A pretinha, a quem tinham ensinado a não ter medo de nada, sentiu o coração endurecer-se contra ele, por um lado porque pensava que os homens fortes deviam ser pretos e que só as senhoras missionárias eram brancas; por outro lado, porque ele tinha morto a sua amiga serpente; e também porque vestia uma longa túnica branca, ridícula. Este último facto sensibilizava o único ponto a respeito do qual a sua senhora nunca a tinha podido converter, ou seja, o dever de ter vergonha do corpo e de usar saias. Pelo que se detectou um certo despeito na sua voz quando lhe dirigiu a palavra.
- Ando à procura de Deus - disse ela. - Pode dar-me informações a seu respeito?
- Encontraste-o - respondeu ele. - Ajoelha-te e adora-me agora mesmo, criatura presunçosa, se não quiseres temer a minha cólera. Sou o Deus dos Exércitos. Fiz o Céu e a Terra e tudo o que neles se encontra.
Fiz o veneno da serpente e o leite do seio da tua mãe. Na minha mão estão a morte e todas as doenças, o trovão e os relâmpagos, o furacão e a peste e todos os outros testemunhos da minha grandeza e da minha magestade.
De joelhos, jovem, e a próxima vez que de mim te aproximares, traz o mais amado dos teus filhos, que degolarás aqui, diante de mim, à guisa de sacrifício; porque gosto do odor do sangue acabado de verter.
- Não tenho filhos - respondeu a negra. - Sou virgem.
- Então, vai procurar o teu pai, para que ele te degole - disse o Deus dos Exércitos. - E faz de modo que os teus parentes me tragam muitos carneiros, cabras e borregos e os assem diante de mim como oferendas, para eu me tornar complacente. Se não, lançarei sobre eles as calamidades mais tremendas, para que saibam que sou Deus.
- Não sou nenhuma tola...
"As aventuras de uma pretinha à procura de Deus"
Bernard Shaw
a pretinha não era tola. E nós?
2008-04-26 em 4/26/2008 07:40:00 PM
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Bento XVI, pedofilia e o sacerdócio
O papa Bento XVI, na sua recente visita aos Estados Unidos, reconheceu que a Igreja Católica não agiu corretamente ao tratar dos casos de pedofilia envolvendo o clero. Junto com esse reconhecimento, ele assumiu o compromisso de lutar para que esses casos não ocorram novamente.
Quando enfrentamos problemas tão graves como esse, existem três possibilidades de abordagem. A primeira é considerar o erro como proveniente basicamente do modo como os agentes responsáveis atuaram dentro das estruturas e regras existentes. A segunda é assumir que a causa principal provém das estruturas e regras. A terceira é diagnosticar o problema como sendo causado por uma mistura de erros de procedimento dos agentes e dos problemas estruturais. Parece que o papa está assumindo a primeira hipótese: a causa fundamental foram os erros de procedimentos dos responsáveis e não haveria nada de substancial na estrutura e das regras fundamentais da vida do clero (por ex., a obrigatoriedade do celibato e a exclusão das mulheres) que precisa ser revisto. No fundo ele parece partir do princípio de que a estrutura da Igreja Católica é inquestionável.
Sendo assim, dois momentos se destacam nessa luta para que esses escândalos não se repitam: (a) momento da seleção dos candidatos ao sacerdócio e (b) quando os bispos e a comunidade tomam conhecimento de casos de padres pedófilos. É possível e necessário que o processo de seleção dos candidatos ao sacerdócio seja mais rigoroso; mas é impossível evitar que alguém com tendência a pedofilia ou a outros problemas de ordem afetivo-sexual chegue à ordenação. Afinal, eles não se declaram como tais e nem todas as pessoas responsáveis pela seleção conseguem "detectar" essas tendências. Isso sem contar a pressão que os bispos sentem pela falta de clero para atender a necessidades de paróquias sem padres residentes.
Assim sendo, sempre haverá casos de pedofilia ou de outros escândalos sexuais com clero, como também em outros grupos sociais ou agremiações profissionais ou religiosas. Então vem o segundo momento: a ação dos bispos ou superiores responsáveis diante desses casos. E infelizmente a história nos condena! Os bispos dos Estados Unidos e também de outros países em que esses escândalos se tornaram públicos têm mostrado um comportamento padrão: transferir o padre para um outro lugar, ao invés de encaminhar para um tratamento ou suspender do exercício sacerdotal.
