...ressabiados também.

a brincar a brincar

já passaram três anos. A idade própria dos "porquês". Continuemos, pois!

pausa


2008-07-07

Jesus Cristo um feminista?

É curioso que, sendo os Evangelhos escritos por homens (como toda a Bíblia, aliás) e apesar do cunho marcadamente patriarcal que a caracteriza - Deus criador, pai, omnipotente, juiz...- mostram (acho que, sem se darem conta do facto) que sendo Jesus um judeu do seu tempo, tinha, porém, uma visão diferente sobre as mulheres. Ou cada mulher em particular, porque em Jesus tudo é directo e pessoal.

Dou apenas dois exemplos marcantes: no livro de João, capítulo 4, 1-42 (o encontro com a Samaritana) vê-mo-la a fazer o papel de anunciadora (é também curioso que o evangelista apresenta a estranheza dos discípulos ao verem o Mestre a falar com uma mulher, e, ainda por cima, uma estrangeira pagã). Diz ela aos seus concidadãos:"Eia! Vinde ver...não será Ele o Messias?" e mais tarde, a rendição dos que interpelou:"Já não é pelas tuas palavras..."

No Evangelho de Marcos 16,9:
"Tendo ressuscitado de manhã, no primeiro dia da semana, Jesus apareceu primeiramente a Maria de Magdala, da qual expulsara sete demónios. 10Ela foi anunciá-lo aos que tinham sido seus companheiros, que viviam em luto e em pranto. 11Mas eles, ouvindo dizer que Jesus estava vivo e fora visto por ela, não acreditaram." Mais uma vez, e em Deus não existem acasos, é escolhida uma mulher para testemunhar e anunciar a ressurreição.

ainda a propósito de úteros e maternidade:

Vinha confuso com os papéis. Eu, secretamente irritada com uma medida governamental, para a qual não consigo descortinar a bondade - a apresentação periódica para os desempregados.
Insistiu para que visse o mísero valor de subsídio de desemprego a que tinha direito. E foi acrescentando:
- O que me preocupa são os dois filhos menores que tenho ao meu encargo - e, já quase na porta, sai mais um desabafo - a mãe foi embora. Deixou-me sozinho com eles.

Desejei que tudo corresse pelo melhor. E, interiormente, constatei que apesar de acontecer com maior frequência o inverso - pais que se demitem de o ser - nem por isso, me indignava mais o facto de ser uma mãe a fazê-lo. As razões dela, só ela e Deus talvez saberão. Mas não é pelo facto de se ter um útero e ter dado à luz, que a mulher é mãe. Os factores biológicos valem o que valem, mas não valem tudo.

ter útero não define a mulher

Pode parecer, mas este blogue ou a autora, melhor dizendo, não tem nenhuma agenda feminista pessoal. Embora, seja muito fácil de constatar, e até a blogosfera é disso um exemplo (os blogues mais lidos, mais citados) que os homens ainda têm um papel de exercício de poder, de visibilidade, superior às mulheres. Não estou a atribuir culpas ou fracassos. Apenas a afirmar o óbvio.



Sendo católica, também não posso deixar de dizer que na minha Igreja, a mulher não é tida como igual ao homem. Sendo sete os sacramentos da Igreja, qualquer mulher apenas pode receber seis. O homem pode celebrar os sete. Isto é um exemplo; a fé não é validada pelo número de sacramentos recebidos. Nos vários documentos da Igreja, ainda não foi adiantada nenhuma razão teológica, doutrinária, dogmática para que assim seja. Apenas razões de tradição e disciplinares.
Não se nega a dignidade da mulher, exaltam-se algumas das suas qualidades, e apela-se sempre ao facto de que, tendo um útero, tem a sua vocação definida - a maternidade.
Se nos homens, a vocação à paternidade não anula qualquer outra vocação específica, não vejo porque nas mulheres tenha que ser limitativa.



