2008-08-31

sem açúcar, sff

e assim se mandaram muitos meninos para a guerra e muitas meninas para a cozinha.

(imagem - daqui)

ditosa promessa

Aqui

abaixo os sapateiros

(Tarsila Amaral, 1923)

Uma parte da tarde de domingo entre três mulheres. Falou-se muito de solidão - duas são viúvas recentes. A mim coube ouvir atentamente. E naqueles momentos tão comuns entre mulheres; em que se fala de forma aberta dos mais variados assuntos, uma delas começou a falar da última cirurgia que fez, num dos hospitais mais conceituados do nosso país, e de como se sente diminuída pelo resultado estético da intervenção. Como falar apenas no assunto não nos dava, às duas que a escutávamos, a real dimensão do motivo dos seus sentimentos, mostrou-nos.
Achei inacreditável que algum médico se sentisse satisfeito com o resultado da intervenção. A costura foi ao longo da barriga e ficou como que uma mama em cada ponta da mesma. A senhora ainda não tem sessenta anos e sente-se mal com a nova situação física. Eu não sei o que dizer do "cirurgião sapateiro" que executou tal trabalho. O motivo da intervenção não foi cirurgia estética, mas um pouco mais de gosto e respeito pela pessoa em causa, era bem-vindo. Para uma mulher se sentir bem, não basta que a saúde seja restabelecida, é importante sentir-se ela própria no corpo que tem.



A minha alma tem sede de ti



2*Ó Deus, Tu és o meu Deus! Anseio por ti!

A minha alma tem sede de ti;

todo o meu ser anela por ti,

como terra árida, exausta e sem água.


3Quero contemplar-te no santuário,

para ver o teu poder e a tua glória.

4O teu amor vale mais do que a vida;

por isso, os meus lábios te hão-de louvar.

5*Quero bendizer-te toda a minha vida

e em teu louvor levantar as minhas mãos.

6*A minha alma será saciada com deliciosos manjares,

com vozes de júbilo te louvarei.



7*Lembro-me de ti no meu leito,

penso em ti, se fico acordado,

8porque Tu és o meu auxílio,

e à sombra das tuas asas eu exulto.

9*A minha alma está unida a ti,

a tua mão direita me sustenta.



10Os que procuram a minha ruína,

cairão nas profundezas do abismo.

11Eles morrerão à espada

e serão transformados em pasto de chacais.

12*Mas o rei há-de alegrar-se em Deus,

cantarão louvores os que juram por Ele,

enquanto a boca dos mentirosos será fechada.


(Salmo 63)

2008-08-30

"Tome a sua cruz e siga-me"

(Matthias Grunewald 1475-1528)

«Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo,tome a sua cruz e siga-Me.Porque, quem quiser salvar a sua vida há-de perdê-la;mas quem perder a sua vida por minha causa,há-de encontrá-la. (Mt 16)

...Hoje em dia "rastejar para a cruz" significa algo como ceder, não se atrever, curvar silenciosamente a nuca, baixar-se submeter-se, resignar-se, humilhar-se, esconder-se, não se mexer, manter o punho no bolso...A cruz como sinal dos fracos e dos hipócritas, justamente na Igreja, onde alguns hierárquicos ostentam uma preciosa cruz ao peito, procurando simultaneamente justificar uma repressão de que eles próprios são autores, tais como o celibato e a discriminação da mulher, como revés do destino e justificando ainda as crianças indesejadas como "uma cruz desejada por Deus".

Seguir a cruz significa isto tudo? Não, efectivamente não. Seguir a cruz, em princípio e segundo o Novo Testamento, não significa menoridade aceite, não significa simplesmente adoração religiosa, nem meditação mística, não significa um processo de encontrar-se a si próprio esotérico-simbólico através da tomada de consciência do inconsciente, nem significa literalmente a imitação de Jesus do ponto de vista ético, o que não é possível. Seguir a cruz não significa seguir a cruz de Cristo, mas sim pura e simplesmente carregar a nossa própria cruz, que ninguém conhece melhor do que o próprio e naturalmente "a aceitação de nós próprios" (Romano Guardini) e da nossa "sombra" (C.C. Jung). Seguir a cruz significa percorrer o nosso próprio caminho, correndo os riscos da própria situação e das incertezas do futuro - segundo as indicações daquele que percorreu o caminho primeiro e para o qual aponta o dedo de João.

