2009-01-31

Se Obama fosse o Papa

um texto do teólogo Hans Kung, no blogue do Marco.

sobre o actual estado da Nação: somos um país de barbarinhos

À ESPERA DOS BÁRBAROS

O que esperamos na ágora reunidos?

É que os bárbaros chegam hoje.

Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?

É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.

Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?

É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles.
Tem pronto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.

Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
de ouro e prata finamente cravejados?

É que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.

Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?

É que os bárbaros chegam hoje
e aborrecem arengas, eloquências.

Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?

Porque é já noite, os bárbaros não vêm
e gente recém-chegada das fronteiras
diz que não há mais bárbaros.

Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.

Konstantinos Kaváfis

2009-01-30

tentar uma oração, segundo Jorge Luís Borges

Minha boca pronunciou e pronunciará, milhares de vezes e nos dois idiomas que me são íntimos, o pai-nosso, mas só em parte o entendo. Hoje de manhã, dia primeiro de julho de 1969, quero tentar uma oração que seja pessoal, não herdada. Sei que se trata de uma tarefa que exige uma sinceridade mais que humana. É evidente, em primeiro lugar, que me está vedado pedir. Pedir que não anoiteçam meus olhos seria loucura; sei de milhares de pessoas que vêem e que não são particularmente felizes, justas ou sábias. O processo do tempo é uma trama de efeitos e causas, de sorte que pedir qualquer mercê, por ínfima que seja, é pedir que se rompa um elo dessa trama de ferro, é pedir que já se tenha rompido. Ninguém merece tal milagre. Não posso suplicar que meus erros me sejam perdoados; o perdão é um acto alheio e só eu posso salvar-me. O perdão purifica o ofendido, não o ofensor, a quem quase não afecta. A liberdade de meu arbítrio é talvez ilusória, mas posso dar ou sonhar que dou. Posso dar a coragem, que não tenho; posso dar a esperança, que não está em mim; posso ensinar a vontade de aprender o que pouco sei ou entrevejo. Quero ser lembrado menos como poeta que como amigo; que alguém repita uma cadência de Dunbar ou de Frost ou do homem que viu à meia-noite a árvore que sangra, a Cruz, e pense que pela primeira vez a ouviu de meus lábios. O restante não me importa; espero que o esquecimento não demore. Desconhecemos os desígnios do universo, mas sabemos que raciocinar com lucidez e agir com justiça é ajudar esses desígnios, que não nos serão revelados.



Quero morrer completamente; quero morrer com este companheiro, meu corpo.



Jorge Luís Borges

à atenção do sr bispo

Com uma distância de quase cento e cinquenta anos, mantém-se a pertinência do reparo:

...E V. Exa.não poderá contestar que a nossa sociedade está afectada do flagelo da indiferença. Há indiferença em todas as classes, e a indiferença, melhor do que eu sabe V. Exa, é o veneno subtil, que corrói fibra por fibra um corpo social.

Em vez de ensinar a religião pelo seu lado sublime, ou antes pela sua verdadeira e única face, é pelas cenas impróprias e improveitosas que a propagam. Os nossos ofícios e mais festividades estão longe de oferecer a majestade e a gravidade imponente do culto cristão. São festas de folga, enfeitadas e confeitadas, falando muito aos olhos e nada ao coração. ...




Machado de Assis

Publicado em 18/04/1862 no
Jornal do Povo do Rio de Janeiro

2009-01-29

o inferno, questão em aberto

A temática do inferno continua, para meu espanto, a suscitar controvérsia e discussão. Da doutrina sobre o inferno, priviligia-se mais o elemento mitológico (condenados, juízo, penas eternas) do que o teológico - exclusão da comunidade do Deus vivo.

Sinto que para muitas pessoas, essa visão mitológica, torna mais fácil a rejeição de Deus. Quem deseja acreditar num Deus vingativo, surdo aos apelos humanos, capaz de condenar o Homem por um único pecado grave cometido? Qualquer pessoa com um mínimo de sensibilidade humana será capaz de de fazer melhor do que um Deus assim. Creio que é mais fácil a atitude de rejeitar do que a de aderir, por isso é tão difícil passar a mensagem cristã da "Boa Nova".

