2008-11-28

suspensos

percebemos que a vida é a coisa mais frágil do mundo.
Que não temos mãos para agarrar os mortos de Mumbai,
As vítimas das chuvas em Santa Catarina,
Nem ao nosso vizinho que bebeu o veneno
para matar ervas daninhas.

Ó Deus!

2008-11-27

se eles o dizem...2

Estou farto de santas marias gorettis, e é bom ouvir uma mulher que diz em público «só estávamos juntos por causa do sexo». E que abandona um homem que esteve preso.

uma num milhão.

Pedro Mexia

se eles o dizem...1

Onde quer que uma rapariga beije um rapaz está uma criança a ser beijada por uma mulher. Uma criança blindada que quer experimentar, saber, coleccionar.

Luís

tão Simples que nos perdemos

A natureza ilimitada de Deus está protegida por uma barreira "impenetravelmente densa", mas dela emana um perfume suave que possibilita um vislumbre de sua presença no mundo.
...
A experiência mística, como vem mostrando Raimon Panikkar em trabalhos recentes, não é algo destinado apenas a determinados virtuosos, mas é um evento que se dá na abertura à dinâmica integral da vida e da realidade. Os sinais do mistério estão aí, por todo canto, para além do "fragor retumbante das máquinas", da dinâmica consumista e da busca irrefreada de poder. Eles se revelam teimosos na força inesgotável do que é Simples. O olhar se ilumina na medida em que novos espaços são criados para experiências de profundidade, quando se educa a vista para sentir o tempo de forma apaixonada, e se dá atenção ao pequenos detalhes da vida cotidiana. A experiência mística irrompe quando nos sentimos "tocados" pelo mistério, quando acendemos o olhar para a "infinita Realidade que existe dentro de tudo o que é real". Ela acontece quando nos despertamos para o "caráter sagrado da vida e do ser".

Faustino Teixeira, teólogo

Um mundo

Onde montanhas não são levantamentos
íngrimes de terra. Onde rios não são cursos
de água que se vão lançar no mar,
nos lagos, noutros rios. As casas

não têm paredes ou teto, ruas
não são vias de acesso, caminhos não vão
de um ponto a outro e os pontos não põem
fim, não abreviam, não são laçadas na malha

da lã ou nas voltas da linha. Por sua vez,
linhas não são fios, nem fibras, nem traços.
Não há sulcos na palma das mãos. Não há frentes
de combate. Linhas não são rumos

ou normas. O Equador não é o anel extremo do globo
e as superfícies esféricas não se chamam esferas.
Não há moedas. O espaço ilimitado, indefinido
no qual se movem os astros é a terra, enquanto

acima das cabeças, pregados pelo horizonte, densos,
amarelos, vão jardins em movimento. Venta.
Há um vento constante, há um canto constante.
Pode-se ver a música, de terraços, belvederes

e torres instaladas para tal finalidade. Mundo
em que se ganha o que se perde.
Toda pedra é pérola. Onde o amor
é entre duas mulheres.

Eucanaã Ferraz

in Rua do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
in Rua do mundo. Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 200

2008-11-26

um olhar que vê

No arquivo do blogger vão-se acumulando rascunhos de pensamentos e ideias, para as quais não se encontrou a fórmula, nem o modo, nem o tempo de as dizer. Parece um enorme cemitério de esqueletos desconjuntados e dispersos. Espelho da vida. Mas eis que surge um olhar sentido, e tudo se dissipa, airoso.

resgatando a doçura da vida


Abriu um novo centro comercial em Caldas da Rainha. Um Vivaci como há noutras cidades. Não vendem lá voos de poupa. Este Outono já tive a graça de ver dois. Um esconde-esconde logo pela manhãzinha.

no mínimo...

O amor como audácia:


www.malvados.com.br/

2008-11-25

A Palavra de Deus

Como diz T. Adorno "nada há de inofensivo". Também a experiência religiosa acaba por ser contaminada por aquilo que são os interesses dos que a vivenciam.
Na história do cristianismo, obedecendo a interesses pastorais imediatos, muitas vezes, a Igreja desfigurou a Palavra de Deus para anunciar a sua.

Hoje, um pai dizia-me que tinha um filho de vinte e oito anos que era uma pessoa extraordinária. Desde cedo se revelaram nele qualidades, que levaram a mãe a desejar que ele fosse padre. E a manifestar-lho várias vezes. Ele respondia da melhor forma que encontrava que não desejava tal coisa porque gostava era de mulheres.
Há pouco tempo surgiu-lhe um cancro linfático. A mãe, talvez para arranjar uma desculpa para o que a não tem - a doença -, começou a dizer que era castigo de Deus por ele não ter optado pela vocação de padre. O pai não sabia que dizer.
Eu, veementemente, disse-lhe que nenhum Deus merecia o amor de algum homem, se fizesse tal coisa.

