2009-02-28

e o deserto em nós

(José Ribera)



Imediatamente o levou ao deserto (Mc 1,12). O deserto local de encontro e de enfrentamento. A Boa Nova cristã é de que a luta a travar, não é mais a de sermos redimidos da culpa - já fomos perdoados - mas com tudo o que impede sermos de Deus.

Nuestro concepto de pecado se basa en el mito de la ruptura. A partir de ahí, la religiosidad consistirá en una recuperación de lo perdido.

Hoy tenemos conocimientos suficientes para intentar otras explicaciones más de acuerdo con los datos que manejamos sobre el hombre, sobre el mundo y sobre Dios. Soy el fruto de una evolución y sigo avanzando. No he perdido nada, y mi obligación es alcanzar la máxima plenitud posible. La ruptura con Dios es imposible, porque Él forma parte de mi propio ser.

O caminho da plenitude é um processo de evolução libertadora. Mas nenhuma libertação ocorre sem que se enfrentem as tentações imediatas e latentes.

Não estamos perdidos nem abandonados à nossa sorte. Dispomos de meios para viver harmoniosamente connosco próprios, com os outros, com Deus.

A profundidade do deserto que enfrentamos, liberta-nos ou cerca-nos, consoante as escolhas que fizermos. Sabendo, porém, que nenhuma cura ocorre sem dor e sem morte. Em Deus não há morte definitiva. Assim o queiramos.

2009-02-13

Gustav Klimt



VIVAM, APENAS.

Vivam, apenas.
Sejam bons como o sol.
Livres como o vento
naturais como as fontes.

Imitem as árvores dos caminhos
Que dão flores e frutos
Sem complicações.

Mas não queiram convencer os cardos
A transformar os espinhos
Em rosas e canções.

E principalmente não pensem na Morte.
Não sofram por causa dos cadáveres
Que só são belos
Quando se desenham na terra em flores.

Vivam, apenas.
A morte é para os mortos.


José Gomes Ferreira

2009-02-12

Elogio da inutilidade - Conferências



Este Ciclo consiste num conjunto de quatro conferências proferidas mensalmente por oradores convidados que se destacam em diferentes áreas, tendo cada um como objectivo apresentar o seu testemunho e a sua perspectiva de/da Inutilidade. A organização destes encontros é da responsabilidade da Pastoral do Colégio do Amor de Deus.



“Porque é o inútil tão importante? Porque o inútil é o subtrair-se à ditadura das finalidades que acabam por nos desviar de um viver autêntico. E a inutilidade é um viver perto do ser.Ela dá-nos acesso à polifonia da vida, na sua variedade, nos seus contrastes, na sua realidade densa. A polifonia da vida é a sua inteireza, a sua globalidade. A renúncia à exclusividade do útil para abraçar o inútil abre-nos a ela.”


25 de MarçoEducar para a InutilidadeJoana Rigato (Professora de Filosofia e Membro da Comissão Justiça e Paz)

29 de AbrilSebastião da Gama, um professor InútilP. Alexandre Ferreira dos Santos (Pároco de Queijas)

27 de MaioA Inutilidade no meio empresarialPaulo Pereira da Silva (Presidente da Renova)

As intervenções dos convidados serão seguidas de um tempo de debate.


Com muita pena não posso participar, mas gostava muito.





bispos apelam à decência

Os bispos da Flórida (Estados Unidos) pediram ao governador Charlie Crist que «instaure um novo padrão de decência» no estado, abolindo a pena de morte.

A seguir pedem para substituir a pena de morte por prisão perpétua. É substituir uma violência por outra. Mas não à pena de morte, definitivamente.

2009-02-11

João Gilberto - Carinhoso

Série "desparramadas" # 1

«O sexo é fundamental! Faz parte da natureza humana.»


Padre Joaquim Carreira das Neves
(no programa de tv 'Sociedade Civil' de Fernanda Freitas) 24.Jan.2009



Uau! O que nós andámos para aqui chegar. Esperamos que natureza e graça não sejam mais antagónicas. Assim seja.