Crer no Deus de Jesus Cristo é aderir à fé num sentido positivo. Não vivo mais inquieta com uma possível condenação divina. Sei que não são as boas obras que pratique que me vão justificar, mas a confiança de que "todos os momentos da minha vida estão nas mãos de Deus" (Sl 31).

Mas poderá Deus tratar do mesmo modo a vítima e o assassino? Vai Deus salvar todos os homens mesmo os que não o desejam? Se acreditamos na liberdade, temos de presumir que não. Que acontece então a essas pessoas? Eu não me consigo imaginar a ser uma delas. Muito menos conseguiria desejar isso para alguém. Tenho então de presumir que falar do inferno é falar de algo que escapa à capacidade de conhecimento humano. Aceito deixar a Deus a decisão para estas questões para as quais não conheço respostas. Faço minhas as palavras de Paulo aos Romanos:"Quem é que conhece os pensamentos do Senhor? Quem pode dar conselhos a Deus?"

2009-01-28

pregando aos infiéis

(Luca Signorellis, The Damned)
"Hoje falo para muitos que sabem que não estão convertidos. Sabes, se caíres morto no chão, vais directamente para o inferno".

O. Hallesby


2009-01-27

seis coisas sobre mim

Esta passou-me o Lino. Mostro-me, então, um bocadinho.

Meço um metro e sessenta e peso setenta e um quilos. O que, para os padrões ocidentais do hemisfério norte que nos regem, é altura a menos e peso a mais. Não faz mal. Gosto de tudo o que tenho. E que a vida mo conserve.

Sou mãe da Maria e da Ana. Que desde que nasceram, são o sol da minha vida. Já me deram, entre outras alegrias, o Luís e o Vítor, o que me faz mãe de quatro filhos. E hão-de dar mais...

Tenho uma mania que transporto desde criança bem pequena. Sou incapaz de tomar qualquer medicamento que me seja dado por uma colher. A minha primeira recordação (para aí com dois, três anos) é o meu pai atrás de mim no quintal, a tentar dar-me uma colher de antibiótico (era de cor branca) e eu a recusar. Devo ter tomado esse, mas nunca mais tomei nenhum.

Adoptei como lema de vida, nunca aceitar qualquer situação em que receba menos do que mereço. Não tem sido fácil de pôr em prática, mas vou no bom caminho.

Acho que a maior arte é viver.


Tenho o sonho de ser capaz de pôr a minha vida, num único verso, e não morrer sem fazer dele confidência a alguém.


Para não quebrar a corrente, tenho de escolher umas tantas vítimas ao sacrifício, aqui ficam os contemplados. Só homens porque esta é das coisas que eles gostam mesmo de fazer:




António

Pedro

José Eduardo

Zé Maria

Luís

das lutas fratricidas

Sobre este meu post, o meu mano João, esceveu:

Quando o problema sempre foi outro, o de descobrir que seja o que for que se escolha, há sempre outros. Como nós, por serem outros. Mas, com o tempo, a religião, como a cor da pele, o traje, a língua ou o gosto sexual, tende a perder a identidade guerreira da tribo para ser uma banalidade de escolha e gosto quando não é fruto da condição ou do mero acaso. E as crispações actuais - duras e pagas com muito sangue - são as despedidas dos domínios perdidos. O prazer pela diferença há-de compensar as dores de parto. Porque o conforto adquirido com a segurança da unicidade está frito.


Os crentes crêem em Deus. Os ateus negam-no. Nem uns podem demonstrar que existe, nem os outros que não existe. Estão condenados a viver em paz porque ninguém pode validar a sua preposição.
Não se definem uns aos outros. O que os define é aquilo que não podem provar. E agora?

o combate do amor e da castidade

E quando na ordenação perguntarem: «sabeis se são dignos?», vamos rir juntos, Senhor! Quem disse que na Liturgia não havia lugar para o humor? Tu sabes tudo Senhor... são palavras escritas pelo Zé Maria que vai ser ordenado diácono no dia 28 de Março.

