2008-08-31

abaixo os sapateiros

(Tarsila Amaral, 1923)

Uma parte da tarde de domingo entre três mulheres. Falou-se muito de solidão - duas são viúvas recentes. A mim coube ouvir atentamente. E naqueles momentos tão comuns entre mulheres; em que se fala de forma aberta dos mais variados assuntos, uma delas começou a falar da última cirurgia que fez, num dos hospitais mais conceituados do nosso país, e de como se sente diminuída pelo resultado estético da intervenção. Como falar apenas no assunto não nos dava, às duas que a escutávamos, a real dimensão do motivo dos seus sentimentos, mostrou-nos.
Achei inacreditável que algum médico se sentisse satisfeito com o resultado da intervenção. A costura foi ao longo da barriga e ficou como que uma mama em cada ponta da mesma. A senhora ainda não tem sessenta anos e sente-se mal com a nova situação física. Eu não sei o que dizer do "cirurgião sapateiro" que executou tal trabalho. O motivo da intervenção não foi cirurgia estética, mas um pouco mais de gosto e respeito pela pessoa em causa, era bem-vindo. Para uma mulher se sentir bem, não basta que a saúde seja restabelecida, é importante sentir-se ela própria no corpo que tem.



1 comentário:

  1. Isso já não é de agora. Há 25 anos fui operado a uma hérnia umbilical, através de uma seguradora, cujo médico fez uma incisão vertical, rodeando o umbigo e resolvendo o problema "por dentro", com 21 pontos, pelo que fiquei com o umbigo mais bonito de Lisboa e arredores. Quando fui tratar da baixa, o médico do SNS queria dar-me 8 dias, quando o operador tinha dito um mínimo de 3 semanas. Reagi, dizendo-lhe que tinha 21 pontos e perguntei-lhe se queria ver, ao que respondeu "já cá não está quem falou", dando a baixa de 3 semanas, a que se seguiu mais uma. Um cirurgião meu conhecido, que se ufanava de ser o mais antigo em actividade, disse-me que a intervenção tinha sido um desperdício, pois cortando na horizontal e eliminando o umbigo só requeria 6 pontos e era definito. O operador tornou-se um dos mais conceituados cirurgiões plásticos do país e, passado todo este tempo, cá continuo com o meu umbigo e sem que se note a longa cicatriz. Numa só episódio da minha vida, um médico a sério, um sapateiro e um parvo (o meu conhecido).

    ResponderEliminar