2008-11-22

o pecado original

A impressão geral que me ficava da religião nos tempos da catequese não era luminosa. Pelo contrário, tudo aquilo transmitia um mundo bastante tenebroso, a ideia de um Deus castigador e de nós sujeitos a um destino de submissão trágica. Os primeiros pais tinham pecado, Deus andava irado com a gente e Jesus sofria na cruz para ver se nos libertava. A alegria era um roubo e a palavra Evangelho, que quer dizer "notícia boa", não pousava sobre nós nem nos aquecia.

O que infectava o cristianismo era a doutrina infausta do pecado original. Escreveu o célebre historiador católico Jean Delumeau: "Não é exagerado afirmar que o debate sobre o pecado original, com os seus subprodutos - problemas da graça, do servo ou livre arbítrio, da predestinação -, se converteu (no período central do nosso estudo, isto é, do século XV ao século XVII) numa das principais preocupações da civilização ocidental, acabando por afectar toda a gente, desde os teólogos aos mais modestos aldeões. Chegou a afectar inclusivamente os índios americanos, que eram baptizados à pressa para que, ao morrerem, não se encontrassem com os seus antepassados no inferno. É muito difícil, hoje, compreender o lugar tão importante que o pecado original ocupou nos espíritos e em todos os níveis sociais. É um facto que o pecado original e as suas consequências ocuparam nos inícios da modernidade europeia o centro da cena mundial, sem dúvida muito atribulado."

No entanto, a doutrina do pecado original, no sentido estrito de um pecado transmitido e herdado, não se encontra na Bíblia. Jesus nunca se referiu a um pecado original.

Na sua base, encontra-se fundamentalmente Santo Agostinho, a partir de um passo célebre da Carta de São Paulo aos Romanos, capítulo 5, versículo 12. Mas ele seguiu a tradução latina: Adão, "no qual" todos pecaram, quando o original grego diz: "porque" todos pecaram. Ora, uma coisa é dizer que todos são pecadores e outra afirmar que todos pecaram em Adão, como a árvore fica infectada na raiz, de tal modo que todos nascem em pecado do qual só o baptismo os pode libertar. Santo Agostinho deixava cair no inferno, mesmo que menos terrível, as crianças sem baptismo. Durante séculos, houve mães tragicamente abaladas, porque os filhos morreram sem baptismo.

A Santo Agostinho serviu esta doutrina sobretudo para, convertido do maniqueísmo ao cristianismo, "explicar" o mal no mundo, que não podia vir do Deus criador bom.

De facto, baseou-se numa exegese errada. E quem não sabe hoje que o que diz respeito a Adão e Eva e à queda é da ordem do mito? Adão e Eva não são personagens históricas. Depois, se eles ainda não sabiam, como diz o texto do Génesis, do bem e do mal, como podiam pecar? O que o texto diz é outra coisa, e fundamental: o que caracteriza o Homem frente ao animal é a liberdade. O Homem já não é um animal como os outros: tem auto-consciência, sabe de si como único - a nudez metafísica - e que é mortal.

Mas os estragos desta doutrina infausta foram e são incalculáveis, sobretudo a partir do acrescento de Santo Anselmo e a sua doutrina da retribuição: os primeiros pais cometeram uma ofensa contra Deus infinito e, assim, era necessária uma reparação infinita para uma dívida infinita que só o Deus-homem Jesus podia pagar na cruz.

Ficou então a ideia de um Deus por vezes monstruoso, que precisou da morte do Filho para reconciliar-se com a Humanidade. Mas como era isso compatível com o Deus amor? Porque o pecado se transmitia pelo acto sexual, a sexualidade, o corpo e a mulher ficaram envenenados, numa situação dramática: era preciso continuar a gerar filhos - no limite, a actividade sexual só se legitimava para a procriação -, mas eles eram gerados em pecado e a mulher trazia o pecado dentro dela.

Porque é que o primeiro acto humano da História havia de ser o pecado? Hoje, com a teoria da evolução, a contradição torna-se maior. E, afinal, o que São Paulo diz no passo célebre da Carta aos Romanos é uma mensagem de esperança: todos os seres humanos pecam, o pecado do Homem é grande, mas o amor de Deus é maior. Infinito.