Diz, também, no belo texto que escreveu, saber-se escolhido. Não sei se o Zé Maria se está a referir à vocação de todos os homens, de viverem na simplicidade das suas vidas, o amor presente nelas, ou a alguma forma particular de a viver, tal como, o ministério presbiteral. Fico sempre inquieta, quando se pretende pôr nas mãos de Deus, as decisões que nos cabem unicamente a nós. A partir daí, pode surgir a auto justificação que é um impedimento a vivermos responsavelmente as nossas vidas. Estou a falar contra aquilo que é a tradição na Igreja para justificar as chamadas vocações de eleição.

Para o cristão, a única opção válida de vida, é fazer a vontade de Deus. É uma preposição bíblica e, muito claramente, neotestamentária: «Nem todo o que me diz: 'Senhor, Senhor' entrará no Reino do Céu, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está no Céu. (Mt 7,21). Não há nenhuma validação desta escolha sobre aquela. É para cada um, e tarefa diária, descobrir de que modo fazer a vontade de Deus. E, apesar desse empenho, confiar que só Deus é juiz e melhor do que nós, sabe que, mesmo sem nós o sabermos, deste ou daquele modo, fomos conformes a essa vontade.

A Igreja continua a pedir, que quem escolhe ser presbítero, faça votos de castidade. Desde há longo tempo a Igreja intentou resolver os problemas sexuais, mediante algumas formulações morais. Como se vê, perto de nós ou distante, não resolveu nada. O Zé Maria vai ser ordenado, e vai ter que contar com as forças dele, com as nossas orações e a graça de Deus, para viver o combate do amor e da castidade. Se o Zé Maria tivesse a opção de servir a Igreja e viver um compromisso matrimonial, teria a tarefa mais facilitada? Eu acho que não. Mas gostava que ele pudesse fazer essa escolha. Seria mais verdadeira e configurada à nossa natureza. Como não pode, que Deus o ampare a cada dia.


Comentário do Zé Maria:

Saber-me escolhido: o que significa? Há quase 13 anos dei-me conta que tinha que dar um sentido à minha vida, que tinha que compreender que projecto de vida construir. Foi a altura de olhar a minha história diante de Deus (fazer um discernimento) e acabar por perceber que Deus me chamava a ser Jesuíta. Era essa a minha forma de fazer a sua vontade! Evidentemente, que tive que tomar uma decisão, fazer uma escolha a que Deus nunca me obrigaria. Mas a iniciativa primeira é dele e é a sua graça que me sustenta: é a isto que me refiro quando digo "saber-me escolhido." A experiência de ser eleito está em toda a Bíblia do Povo aos profetas sem esquecer os discipulos chamados por Jesus. Todo Cristão é chamado a seguir Jesus, todo cristão é escolhido por Deus. A opção de seguimento pode concretizar-se no casamento, na vida religiosa, na sacerdócio, etc. Nenhuma opção é superior à outra. Pode-se chegar a essa opção por processos muito diferentes em que Deus está presente e se faz presente.

2º O tal combate entre a castidade e o amor. Em primeiro lugar faço uma distinção que me parece significativa. Antes de ser Ordenado já sou religioso e fiz votos de Casttidade, Pobreza e Obediência. Ao ser ordenado farei o que fazem todos os que são ordenados: "Promessa de Celibato". A questão que se coloca quanto à possibilidade do casamento de ordenados, não abrange o Padres que também são religiosos como será o meu caso. Do mesmo modo que não se coloca a questão das religiosas casarem. A questão do celibato obrigatório é relevante, mas não se confunde com o voto de castidade próprio dos religiosos independentemente de serem padre. Por outro lado sinto que há um certo "preconceito" no modo de olhar para a castidade. Para mim a castidade não é um "combate" ou uma negação. É um modo de amar. Se fosse um esforço ascético para ver se era "capaz de aguentar" seria incapaz de vivê-lo... Também a castidade só é possível de ser vivida como Graça.

(Pietro Perugino, 1448-1523, The combat of love and chastity)

2009-01-26

e esta não posso calar

Não é novo, não é inédito. Entre tudo o que é viável fazer, que apareça a verdade. As vítimas não podem viver sem ela. E nós também não.

enfim...é giro de se ver

uma
e outra. e as duas também

Detectei alguma excitação masculina, bloguística, claro, pelo facto de Woody Allen ter feito a proeza de envolver intimamente, as actrizes Scarlett Johansson e Penélope Cruz.