meditação

Gabrielle Munter, 1917

O mundo, por si só, dificilmente nos poderia persuadir que é completo e suficiente.
Difícil é para nós acreditar seriamente que não temos direito a mais nada.
Esta parede de figuras imutáveis, com as mesmas enervantes questões, onde colocamos as nossas histórias inconsistentes,
Difícil é impedir que desmorone e que se torne bizarra e transparente.
Difícil é vendar os olhos todo o tempo e pensar em outra coisa.
Difícil é, como se não o soubéssemos, ouvir os elogios ao vinho e à rosa que amamos:
As armadilhas que são armadas, peça a peça sob os pés, a doença e o pecado,
É humilhante nelas cair sempre, e sentir-se sempre um imbecil e um fraco,
É humilhante sofrer a imposição da grosseira máquina corporal quando sabemos que fomos feitos para comandá-la
E é idiota a vanglória da carcaça de que somos inquilinos desconfortáveis,
Este Palácio sobre o mar em que nada compensa o tédio espantoso,
Senão o retorno aos nossos Trabalhos Forçados”.
Paul Claudel

2009-02-10

os bispos portugueses e a tendência para asneirar:


A Conferência Episcopal, a quem bastava dar a posição da Igreja sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo, resolve dar palpites sobre dicionários e a Constituição.

Não sabem, mas deviam saber, que todos os dias os dicionários teriam que ser alterados. A Língua Portuguesa é uma língua viva, não está morta nem se fechou à criatividade. Como são vivas e reais, as pessoas sobre quem eles sentenciam sem caridade.

Adenda: Pelo Miguel fiquei a saber da dinossaúrica Nota Pastoral. "Defender o casamento" e a "família tradicional". O que é que é mais importante: as instituições ou as pessoas?

Provas científicas de Deus...

Concordo, em parte, com Manuel António Pina:

Os escrúpulos científicos deste e outros dignatários desta e doutras igrejas inquietam-me sempre. Começo a pensar que terão provas científicas da existência dos seus deuses mas as guardam só para si.

Nem sempre a religião respeita o espaço próprio da Ciência. Concordo e admito. Já pedir provas científicas de Deus, é pretender reduzir o homem ao científico e natural.
O Manuel António Pina, de certeza, já amou e foi amado. De que ciência se socorreu para provar esse amor?

2009-02-08

quando os homens belos vão à guerra



Simone Weil discorre sobre a força, tendo como fonte de meditação, a Ilíada. A qual considera o "verdadeiro herói" o "centro da história". Aqueles que sonharam que a força graças ao progresso, pertencia ao passado, puderam ver neste poema um documento; aqueles que sabem discernir a força, hoje como outrora, no centro de qualquer história humana, lá encontrarão o mais belo, o mais puro dos espelhos.

"A força, é o que torna quem lhe é submetido uma coisa."

"Nunca se exprimiu com tanta amargura a miséria do homem, que o torna até incapaz de sentir a sua própria miséria."

"Assim impiedosamente a força esmaga, assim impiedosamente inebria quem a possui, ou crê possuí-la. Ninguém a possui verdadeiramente."

"Assim a violência esmaga aqueles que toca. Acaba por parecer exterior àquele que a manipula como àquele que a sofre; nasce então a ideia de um destino sob o qual carrascos e vítimas são igualmente inocentes, os vencedores e os vencidos irmãos na mesma miséria."

"Que os homens tenham como destino a morte é algo contra natura"

"A diversidade de imperativos que pesam sobre os homens cria a ilusão de que há neles espécies distintas que não podem comunicar. Só é possível amar e ser justo se se conhecer o império da força e se souber não o respeitar"

E como tem razão, quando diz o que podemos ter como presente:"estranho século aliás, em que ao contrário dos tempos épicos, só era permitido descobrir a miséria do homem no amor, enquanto que os efeitos da força na guerra e na política tinham de estar sempre envoltos em glória....Talvez reencontrem o génio épico quando quiserem acreditar que nada está ao abrigo do destino, nunca admirar a força, não odiar os inimigos e não desprezar os infelizes. Duvidamos que seja para breve."

Simone Weil in "A Fonte Grega"

Imagem-Reuters/Finban O'Reilly
Congo 2009

agir com responsabilidade

Foi o que fez a chanceler alemã, Angela Merkel. Pegou no telefone, e falou com o Papa sobre as dementes declarações do bispo "lefebvriano". Segundo ela, "foi uma conversa construtiva".

