2008-07-13

somos nascente,

ou reservatório de águas estagnadas?


A Sofia deu o mote, o ON continuou, e eu resolvi entrar na cadeia. Crescemos ou não crescemos?

Começo por uma pequena história que acabou por me divertir: depois de feito o atendimento, de ter escutado uma síntese demolidora do estado da Nação, acabei por ouvir de um senhor, com um sorriso delicioso que contrariava completamente (assim como um olhar extremamente vivo), o discurso: "sabe o que lhe digo?! O mundo só piora. Já os meus pais o diziam." Fiquei muda, perante o discurso retórico e testado por várias gerações.

Se formos fazer um inquérito de rua, teremos uma grande percentagem de pessoas a dizer o mesmo. Talvez os nossos amigos, a nossa família...Eu ouso pensar diferente. Correndo riscos de incoerência, com a prática de vida, mas já dizia o poeta:"pelo sonho é que vamos".

Depois, considerando-me cristã, não me devo alhear da sua mensagem. A mensagem do Evangelho, é de que somos chamados a crescer. Na Igreja, doutrinariamente, chama-se conversão.

O Evangelho de Lucas (2, 52) diz: "E Jesus crescia em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens". Parece uma frase lá posta para rematar o capítulo da infância de Jesus. Mas define aquilo que ele foi enquanto homem, e aquilo que (Nele), somos chamados a ser.

O crescimento, a conversão, não são medidos ao metro, em actos conquistados, mas traduz-se na maturidade das nossas opções, no medo que perdemos de enfrentar o vazio, a insegurança, a dor. Traduz-se numa atitude cada vez de maior confiança, em nós, e no mundo que nos rodeia.

É muito fácil de dizer (levei uma semana a remoer isto), mais complicada é a sua prática. Somos alérgicos às mudanças. Preferimos gastar esforços a "segurar" uma relação que nos é inconveniente (não nos permite crescer), um trabalho que não nos satisfaz, uma fé que não nos transforma, uma descrença que nos diminui, porque tememos aquele momento de abismo, que temos de enfrentar, sempre que empreendemos mudar alguma coisa.

Bernard Shaw, exemplifica isto duma forma bem mais talentosa que eu.

..."as ideias tolas perderão o encanto, passarão de moda e desaparecerão, as falsas promessas, quando tiverem sido quebradas, se tornarão uma irrisão cínica e cairão no esquecimento; e que, depois de terem passado no crivo, as ideias sãs sobreviverão e acrescentar-se-ão ao conjunto dos conhecimentos a que chamamos Ciência. As ideias sãs, com efeito, são indestrutíveis; e mesmo quando foram suprimidas e olvidadas, descobrimo-las de novo, ainda e ainda outra vez. Desta maneira adquirimos uma séria reserva de ideias para estofar os nossos espíritos, e é isso a educação propriamente dita.


Desgraçadamente, existe um nó neste sistema simplista. Ele despreza este velho preceito da prudência: "Não deite fora a água suja antes de ter água limpa." De resto, é muito diabólico se não for completado com este outro:"Digo-lhe também isto: quando tiver a sua água fresca, deve deitar fora a água suja e tomar muito cuidado para não misturar as duas."


Ora, é precisamente isto que nunca fazemos. Continuamos a deitar a água limpa na suja e, em consequência, os nossos espíritos estão sempre confusos."

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