2008-07-20

delírios sobre Deus

Se de um lado ninguém pode explicar o que Deus é, de outro não se ouse afirmar o que Deus não é .
S. Leão Magno, PL 54, 402"



Com o pensamento de S. Leão Magno, vou tentar moderar os meus delírios sobre o tema deste post.

No Trento na Língua, um blogue quase místico (onde católicos e protestantes de base, encetam o diálogo que nos há-de levar a todos à comunhão dos santos), foi colocado um post de uma ingenuidade incomum, sobre Deus e o modo como Ele cuida de nós. Eram contadas duas histórias de paus de lápis e malas desaparecidas, que aparecem depois de os donos respectivos, orarem para esse fim. Eu fui lá tentar dizer que não é bem assim. Falei do silêncio de Deus. Uma coisa que nem eu sei bem o que é. Mas dava o tom de mistério que é preciso nestas coisas. É que eu até sou capaz de tratar Deus "tu lá, tu cá", mas andar feita criancinha birrenta que perde os brinquedos e vai logo a correr chamar o "Paizinho", já se me enche a alma de escrúpulos.

Eu sei que numa bela parábola, Jesus conta a história de um homem que queria um pão emprestado e vai chatear a molécula ao vizinho até ele se levantar da cama e lhe dar o pão (se fosse comigo, levava o pão e uma descompustura). Mas continuo a achar que, na medida em que amadurecemos na fé, vamos aprendendo a colocar-mo-nos nas mãos de Deus em confiança (mesmo quando Ele permanece surdo e mudo aos nossos lamentos) e a fazermos as nossas diligências para acharmos os nossos "paus de lápis", porque corresponder ao Amor de Deus, não é pretender tê-lo vinte e quatro horas ao nosso serviço. Até porque Ele não é parvo. Alguém experimente fazer isso a outro ser humano. (Eu sei que ainda não desapareceram todas as mulheres submissas...)

4 comentários:

  1. "corresponder ao Amor de Deus, não é pretender tê-lo vinte e quatro horas ao nosso serviço"... e no entanto, Ele está sempre conosco.
    Mas não para apanhar lápis, concordo.
    No entanto, insisto em ver o que disse o Scott - ressalvando aquela parte de prestidigitação, desaparece, reza e aparece - como amor a Deus, agradecimento aceitação (talvez ingénua) do que Ele nos dá. Se não aparecesse o lápis, a fé do Scott não se alterava nada certamente.
    Ou seja, vejo o sentido do post do Scott mais como "colocar-mo-nos nas mãos de Deus em confiança", como dizes.

    Mas não deixas de ter razão, claro

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  2. fico sempre de pé atrás quando um homem me dá razão. Fico imediatamente com vontade de lhe explicar tudo de novo... :) mas tu até só me dás meia razão ;) assim fica mais equilibrado.

    Toda a gente já experimentou na vida (até o Scott) que Deus não é instrumentalizável. Tal como o Amor não é. Senão, não o é.
    Por isso, o post dele só pode ter o sentido que lhe dás. Mas quem nunca sentiu a tentação de ter um Deus assim à disposição?
    E há quem viva dessa ilusão.

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  3. Não precisas de "pé atrás" se estiveres segura. Eu, não é que não seja teimoso por vezes (aí, mais que de pé atrás, fico é travado, lol) mas sei que não sei (ou sei pouco, vá lá) e tento compreender.

    Por isso, cá vai, lol... não concordo com essa de Deus e o Amor não serem instrumentalizáveis.
    Instrumental é qualquer meio para alcaçar um fim. No caso de Deus ou do Amor, que vai dar ao mesmo, parece-me que se passa o seguinte: Ele permite que O usemos como instrumento de salvação. Jesus veio para ser esse instrumento.
    O Amor quando é Verdade quer ser usado pelo Outro, para que esse Outro possa atingir o seu Fim e ser feliz.
    Mas, claro, que a dádiva implica também autonomia do Dador, para ser gratuita e voluntária.
    Nesse preciso sentido não é instrumentalizável; implica sempre o consentimento do Dador, seja o Amor de Deus ou de um ser humano.

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  4. meu querido CBS,

    o Homem, o que procura sempre em primeiro lugar, é satisfazer as suas necessidades. É isso que o põe ao caminho. Mas o fim não é esse, certo? Era aí que eu queria chegar com o instrumentalizar.

    Há pessoas tão centradas em si próprias, que são incapazes de sair desta primeira etapa.

    Cristo veio dar-nos a salvação mas veio também assinalar-nos com o sinal da cruz. "Quem me quiser seguir tome a sua cruz...e siga-me"

    É curioso que na vida de grandes santos, vejo-os sempre desligados dessa coisa da salvação. Não é nisso que põe o seu empenho.

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