2008-08-30

"Tome a sua cruz e siga-me"

(Matthias Grunewald 1475-1528)

«Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo,tome a sua cruz e siga-Me.Porque, quem quiser salvar a sua vida há-de perdê-la;mas quem perder a sua vida por minha causa,há-de encontrá-la. (Mt 16)

...Hoje em dia "rastejar para a cruz" significa algo como ceder, não se atrever, curvar silenciosamente a nuca, baixar-se submeter-se, resignar-se, humilhar-se, esconder-se, não se mexer, manter o punho no bolso...A cruz como sinal dos fracos e dos hipócritas, justamente na Igreja, onde alguns hierárquicos ostentam uma preciosa cruz ao peito, procurando simultaneamente justificar uma repressão de que eles próprios são autores, tais como o celibato e a discriminação da mulher, como revés do destino e justificando ainda as crianças indesejadas como "uma cruz desejada por Deus".

Seguir a cruz significa isto tudo? Não, efectivamente não. Seguir a cruz, em princípio e segundo o Novo Testamento, não significa menoridade aceite, não significa simplesmente adoração religiosa, nem meditação mística, não significa um processo de encontrar-se a si próprio esotérico-simbólico através da tomada de consciência do inconsciente, nem significa literalmente a imitação de Jesus do ponto de vista ético, o que não é possível. Seguir a cruz não significa seguir a cruz de Cristo, mas sim pura e simplesmente carregar a nossa própria cruz, que ninguém conhece melhor do que o próprio e naturalmente "a aceitação de nós próprios" (Romano Guardini) e da nossa "sombra" (C.C. Jung). Seguir a cruz significa percorrer o nosso próprio caminho, correndo os riscos da própria situação e das incertezas do futuro - segundo as indicações daquele que percorreu o caminho primeiro e para o qual aponta o dedo de João.

Hans Kung - Credo

4 comentários:

  1. Hans Kung não tinha sido proibido de publicar aqui há uns tempos? (será que estou a fazer confusão com outro autor?) Como é que essa situação se resolveu?

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  2. Hans Kung foi alvo de uma notificação romana, penso que em 1980.
    Não resolveu. Ele publica o que entende.
    Depois da eleição de Bento XVI houve um encontro entre os dois. Parece que andou anos a escrever ao anterior papa e não obtinha resposta.
    Coisas de Roma...

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  3. Ok, então devo ter confudido com outro autor polémico da esfera católica.

    Fico espantado que não tendo sido recebido pelo anterior este se tenha disponibilizado. Não me consta que tenha uma mente mais "aberta".

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  4. gnóstico,

    este Papa é uma pessoa diferente do anterior. Não ponhos as coisas em mais abertura ou menos. Eu não vejo nenhuma desde que nasci e já lá vai uma eternidade...

    Hans Kung foi professor na mesma Universidade que Ratzinger. Parece que até foi ele que indicou Ratzinger para a mesma. Alguma amizade deve ter ficado. Porque só o recebeu, não "validou" tudo o que Hans Kung escreve e diz.

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