Essa postura de "negação" da gravidade do problema não pode ser visto como uma simples falha pessoal de um determinado bispo, que poderia ser corrigida com um "puxão de orelha" por parte do papa. Na medida em que esse comportamento tem sido padrão em quase todos os lugares, podemos pensar que ele é uma resposta "sistêmica" da cultura que domina no interior da Igreja Católica.
A pergunta óbvia que surge é: por que os bispos preferiram esconder ou negar o problema até que atingiu uma proporção tão grande e que custou às dioceses norte-americanas mais de dois bilhões de dólares em indenizações às vítimas? Para tentar responder a essa questão, façamos um caminho inverso. O que aconteceria se os bispos assumissem que há ou havia pedófilos entre o seu clero?
De acordo com a teologia da Igreja Católica, Deus escolhe e separa do "mundo" algumas pessoas para serem "sacerdotes", pessoas sagradas que terão o "privilégio" de ter acesso às coisas e ritos sagrados do altar. Um dos sinais exteriores dessa vocação, que marcaria e mostraria a diferença/separação em relação às pessoas comuns, seria a vocação a uma vida celibatária. Aqui o sagrado aparece intimamente ligado a um determinado modo de viver a sexualidade. Essa é, provavelmente, a razão pela qual os padres continuam sendo vistos como separados, estando acima do "povo de Deus".
A vocação sacerdotal, que sempre é subjetiva, recebe o reconhecimento objetivo e oficial pela ordenação. A Igreja assume o papel de confirmar a vocação sagrada que vem de Deus. Nesse processo, o bispo representa Deus. Mas, se esse mesmo bispo assume publicamente que um ou mais dos seus sacerdotes têm problemas graves no campo afetivo-sexual, toda essa visão do sacerdócio entra em crise. E junto com ela uma determinada visão da Igreja.
O que houve de comum a todos os bispos que preferiram esconder ou negar o problema da pedofilia ou de outros abusos sexuais cometidos pelos padres é, provavelmente, o desejo de preservar uma teologia que defende a vocação como separação do "mundo", o ministério de presbíteros como a missão dos sacerdotes de, fundamentalmente, renovar os ritos sagrados (especialmente a missa, entendida como renovação do sacrifício de Jesus na cruz) e, principalmente, manter a imagem da Igreja como instituição sagrada.
Se as minhas reflexões têm alguma razão, esses escândalos não são problemas restritos aos distúrbios sexuais de alguns padres, mas requer toda uma discussão da teologia da vocação e ministério presbiteral, das disciplinas que regem a ordenação (como a exclusividade dos homens, o celibato obrigatório, etc.) e a retomada de uma eclesiologia do Povo de Deus.
Mesmo que essas minhas reflexões estejam equivocadas, não se pode negar que o modo como as pessoas responsáveis lidaram (ainda lidam?) com casos de padres pedófilos e/ou que cometem outros abusos sexuais forma um padrão. E isso mostra que, além dos erros na condução dos problemas, há problemas no âmbito estrutural que precisam ser discutidos e enfrentados. Só assim, o compromisso do papa Bento XVI se tornará eficaz.
Jung Mo Sung - Adital
* Professor de pós-grad. em Ciências da Religião da Univ. Metodista de S. Paulo e autor, dentre outros, de "Competência e sensibilidade solidária: Educar para a esperança" (com Hugo Assmann)
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inesperado...
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quando a ternura se escreve na vida quotidiana:
2008-04-22 em 4/22/2008 05:31:00 PM
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criatividade imparável: uma ofensa aos nabos
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uma boa notícia
Realizar num único local e num só dia todos os exames necessários para o diagnóstico e, caso seja necessário, ter uma proposta de terapêutica para as doenças da mama é a nova aposta do Hospital de S. João, no Porto, ao inaugurar, hoje, a Unidade Especializada de Diagnóstico do Cancro da Mama, apoiada pela Laço.
Morrem por dia (segundo estatísticas), em Portugal, quatro mulheres vítimas de cancro da mama. Fora das estatísticas, estão as angústias das mulheres e familiares, a quem um exame mais direccionado lançou o alerta para a doença. O tempo de espera entre exames, consultas e terapêuticas, é mortal em vários sentidos. Só nos podemos alegrar com esta notícia. Agora é estender a todos os serviços, a nível do país.
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declaração de não voto
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de encantamento em encantamento
"Há ainda mil sendas que nunca foram pisadas, mil fontes de saúde, centenas de ilhéus secretos da vida. Ainda não se descobriu nem se esgotou o próprio homem, nem a terra do homem."
Nietzsche - assim falava Zaratustra
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deus m'acuda!