Hans Kung - Credo

Génesis movie

Vencedor 2008, Anima Mundi

devotos fervorosos...

...da estupidez.

2008-08-28

os limites do sagrado...


São por demais conhecidos os conflitos que surgem de cada vez que alguém ousa usar algum elemento, do que convencionamos chamar de sagrado, para fins não religiosos.

As opiniões dividem-se sempre entre o respeito a uns e a liberdade de outros. É absolutamente impossível viver em sociedade e não respeitar alguns limites. Mas nesta discussão, as razões dos que se sentem ofendidos, são muitas vezes, completamente rídiculas.
Há dias, em Itália, tiveram que retirar umas esculturas de dois nús de figuras bíblicas, porque estavam no trajecto onde iria passar uma procissão. Agora é um tribunal do Rio de Janeiro (depois dos protestos dos hierarcas católicos) que impede que se publique um número da Playboy onde aparece a menina Carol Castro vestida com um terço. Não é um terço vestida, é um terço daqueles de contas, com que os católicos rezam os "Pais Nossos e as Avé Marias". Ai, nosso pai...a menina tem um corpinho que não ofende ninguém.

o amor e o partir a louça


O DN de hoje publica um artigo de opinião de Pedro Lomba sobre a violência doméstica e a nossa incapacidade de lhe percebermos todos os contornos.



São assustadores os números de mortes por violência doméstica. São inquietantes as proporções que a mesma toma - hoje não podemos mais dizer que é falta de cultura, coisa de classes desfavorecidas, de faixas etárias mais altas. É um fenómeno que atravessa toda a sociedade e todas as idades.

Ao contrário do Pedro Lomba, não gosto de presenciar nem desejava ser mediadora de casais desavindos.

Da infância, entre outras, trago a recordação de uns vizinhos que, de quando em vez, realizavam uma cena de louça totalmente partida (pelo meu vizinho) e nove meses depois, nascia mais um filho. Nasceram muitos. Lembro-me que numa determinada fase da minha infância, associei às terríveis dores que adivinhava decorrerem do parto, um momento de catarse de louça partida, nove meses antes. Por algum tempo, achei que nunca iria ser mãe.

Mas o que me mói nisto tudo, é que para lá dos momentos de renovação do louceiro, eram um casal muito amigo, imensamente divertidos e bons pais. A minha vizinha, hoje viúva, recorda com a maior saudade o seu António. Bom, que me lembre, ele só partia a louça...

2008-08-27

Igreja de Nossa Senhora do Pópulo



Há 500 anos, a capela consagrada a Nossa Senhora do Pópulo agregada ao hospital termal mandado construir pela Rainha D. Leonor, passou a Igreja Matriz. Em 1910 passou a monumento nacional. A partir do meio do século XX foi erigida uma nova Igreja Paroquial. Mas pela beleza da construção e pelo significado espiritual para todos os caldenses, celebra-se com destaque este aniversário.

Eu consegui este ano, adquirir uma peça que há muito ambicionava - uma réplica de cerâmica da pia baptismal, segundo molde de Rafael Bordalo Pinheiro, da fábrica fundada pelo artista. Um sábado destes, por puro acaso, adquiri a última que existia para venda. Há dias de sorte.



2008-08-26

Adão...Naveen Andrews


A Eva - Green


Adão e Eva - segundo Ariel Álvarez Valdez

Hoje sabemos que o homem não foi formado nem do barro nem de uma costela; que ao princípio não houve apenas um casal, mas vários; e que os primeiros homens eram primitivos, não dotados de sabedoria nem perfeição.
Porque a Bíblia relata desta maneira a criação do homem e da mulher? Simplesmente porque se trata de uma parábola, de um relato imaginário que pretende deixar um ensinamento às pessoas.


Esta parábola foi composta por um anónimo catequista hebreu, a quem os estudiosos chamam de “yahvista”, próximo ao século X A.C. Naquele tempo não se tinha nem idéia da teoria da evolução. Porém como o seu propósito não era dar uma explicação científica sobre a origem do homem, mas sim fornecer uma aproximação religiosa, elegeu esta narração na qual cada um dos detalhes tem uma mensagem religiosa, segundo a mentalidade daquela época.


