2008-10-26

Ser

Deambulas por entre os dias das estacas
e do arame farpado
vibração do desejo inominável
inviolável
em todo o seu corpo de propulsões
rumo sem rumo, ascensão sem ascensão
árvore que se ergue, solitária,
no píncaro da montanha,
por baixo dela só o abismo
com as suas legiões de destruição
com os seus mares cavernosos, caninos,
incomensuráveis

Penetras,
sem qualquer temor,
as regiões mais pantanosas dos matagais
e incendeias a trepidez das árvores mortas
com as chagas abertas dos teus pés
com o teu grito fresco de dor
com os olhos desventrados;
e com o sangue correndo-te pela testa
pulsando-te nos punhos
fazes estremecer os astros
abalas o relentim dos motores
a segurança dos casulos de betão

A terra, as aves, as árvores, os bichos
da noite e da madrugada
conhecem as relíquias dos teus sinais
a certeza das incertezas
e num rio em turbilhão perfuras o
horizonte dos desertos
és o seu mana, a consolação
dos que acreditam que só o caminho
alimenta o caminho
que só a dor amacia a dor
que só o silêncio fala a verdade
em toda a sua inicial nudez


Luis Costa,
3 poemas e menos um para Konstantino Kaváfis
www.triplov.com/

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