2009-01-30

tentar uma oração, segundo Jorge Luís Borges

Minha boca pronunciou e pronunciará, milhares de vezes e nos dois idiomas que me são íntimos, o pai-nosso, mas só em parte o entendo. Hoje de manhã, dia primeiro de julho de 1969, quero tentar uma oração que seja pessoal, não herdada. Sei que se trata de uma tarefa que exige uma sinceridade mais que humana. É evidente, em primeiro lugar, que me está vedado pedir. Pedir que não anoiteçam meus olhos seria loucura; sei de milhares de pessoas que vêem e que não são particularmente felizes, justas ou sábias. O processo do tempo é uma trama de efeitos e causas, de sorte que pedir qualquer mercê, por ínfima que seja, é pedir que se rompa um elo dessa trama de ferro, é pedir que já se tenha rompido. Ninguém merece tal milagre. Não posso suplicar que meus erros me sejam perdoados; o perdão é um acto alheio e só eu posso salvar-me. O perdão purifica o ofendido, não o ofensor, a quem quase não afecta. A liberdade de meu arbítrio é talvez ilusória, mas posso dar ou sonhar que dou. Posso dar a coragem, que não tenho; posso dar a esperança, que não está em mim; posso ensinar a vontade de aprender o que pouco sei ou entrevejo. Quero ser lembrado menos como poeta que como amigo; que alguém repita uma cadência de Dunbar ou de Frost ou do homem que viu à meia-noite a árvore que sangra, a Cruz, e pense que pela primeira vez a ouviu de meus lábios. O restante não me importa; espero que o esquecimento não demore. Desconhecemos os desígnios do universo, mas sabemos que raciocinar com lucidez e agir com justiça é ajudar esses desígnios, que não nos serão revelados.



Quero morrer completamente; quero morrer com este companheiro, meu corpo.



Jorge Luís Borges

7 comentários:

  1. este blog está a ficar muito ateu!

    ResponderEliminar
  2. escreve-se qualquer coisa que soa bem. até pode ser profundo. até pode não ser. as pessoas aplaudem.

    outras vezes escreve-se qualquer coisa bem apresentada mas que contradiz aquilo em que as pessoas do meio acreditam. não comentam. que significado atribuir a tal facto? não perceberam? o silêncio significa reprovação? ou é uma forma de evitar controvérsias? por não se sentirem seguras? por terem mais que fazer?
    eu: gostava de saber!

    ResponderEliminar
  3. não sei porque é que as pessoas não comentam. também só tenho cinco ou seis leitores, e são esforçados, coitados :) mais do que eu mereço.

    mas queres que diga porque postei J.L. Borges?

    ou podes escrever o que o texto te disse...se disse.

    ResponderEliminar
  4. Sim, porque postastes JLB?
    A escrita é do mais belo que alguma vez li mas não podes estar de acordo com a mensagem!

    ResponderEliminar
  5. Orlando,

    nunca fui cega e é-me difícil imaginar o mundo visto pelos cegos. Mas há muitos tipos de cegueira e muitos tipos de morte.

    Porque postei este texto? porque tenho rezado com ele. Porque Borges traduz a cegueira que é minha. Borges dá palavras ao meu mutismo.

    Creio na ressureição, mas não há ressurreição sem mortes e morte. A morte que eu quero é para que Deus viva. Não para o esquecimento (aqui assumo a minha fé).

    Não sei se consigo fazer-me entender :) é uma coisa muito pessoal. Que só diria em confissão. :)

    ResponderEliminar