O yahvista, sem pretender ensinar cientificamente como foi a origem do homem, posto que não o sabia, quis indicar algo mais profundo: que todo homem, quem quer que fosse, é uma obra directa e especialíssima de Deus. Não é mais um animal da criação, mas um ser superior, misterioso, sagrado e imensamente grande porque Deus em pessoa teve o trabalho de fazê-lo.


Porém, o momento culminante da narração e de alguma maneira o centro de todo o relato, é constituído pelo detalhe da mulher formada através da costela de Adão.
O nosso autor emprega aqui uma belíssima imagem para deixar aos leitores uma lição grandiosa. Para criar a mulher, Deus não tomou um osso da cabeça do homem, pois ela não está destinada a mandar no lar; mas também não a fez do osso do pé, porque foi chamada a ser servidora do homem. Ao dizer que a cria de sua costela, ou seja, de seu lado, a coloca na mesma altura que o varão, no mesmo nível e com idêntica dignidade.


A Bíblia não ensina como foi a origem real do homem e da mulher porque o escritor sagrado não sabia.


P. Ariel Álvarez Valdez

2008-08-25

não a costela. mas a boca...



Donna Maria - a tua luva

Segundo os planos do Criador...

(bonecos Santo Aleixo)


Na Igreja Católica, ainda subsiste quem se empenhe em ler a Bíblia de modo literal. Mas fazendo essa leitura, acabam por não se cingir ao que lá está escrito, e inventam coisas que nem ao Criador ocorreriam algum dia. Numa breve pesquisa na net, para ver como é que nos sites católicos, se fala das figuras bíblicas Adão e Eva, dei com esta pérola:

Tentando estender um pouco mais a resposta para abranger essa maravilhosa complementaridade vamos agora falar do homem e da mulher. Sabemos que Adão foi criado do barro e Eva de uma costela de Adão: Deus fez Adão dormir e lhe tirou uma costela para fazer Eva. Você já parou para meditar nessa afirmação? Vejamos: Deus tira "de dentro do homem" aquilo para fazer a mulher, isto é, homem e mulher são um só, uma só carne; daí o casamento ser um Sacramento, ser sagrado, onde "dois fazem [novamente] um". E tira Ele "da costela", do lado: não abaixo, nem acima, do lado, para que eles andem lado-a-lado, um ajudando o outro nessa caminhada. Mais ainda: a costela estar debaixo do braço para que o homem proteja a sua mulher, para que a ampare e guarde.

(resposta a alguém que põe a questão - Adão e Eva. Aqui)


Para andarem "lado-a-lado", mas o homem é que põe o braço por cima. Santa ingenuidade!

2008-08-22

"O divórcio da realidade"

Na verdade, o veto à nova lei do divórcio é tão simplificador e atém-se tão pouco à lei recusada que mais parece um veto à ideia de divórcio. No país da Europa onde o número de divórcios mais tem aumentado, é uma espécie de divórcio da realidade. E do país.

Fernanda Câncio

Eu sei que estou na província...

Hoje um elemento masculino - das chefias - lançava anátemas sobre um elemento feminino que vai ocupar um lugar deixado vago por um elemento do género masculino. Dizia, S. Ex., que vai ter os olhos bem abertos para ver como é desempenhada a função. Não porque queira, essencialmente, que o trabalho seja bem feito, mas porque foi ultrapassado, e, contra sua vontade, foi escolhido um elemento do sexo feminino. Que vai ter que provar que é melhor do que a pessoa que lhe precedeu no lugar. O outro dizia que o Salazar já murreu. Será?

paz à sua alma - é sempre bom lembrar


Hoje alguém resolveu lembrar numa reclamação escrita:"O Salazar já murreu". Assim mesmo com "u", mas é de morrer mesmo. Eu não tive dúvidas da intencionalidade do utente. Não quer dizer que esteja coberto de razão.