Poder-se-á dizer que isto é fruto de uma religiosidade popular e pouco esclarecida. Mas não chega, é também fruto da doutrinação da Igreja.

salve-se a doçura da vida...com fé

Já nada há de inofensivo. As pequenas alegrias, as manifestações da vida que parecem isentas da responsabilidade do pensamento não só têm um momento de obstinada estupidez, de autocegueira insensível, mas entram também imediatamente ao serviço da sua extrema oposição. Até a árvore que floresce mente no instante em que se percepciona o seu florescer sem a sombra do espanto; até o "como é belo!" inocente se converte em desculpa da afronta da vida, que é diferente, e já não há beleza nem consolação alguma excepto no olhar que, ao virar-se para o horror, o defronta e, na consciência não atenuada da negatividade, afirma a possibilidade do melhor. É aconselhável a desconfiança perante todo o lhano, o espontâneo, em face de todo o deixa-andar que encerre docilidade frente à prepotência do existente. O malevolente subsentido do conforto que, outrora, se limitava ao brinde da jovialidade, já há muito adquiriu sentimentos mais amistosos. O diálogo ocasional com o homem no combóio, que, para não desembocar em disputa, consente apenas numas quantas frases a cujo respeito se sabe que não terminarão em homicídio, é já um elemento delator; nenhum pensamento é imune à sua comunicação, e basta já expressá-lo num falso lugar e num falso acordo para minar a sua verdade. De cada ida ao cinema volto, em plena consciência, mais estúpido e depravado. A própria sociabilidade é participação na injustiça, porquanto dá a um mundo frio a aparência de um mundo em que ainda se pode dialogar, e a palavra solta, cortês, contribui para perpetuar o silêncio, pois, pelas concessões feitas ao endereçado, este é ainda humilhado [na mente] do falante. O funesto princípio que já sempre reside na condescendência desdobra-se no espírito igualitário em toda a sua bestialidade. A condescendência e o não ter-se em grande monta são a mesma coisa. Pela adaptação à debilidade dos oprimidos confirma-se, em tal fraqueza, o pressuposto da dominação e revela-se a medida da descortesia, da insensibilidade e da violência de que se necessita para o exercício da dominação. Se, na mais recente fase, decai o gesto da condescendência e se torna visível apenas a igualação, então tanto mais irreconciliavelmente se impõe em tão perfeito obscurecimento do poder a negada relação de classe. Para o intelectual, a solidão inviolável é a única forma em que ainda se pode verificar a solidariedade. Toda a participação, toda a humanidade do trato e da partilha são simples máscara da tácita aceitação do inumano. Há que tornar-se consonante com o sofrimento dos homens: o mais pequeno passo para o seu contentamento é ainda um passo para o endurecimento do sofrimento.

Theodore Adorno, in "Minima Moralia"

2008-11-24

Vale a pena refectir um pouco nisto:

Nunca temos acesso à "Palavra de Deus" de modo imediato. Estritamente falando, a Bíblia não é a Palavra de Deus, mas um conjunto de testemunhos de crentes que se situam numa tradição particular da experiência religiosa

Frei Bento Domingues, Domingo 26 de Novemvro de 2008
Público, edição impressa

2008-11-23

das alegres notícias


Com três quilos, quatrocentas e cinquenta gramas de beleza, nasceu a minha sobrinha Margarida. Uma família cada vez mais feminina - elas já são sete e eles dois.

2008-11-22

o pecado original

A impressão geral que me ficava da religião nos tempos da catequese não era luminosa. Pelo contrário, tudo aquilo transmitia um mundo bastante tenebroso, a ideia de um Deus castigador e de nós sujeitos a um destino de submissão trágica. Os primeiros pais tinham pecado, Deus andava irado com a gente e Jesus sofria na cruz para ver se nos libertava. A alegria era um roubo e a palavra Evangelho, que quer dizer "notícia boa", não pousava sobre nós nem nos aquecia.

