2008-07-31

sonhos, quem os não tem?!

(Henry Fuseli, 1741-1825 - Thor battering the Midgard serpent)

Despachada a papelada, e em vez do "boa tarde, muito obrigado", resolveu esticar a conversa; nem se sentia muito bem. Tinha uma cadela (foi mesmo o nome que lhe chamou) duma tosse que não o deixou dormir toda a noite. E seguiram-se mais uns tantos ditos sobre a vida em geral e o sistema de saúde em particular, mas isso nem vinha ao caso, porque na vida só tinha um sonho. E esticou-se um pouco por cima da mesa para maior proximidade. Interiormente recuei, confesso que condicionada pelo aspecto em geral. Mas fisicamente não arredei um centímetro. Não podia travar alguém que me queria contar o sonho da sua vida. Ali, no meio do expediente da secretaria.
Com o ar de quem resolveu um dos enigmas do Universo, soltou o que tinha a dizer - queria morrer duas vezes!
Bom, pensei eu, aqui está alguém que não teme a morte. Até deseja passar duas vezes pela experiência. E, como o meu interlocutor esperava que eu reagisse com algo mais do que o silêncio atencioso com que o escutava, inquiri: - duas vezes? - Sim, duas - respondeu ele. E com um manifesto ar de gozo, tipo "esta é mesmo tãntãnzinha", acrescentou - uma para experimentar e vir contar como foi. E outra para morrer mesmo.

2 comentários:

  1. Já lá foste, ó profeta?!

    deves estar mesmo a precisar de férias. Já nem consegues provocar. apenas um lamento céptico... :(

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