2008-08-21

um padre que crê na felicidade:




Nanni Moretti - la messa è finita

ora bem...mal


entre o Veto presidencial e as declarações dum "bispo que tal", preocupa-me mais o facto de o verão estar quase a terminar, e ainda só ter conseguido ver duas borboletas e um pirilampo (caga-lume, diziam os putos da minha rua, quando ainda se viam aos montes).
Não quer dizer que não ache graça a ambos - o Presidente e o Bispo - gente que acha que dificultando o acto do divórcio, vai proteger a família e o casamento.

Como ainda me considero uma alma generosa, deixo aos dois - o Presidente e o Bispo - um "poema miniatura". É de um moço que gosto muito de visitar.

dos clitóris

-Uma ameixinha inchada, deste tamanhinho.

um menino d'ouro


Parabéns, Nelson!

(imagem-jn.sapo.pt)

2008-08-19

Fernando Lugo - Presidente do Paraguai



Fernando Lugo é o novo Presidente eleito, do Paraguai. Tem a particularidade de anteriormente ter exercido como bispo, da Igreja Católica, do mesmo país.


Foi-lhe concedida por Bento XVI a "redução", (palavra ambígua no caso) ao estado laical. Desde que iniciou a campanha eleitoral estava suspenso "a divinis" do exercício episcopal. É um crente, alinhado com a mensagem da Teologia da Libertação.


No discurso da tomada de posse, mostra-se conhecedor dos desafios e das dificuldades que vai enfrentar como Presidente.

Vai ser interessante ver o que vai fazer internamente e nas relações exteriores, nomeadamente, com Chávez, Castro, Lula. E as relações com os EUA.

Es importante que vuestro Presidente deje en claro un dato: el cambio no es una cuestión electoral; el cambio en Paraguay es una apuesta cultural, quizás la más importante en su historia.
Por lo tanto no se trata de un proceso que tiene vencedores ni vencidos ni propietarios exclusivos. Este cambio es la oportunidad que tenemos unos y otros en nuestra querida nación para asumir la copropiedad del proceso que no requiere otra cosa que intención de producir aportes desde la gestión que ejerciéramos para sostenerlo, lo cual es la propia cancelación de la interminable transición y nuestra incorporación plena al universo de democracias consolidadas del mundo.


(do discurso da tomada de posse)

brandi carlile - the story

2008-08-18

parabéns, mauzão



Os amigos são para as ocasiões. E através do João Tunes, lembrei-me que o de Niro fez ontem 65 anos. Diz António Lobo Antunes que não escreve histórias - abre o coração. Então se um homem feito, escritor abundantemente premiado, se dá ao luxo de abrir o coração, não pode uma mulher de coração a transbordar, ficar calada. Ou melhor, não postar uma devida comemoração a um maduro esplendoroso.

Viva este maduro, que desde que começou a pôr a carinha nos ecrãs, fez muito coração feminino (entre eles o meu), bater com ritmo mais acelerado. Longa vida e muitas fitas.

Parabéns, Vanessa!



Pela medalha e pela garra.

2008-08-17

safa!

"A crise tem a vantagem de seleccionar os mais capazes e sólidos. Há sempre gente que se safa nestas situações"


Frase seleccionada como "frase do dia" do Público online. Frase dita, por um tal Horácio Roque, banqueiro.

Passei a tarde a ler o "Crepúsculo dos Ídolos" de Nietzsche. Não tive dificuldade, portanto, em concordar com a primeira parte da mesma. Fiquei um bocadinho com a pulga atrás da orelha com "a gente que se safa". Safa?
Fui ao dicionário, e um dos significados para "safar" é roubar. Fui ao Google pesquisar por "Horácio Roque", e a primeira entrada é uma notícia para uma investigação policial por fraude, do sr. Berardo e Horácio Roque, banqueiros. Penso que é o homem que proferiu a frase. Investigação não é condenação. Mas, por precaução, deus nos livre destes "profetas".

beije-nos a luz...um dia

(Edward Munch, Golgotha - 1900)