Anselmo Borges, padre

5 comentários:

  1. O sr. é padre, mas nega a existencia do pecado original ?
    Bem, sou do Brasil e estou procurando na internet uma respsota a uma dúvida que me veio agora, exatamente sobre pecado original. Encontrei seu Blog e resolvi tentar uma resposta.
    A minha dúvida é a seguinte:
    Se pelo batismo somos lavados da mancha do pecado original e se este pecado se transmite pela natureza humana, então, como passamos este pecado para nossos filhos se o batismo que recebemos já nos livrou da culpa?

    ResponderEliminar
  2. Eu, mc, não sou padre. O Anselmo Borges, de cuja autoria é o artigo que cito é padre, sim.

    Vou tentar dar uma resposta à sua questão. Ela fez-me rir. Eu nunca pus a questão do pecado original duma forma tão simplista. Nem o Baptismo. É preciso irmos um pouco mais além de algumas formas redutoras de apresentar a doutrina católica.

    Sugiro-lhe que procure um livro do Leonardo Boff, sobre os sacramentos. É simples e muito bom.

    Mas o pecado original...o Padre Anselmo Borges, não elimina a doutrina do pecado original, dá-lhe é outro sentido que não aquele que durante anos ouvimos nas catequeses e homilias.

    Aqui vai um esboço de uns apontamentos que tenho:

    Quando uma criança nasce não carrega nenhum pecado consigo. É mergulhada numa humanidade pecadora e mais tarde ou mais cedo vai fazer escolhas que são pecado. Por sua livre vontade.

    O pecado das orignes (pecado original) significa que algures na história humana o homem decidiu de forma consciente transgredir a Lei de Deus e ousou fazer-se Deus de si próprio. O homem deixou de ver Deus como o Criador que tem com o mesmo uma relação de amor e comunhão e decidiu entrar em competição com Ele.

    Este é o pecado original. É o pecado de todos os homens.

    O baptismo insere-nos no compromisso de rejeitarmos o mal e irmos aderindo a Deus. Não ao pecado e sim a Deus. O inverso do pecado original.

    Se fui confusa, diga. tentarei expor de forma mais explícita.

    ResponderEliminar
  3. Sim MC de alguma forma isso soa razoável.
    Lógicamente que eu não creio em Adão e Eva como personagens históricos, a narrativa do Genesis é sim uma "parábola" sobre o amor de Deus criando e o Homem destruindo o que seria o "jardim de luz" ou o Paraíso, ou o Eden.Também acredito que a transgressão é humana e a fidelidade é divina. Obrigado por ter se importado com minha questão tão ridicula. A propósito eu participo de um site de perguntas e respostas sobre religião e espiritualidade, é do www.yahoo.com.br (incluindo muitos portugueses) quem sabe você não se interesse e participe, é um jogo de perguntas e respostas sobre inúmeros assuntos e áreas do conhecimento, inclusive religião e espiritualidade.Basta você ter uma conta do Yahoo e criar seu perfil e começar a participar.Mas ja te digo que a maior parte dos participantes são evangelicos das seitas neopentecostais brasileiras, com suas ridículas perguntas sobre Maria, imagens católicas etc, além de ateus, muitos ateus. Mas mesmo assim existem alguns usuários inteligentes com bons posts e boas respostas. Se interessar em participar, o endereço é wwww.yahoo.com.br, crie seu email lá se não o tiver ainda e depois entre no "yahoo respostas" e procure a categoria "Sociedade e Cultura" e dentro dela "Religião e Espiritualidade".
    Abraços e obrigado pela atenção.

    ResponderEliminar
  4. Eu é que agradeço a sua gentileza. Sim, não faria sentido uma personagem histórica Adão e Eva. Não foi esse, de certeza, o sentido dos autores dos vários escritos que compôem o Genesis.

    Gostei do seu "jardim de luz". Num impulso sem pensar muito fixei este nome para o blogue. Acho-o um bocadinho "piroso". Tenho muitas visitas se brasileiros porque procuram o "Jardim da luz". Mas quando você e outras pessoas lhe dão outro significado, sinto-me eu própria tocada por algo maior do que o que escrevo por aqui. Obrigada, portanto.

    Não participo em nenhum forum. Não por causa das pessoas ou perguntas. Mais por não querer gastar muito tempo nisso. A net é um bocado viciante e é preciso ler, estar com pessoas mesmo etc.

    Mas irei espreitar o que me sugere.

    Gostei da sua intervenção neste blogue. Sinta-se em casa. :)

    Abraço

    ResponderEliminar
  5. já tentei encontrar o forum de que fala. São milhares. tarefa impossível. Não sabe o link directo?

    ResponderEliminar