O que infectava o cristianismo era a doutrina infausta do pecado original. Escreveu o célebre historiador católico Jean Delumeau: "Não é exagerado afirmar que o debate sobre o pecado original, com os seus subprodutos - problemas da graça, do servo ou livre arbítrio, da predestinação -, se converteu (no período central do nosso estudo, isto é, do século XV ao século XVII) numa das principais preocupações da civilização ocidental, acabando por afectar toda a gente, desde os teólogos aos mais modestos aldeões. Chegou a afectar inclusivamente os índios americanos, que eram baptizados à pressa para que, ao morrerem, não se encontrassem com os seus antepassados no inferno. É muito difícil, hoje, compreender o lugar tão importante que o pecado original ocupou nos espíritos e em todos os níveis sociais. É um facto que o pecado original e as suas consequências ocuparam nos inícios da modernidade europeia o centro da cena mundial, sem dúvida muito atribulado."

No entanto, a doutrina do pecado original, no sentido estrito de um pecado transmitido e herdado, não se encontra na Bíblia. Jesus nunca se referiu a um pecado original.

Na sua base, encontra-se fundamentalmente Santo Agostinho, a partir de um passo célebre da Carta de São Paulo aos Romanos, capítulo 5, versículo 12. Mas ele seguiu a tradução latina: Adão, "no qual" todos pecaram, quando o original grego diz: "porque" todos pecaram. Ora, uma coisa é dizer que todos são pecadores e outra afirmar que todos pecaram em Adão, como a árvore fica infectada na raiz, de tal modo que todos nascem em pecado do qual só o baptismo os pode libertar. Santo Agostinho deixava cair no inferno, mesmo que menos terrível, as crianças sem baptismo. Durante séculos, houve mães tragicamente abaladas, porque os filhos morreram sem baptismo.

A Santo Agostinho serviu esta doutrina sobretudo para, convertido do maniqueísmo ao cristianismo, "explicar" o mal no mundo, que não podia vir do Deus criador bom.

De facto, baseou-se numa exegese errada. E quem não sabe hoje que o que diz respeito a Adão e Eva e à queda é da ordem do mito? Adão e Eva não são personagens históricas. Depois, se eles ainda não sabiam, como diz o texto do Génesis, do bem e do mal, como podiam pecar? O que o texto diz é outra coisa, e fundamental: o que caracteriza o Homem frente ao animal é a liberdade. O Homem já não é um animal como os outros: tem auto-consciência, sabe de si como único - a nudez metafísica - e que é mortal.

Mas os estragos desta doutrina infausta foram e são incalculáveis, sobretudo a partir do acrescento de Santo Anselmo e a sua doutrina da retribuição: os primeiros pais cometeram uma ofensa contra Deus infinito e, assim, era necessária uma reparação infinita para uma dívida infinita que só o Deus-homem Jesus podia pagar na cruz.

Ficou então a ideia de um Deus por vezes monstruoso, que precisou da morte do Filho para reconciliar-se com a Humanidade. Mas como era isso compatível com o Deus amor? Porque o pecado se transmitia pelo acto sexual, a sexualidade, o corpo e a mulher ficaram envenenados, numa situação dramática: era preciso continuar a gerar filhos - no limite, a actividade sexual só se legitimava para a procriação -, mas eles eram gerados em pecado e a mulher trazia o pecado dentro dela.

Porque é que o primeiro acto humano da História havia de ser o pecado? Hoje, com a teoria da evolução, a contradição torna-se maior. E, afinal, o que São Paulo diz no passo célebre da Carta aos Romanos é uma mensagem de esperança: todos os seres humanos pecam, o pecado do Homem é grande, mas o amor de Deus é maior. Infinito.

Anselmo Borges, padre

2008-11-21

Tout d'un coup je l'ai surpris


Clémentine Poidatz

os novos descamisados


Reunido em Sintra o Conselho da Globalização (uns senhores que mandam na política e na economia, e nas nossas almas, quiçá...) , vêem-se nas imagens sem gravata, em traje informal, quais descamisados da pós-modernidade. Vão discutir propostas para sair da crise, a deles, claro, (isto não é assim tão simples, mas hoje não me peçam para ficar ao lado dos fracos e pobrezinhos). Apareceram a prestar declarações, os senhores banqueiros Ricardo Salgado e Fernando Ulrich. Estão com problemas, os pobres...tenho uma sugestão quentinha e boa para os dois: lancem um negociozinho de venda de castanhas. Façam uma sociedade, mas nada de oparem os vendedores já estabelecidos no mercado. Vão ao IEFP e pedem um apoio para começar o negócio.