BRANCO E VERMELHO
A dor, forte e imprevista,
Ferindo-me, imprevista,
De branca e de imprevista
Foi um deslumbramento,
Que me endoidou a vista,
Fez-me perder a vista,
Fez-me fugir a vista,
Num doce esvaimento.
Como um deserto imenso,
Branco deserto imenso,
Resplandecente e imenso,
Fez-se em redor de mim.
Todo o meu ser, suspenso,
Não sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso...
Que delícia sem fim!
Na inundação da luz
Banhando os céus a flux,
No êxtase da luz,
Vejo passar, desfila
(Seus pobres corpos nus
Que a distância reduz,
Amesquinha e reduz
No fundo da pupila).
Na areia imensa e plana
Ao longe a caravana
Sem fim, a caravana
Na linha do horizonte
Da enorme dor humana,
Da insigne dor humana...
A inútil dor humana!
Marcha curvada a fonte.
Até o chão, curvados,
Exaustos e curvados,
Vão um a um, curvados,
Os seus magros perfis;
Escravos condenados,
No poente recortados,
Em negro recortados,
Magros, mesquinhos, vis.
A cada golpe tremem
Os que de medo tremem,
E as pálpebras me tremem
Quando o açoite vibra.
Estala! e apenas gemem,
Palidamente gemem,
A cada golpe gemem,
Que os desequilibra.
Sob o açoite caem,
A cada golpe caem,
Erguem-se logo.
Caem,
Soergue-os o terror...
Até que enfim desmaiem!
Por uma vez desmaiem!
Ei-los que enfim se esvaem,
Vencida, enfim, a dor...
E ali fiquem serenos,
De costas e serenos.
Beije-os a luz, serenos,
Nas amplas fontes calmas.
Ó céus claros e amenos,
Doces jardins amenos,
Onde se sofre menos,
Onde dormem as almas!
A dor, deserto imenso,
Branco deserto imenso,
Resplandecente e imenso,
Foi um deslumbramento.
Todo o meu ser suspenso,
Não sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso
Num doce esvaimento.
Ó morte, vem depressa,
Acorda, vem depressa,
Acode-me depressa,
Vem-me enxugar o suor,
Que o estertor começa.
É cumprir a promessa.
Já o sonho começa...
Tudo vermelho em flor...

Camilo Pessanha

2008-08-16

a mulher é vítima de quem e de quê?

O CAA no Blasfémias, conta a história de um homem que foi brutalmente agredido por tentar interferir numa cena da violência doméstica. A mulher vítima de agressão, parece que não corrobora a história da mesma. Um caso limite. Mas as relações homem/mulher têm outros contornos, não tão ao limite, mas não menos interrogantes.

Numa viagem de autocarro tive como companheira de acento uma mulher minha conhecida. Vizinha de rua, mas de quem não sei sequer o nome. Sem termos qualquer intimidade, foi contando a sua vida toda durante o tempo que durou a viagem. A infância difícil, um primeiro casamento, e a relação actual que se resumiu durante anos a habitação conjunta, casos de infidelidade da outra parte, um filho e a posterior partida do companheiro para outro país. Pelo que me contou, continua presa a uma situação em que não está envolvida emocionalmente, nem fisicamente, nem materialmente - ele não contribui para as despesas familiares. No fina,l ainda insinuei - tendo consciência de que a minha opinião era irrelevante para o caso - não é altura de resolver essa questão? E assumir que a sua família é a senhora e o seu filho?

Casos desses há aos montes por aí. O que é que, interiormente e externamente, condiciona as mulheres para agirem deste modo? Também haverá homens a viver situações análogas.
O que eu sei é que, viver situações destas, não é viver. É ficar de braços cruzados à espera que a morte chegue um dia, e imponha um fim, que não se ousa decidir.

yael naim - toxic

2008-08-14

coitados dos homens



eles até se esforçam. Numa pausa para café, entrei na pastelaria onde já estavam algumas mulheres e apenas um homem.



Entra uma jovem com um ramo de rosas vermelhas, dirige-se para o balcão e pergunta por uma pessoa. Uma das funcionárias apresentou-se. O ramo destinava-se a ela. Recebeu-o meio envergonhada e nem olhava para o cartão. Foi a florista que lhe chamou a atenção para o mesmo. Justificou-se, dizendo que já eram habituais tais entregas.