Depois, não acredito em desígnios de género. Acredito em vocações pessoais. Uma mulher só porque tem útero, não tem, obrigatoriamente, que ser mãe. Ou, se não o for, sentir-se menos mulher por isso. Sei que existe essa pressão na sociedade. Ou não seja a nossa sociedade, ainda de cariz fortemente patriarcal. Vários homens afirmam isto mesmo, sem rodeios. Muitos outros, fingem que não vêem, ou não lhes interessa e não acham relevante.

jardineiro e jardim:

- Entre - disse ele - Descobri, depois de madura reflexão, que o melhor lugar para procurar Deus é num jardim. Pode cavar aqui, para o encontrar.
-Não é de modo algum minha ideia procurar assim Deus - disse a pretinha desapontada. - Vou continuar o meu caminho, obrigada.
- A sua ideia, como você diz, já a conduziu até Ele?
- Não, respondeu a pretinha, detendo-se:- Não posso dizer que sim.
- Muitas pessoas encontram Deus e não gostam dele; e passam o resto da vida a fugir-lhe. Por que pensa que O amará?
- Não sei - respondeu a pretinha. - Mas a missionária citou a passagem de um poema que diz que temos obrigatoriamente de amar o que há de mais grandioso quando o encontrarmos.

Bernard Shaw-"As aventuras de uma pretinha à procura de Deus"

2008-07-05

e porque é domingo:

Hoje sonhei com lilases...

porque hoje é sábado

(Balthus - Dormeuse, 1943)


Uma pausa, não de plumas, mas elástica
1
Uma pausa, não de plumas, mas elástica,
que demorasse em si a paz ardente
e o ardor profundo de uma alta instância.
Que fosse o esquecimento na folhagem
e a espessa transparência da matéria.
O pulso pronunciaria a amplitude
do instante inocente. A obra acender-se-ia
na inteligência dos signos mais aéreos.
2
A inadvertência pode ser um prelúdio carnal
na volúvel leitura de quem adormeceu.
O sono dá ao sangue o ócio e as cores do enxofre.
Por uma forma ausente a matéria ramifica-se
na insolência branda de umas ruínas perfeitas.
Um aroma rebenta da axila negra de um animal de vidro.
Como um veleiro de fogo uma cabeleira ondula.
A garganta do mar atira os seus pássaros de espuma.
Uma rapariga de pedra caminha entre os arbustos de fogo.
É a abundâcia da origem e o seu orvalho azul.
São as armas vegetais sobre as janelas da terra.
É a frescura do vidro nas cintilantes sílabas.
3
Na justa monotonia do meio-dia
oiço o prodígio do repouso e a paixão adormecida.
O concêntrico sopro imobiliza-se. É uma lâmpada
de pedra fulgurante. Tudo é nítido mas ausente.
O mundo todo cabe no olvido e o olvido é transparência
de um denso torso que a nostalgia acende.
No silêncio sinto numa só cadência
a vociferação e o tumulto das pálpebras e dos astros.
Pelas veias o fogo da cal é branco e liso
e a mais remota substância culmina num rumor redondo.

António Ramos Rosa
De A Rosa Esquerda (1991)

2008-07-02

um homem...deus

(Marlon Brando)

Jesus: verdadeiro Homem, verdadeiro Deus

"Só uma nota, que não pode passar em claro (sobre o resto vamos conversando). Eu creio que Jesus foi completamente homem e completamente Deus. Como combinou isso numa só pessoa? Mais um mistério para a nossa mente finita... Mas só assim pôde ser tentado - e não pecou. Só assim viveu a condição humana, com os altos e baixos da vida inerentes, e se identificou plenamente connosco" (Pedro Leal)



Os cristãos professam que Jesus é a segunda pessoa da Santíssima Trindade, verdadeiro Deus, portanto. E, na sua Encarnação humana, verdadeiro homem. Um "dois em um", que não foi pacífico ao longo da história da cristandade.

O Pedro Leal, num comentário a um post mais abaixo, diz que é um mistério (coisa muito boa de se chamar, quando não percebemos patavina do que estamos a dizer), e utiliza um argumento, quanto a mim, inválido, para justificar a dupla condição de Jesus. Diz:"só assim pôde ser tentado - e não pecou. ...e se identificou plenamente connosco".

Se Ele não pecou porque era Deus, então não se identificou plenamente connosco. Foi um "faz de conta".


Procuram-se outros argumentos. Se os houver.

