2008-12-29

ai as beatas, pobres coitadas...

(beata Ludovica Albertoni)

As beatas


Elas envelhecem com pequenos passos

Como de cãezinhos ou de gatinhos

As beatas

Elas envelhecem tão depressa

Que confundem o amor e a água benta

Como todas as beatas

Se eu fosse diabo ao vê-las por vezes

Eu acho que me faria castrar

Se eu fosse Deus ao vê-las rezar

Eu acho que perderia a fé

Pelas beatas

Elas procissionam em pequenos passos

De pia de água benta em pia de água benta

As beatas

E patati e patata

As minhas orelhas começam a assobiar

As beatas

Vestidas de negro como o Senhor Padre

Que é demasiado bom com as criaturas

Elas beatizam-se de olhos em baixo

Como se Deus dormisse sob os seus sapatos

De beatas

No sábado à noite depois do trabalho

Vê-se o operário parisiense

Mas nada de beatas

Porque é no fundo das suas casas

Que elas se preservam dos rapazes

As beatas

Que preferem encarquilhar-se

De vésperas em vésperas, de missa em missa

Muito orgulhosas de terem conservado

O diamante que dorme entre as suas pernas

De beatas

Depois morrem em pequenos passos

Em fogo lento, em montinhos

As beatas

E enterram-se em pequenos passos

De manhãzinha num dia frio

De beatas

E no céu que não existe

Os anjos fazem depressa um paraíso para elas

Uma auréola e duas pontas de asa

E elas voam… com pequenos passos

De beatas



(Jacques Brel, 1962; tradução livre de Ricardo Alves)



Gamado com muito prazer, do Diário Ateísta.

2 comentários:

  1. O ávido Gargântua, do corrosivo Rabelais, também não se esquecia das beatas:
    «Dos pescados, prefiro a tainha; das perdizes, as asas; das beatas, as coxas».
    ;)

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  2. preferências à parte :) nunca olho estas coisas de fora...

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