2008-11-08

"dar Voz aos pobres...

para erradicar a pobreza"


Quando se pergunta pelo objectivo da sociedade emancipada, obtêm-se respostas tais como a realização das possibilidades humanas ou a riqueza da vida (...). A única resposta delicada seria a mais grosseira: que ninguém mais passe fome.

Theodore Adorno (Minima Moralia)


A responsabilidade da erradicação da pobreza:

Com certeza que é do Estado e das autarquias, pois têm o dever de estar atentos e têm meios para responder aos problemas. Mas a responsabilidade é de todos. Se estivermos à espera de uma solução vinda de alguém que vai resolver, não conseguimos ultrapassar. Temos é de exigir do governo a sua parte. A igreja pode amplificar a voz dos pobres e a própria Igreja, se não for mais pobre, também não terá voz”.

Carlos Azevedo, bispo

prova de vida, 2



PUTA, por um segundo

os seios ali ,

troncos virgens, sem batismo.
nenhuma boca, mesmo desconhecida,
insana
pousa sobre este aluvião de carnes.
quer um gozo. grunhir
úmida.
arrebentar toda castidade imposta



Mário Cezar

imagem- desfile de cadetes em traje tradicional,
Praça Vermelha, Moscovo
Reuters/Denis Sinyakov

prova de vida

Lucien Freud


a solidão é uma experiência canina.

2008-11-07


quando os meus pais souberam
que fora eu quem assaltara a igreja
roubando o dinheiro das esmolas
para pagar aos amigos copos de vinho
e que até desfigurara o rosto dos santos
em meu nome pediram desculpa ao padre
e mandaram rezar missa
como se estivesse morto

José Ricardo Nunes,
Caldas da Rainha

2008-11-06

e quem vier a seguir que apague a luz

saber olhar o cacto, ou a nós próprios

Não se inveja as pessoas cujo íntimo está repleto de mesuras e sentimentos gentis e fraternos, que dão mais valor à colorida flor do cacto do que ao próprio, que deslizam pelos dias como se este fosse um escorrega de geleia doce, e se socorrem de todos os ideais e princípios para desculpar e louvar os monstros que lhes castraram a vida.

José

e?

Houve ditadores que decidiram bem...

D. José Policarpo

texto integral aqui

Isso legitima alguma coisa? Qualquer pessoa é passível de fazer boas acções. Mas isso não a faz boa pessoa. O fazer é inseparável do ser e vice-versa.






tão complicado como depenar galinhas, sr D. José


D. José Policarpo, cardeal Patriarca de Lisboa, confessa-se ao Diário Económico. Fala de vários temas sobre os quais é interpelado. Ousa um bocadinho. Eu é que já não tenho paciência para os pudores dos senhores bispos. Colocam a mitra, vão para o ambão, e é só certezas. Para acabarem (em conversas particulares) a confessar que não têm mandato para resolver alguns problemas que eles mesmos criaram.


Há problemas mais complicados na vida dos cristãos que eu continuo a pensar que não podemos desistir de procurar soluções – como é o caso de re-casados que temos na nossa sociedade. Para uma alteração radical, a 100%, da visão da sexualidade humana eu não tenho mandato. Nem convicção pessoal.


António Costa e Francisco Teixeira
in Diário Económico


2008-11-05

de olhos postos na América

A man monitors the Presidential elections results on television at the ancestral home of Democratic presidential candidate Senator Barack Obama in Nyangoma Kogelo village, 430km west of Kenya's capital Nairobi, November 5, 2008.
REUTERS/Thomas Mukoya


"Podemos" (Barack Obama), acreditar que o sonho vence o cepticismo, a desesperança, a destruição, a ganância, o medo. É sempre possível fazer e esperar melhor.