Houve quem opinasse que o autor da oferta "já tinha feito ou estava para fazer alguma". A destinatária do ramo encolheu os ombros e disse:"são assim os homens, não são?" Um silêncio geral, corroborava o veredicto.

Eu, mentalmente, louvei a coragem do único elemento masculino presente, que não abriu a boca em "terreno" tão hostil. E pensei no que enviou as flores que, culpado ou inocente, já estava condenado à partida.

as saras e o amor...



em:www.malvados.com.br/

a mulher, essa maldita...


No "Segundo Sexo" de Simone de Beauvoir, são escalpelizadas ao pormenor, todas as tensões que desde o colo materno, impendem sobre as meninas e futuras mulheres. Numa sociedade orientada de modo patriarcal, desde cedo de vai formatando toda a vida interior da mulher, para que se sinta e aja como se fosse uma segunda escolha da criação.
Desde o colo materno se enaltece o pénis do menino, como se de um ícone se tratasse, e de modo proporcional a menina e futura mulher, vai sentindo vergonha do seu corpo (primeiro porque se acha deficitária por não ter o referido orgão, depois porque as alterações que surgem na puberdade, são motivo de angústia e vergonha). Durante anos foi assim a educação nas famílias e na sociedade. Em certos povos, ainda é assim.

Na Igreja Católica, foi e é assim que são vistas as coisas. Um exemplo, é a quantidade de virgens e mártires proclamadas com honra de altares. Outro, a exaltação da virgindade de Maria, como se de coisa física apenas se tratasse. E para não falar, do impedimento anacrónico da mulher aos ministérios ordenados - diaconado e presbiterado.

Gostava que alguém se dedicasse a fazer um estudo sério, sobre o que isto condicionou a vida de inúmeras mulheres católicas, e até famílias. Uma mãe que tem esta visão primária da sua sexualidade e do seu corpo, inevitavelmente, transmiti-la-á às filhas e filhos.

No México, um país a braços com diversos problemas sociais e familiares, entre eles, números elevados de violência doméstica e agressões sexuais, um membro da hierarquia católica resolveu ajudar a combater esses mesmos males, só que atacando do lado errado. Como sempre, do lado da mulher. Aqui ficam algumas sugestões, completamente idiotas, do senhor padre:

2008-08-12

que valor atribuir às coisas?

Dois factos recentes (coisinhas de nada, como a seguir mostro) levaram-me a questionar qual o valor que, normalmente, atribuo às coisas. Por norma, atribuo-lhes dois valores - o real e o simbólico. Os dois são importantes, para mim. Difícil é equilibrá-los.

O valor real, sugere que não desperdice e não desvalorize. Permite-me a estabilidade e racionalidade necessárias, na hora de fazer escolhas. Mas o valor simbólico é que me impulsiona, faz crescer, motiva. No fundo, é o que mais me satisfaz.

O primeiro facto passa-se numa passeata pela cidade. Paro numa montra e um modelo de saia desperta-me a atenção. O preço está dentro das minhas posses. A loja está aberta e até posso comprar. Mas no minuto seguinte a estas observações, penso que não quero gastar esse dinheiro e que as saias de que disponho são suficientes para o resto do verão. Sigo contente com a minha resolução.
A paragem seguinte foi na montra da livraria. Ainda não tinha percorrido metade dos títulos expostos e já um me estava a seduzir. Entrei com a resolução de passar uma vista de olhos (visto que apesar de conhecer o autor, não conhecia o livro) e comprar. Comprei esse e mais outro. O que perfez o valor da saia. Não achei que desperdicei dinheiro. Se tivesse comprado a saia, já não pensava de igual modo.

O segundo caso aconteceu por ter postado um poema de Vinicius de Moraes, e alguém me ter sugerido uma versão musicada dele, de um compositor e cantor cubanos. Gentilmente, até me mandou por e-mail a capa do CD. Não o consegui adquirir logo, mas na última visita à Fnac, consegui encontrá-lo. A pessoa que me deu a sugestão já morreu. Cada vez que ouço o CD, inexoravelmente, faço memória dessa pessoa. Que nunca conheci pessoalmente, mas que ganhou importância na minha vida.

2008-08-11

uma dor d'alma

"A cada vez que eu compro um tênis Nike, salvo uma criança da fome."