Fantasiar com qualquer delas já é céu aberto, em inverno rigoroso, fantasiar com as duas que ainda por cima, tal...é ser natal com prendas e docinhos pelos dias fora.

porque não somos perfeitos

Dizem os estudiosos destas coisas, que o ressentimento é mais manifesto nas mulheres, do que nos homens. Será, assim, um sentimento tipicamente feminino?

De qualquer modo, na revista "Notícias Sábado", vem um pequeno desabafo da escritora Isabel da Nóbrega, que foi companheira de José Saramago. Queixa-se ela, que o escritor, em actuais edições dos seu livros, retirou as dedicatórias, "lindíssimas", segundo ela, que lhe tinha dedicado. Os nossos amores são muito frágeis, tantas vezes. Pode acontecer que um suceda a outro. E até tenha a força de tornar rísivel tudo o que aconteceu até aí. Mas nunca consegue limpar e apagar os passos que se deram. Para quê, então, atitudes de ressentimento?

Mudar nem sempre é o melhor

Na busca de um texto de Miguel Unamuno, fui parar a um blogue que termina um texto do seguinte modo"... vou mas é votar PNR, a ver se as coisas mudam."

Lá mudar mudavam, mas para bem pior!

2009-01-25

e agora um fadinho



O rapaz até é engraçado e tem uma voz interessante. António Zambujo, descobri por aí.

Na festa da conversão de S. Paulo

(Caravaggio, 1602, conversão de S. Paulo)

Há alguma vantagem dos que crêem sobre os que não crêem? Objectivamente, não consigo enumerar nenhuma. Os ateus amam, são solidários, vivem a mesma vida dos crentes. Porque é que uns crêem e outros não? Não tenho resposta. Só não posso deixar de dizer: eu creio.


(Titian, Madalena)

Se o Nazareno tivesse medo de sarilhos, tinha-se dedicado a construir gaiolas para canários.

2009-01-23

pateticamente, procuramos ver

(Titian 1488-1576)

"O homem tornou-se como um de nós e sabe o que é o bem e o mal! - Diz Deus" (Gn 3,22)


Da originária semelhança com Deus fez-se uma igualdade com Deus, usurpada. Enquanto o homem, como imagem de Deus, vive totalmente em Deus em virtude da sua origem, feito igual a Deus, usurpou a sua origem e tornou-se o criador e juiz de si mesmo....O homem, como imagem de Deus, vive da origem de Deus, o homem feito igual a Deus vive da sua própria origem, o homem inseriu em si mesmo um mistério de Deus - a Sagrada Escritura descreve este processo mediante a manducação do fruto proibido - e com ela se perde. O homem sabe agora o que é o bem e o mal.

...O homem em vez de ver Deus, vê-se a si mesmo.

Dietrich Bonhoeffer - "Ética"




a crença dos pés-descalços. atentai, isto é profético

(Guido Reni, Moisés)



"Não te aproximes daqui; tira as tuas sandálias dos pés..." (Ex 3,5)


Moisés, um cientista, que nas horas vagas guardava as cabras do sogro Jetro, teve o seu zénite de comunicação divina, quando tirou as sandálias. Só descalço ou, vá lá, de pantufas um cientista pode pensar Deus.

2009-01-20

reclamação especial (da espécie que somos)


Acho muito bem que se celebre o Darwin. Só não entendo que, de cada vez que se proclama o avanço científico que nos advém de Darwin, se negue Deus. Antes era a religião a explicação de todas as coisas. Agora é a ciência. Acaso temos vocação de coxinhos -ora num pé, ora no outro?

grande fortuna

(Reuters/Rick Wilking)

ao homem. Para bem da América e de todos nós.

2009-01-19

uma sociedade limpinha e eficiente composta por famílias perfeitas:

“la homosexualidad no es un componente necesario de la sociedad, como lo es la familia”.

Declaração do Pontifício Conselho para a Família, no VI Encontro Mundial da Família, no México.
Se vamos entrar na discussão sobre o que é útil e necessário à sociedade teremos que ignorar muita realidade. Passaremos, então, a falar de idealismos. E não sei o que faremos aos idosos, doentes, marginais...

cristianismo desgraçadinho

"Não podemos professar uma cristianismo desgraçadinho vencido pelo pecado e a morte, nem venerar um Cristo crucificado e morto". "Se durante 20 séculos andamos a passar a mensagem numa linguagem que a maioria não entendia (Latim), espero agora que não se leve o mesmo tempo a introduzir a verdade da vida em Cristo".