2008-07-01

outro:

(Micaela Reis, miss Angola)



com a devida vénia, ao caríssimo Miguel Marujo, que percorrendo mil e uma léguas, aporta sempre em esplendorosos ancoradouros.

benza-a deus:

(Katie Holmes)



um bloco de gelo, pronto a derreter...

as enfermidades da Igreja:

Como refere o teólogo, José María Castillo, no artigo que cito, desde o pontificado de João Paulo II, a cúria da Igreja Católica tudo tem feito para limitar a criatividade e o progresso da teologia. Não hesita, sequer, em atentar contra a liberdade e os direitos humanos, de quem produz teologia diferente da consignada pela cúria romana. Nem que os meios empregues sejam, apenas e só, uma tentiva de maior fidelidade aos Evangelhos.

Vem isto, a propósito, da censura exercida ao livro editado pelo teólogo José A. Pagola sobre Jesús. Sempre que se pretende fazer uma leitura, não apenas teológica, mas também histórica do Jesus dos Evangelhos, logo o intregrismo e fundamentalismo da Cúria se levantam.

É insuportável para a maioria dos cristãos católicos e para o mundo, o papel que a Igreja assume como única mediadora do divino. O Espírito Santo nunca esteve, nem estará, refém de nenhum papado e cúria. O Espírito de Deus está presente em toda a Criação e manifesta-se como tal.

Y algo que es aún más preocupante: el papa Ratzinger no ha aceptado, ni da muestras de aceptar, el logro más importante de la teología del siglo pasado: la condición “sobrenatural” del ser humano, tal como Dios ha querido que exista desde el comienzo de su existencia. En este punto estuvo la piedra dura en la que Pío XII se partió los dientes y que, por eso, jamás pudo aceptar los mejores logros de la teología contemporánea. En eso está la piedra de escándalo sobre la que la teología más conservadora se empeña en edificar una Iglesia tan “sobrenatural” y tan “divina”, que todo lo “humano” es para ella admisible en tanto en cuan to se somete a las decisiones eclesiásticas y está bien controlado por lo que quiere el papa y su curia.

De ahí nacen todos los líos y enfrentamientos que la Jerarquía eclesiástica viene teniendo con la sociedad, con lo civil, con lo laico…. Porque todo eso es simplemente “humano” y, por tanto, no vale, si no es elevado a la condición “sobrenatural” por lo “divino” que, desde su solio sagrado, rige el único hombre que en la tierra tiene poder para regir lo “divino” y, desde ahí, discernir lo que está bien y lo que está mal, separando drásticamente lo bueno de lo malo. Mientras estemos así, el papa no dará jamás su brazo a torcer. De forma que los concordatos y acuerdos con la Santa Sede sólo serán, de hecho, mecanismos de control para que Roma imponga, en definitiva, su voluntad.

Así las cosas, mal futuro tiene la Iglesia. Y peor aún la teología. Precisamente en los años aquéllos de Pío XII, uno de los teólogos más lúcidos (y más amantes de la Iglesia), Yves Congar, dejó escrito lo siguiente: “Ahora conozco la historia. Llevo muchos años estudiándola; ha dejado claro ante mis ojos numerosos acontecimientos contemporáneos, al tiempo que la experiencia vivida particularmente en Roma me aclaraba esta historia. Para mí, es una evidencia que Roma sólo ha buscado siempre, y busca ahora, una sola cosa: la afirmación de su autoridad. El resto le interesa únicamente como materia para el ejercicio de esta autoridad. Con pocas excepciones, ligada a hombres de santidad e iniciativa, toda la historia de Roma es una reivindicación asumida de su autoridad, y la destrucción de todo lo que no acepta otra cosa que no se la sumisión”.
Esto, ni más ni menos, es lo que el papa actual quiere restaurar a toda costa. La reciente decisión de Martínez Camino contra el libro de Pagola no tiene otra explicación. En definitiva, es un aviso para navegantes. Y los navegantes, en este caso, son los teólogos que se atreven a decir lo que piensan, por más que se trate de cosas que son aceptadas por la gran mayoría de los cristianos.
Mala cara se le ha puesto al enfermo. Da miedo mirarlo de cerca. Me refiero a la Iglesia enferma de fundamentalismo, integrismo y, por supuesto, de intolerancia.


artigo completo aqui: La Teología asustada
José María Castillo, teólogo