Foi um cócó da direita que escreveu esta obscenidade, de seu nome - Pedro Sette Câmara.
Para os cócós da direita, só contam os números, e uma economia onde o lucro está acima das pessoas. Não interessam os direitos humanos, a exploração infantil, a injustiça dos mercados. Um cócó de direita, passeia pela vida de ténis Nike, e dorme descansado porque quando morrer vai deitado.
Os cócós de direita, não nasceram de geração espontânea; foram forjados no liberalismo e na aba das saias das titis, fazedoras dos cházinhos de caridade.

vergonha da pobreza ou falta de vergonha na cara?


...Na Itália de Berlusconi, ao mesmo tempo que se ordena à Justiça que não investigue os métodos usados pelo primeiro-ministro para enriquecer, a solução da direita no poder para resolver o problema da pobreza é… escondê-la debaixo do tapete. Assim, em oito cidades (entre elas Assis, a do "poverello") é agora proibido pedir esmola.


No Portugal de Salazar, por motivos idênticos, foi proibido o pé descalço. Quem não pudesse comprar sapatos devia manter-se escondido e não andar na rua.


Manuel António Pina:

ó mar da Foz...


Virados para o mar - que todos os anos dá uma configuração diferente ao areal - a filha da bloguista vai tecendo elogios ao que nos entra pelos sentidos: o som das ondas, o cheiro a maresia, as cores, as gaivotas, a areia, são superiores a outras paragens. A bloguista sorri com a cara enterrada na toalha - são boas as memórias que permanecem.



2008-08-07

na luz....e sombra

(Paula Rego)

...A nossa vida vale pelo olhar que é posto nela. Os olhares de juiz enchem-nos de culpa. Há olhares benevolentes, misericordiosos e ao mesmo tempo, justos. Precisamos desses olhares porque todos nós temos necessidade de verdade e de sermos amados. Por vezes, os olhares que encontramos são muito amorosos, muito doces, mas falta-lhes a exigência desta verdade. Outras vezes, os olhares que se colocam sobre nós são plenos de verdade e justiça, mas falta-lhes a misericórdia e o amor.
Jean-yves Leloup

2008-08-04

ó moços da ciência:

(Alexandre Cabanel, Eco)


não se esqueçam de que a poesia também faz parte da vida,
como a alma do corpo.
E o eco da palavra.

a rotina mata mais do que a morte:

Tinha uma vida rotinada ao minuto de coisas para fazer. Alterar a ordem das mesmas, tornava caótica a sua vida de noventa e três anos. Era notório que era a sua protecção contra o medo da morte - de algum modo, sentia que ainda controlava o ritmo da vida.
Acordar, tomar banho, pequeno-almoço, primeiros remédios (media ansiosamente a tensão para saber se devia tomar mais um comprimido. Fazê-lo, era fonte de enorme ansiedade -sempre era mais um), leituras da manhã, almoço...(sempre as mesmas coisas às horas certas)...um dia, a meio da manhã, um aneurisma deu-lhe cabo da ordem ciosamente guardada. Tenho a certeza que, na Luz, enfim, já agradeceu por ele.

ainda não sabemos...

(Helene Terlien)