Substituir as imagens de Cristo crucificado pelas de Cristo ressuscitado provocou alguma celeuma. Com declarações do próprio bispo. Para quando uma fé no Cristo vivo e presente na nossa História. Com imagens ou sem elas, que são o que menos interesse tem.

2009-01-18

Porque hoje é domingo

Ele respondeu-lhes: «Vinde e vereis.» (Jo 1,39)

E começa o desassossego. Não há mais moralidade que cubra o corpo, nem paz que sossegue a consciência. O compromisso é com a procura, não é com a segurança.

até Deus fica perplexo

Que o patriarca tenha desassossegado a comunidade muçulmana, a propósito do casamento de jovens católicas com muçulmanos, por causa dos “sarilhos” em que se podem meter, é um aviso de pastor responsável. Não deveria, no entanto, esquecer o que se passa em sua casa. Seria bom que desassossegasse os seus colegas no episcopado, a começar pelo bispo de Roma, acerca dos sarilhos em que envolveram as exigências da celebração do casamento católico - algumas delas dispensáveis - que leva muitos a ficar, apenas, pelo casamento civil. A relação com o divórcio, com um segundo casamento, com o impedimento do acesso à comunhão eucarística dos recasados, acaba por aumentar o número dos católicos não praticantes. Como os sacramentos são para ajudar e não para complicar, até o próprio Deus deve exclamar: ai o que estão a fazer da graça do matrimónio!

Frei Bento Domingues, no Público de hoje.
colhido daqui
Estar contente com os homens, recebê-los com o coração aberto é liberalidade, mas nada mais do que liberalidade. Os corações capazes de nobre e hospitaleira amizade conhecem-se pelas muitas janelas encobertas e cofres fechados: os seus melhores espaços mantêm-se vazios. Porquê? - Porque esperam hóspedes, com quem não é possível sentir-se bem.

"Crepúsculo dos Ídolos" - Nietzsche

Uma mulher é uma mulher



Quando cheguei a esta coisa dos blogues já cá estava quase toda a gente. Dos que comecei a seguir, continuam por cá quase todos e bem vivos. Um deles, é o 2 dedos de conversa. Conta a Helena que já tem cinco anos. Não esqueço a Céu, mas a Helena tem mantido a alma e o corpo do blogue a funcionar. E de que modo!

Helena, de mulher para mulher, aqui fica o "Vício de ti",dos "Mesa", com votos de que continues com a garra de sempre.

2009-01-16

as crianças, essas inconvenientes

No Portugal profundo, sentam-se sem pejo, na mesma mesa, poderes autárquicos e poderes religiosos. Fazem-se mútuos elogios, falam-se dos Euros dispensados e recebidos com reverência. E o programa seguiria em perfeita harmonia, não fosse o à parte de T. (7 anos):"mas o padre ... vai discursar? Ele só sabe rezar!". Dito por outras palavras: "cada macaco no seu galho."


A Igreja Católica precisa de dinheiro para manter o património. E, se, muitos lugares de culto se construíram sem gosto nem arte, e à primeira vista, até era um benefício para todos que ruíssem, não se pode ignorar o valor de memória pessoal e colectiva que os habita. Que o Estado comparticipe na sua recuperação, não me escandaliza por aí além.


Também considero que as diversas forças sociais devem interagir, não precisando de actuar em compartimentos estanques. Mas, por vezes, a fronteira entre sã convivência, a servir determinada comunidade, e seguir a reboque de evidentes propósitos eleitoralistas, é ténue demais.

crónica de guerra

(Eva Gonzales)


Paulatinamente foi-lhe armadilhando todos o recantos de gozo. Os conhecidos e insuspeitos. Em cadência, fazia-os detonar um a um. Ou, de modo inesperado, todos ao mesmo tempo.
Um dia, unilateralmente, declarou um cessar-fogo!