Notícia Público

à Luz da Palavra


“Fiz-me tudo para todos a fim de ganhar alguns a todo o custo.” 1 Cor 9, 22

Esta é a consequência da encarnação de Jesus: nada do que é humano lhe é estranho. Ele é o Deus cheio de compaixão, que escuta os lamentos de Job e pega na mão da sogra de Pedro para a levantar, que cura muitas pessoas e expulsa demónios, mas que também busca a intimidade com o Pai e tem o desejo de levar a outros o dom do seu amor. Tem palavras que libertam porque é próximo e íntimo de cada um. Ama sem julgar, perdoa sem castigar, salva sem cobrar nada. A sua presença é experiência de comunhão com os fracos. Sim, Paulo aprendeu de Jesus que o caminho do Evangelho é fazer-se fraco com os fracos! Porque a lógica da força oprime e destrói, gera orgulho e violência, distingue e exclui. Que bom não sermos “donos” de Deus, e Ele gostar tanto de nos surpreender! Que alegria saber que Ele calça os meus sapatos, e conhece os meus caminhos! Que esperança é acreditar que o seu conhecer-me é amar-me!
P. Vítor Gonçalves
texto integral aqui
imagem-StellaCarbono

2009-02-07

D. Helder da Câmara


Crentes e não crentes


Os que não crêem têm em comum com os que crêem
que o Senhor acredita neles.

Será a surpresa de cristãos e de católicos
quando virem que não entrarão sozinhos
na casa do Pai...
Porque o coração do Pai
é muito maior que os registos de todas nossas paróquias,
e que o Espírito do Pai
sopra por toda parte,
mesmo lá aonde os missionários ainda não aportaram!
Vocês sabem, não existe um pensamento humano
que não contenha uma parte ao menos da verdade,
uma parcela do pensamento do Criador.

Não, a partilha da esperança
não exige a partilha da fé.
Simplesmente, os crentes
têm mais responsabilidade.
D. Helder da Câmara

2009-02-06

no caminho do pluralismo

O relato evangélico apresenta-nos Jesus a nascer fora das portas da cidade, especificando que "não havia lugar para eles na hospedaria" (Lc 2,7). Não será um facto histórico, mas um ensinamento teológico. Ontem como hoje, não temos lugar para nada do outro, nada para o outro. Cada um vive enclausurado nas suas realidades circunstanciais, e, a partir daí, lança um olhar sobre o mundo. Depois, é só atribuir as classificações que são úteis para cada uma das necessidades.

Dentro da Igreja Católica, é dela que pretendo falar, claramente aparecem dois pólos que mutuamente se excluem - o pólo absolutista da Tradição e do magistério, e o pólo que relativiza ambas as coisas. Há um grupo, bem pequeno, que pretende pôr alguma luz nestas posições antagónicas e aponta o caminho do pluralismo. Não tem alcançado muito sucesso. Acaba, sempre que consegue alguma visibilidade, a atrair as atenções do pólo absolutista (que detém o poder) e a receber ordens de não espalhar as suas ideias.

O valor que invocam para tal acção, é a defesa da fé única. O que supõe o valor da unidade. Mas a unidade não é feita, exclusivamente, por iguais. "A fé única pode expressar-se em muitas teologias diferentes" (Paul Lakeland). Isto pressupõe um movimento de abertura em relação a todos os que partilham a mesma fé, aos vários grupos religiosos e ao mundo, porque Deus não está cativo das nossas definições.

D. Helder da Câmara

A Igreja

Por que se fala sempre de prática religiosa
e nunca de prática evangélica, feita de amor e de coragem,
de serviço aos outros?
É tarefa das comunidades cristãs
fazer que andem juntas prática
evangélica e prática religiosa
até se tornarem uma só e mesma coisa,
como na tarde da Quinta-Feira Santa.

Fala-se muito de crise de autoridade na Igreja,
e mesmo de crise de fé.
Minha experiência pessoal permite-me afirmar
que há uma crise de autoridade, sobretudo
quando as
autoridades não têm a coragem de aceitar as
consequências
das opções que estudaram, deliberaram, votaram e
assinaram.

O moralismo e o jurisdicismo fizeram muito mal à Igreja.
São gravemente responsáveis pela partida de muitos,
pela indiferença de um número ainda maior de outros,
e pela falta de interesse dos que
poderiam olhar a Igreja com simpatia
mas são tomados de desânimo diante do nosso farisaísmo.

Se não estou enganado
nós, homens de Igreja, deveríamos realizar dentro dela
aquelas mudanças que exigimos da sociedade.

Nós, os excelentíssimos,
estamos necessitados de uma excelentíssima reforma!

Basta! de uma Igreja que quer ser servida;
que exige ser sempre a primeira;
que não tem o realismo e a humildade de aceitar
a condição
do pluralismo religioso...

Jesus diz que ele é a porta do aprisco, do cercado.
Então, por que temos a tão frequente tentação
de sermos nós mesmos a porta?
É preciso que se passe por nossa porta,
nossas definições, nossa maneira de falar!
Mas, não! Cristo basta! Basta uma porta, Cristo!

