2008-08-25

Segundo os planos do Criador...

(bonecos Santo Aleixo)


Na Igreja Católica, ainda subsiste quem se empenhe em ler a Bíblia de modo literal. Mas fazendo essa leitura, acabam por não se cingir ao que lá está escrito, e inventam coisas que nem ao Criador ocorreriam algum dia. Numa breve pesquisa na net, para ver como é que nos sites católicos, se fala das figuras bíblicas Adão e Eva, dei com esta pérola:

Tentando estender um pouco mais a resposta para abranger essa maravilhosa complementaridade vamos agora falar do homem e da mulher. Sabemos que Adão foi criado do barro e Eva de uma costela de Adão: Deus fez Adão dormir e lhe tirou uma costela para fazer Eva. Você já parou para meditar nessa afirmação? Vejamos: Deus tira "de dentro do homem" aquilo para fazer a mulher, isto é, homem e mulher são um só, uma só carne; daí o casamento ser um Sacramento, ser sagrado, onde "dois fazem [novamente] um". E tira Ele "da costela", do lado: não abaixo, nem acima, do lado, para que eles andem lado-a-lado, um ajudando o outro nessa caminhada. Mais ainda: a costela estar debaixo do braço para que o homem proteja a sua mulher, para que a ampare e guarde.

(resposta a alguém que põe a questão - Adão e Eva. Aqui)


Para andarem "lado-a-lado", mas o homem é que põe o braço por cima. Santa ingenuidade!

11 comentários:

  1. Então assumo que para a Igreja Católica o casamento de dois homens ainda seja mais sagrado já que a igualdade de origem é a mesma... a leitura do "amparar" a mulher com justificação biblica é um "must" :)

    peço desculpas pela provocação mas realmente achei que era merecida pela belo texto. Estes literalismos e analogias forçadas não ajudam ninguém.

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  2. eu diria santa estupidez, MC.

    lembraste-me a primeira vez que visitei o Bom Jesus do Carvalhal (da nossa zona) e da sua lenda, contada pela minha avó (encurtada).

    ela disse-me que um pescador tinha trazido o caixão que encontrara à beira mar, até ali e que a partir dali ficou tão pesado que ninguém o conseguiu mexer. Quando abriram o caixão viram Jesus e gritaram Milagre!

    Depois fizeram o Santuário ao Bom Jesus o Santo que estava no caixão.

    A figura de Jesus em madeira está construida a uma escala inferior à nossa... e eu sai-me com esta: «dantes as pessoas eram mais pequenas que agora, na ingenuidade dos meus seis sete anos...»

    Quantos milagres se fizeram à conta da ingenuidade portuguesa...

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  3. esqueci-me de um pormenor. o meu reparo foi feito, porque a minha avó afiançava-me que a era a de Jesus, que estava no caixão...

    a mesma que durante algums tempo, lhe crescia a barba (os sacristões também eram uns brincalhões, MC...)

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  4. Mas lado a lado dá algum jeito para o "crescei e multiplicai-vos"?

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  5. gnóstico,

    não precisas de pedir desculpas. aqui cada um escreve o que quer. e as provocações são bem-vindas :)

    o texto todo é um "must" falam em leituras literais e simbólicas e depois fazem esta "salganhada" deliciosa.

    Parece uma caricatura a primeira parte do teu comentário, mas na prática não é tanto assim. Belos discursos da Igreja sobre a igualdade, a dignidade...mas a prática mostra o contrário. Creio que muitos padres e bispos ainda não conseguiram sair da visão do Génesis sobre a mulher tentadora. Não são só eles. Desculpam-se mais facilmente os deslizes sexuais aos homens do que às mulheres. Há sempre uma censura velada ou exposta sobre a mulher.

    Para a Igreja católica só há duas formas de se ser mulher ou casada e mãe ou virgem. Não existe esse ênfase sobre os homens.

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  6. luís,

    Já adulta é que visitei o santuário de que falas. E foi num contexto de celebração normal. Não estive particularmente focada no "santo". Não sabia nada da lenda que contas.

    O que é que os marotos dos sacristões faziam crescer? ;)

    Como dizia o ON num comentário abaixo; há um discurso para as élites e outro para o comum dos fiéis. Não vejo mal nenhum nisso. Tem de haver uma linguagem padrão e acessível. Só que não se deve (e isso acontece) inibir e censurar a interrogação e busca teológica.

    Ainda voltando aos Santuários e suas lendas, o Povo é o primeiro a querer preservar os mesmos. Algum padre mais inovador no discurso é logo posto na "ordem".
    Por motivos de ordem diversa, vão-se deixando estar as coisas como estão. Fátima é mais um exemplo disso.

    Não digas que é só um fenómeno portugês. É universal. E não acontece só em relação à religião católica. És jornalista, sabes que é assim. As pessoas vão sempre á procura do mais fácil, do imediato, do superficial. E há sempre quem lhes queira satisfazer os sentidos.

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  7. lino,

    mas o que é que é um "lado a lado" para o milagre da costela? É só mais um pouco de imaginação.

    A propósito, isto deve ser castigo - hoje doiem-me as costelas todas. :)

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  8. Durante uns tempos a barba cresceu à imagem de Jesus, e o sacristão tinha de a cortar, MC...

    foi o que me contaram, também por essas épocas, provavelmente já no marcelismo...

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  9. então, e morreu o sacristão barbeiro e a barba parou de crescer, certo ;)


    Bom, eu nunca falaria com esta ligeireza a um devoto da imagem do santuário. Vou atirando umas pedradas nos charcos mas é noutras profundidades.

    Estas tradições são muito Estado-Novo? Acho que não, mas foram amplamente alimentadas.

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  10. Conhecia o Bom Jesus do Carvalhal, mas ignorava as lendas que estão associadas à imagem de Jesús.
    Por muito curioso que pareça, porém, durante o salazarismo o receio de tudo o que fossem movimentos populares, reforçou uma série de medidas vindas das hierarquias e que se opunham, por exemplo, aos bailes e quermesses no adro das igrejinhas. Os próprios senhores padres se opunham frequentemente a manifestações que classificavam como pagãs; apropriavam-se da gestão do património de santuários e irmandades, de bens comunais que desempenhavam funções muito importantes na solidariedade dos grupos.
    Não creio que o 25 de Abril tenha modificado demasiado esta relação de forças. Mas a emigração sobretudo, e a proliferação dos estudos sociológicos criaram uma situação paradoxal: por um lado, o reforço dos gestos e comportamentos tradicionais. Por outro o entendimento das lendas enquanto tais, como se a coesão social e a segurança que os rituais dão fosse muito mais forte do que a compreensão dos absurdos. Como se os gestos fossem mil vezes mais importantes que as palavras.
    Não sei se concordam, claro.
    Um abraço.

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  11. tacci,

    lembro-me de um caso ou outro do que referes. Em Caldas não vivi isso, porque há muito que morreram todos os movimentos populares. Está tudo muito "purificado". ;)

    Devo dizer, em abono da verdade, que eu já defendi muito essa pretensa purificação. Basta ir aos arquivos deste blogue. Já perdi essas manias.

    Não quer dizer que me vá pôr em devoções ao chinelo de Nossa Senhora, mas já percebi que o sagrado e o profano não têm fronteiras assim tão delimitadas, como alguns puristas desejam.

    Concordo com as tuas conclusões. É isso mesmo.

    Um abraço

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