2009-01-15

(Gustave Caillebotte, 1876)

ferida


fer

ida

sem

ferida

tudo

começa

de novo

a cor

cora

a flor

o ir

vai

o rir

rói

o amor

mói

o céu

cai

a dor

dói


Augusto de Campos

2009-01-14

D. José não devia frequentar casinos...

Instado a falar sobre os homossexuais, ficamos a saber que um grupo de homossexuais católicos escreveu ao seu bispo. Não teve resposta. Ao mesmo tempo, diz que têm lugar na Igreja, desde que vivam evangelicamente. Gostava que o D. José definisse o "evangelicamente". Mas este é o discurso normal na Igreja Católica. Por isso, tantos homens de bem rejeitam este cristianismo. Mas a Igreja não é só o discurso oficial da hierarquia dominante. Muitos homens e mulheres dentro dela, procuram a radicalidade evangélica.

A'vó Felismina também dizia o mesmo:

“Cautela com os amores. Pensem duas vezes em casar..." .Obrigada, D. José, vou pensar nisso.

2009-01-12

muito verdinha


Na Antena 3, Pedro Mexia falava copioso de uma tal Cláudia Vieira. Fui pesquisar. Não sendo desengraçada, ainda tem de amadurecer muito para alcançar a minha Eva comedora de uvas.

Paradoxos à parte, tenho andado distraída

e só hoje me deu para ler o ilustre cidadão de Ourique: O ateu militante é imensamente chato, porque não tem a desculpa da fé. Esta gente alimenta-se das sucessivas vitórias em batalhas de uma guerra que nunca poderá ganhar. Paradoxo maior só mesmo essa figura que é o "católico não praticante". Como se resolve isto? Fundindo os dois paradoxos, como quem faz uma verdade de uma dupla negação. E assim se explica que o "ateu não praticante" está com a razão, por muito que nos custe a nós e sobretudo a ele.

Boa e inesperada prosa no Ouriquense.




hoje tenho de dar um bocado de razão ao homem:

A notícia não é ilusão, mas também não constitui conhecimento útil, porque distante. Mas, ao discutir esses magnos problemas planetários, cada um sente-se sábio e importante. No nosso sofá parece-nos, de alguma maneira, participar nesses assuntos grandiosos e decisivos.



Hoje, na informação da Rtp 1, ficámos a saber que o cão da família Obama pode vir a ser português. Importante, sem dúvida...

nem só de maçã vive a Eva

Karl Brullof, 1827
ST. Petersburg


2009-01-11

publicidade ateia

A partir do momento em que o cristianismo foi alcançando povos e nações e ganhando força histórica de religião totalizante, foi perdendo a noção de que vive num mundo plural e onde outras expressões de fé, ou a ausência dela, têm lugar e espaço público e privado.
Para o crente cristão, Cristo é o caminho que conduz à salvação. Nele se consuma a totalidade da revelação divina. E, no entanto, "há um mistério, para o qual não existe explicação, no facto de só uma parte da humanidade ter reconhecido a figura do seu redentor. O desejo do encarnado de ganhar figura em todos os homens permanece, até agora, por cumprir. Ele, que carregou com a figura do homem, pode apenas obter forma num pequeno grupo: trata-se da sua Igreja. (Dietrich Bonhoeffer, Ética).

No Reino Unido, e já estendido à cidade de Barcelona em Espanha, foi lançada uma campanha publicitária com o seguinte teor: "Provavelmente, Deus não existe. Desfrute a vida".

Começando pela segunda parte do anúncio, não podemos dizer com verdade que, da revelação divina, se possa tirar a ideia de que Deus é opositor das alegrias dos homens. Nos Evangelhos temos um convite claro à vida e à alegria. São do Eclesiastes as seguintes palavras:"Vai, come o teu pão com alegria e bebe com prazer o teu vinho, porque a Deus agradam as tuas obras. Veste-te sempre com vestidos brancos, e haja sempre óleo perfumado sobre a tua cabeça. Goza a vida com a mulher que amas, durante todos os dias da tua fugaz existência que Deus te concede debaixo do sol."

A primeira parte do anúncio, é a legitima expressão de quem se declara ateu.


O que leva, então, uma organização britânica cristã a protestar por causa dos anúncios e a acusá-los de publicidade enganosa, a menos que provem que Deus existe?
















