2008-12-18

neoliberais...agora um bocadinho à toa

laisser faire laisser passer

1.

o neoliberal
neolibera:
de tanto neoliberar
o neoliberal
neolibera-se de neoliberar
tudo aquilo que não seja neo (leo)
libérrimo:
o livre quinhão do leão
neolibera a corvéia da ovelha

2.

o neoliberal neolibera o que neoliberar
para os não-neoliberados:
o labéu?
o libelo?
a libré do lacaio?
a argola do galé?
o ventre-livre?
a bóia-rala?
o prato raso?
a comunhão do atraso?
a ex-comunhão dos ex-clusos?
o amanhã sem fé?
o café requentado?
a queda em parafuso?
o pé de chinelo?
o pé no chão?
o bicho de pé?
a ração da ralé?

3.

no céu neon
do neoliberal
anjos-yuppies
bochechas cor-de-bife
privatizam
a rosácea do paraíso
de dante
enquanto lancham
fast-food
e super(visionários) visam
com olho magnânimo
as bandas(flutuantes)
do câmbio:
enquanto o não- neoliberado
come pão com salame
(quando come)
ele dorme
sonhando
com torneiras de ouro
e a hidrobanheira cor
de âmbar
de sua neo-mansão em miami

4.

o centro e a direita
(des)conversam
sobre o social
(questão de polícia):
o desemprego um mal
conjuntural
(conjetural)
pois no céu da estatís
-tica o futuro
se decide pela lei
dos grandes números

5.

o neoliberal
sonha um mundo higiênico:
um ecúmeno de ecônomos
de economistas e atuários
de jogadores na bolsa
de gerentes
de supermercado
de capitães de indústria
e latifundários de banqueiros
- banquiplenos ou
banquirrotos
(que importa?
desde que circule
autoregulante
o necessário
plus
valioso
numerário)
um mundo executivo
de mega-empresários
duros e puros
mós sem dó
mais atento ao lucro
que ao salário
solitários (no câncer)
antes que solidários:
um mundo onde deus
não jogue dados
e onde tudo dure para sempre
e sempremente nada mude
um confortável
estável
confiável
mundo contábil.

6.

(a
contra
mundo
o mundo
-não-
mundo cão
-dos deserdados:
o anti-higiênico
gueto dos
sem-saída
dos excluídos pelo
deus-sistema
cana esmagada
pela moenda
pela roda dentada
dos enjeitados:
um mundo
-pêsames
de pequenos
cidadãos
-menos
de gente-
gado
de civis
sub-servis
de povo
-ônus
que não tem lugar marcado
no campo do possível
da economia de mercado
(onde mercúrio serve ao deus mamonas)

7.

o neoliberal
sonha um admirável
mundo fixo
de argentários e multinacionais
terratenentes terrapotentes coronéis políticos
milenaristas (cooptados) do perpétuo
status quo:
um mundo privépalácio de cristal
à prova de balas:
bunker blaudurando para sempre - festa estática
(ainda que sustente sobre fictas
palafitas
e estas sobre uma lata
de lixo)


Haroldo de Campos

3 comentários:

  1. Extraordinário poema, publicado na Folha de São Paulo em 12 de Julho de 1998. Pena o autor não ter vivido para verificar como, infelizmente, tinha mais do que razão.
    Beijos

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  2. Liberais um boadinho à toa?
    Só os do blasfemias.
    Nem tanto. Esses são esquizofrenicos.
    Os beneficiários da ideologia estão optimos. Só que este ano o Natal foi mais cedo. Já viste os presentes que ees receberam?
    Não guardem muitas ilusões. Só vai mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma....

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  3. ilusões nenhumas. estava a referir-me a alguns ideólogos tipo blasfémias.

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