O único recurso que nos resta é olhar pela janela. Vemos pardais; vemos estorninhos; vemos algumas pombas e uma ou duas gralhas, todos ocupados com o que lhes diz respeito. Um procura uma minhoca, outro um caracol. Um voa para um ramo, outro dá uma corridinha pela turfa. É então a vez de um criado atravessar o pátio. Usa um avental de baeta verde e é provável que esteja envolvido em alguma intriga com uma das criadas, mas, dado não possuirmos provas nesse sentido, só podemos deixar as coisas tal qual elas estão. Espessas ou leves, as nuvens vão passando, alterando a cor da relva. O relógio de sol marca as horas através daquela forma misteriosa que o caracteriza. Mole, sem qualquer objectivo preciso, o espírito começa a formar uma ou duas perguntas a respeito desta vida. A vida canta, ou melhor, zumbe, como se fosse uma chaleira de água a ferver. Vida, vida, que és tu? Luz ou sombra, o avental da baeta do criado ou a sombra do estorninho projectada na relva?
Numa manhã estival, quando todos admiram a flor da ameixeira e a abelha, partamos então à sua descoberta. A assobiar ou a cantarolar baixinho, perguntemos ao estorninho (ave bastante mais sociável que a cotovia) que pensará ele quando vasculha no caixote do lixo, e, por entre os gavetos, encontra alguns fios de cabelo do ajudante do cozinheiro. Encostemo-nos ao portão da quinta e perguntemos o que é a vida. Vida, vida, vida!, canta a ave como se nos tivesse ouvido. É que ela sabe ao certo o que significa este hábito maçador de fazer perguntas a torto e a direito, quer dentro quer fora de casa, e de desfolhar malmequeres, o que acontece com frequência aos poetas quando não sabem o que dizer. «Então», pensa o pássaro, «perguntam-me o que é a vida; Vida, vida, vida!»
Depois, avancemos devagar pelo caminho que leva à charneca e alcancemos uma colina violeta. Atiremo-nos ao chão e sonhemos; vemos um gafanhoto transportar uma palhinha para casa. E ele diz-nos (se aos ruídos por si produzidos se pode dar nome tão sagrado e terno) que a vida é trabalho, ou pelo menos assim interpretamos os seus cri-cri sufocados pelo pó. As formigas e as abelhas concordam, mas, e se ficarmos aqui deitados o tempo suficiente para interrogarmos as borboletas nocturnas que esvoaçam por entre as pálidas campainhas, elas murmurar-vos-ão ao ouvido os mesmos disparates que ouvimos quando há tempestade e os fios dos telégrafos zumbem: «Riso! Riso!», exclamam as borboletas.
Depois de termos interrogado um homem, uma ave e alguns insectos – já que, e ao que consta, os peixes vivem em grutas verdes e solitárias e não ouvem nem falam (e talvez sejam eles os únicos a saber o que é a vida) – depois de os termos interrogado a todos sem nada aprender, tendo apenas arrefecido e envelhecido (pois não tínhamos nós desejado encontrar maneira de aprisionar num livro algo tão raro e consistente a que poderíamos chamar «o sentido da vida»?), vemo-nos obrigados a voltar atrás e a dizer ao leitor que espera há tanto tempo que lhe respondamos – enfim, que não sabemos.(...)
Virginia Woolf, "Orlando"

2008-08-01

A Igreja católica padece de esquizofrenia:

é a opinião do teólogo, Juan José Tamayo. E continua afirmando que, para perguntas do presente, a Igreja continua a dar respostas do passado. Assim sendo, vai perdendo credibilidade no mundo.
Destacou ainda que as religiões e os direitos humanos nunca se deram muito bem, até ao ponto de se tornarem imcompatíveis. «porque para las religiones los seres humanos son súbditos que se someten a una voluntad divina». ... "el Cristianismo nació con un carácter humanista que defendía la dignidad y la libertad de la persona, pero «a lo largo de los tiempos esa actitud se ha deteriorado».

..."Todo el vínculo de la religión cristiana con los seres humanos, especialmente con los creyentes, es una relación de «sumisión y dependencia». Para as religiões todos os seres humanos «son pecadores que tienen que arrepentirse y todo el sistema ético se opera por medio de prohibiciones e imposiciones». Por tal motivo, «mientras las religiones no cambien de paradigma y pasen de la consideración de los individuos como simples súbditos y pecadores al reconocimiento como personas morales, con libertad y dignidad, continuará esta irreconciliación».

Acusa a «incoherencia vaticana» que por um lado defende os direitos humanos e por outro não os pratica, exemplo: a questão feminina.

retirado de: www.redescrsitianas.net/

examine cada um a sua consciência:

"Se o homem não acreditasse senão nas coisas que vê, não poderia viver neste mundo. Pode alguém viver sem acreditar em outrem? Como podes tu saber que este é teu pai? É pois necessário que o homem acredite em alguém, quando se trata de coisas que por si só não as pode conhecer. Ora, ninguém é mais digno de fé do que Deus. Por conseguinte, os que não acreditam nas verdades da fé não são sábios, mas tolos e soberbos."



S. Tomás de Aquino, Sermão sobre o Credo