Investiu-o de luz.

mantei-nos de rédea curta, Senhor nosso Deus...

Deus tem o condão de nos paralisar quando se tem respeitinho. João leal

2009-01-10

um tesão de fazer fornicoques

Entra de rompante e proclama: quero recensear-me!
- Mas não está recenseada? (já passa dos trinta e muitos)
- Não! Mas nas próximas eleições quero votar. Vou tirar de lá o Sócrates.
...
- Não precisa de se recensear porque já o fez há doze anos.
- Ah!
(Veja lá é se mantém a vontade por mais uns mesitos e encontra o cartão de eleitor)

2009-01-09

de lamentos estamos nós cheios

cartoon by MCCoy - Washington post

comentadores anónimos




O anonimato é útil; mais: é desejável; aliás, é inevitável. Princípio regulador, testa os mais capazes pela exposição a juízos gratuitos, afirmações infundadas, sarcasmos ofensivos, e por aí fora. Uns clamam por discussão séria… A desfortuna é que há ocasiões apenas adequadas a lembrar a precariedade do que se diz, a vaidade inerente à publicação, o esquecimento ali à espreita, ocasiões como que causadas por alguma força superior, força anónima, justamente.

Anónimos, Anónimos por Abel Barros Baptista in Ler

Como se costuma dizer, anónimos somos nós quase todos. Eu, por principio, seria incapaz de um comentário anónimo. Já me abespinhei com alguns. Mais pelo conteúdo do que pela indicação de autoria. Mas, também, aprecio bastante alguns comentários anónimos que pelo que dizem assumem uma força maior, precisamente, por ser sob a forma de anonimato.

No blogue De Rerum Natura também anda uma interessante discussão sobre o insulto, liberdade de expressão etc.

2009-01-08

dormir com as galinhas, mas não ligar ao galo

(Shanghai January 8, Reuters/Nir Elias)

Aqui está um homem que verdadeiramente se deita com as galinhas. Deve levantar-se ao cantar do galo. Com o frio que aí anda é o melhor a fazer. Mas de manhã, deixa-se o despertador ir tocando a intervalos de cinco minutos...eu já vou no terceiro toque.

Deus em "High Definition TV"


Num debate na Antena 3, um ouvinte afirma com a mais profunda convicção, que desde que apareceu a TV, deixaram de haver milagres. Suponho que passaria a crer, no dia em que Deus fosse convidado da Judite de Sousa na "Grande Entrevista". Pois.

Terrorismo


(The Guardian)

2009-01-06

???

Quem tem mais direito de existir? Árabe? Judeu? Rico, pobre? Quem tem mais direito de opinar sobre isso? Redford corre da mentira, Gould fotografa seus excrementos, Finch berra a respeito dela e Jagger canta “eu existo através do OUTRO”. Nós existimos através do outro! E somente através do outro.

Quem tem o direito de não existir? Você? Eu? Um? Dois? Será somente uma questão psicótica? Neurológica? Imaginária? Numérica? Somos muito pequenos? Valemos quanto? Quanto dinheiro? Quantas gramas ou quilos? Ou seremos pequenamente, lentamente, assassinados?

Gerald Thomas

Eu também só sei fazer perguntas. Mantenho-me na inconstância da adolescência? ou ainda pior: regredi à idade dos porquês? Para alguém que se assume como crente e praticante de uma religião, as coisas deveriam ser mais simples: o mundo divide-se entre puros e impuros. Boa, mais uma divisão. E eu, de que lado estou? Aderi a Cristo estou salva. Estou? E os outros?

Adenda:

se tiverem a bondade de ler este post do Nuno verão bem empregue o tempo.

uma nova estação


Que o mundo avança a velocidades estonteantes, todos vamos sentindo. Como processar todos os elementos novos que vão surgindo, já é mais difícil. Neste nosso jardim, conhecíamos quatro estações. Hoje teve início uma outra - recessão. Vai alastrando pelo mundo todo a cada dia. As análises, diagnósticos, previsões apocalípticas sucedem-se. Nós, vamos vivendo como sempre - um dia de cada vez.



Um banho quente acalma o corpo. O vestido branco acomoda os desejos que foram tomando forma ao longo do dia. A paz...a paz...a paz...

