2008-07-22

a oração: abrir o coração

(olhares.aeiou.pt/)


...Realmente, não é fácil compreender o que é a oração.

Talvez o homem outrora o soubesse, numa época em que o pobre coração ainda não fora gasto pelas mágoas e alegrias da vida, quando ainda, porventura, era capaz de se entregar a um amor puro. Mas depois, aos poucos, tudo mudou, sem o homem perceber. A caridade tornou-se hábito e, quiçá, um egoísmo [vivido] a dois – e esse homem iludiu-se, pensando que ainda rezava. Largou-o, em seguida, desapontado, enfadado, pensando que não valia a pena fazer algo que não tinha já qualquer sentido. Ou ainda: continuava a “rezar”, se é que se pode chamar oração ao que ele fazia. Parece tratar-se de um negócio, no qual tem de pagar ou receber, e assim se comporta – em nome de Deus. Precisa-se do bom Deus, portanto dirige-se-Lhe um pedido. Não quer perder a Sua amizade, eis por que se cumpre um dever. O homem, por assim dizer, faz uma visita de cerimónia (não por muito tempo); o que se há de falar é logo dito. Enfim, Deus há de compreender que ele não tem tempo e deve fazer coisas mais importantes. E essa petição junto do ofício supremo do governo do mundo (tem-se a impressão que é mister insistir muito e que lá tudo funciona com vagar), essa visita oficial ao Soberano do universo, junto ao qual não se quer cair em desgraça, (pois não se pode saber se, no além, depois da morte, o próprio destino correrá perigo) chama-se enfim oração. Ó meu Deus, não é oração, é o cadáver, a ilusão de uma oração.

O que é, na verdade, a oração? É difícil explicar. No final teremos falado muito e mostrado pouco. Em primeiro lugar, seja dito algo de muito simples, algo que está no início de toda a oração e que, em geral não se percebe: na oração abrimos a Deus o nosso coração. Para compreender isso, com o coração e não somente com a razão, devemos considerar duas coisas: os corações podem ser sufocados ou, pelo contrário, os corações podem abrir-se.


Karl Rahner
in Trevas e luz na Oração, Editora Herder, São Paulo, 1961, pp. 9-11


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