Ah! quando chegaremos a ajudar a
Igreja de Cristo a libertar-se...
Pois, para ajudar na libertação do mundo,
é preciso ajudar a libertar o papa, a libertar os bispos,
a libertar os cristãos...

D. Helder da Câmara,

No centésimo aniversário do seu nascimento - 7/02/1909

2009-02-05

um diagnóstico mais que provável

Nunca vemos a verdade essencial que nos ajudaria a iniciar a solução de nossos problemas éticos e políticos. Essa verdade é estarmos todos mais ou menos errados, estarmos todos em falta, sermos todos limitados, condicionados por nossos motivos pessoais embaralhados, nossa tendência a nos enganarmos a nós próprios, nossa avareza, farisaísmo e tendência à agressividade e à hipocrisia.”

Novas sementes de contemplação, Thomas Merton

aos salvadores da Pátria

(Rembrandt, Danae, 1636)
afastem-se os pregadores do "salve-se tudo e todos". Salve-se esta hora, apenas.

2009-02-03

"Camino"



Quando proferimos as palavras "Creio em Deus Pai todo-poderoso..." sabemos que Deus é "o mistério indízivel da nossa realidade" (Hans Kung).

Mas há grupos e pessoas que pensam e agem como se tivessem, como se fosse possível, contornar o mistério. Utilizando uma linguagem figurativa, o que nos separa de ver Deus é um mero véu que nos basta afastar para o lado, para podermos ver.

Um desses grupos é a Opus Dei. Para manterem a sustentabilidade dos seus enunciados, têm que se fechar ao mundo e ao resto da Igreja. O Papa quando lhes concedeu a prelatura pessoal facilitou-lhes esse caminho.

Viver desse modo a fé e a vida (para o crente são indissociáveis), tem de certeza custos pessoais elevadíssimos.

Em Espanha, Javier Fesser realizou o filme "Camino", que já foi distinguido com seis "Goya". Nele entra no "mundo" da Opus Dei. Onde ainda se acalenta a imagem do Deus sedento dos nossos sacrifícios pessoais.

Revelação


Deus não se revelou às "pinguinhas" (reportando à actualidade nacional), os homens é que são lentos a compreender.

Simone Weil

Entre os homens, um escravo não se torna semelhante ao seu amo obedecendo-lhe. Pelo contrário, quanto mais submetido, maior é a distância entre ele e aquele que manda.
Com o homem em relação a Deus é diferente. Uma criatura racional torna-se, ao mesmo tempo que lhe pertence, imagem perfeita do Todo-Poderoso se é absolutamente obediente.
Aquilo que no homem é imagem de Deus é algo que, em nós, se liga ao facto de se ser uma pessoa, mas não é esse facto nele mesmo. É a faculdade de renunciar à pessoa. É a obediência.
De todas as vezes que um homem se eleva a um grau de excelência que faz dele, por participação, um ser divino, aparece nele algo de impessoal, de anónimo. A sua voz reveste-se de silêncio. Isto é manifesto nas grandes obras de arte e do pensamento, nos grandes actos dos santos e nas suas palavras.
É, por conseguinte, verdadeiro, de certa forma, que é necessário conceber Deus como impessoal, no sentido de que Ele é o modelo divino de uma pessoa que se transcende ao renunciar-se. Concebê-Lo como uma pessoa toda-poderosa, ou ainda, sob o nome de Cristo, como uma pessoa humana, é excluir-se do verdadeiro amor a Deus. Por isso, é necessário amar a perfeição do Pai celeste na difusão igual da luz do sol. O modelo divino, absoluto, dessa renúncia em nós que é a obediência, esse é o princípio criador e organizador do universo, essa é a plenitude do ser.
É porque a renúncia a ser uma pessoa faz do homem o reflexo de Deus, que é tão terrível reduzir os homens ao estado de matéria inerte ao precipitá-los na infelicidade. Com a qualidade de pessoa humana tira-se-lhes a possibilidade de a ela renunciar, exceptuando aqueles que estão já suficientemente preparados. Assim como Deus criou a nossa autonomia para que tivéssemos a possibilidade de a ela renunciar por amor, pela mesma razão devemos querer a conservação da autonomia nos nossos semelhantes. Aquele que é perfeitamente obediente tem como infinitamente preciosa a faculdade de livre arbítrio nos homens.
Do mesmo modo, não há contradição entre o amor à beleza do mundo e a compaixão. Este amor não impede o sofrimento próprio quando se é infeliz. Nem tão pouco impede o sofrimento pela infelicidade dos outros. Está num plano diferente do sofrimento.
O amor à beleza do mundo, sendo completamente universal, arrasta consigo, como amor que lhe é secundário e subordinado, o amor a todas as coisas verdadeiramente preciosas que a má fortuna pode destruir. As coisas verdadeiramente preciosas são aquelas que constituem degraus na direcção da beleza do mundo, aberturas para ela. Aquele que foi mais longe, até à própria beleza do mundo, não lhes traz daí um amor menor, mas muito maior do que anteriormente.
Neste número estão as realizações puras e autênticas da arte e da ciência. De uma maneira muito mais geral, é tudo o que reveste de poesia a vida humana atravessando todas as camadas sociais. Todo o ser humano se enraíza, neste mundo, numa certa poesia terrestre, reflexo da luz celeste, que é o seu vínculo mais ou menos vagamente sentido com a sua pátria universal. A infelicidade é o desenraizamento.
Em especial as cidades humanas, cada uma em maior ou menor grau, de acordo com o seu nível de perfeição, revestem de poesia a vida dos seus habitantes. Elas são imagens e reflexos da cidade do mundo. De resto, quanto mais tomam a forma de nação, quanto mais pretendem ser, elas próprias, pátrias, mais constituem imagens deformadas e sujas. Mas destruir cidades, seja material seja moralmente, ou excluir seres humanos da cidade atirando-os para o meio dos dejectos sociais, é cortar todo o vínculo de poesia e de amor entre essas almas humanas e o universo. É mergulhá-las à força no horror da fealdade. Quase não há crime maior. Todos tomamos parte, por cumplicidade, numa quantidade quase inumerável de crimes deste género. Deveríamos todos, se ao menos pudéssemos compreender, chorar por eles lágrimas de sangue.