2008-11-04

a vida

Desde que Jesus disse acerca de si: eu sou a vida (Jo 14,6,11,27), nenhum pensamento cristão ou até filosófico, pode ignorar tal reivindicação e a realidade nela contida. Esta afirmação feita por Jesus acerca de si mesmo declara como vã e já fracassada toda a tentativa de expressar a essência da vida em si. Enquanto vivemos e não conhecemos os limites da nossa vida,a morte, como poderemos dizer o que é a vida em si? Podemos unicamente viver a vida, não defini-la. A palavra de Jesus liga todo o pensamento sobre a vida à sua pessoa. Eu sou a vida. Nenhuma questão sobre a vida pode ir mais além deste "eu sou". A questão sobre o que é a vida torna-se aqui a resposta de quem é a vida. A vida não é uma essência, um conceito, antes uma pessoa e precisamente uma pessoa determinada e única, e é esta pessoa determinada e única não no que ela entre outras coisas também tem, mas no seu eu, no eu de Jesus. A todas as ideias, conceitos, caminhos, que pretendem dizer o que é a essência da vida, Jesus contrapõe drasticamente este eu. Ele não diz: eu tenho, mas eu sou a vida. Por isso, a vida já não é separável do eu, da pessoa de Jesus. Ao anunciar isto, Jesus não diz ser só a vida - isto é, uma entidade metafísica que porventura não me diz respeito - mas justamente a minha vida, a nossa vida. A minha vida está fora de mim, não está à minha disposição; a minha vida é de outrém, um estranho, Jesus Cristo, e tal no sentido trasladado de que a minha vida não seria digna de ser vivida sem este outro, portanto, no sentido de que Cristo lhe conferiria uma qualidade particular, um valor particular, com a consequência de que a vida teria sempre uma subsistência própria, mas que a própria vida é Jesus Cristo. Aquilo que assim vale acerca da minha vida vale a propósito de tudo o que é criado:"Tudo o que foi feito - nele era a vida" (Jo 1,4)

Dietrich Bonhoeffer - Ética

vígil

(Anne Lea Merritt, eve)

Atravesso o deserto e amo-te, amo-te, o rubi com asas dentro que trazes no coração é uma fada protegendo-me, com desmedida volúpia acaricio os teus ombros, o corvo foge a toda a velocidade, a noite é muito longa mas nós não dormiremos, por esses cabelos luminosos é que o futuro chega, nos conduz ao litoral, nos leva até à criança que há em nós, esperemos que a criatura justa volte a nascer, os pequenos sonhos se façam realidade, a salvação, desta vez, seja total e definitiva.

Amadeu Baptista


aprender a arte da fantasia, com quem sabe


Dakar, November 3, 2008.
REUTERS/Michael O'Reilly

2008-11-02

a Palavra


Eu sei que o meu redentor vive e prevalecerá, por fim, sobre o pó da terra;
e depois de a minha pele se desprender da carne,
na minha própria carne verei a Deus.
*Eu mesmo o verei,
os meus olhos e não outros o hão-de contemplar!

Job, 19

2008-11-01

todos os Santos

Semelhança

É ser quase invisível ser presente.
Na distância é que os astros aparecem;
E nas profundas trevas sepulcrais
É que podemos ver
Esta figura humana da Tragédia,
Esta máscara grega que faz medo
Aos deuses e aos demónios! Esta imagem
Acendida de cores palpitantes,
Além das quais se escondem num tumulto,
Outras vagas imagens, pretendendo
Vencer e dominar, romper a névoa,
Surgir à luz do dia!
Só nas trevas,
Se ilumina a expressão das criaturas,
Como um céu nocturno, Ó lua nova,
O teu perfil de prata que me lembra
O perfil de Virgílio a revelar-se
Na morta escuridão de dois mil anos.
É nas trevas que as almas aparecem.
E a sua face externa, dimanando
Este ar humano a arder em luz divina
Ou toldado de fumo enegrecido:
O relevo mais alto
Dum rosto que se anima, aquele traço
Que melhor o define, aquele modo
De olhar e de falar, aquele riso
Ou de anjo ou de demónio;
Este ar inconfundível e perpétuo
Que trouxemos do ventre maternal.
Fulgura na beleza amanhecente
E conserva acendida, entre as ruínas
Da trágica velhice,
A monótona lâmpada soturna,
Em melancólicos lampejos frios.
E inalterável paira sobre a face
Gelada dos cadáveres.. .
E dela se desprende; e, já liberto,
Em vulto de fantasma,
Fica, por todo o sempre, a divagar
Entre o luar e a noite, o Céu e a Terra.

II

O génio dum pintor
É dar as cousas como Deus as fez
E como Deus, sonhando, as concebeu,
Bem antes de as criar. É dar o sol
E a sombra original que lhe embrandece
O ímpeto doirado a desfazer-se,
Em luminosa espuma, sobre o mundo.
É dar a um rosto humano a forma viva,
A claridade viva que ele trouxe
Do ventre maternal...
Esta anímica luz de simpatia
Que se exala, no ar, e vem de dentro
Dum coração a arder:
A nossa própria imagem condensando,
Através da aparência transitória,
A eterna aparição.