2008-04-21 em 4/21/2008 05:26:00 PM
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poder feminino: França 1 - Portugal 0
2008-04-17 em 4/17/2008 06:14:00 PM
No Prozacland discute-se o poder. Deixei lá uma provocação em forma de pergunta: "para que serve o poder?"
Ontem a vidinha deu-me a resposta. Só manda mesmo quem pode.
Ia rua fora e encontro duas mulheres aflitas, a tentar socorrer um homem caído. Aproximei-me, perguntei se precisavam de ajuda, e como elas já estavam a telefonar para o INEM, ofereci-me para ir procurar o irmão do homem. Como imaginava, ele estava na tasca mais próxima. Eram nove da manhã.
Cheguei à porta, vi que estava sentado a uma mesa, com mais dois colegas e o pequeno cão preto. Disse "bom dia" e "que o irmão estava caído na rua sem dar acordo de si". Ainda não tinha voltado costas e percebi um leve encolher de ombros para os colegas. Mas fiada na minha autoridade, achei que ele seguia atrás de mim.
Entretanto, já se tinham juntado mais pessoas, entre elas uma jovem com sotaque francês que tentava reanimar o homem e dizia que já era costume aquela situação. Muita bebida, pouca comida e epilepsia. Disse-lhe que já tinha chamado o irmão, que estava em tal tasca, e já com alguma intuição que aquilo ainda ia acabar mal para mim, pois os minutos passavam e não o via rua acima, acabei a confessar que ele não me tinha ligado nenhuma.
Ela levanta-se, entra no carro, e não tinham passado três minutos, chega com ele ao lado. O cão deve ter ficado a guardar o copo e o lugar. E eu percebi porque é que umas têm, outras não.
Para me consolar pensei:"ela é mais jovem, francesa..."
E chegou o INEM, e fomos todos à vida...
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e como diz Zaratustra:
"Eu acreditava num Deus que dançasse"
E não num Deus que os homens dizem:"Está aqui! É nesta cidade, neste monte. Só aqui o podemos encontrar."
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(in)confidências
Nos tempos que correm, em que a Igreja se me tornou um lugar de desconsolo, ainda vou encontrando quem me obrigue a resistir. Sempre de surpresa e nas formas mais inesperadas. Não querer ver esses apelos é miopia. Mal de que não sofro no corpo nem desejo na alma. Avante, então!
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para que serve sonhar? ou dito de outra forma: temos algum poder?
Enquanto dava voltas e voltas à roda da nora, o velho burro aproveitava para ir tecendo alguns pensamentos. E, por vezes, pensamentos levam a desejos, e o burro imaginava o que seria ter asas e poder voar. Mas quem anda em círculos não vai muito longe, e o caro burro depressa chegou à conclusão repassada de experiência, que o seu destino era mesmo andar de nora em nora. Deixando uma, logo aparecia outra. Para se consolar, rematou com o seguinte pensamento:"-Menos mal que já não sou besta de carga!"
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e outros tantos...
em que nos fazendo sentir os maiores tolos do mundo, mostram que são a melhor coisa que há.
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contra os desânimos dinossauricos
2008-04-10 em 4/10/2008 04:20:00 PM
o mal é acharmos que o nosso tempo é "o tempo". É verdade que é. É nele que somos e actuamos. mas temos de nos sentir apenas elos da corrente. Mais nada. O que deixarmos de fazer pode comprometer os que virão depois de nós.
(deixei este comentário no Palombella Rossa, a propósito do desânimo perante os dinossauros que nos afrontam)
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a outra dizia:"não há coincidências..."
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é muito preocupante
2008-04-07 em 4/07/2008 04:48:00 PM
que as coisas não valham por si mesmas, mas porque passaram a ser difundidas nos vários meios de comunicação.
É preocupante que já quase ninguém se reserve na sua intimidade e procure defender os seus direitos colocando-os a julgamento público.
Das imagens mais chocantes que já vi em televisão, foi um grupo de jornalistas a focarem a chegada do carro, onde alegadamente, estava o casal que detém a guarda da pequena Ana Filipa (Esmeralda parece que é o seu nome) e a própria, à chegada a um Tribunal qualquer. Enojada, desliguei a televisão. Soube depois que a criança se recusou a sair do carro.
O que é que serviria melhor à causa desta criança: O normal funcionamento da justiça longe dos vorazes meios de comunicação, ou este arrastar de julgamento mediático, de um caso onde nem sequer conhecemos todos os contornos?
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enquanto a fava não enche...
2008-04-03 em 4/03/2008 03:58:00 PM
Ou falar desta Igreja?
Mas depois do primeiro prato de favas, volto!!!
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