Simone Weil

in Espera de Deus, Assírio & Alvim

2009-02-02

mulheres do jardim: Simone Weil



Simone Weil nasceu a 3 de fevereiro de 1909. Completam-se amanhã cem anos do seu nascimento.

Simone Weil é uma das figuras marcantes do século XX. Viveu de modo muito intenso, um misticismo arrebatador e um compromisso social levado até às ùltimas consequências. Produziu ainda uma riquíssima e original obra teórica.
Retirado de um artigo do Atrio:

En vida, el para muchos extravagante comportamiento de Simone eclipsó la profundidad de su obra. Y, sin embargo, en ella vida y obra van inseparablemente unidas porque su voluntad fue siempre la de pensar las circunstancias históricas y asumir los compromisos que éstas exigiesen; pensar, sobre todo, la desgracia, el gran enigma de la vida humana, para conocerla a fondo y poder transformarla. Todo en Simone Weil responde a esta apasionada necesidad de comprender el dolor del mundo participando en él. En este singular compromiso, su trayectoria irá tomando progresivamente tintes menos revolucionarios y más espirituales, en un camino que la llevará desde el estudio de los mecanismos de la opresión social y la participación activa en las luchas sindicales, hasta el encuentro con el cristianismo y el empeño en vivir la compasión hasta extremos difíciles de comprender. Nadie ha acordado de manera más heroica su vida con sus ideas, dice su principal biógrafa, Simone Pétrement. La filósofa morirá durante la Segunda Guerra Mundial, en su exilio londinense, a los 34 años.

Simone Weil mezcla de lucidez y alucinación, es decir, claridad, clarividencia, despejo, y a la vez deslumbramiento, desvarío: luz extraña y extrema, que ahonda y vuelve transparente y a la par saca de órbita y hace que te desvíes, que aclara y ofusca, despeja y apelmaza, radicaliza y a la vez te adhiere a las cosas a las que carga de realidad —“Es bien aquello que da más realidad a los seres y a las cosas, y mal, aquello que se la quita”, dice en sus Cuadernos y en esa antología que es La gravedad y la gracia.

Weil escribe: Dios, al crear el mundo, se retiró de él para venir solo como un mendigo, necesitado y sin fuerza. Pensar a Dios es, pues, pensar su ausencia, su silencio. En este mundo, Dios calla, o lo que es lo mismo, allí donde reina la necesidad, al bien le está como prohibido reinar directamente. Sin embargo, Dios no deja de llamar a los hombres, y un rayo de su luz llega a traspasar a veces la opacidad del mundo tocando a aquel que vacía su yo, que consiente y espera. Esta gracia de Dios no puede evitar la subordinación aplastante del mundo a la necesidad, a la gravedad y a la fuerza; pero puede hacer que el alma no ceje de amar.

2009-02-01