2008-10-05

quando a dor esmaga, esmaga a todos

A Joana Lopes, alude a uma notícia sobre um estudo científico (pseudo, a meu ver) que põe em comparação, a dor entre crentes e não crentes. Sendo que, nos crentes, é menos intensa.

Imediatamente me lembrei duma conversa deste fim-de-semana. O acaso colocou-me sentada ao lado de uma mulher de sessenta e tal anos que atendeu uma chamada de telemóvel que eu, pela proximidade, não pude deixar de ouvir.
Encetei eu o diálogo e ela foi manifestando os motivos da ansiedade que eu tinha adivinhado pelo teor do telefonema. Vinha de uma visita ao marido internado há quatro semanas nos Cuidados Intensivos de um Hospital. Tinha sido operado ao coração e estava a correr mal. Há dois anos tinha sido a um cancro no ouvido. E há dois dias que, completamente esgotado, só dizia que queria morrer. Ela, católica fervorosa, ameaçou-o com Deus e Nossa Senhora e que não ousasse pensar em tal coisa. Timidamente, disse-lhe que o cansaço dele era perfeitamente compreensível. Vi nos olhos húmidos dela, o medo de perder quem amava. Mentalmente, zanguei-me mais uma vez com uma Igreja que prega um Deus desumano e desencarnado.

12 comentários:

  1. Não sei se o estudo é seriamente científico ou não (hoje apareceu já nos telejornais...), mas claro que não estarão nunca em jogo situações como a que descreve.

    Abraço

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  2. percebo o resultado do estudo, MC.

    acho que a questão da fé, está mais ligada ao tal lugar reservado no "paraíso", que faz com que as pessoas suportem a dor e o destino quase como um desígnio divino.

    claro que isto deve ajudar a suportar a dor (atenuar é que duvido...)

    abraço

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  3. Olá, mana

    Curioso, remete para a frase de Marx de que “a religião é o ópio do povo”, aqui apenas no sentido analgésico LOL Não sei é se o critério de utilidade ajuda o de verdade. Neste caso, quero eu dizer.

    Qual é a relação da pregação do Deus desumano etc com a estória?... O Magistério condena o desejo de morrer?...

    bjocas

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. A notícia apareceu no passado dia
    1 na secção de ciência do The Guardian e o jornalista costuma ser sério. (gaita, não consigo passar a ligação.)
    No entanto, a amostra é muito reduzida.

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  6. Joana,

    situações como a que descrevo acontecem todos os dias e a todas as horas. Fazem parte da nossa vida. Ter fé pode ajudar a vivê-las com maior serenidade. Mas tem a ver com cada pessoa e as vivências de cada um. A fé não é nenhuma receita mágica. Eu, pelo menos, acho que para questões difíceis não há receitas fáceis.

    Abraço

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  7. Luís,

    não andas muito longe da sensibilidade do grosso dos católicos em relação a esta questão. O adiar para o "além" uma felicidade que não se consegue nos dias correntes.

    A mensagem cristã não é bem isso. É mais que Deus não deixa em abandono os que sofrem.

    Abraço

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  8. Vítor,

    o Marx não era tosco de todo. Via o que se passava à sua volta. A religião pode muito bem tornar-se uma ilusão. Esse é mesmo o caminho mais fácil.

    Conheces a doutrina sa Igreja sobre a vida? A resposta à tua pergunta está nela. E atenção que o comum dos católicos recebe apenas o que ouve nas homilias de domingo...e algumas...muitas, infelizmente.

    beijos

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  9. lino,

    um estudo desses tem de comportar muita subjectividade. Nós não reagimos sempre da mesma maneira às coisas. Olha, eu cada vez tenho menos paciência para dores. Terei menos fé? :)

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  10. Bom dia, pá :)

    Longe de mim pretender tosquice nos textos do Marx; mas a religião enquanto ilusão é mais uma coisa do Freud (vê o “Mal-estar na civilização” e “O futuro de uma ilusão”, em que ele trata do fenómeno religioso). O Marx é mais algo como a religião ser a consciência da miséria existencial, mas paradoxalmente o impedimento da sua superação, por constituir-se como aceitação dessa mesma miséria; claro que os métodos e as representações que configuram e possibilitam essa aceitação são, para Marx, irreais, mas ele foca-se sobretudo no seu aspecto de fuga do mundo e da acção, associando também estes a um meio das classes exploradoras e opressoras manterem os explorados e oprimidos sob seu jugo.

    Com doutrina da Igreja queres dizer documentos magisteriais, claro ;) Conheço um pouco e daí a minha pergunta. A não ser que te esteja a referir ao acto da eutanásia, e não a um desejo ou disposição.

    Quanto a quem apenas recebe o que ouve nas homilias, é porque não deve estar muito interessado no assunto cristão, sei lá… Não há magistério nem desmagistério que aí valha, penso eu; que mania de acusar os pais do desinteresse dos filhos LOL E há tantas homilias, por aí, para todos os géneros de interesse e despertar (ou anestesiar ;)

    O comum ou a maioria são categorias problemáticas; pertencem à propaganda, à publicidade, ao marketing e aos seus derivados sob forma de ciências sociais e humanas. De certa maneira, nem sequer existem, no sentido de determinação pessoal das gentes; têm a sua realidade, claro, mas pouco densa existencialmente, um pouco do mesmo modo que a multidão no futebol pouco diz da pessoalidade singular de cada um.


    bjocas

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  11. olá, pá!

    li com atenção o que escreveste. Não sinto necessidade de acrescentar algo, senão isto: só Deus nos vê em verdade e em total individualidade, quanto ao resto todos partilhamos de destino comum - nascer morrer e aguentar-se no intervalo das duas. Há uns que se destacam, mas são peças raras. Não há que ter ilusões. Quer queiramos quer não, com mais consciência ou sem ela, "somos formigas no carreiro".

    Não sei se me fiz entender. Isto responde ao teu último parágrafo.

    beijos

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  12. Depois do Bonhoeffer, o melhor mesmo é não acrescentar mais nada, pá ;)PS: o destaque histórico é sobrevalorizado enquanto expressão pessoal PS 2: Isto não foi um acrescento LOL PS 3: bjocas!

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