2009-01-05

ostensivo silêncio


Deixámos hoje o senhor Gaspar, um dos últimos que me chamava menina, misturado com o silêncio ostensivo dos ciprestes. Vã é qualquer tentativa de perguntar à vida e morte discretíssimas do senhor Gaspar, os "porquês" e "para quês" que nos invadem. Nunca se viveu o suficiente para adquirir conhecimentos de tais causas. Resta-nos o balbucio confiante, porque as nossas mãos continuam vazias: "habitarei na casa do Senhor para todo o sempre" (Sl 23,6)
(Imagem - comesempalavras.blogs.sapo.pt/

2009-01-04

desafio à fé

O melhor que nos poderia acontecer em 2009 seria a perda da fé naquilo que nos perde e nunca nos poderá salvar.

Frei Bento Domingues

as mulheres, essas malvadas:


Já dizia o outro que a mulher é a ameaça de qualquer paraíso. Pois claro, segundo o senhor doutor José María Simón Castellví, presidente da Federação Internacional de Associações Médicas Católicas (FIAMC), a pílula anticoncepcional é responsável pela violação de nada mais nada menos do que C-i-n-c-o dos direitos humanos. Entre tantas coisas maléficas está a descarga de t-o-n-e-l-a-d-a-s de hormonas, através da urina, o que dá cabo dos espermatozóides, tadinhos.


em que ficamos?

O sacramento do matrimónio é uma instituição do próprio Cristo, logo, indissolúvel. Excepções destas contradizem a afirmação anterior, certo?

captura



Nikio Naruse - Three Sisters (1935)

à luz da Palavra

Levanta-te e resplandece, Jerusalém,
porque chegou a tua luz
e brilha sobre ti a glória do Senhor.
Vê como a noite cobre a terra
e a escuridão os povos.
Mas sobre ti levanta-Se o Senhor
e a sua glória te ilumina.
As nações caminharão à tua luz
e os reis ao esplendor da tua aurora.
Olha ao redor e vê:
todos se reúnem e vêm ao teu encontro;
os teus filhos vão chegar de longe
e as tuas filhas são trazidas nos braços.
Quando o vires ficarás radiante,
palpitará e dilatar-se-á o teu coração,
pois a ti afluirão os tesouros do mar,
a ti virão ter as riquezas das nações.
Invadir-te-á uma multidão de camelos,
de dromedários de Madiã e Efá.
Virão todos os de Sabá,
trazendo ouro e incenso
e proclamando as glórias do Senhor.

Isaías 60, 1-6

2009-01-01

e o prémio do concurso:




ovelhinha convencida: Vai para o Lino. Prometi como prémio um produto regional e cumpro: umas belas trouxas de ovos. Trouxa é o terceiro nome (George Bush Trouxa) do convencido sugerido pelo Lino.


Lino, por agora contentas-te com a vista. Se vieres às Caldas está combinada uma prova oficial: levo-te a comer as melhores.

Cá estamos (a)gosto

Não é Agosto é Janeiro, mas logo, logo lá estaremos, e eu tenho de pensar num pouco de sol porque com esta humidade toda, já quase me sinto uma lesma.


Humidades à parte, o ON quer ver se eu mudo o subtítulo do blogue (ele não disse, mas eu adivinho) vai daí, quer que eu assuma que a frase da Adélia Prado não tem lógica. Ele argumenta e eu defendo-me como posso. Para mim, a frase tem todo o sentido. Tem o sentido que eu lhe dou (o que já é muita coisa). Quanto à recorrente discussão, processa-se mais ou menos assim:


Os caracóis e as carpas têm cornos

os caracóis e as carpas têm cornos
vês, eu não te dizia?
as carpas e os caracóis não têm cornos
vês, eu não te dizia?
as caracoias e os carpos têm cornos
vês, eu não te dizia?
os carapoicos e os parcos não têm cornos
vês, eu não te dizia?
as carapaias e os porcos têm cornos
vês, eu não te dizia?
os caracoicos e as parras não têm cornos
vês, eu não te dizia?
as carassaias e os parcas têm cornos
vês, eu não te dizia?
os caracorpos e as praias não têm cornos
vês, eu não te dizia?
as caracaias e os poicos têm
vês


Ana Hatherly