III

A tinta dá a aparência deslumbrante,
A luz carnal que veste os ossos do esqueleto
E em nós acende uma ilusão de vida,
Um desejo de ser quase infinito,
Um sonho de existir eternamente...
Este sonho divino que nos leva
Nas suas ígneas asas sempre abertas
No coração da noite.
Para onde vamos nós? Para onde vai
A perfeita alegria que se apaga,
E nos deixa na alma
Como um sabor a cinza?
E no silêncio que vem da serra com a lua
E passeia comigo no jardim?
E o perfume das rosas e dos lírios
Que derramam, na sombra, bem se vê,
Fosforescências brancas e vermelhas,
Quando o luar é mármore desfeito
A cair, a cair, em luminoso pó?
Cai na terra que tem defunta palidez,
Sorrisos mortos, lágrimas de neve,
Pedrinhas preciosas que cintilam
E negras manchas de terror, fingindo
O recorte das árvores extáticas.
A tinta dá a aparência radiosa;
Um arco-íris nas paletas,
E a alegria da virgem Primavera
E o sangue que ilumina a tua face
E é como a aurora a percorrer-te as veias
E dos teus lábios foge, num sorriso...
Mas o carvão dá a noite, a intimidade, a alma,
Os recantos escuros da paisagem,
Onde o mistério e a sombra
Parecem adquirir uma presença vaga...
E extrai do alvor luarento do papel
O fantasma escondido, em nós, durante a vida,
Mas cá fora, ao luar, depois da nossa morte.
O óleo diurno lança num perfil
Todo o esplendor externo da expressão,
Este ar espiritual de etérea luz,
Que, emanando de dentro, se condensa
Em relevos de carne e sangue quente,
Donde se exala a dor em turbilhões de fumo
E a alegria agitando as luminosas asas.
Mas o carvão nocturno esboça a medo
A nossa intimidade, aquela imagem
Que em nosso coração se esconde e em certas horas,
De alto delírio e exaltação profunda,
Aparece, na Terra, em nosso nome,
Como um anjo de luz, como um demónio a arder!
Caim e Abel! Orfeu tangendo lira!
O grito de Jesus nas trevas do Calvário!
Lucrécio enlouquecido a escorraçar os Deuses
Para os confins do Olimpo...
E estrela do pastor que, à tarde, cintilava
Nos olhos de Virgílio, extáticas lagoas
Que reflectem a lua entre folhagens de árvore
E misteriosos perfis de espectros agoirentos.
Um retrato a carvão faz medo. Mostra à luz
Aquela negra sombra pavorosa
Que emite, para dentro, a criatura humana,
A fim de que ninguém a possa contemplar.. .
O segredo mais trágico das almas
A converter-se numa voz terrível,
Como um grito da Esfinge, no Deserto,
Que fizesse tremer o vulto das Pirâmides
E violentasse a tampa dos sepulcros,
Onde jazem os Deuses primitivos
E os primitivos Monstros que os poetas
E as entranhas da Terra conceberam.
Mas um retrato a óleo
É máscara pintada a tintas animadas,
Tão sensível de luz e de ternura
Que parece evolar-se num sorriso
E noutras claridades.

IV

O pintor surpreende a alma e o corpo,
A aparência da vida, a aparição da morte,
Mas não consegue dar o espírito divino,
O que somos além da morte e além da vida.
Só poderiam dar a imagem verdadeira
Do espírito divino as tintas milagrosas
Extraídas daquele sol eterno
Que faz desabrochar as almas e as estrelas...
Daquele sol oculto em certos versos,
Nas palavras de Paulo e de Jesus,
Nos gritos de aflição, do amor e da saudade
Que, junto dum sepulcro ou berço consagrado,
Lançam as mães aos ventos do Infinito!
Somente em certos versos misteriosos
Dos grandes Poetas, brilha aquele sol
Que faz desabrochar as almas e as estrelas.


Teixeira de Pascoaes
Cânticos
1925
Poesia de Teixeira de Pascoaes
Antologia organizada por Mário Cesariny
Assírio & Alvim

Uma visão dos EUA com mais de quarenta anos:


Uma mescla de imaturidade, tamanho, indulgência e depravação manifestas, com ocasionais espasmos de culpa, poder, ódio por si mesmos, beligerância, alternância de ferocidade e apatia, hiper-excitação e insanidade, inarticulação e desejo de ser popular. Você precisa de um médico, Tio Sam!

(Thomas Merton)


Parece que ainda não foi encontrada a cura para a doença. De qualquer modo, esperemos por algum grãozinho de sanidade, na escolha do próximo presidente. Que seja, Obama, pois!

para festejar o dia e o novo cenário:


o Pão por Deus.