2009-03-31

a força de um hino:

ÉDEN...EVA...DEUS (A)

Há de se reconhecer a beleza do universo feminino
A beleza de sua mente, sua subjetividade, sua imaginação
Em sua forma de ser, elas olham diferente...
Sua voz, seu andar são deliciosas peculiaridades
Seu toque remete ao amor, à sensualidade
Há de se entregar à beleza feminina
Beleza do ser, beleza das formas
Formas curvas,

Em seios e pernas que abraçam,
Em lábios que beijam, que mordem
Há de se reconhecer na mulher
Força e coragem
Resistência contra as minhas violências
Contra nossas censuras à sua liberdade... à sua sexualidade
Elas têm asas... e sabem voar!
Há de se calar diante de seu milagre
De gerar a vida em seu ventre
Éden de onde vimos, nús e igênuos
Éden... Eva... Deus(a)
Há de se pensar uma teologia assim
Uma projeção da mente feminina,
Projeção de sua subjetividade, de sua imaginação
Com uma forma de ser e um olhar diferentes
Com voz e movimentos originais, peculiares
Que nos remeta mais ao amor e à sensualidade
Uma teologia com a beleza artística das curvas
Uma teologia com seios que instiguem desejo
Com pernas que abracem
Uma teologia que faça amor
Que nos possibilite gozar junto com ela
Que beije beijos mordidos, beijos de língua
Uma teologia que tenha força e coragem
Que resista contra as formas de violência
Contra ás censuras à liberdade e à sexualidade
Uma teologia com asas
E que voe a despeito de gaiolas institucionais
Uma teologia que não apenas copie ou importe
Mas que gere, que dê a luz
Teologia que faça jus ao artigo que define seu gênero
Que clame El Shadday:
A Deusa que amamenta
Uma Teologia de brincos na orelha
Teologia da doçura
Do tesão... da paixão
Teologia do amor
Uma teologia diferente


Jeyson Messias Rodrigues
aluno da pós-graduação em Ciência das Religiões da FATIN; com acesso ao mestrado da Univ. Lusófona


(retirado com a devida vénia de "teo-logizar")

2009-03-30

entretanto, consideremos o seguinte:

Lamento que os jornais alemães não tenham agarrado nas frases iniciais da entrevista do Papa, aquelas onde ele refere a necessidade de uma economia ética. Faço uns biscates numa das muitas lojas que existem na Alemanha, organizadas por cristãos, para comercializar produtos provenientes do Terceiro Mundo. Há dez anos que a minha "loja de boa consciência", mantida pelo empenhamento de mais de 20 voluntários, vende café, chocolate, açúcar, especiarias, frutos secos, vinhos e trabalhos de artesanato provenientes de iniciativas cujo objectivo mais importante é o "empowerment" das populações mais pobres deste mundo, especialmente das mulheres. Tinha-me dado muito jeito que a imprensa alemã falasse das implicações da economia ética, e a nossa loja se enchesse de pessoas dispostas a pagar uns 30% mais pelo chá rooibos, pelo vinho (Stella Organics - um projecto admirável), pelas misturas de ervas aromáticas africanas, pelos corações em pedra-sabão que já não posso ver, etc.Pessoas realmente preocupadas com as condições de vida dos africanos, para as quais o Papa quis chamar a atenção.

A Helena, tem feito um belíssimo trabalho de casa a tentar explicar como se processou a entrevista do Papa. O que realmente foi dito, e o descarrilamento do mesmo, nas várias peças jornalísticas.

A posição do Vaticano sobre o preservativo é desadequada à realidade. Não invalida isso, que toda a doutrina da Igreja sobre a sexualidade esteja errada. A Igreja tem uma tarefa difícil, ao falar sobre o momento histórico, tem de saber olhar mais além. A realidade do homem não se esgota no imediato. Cabe à Igreja apontar horizontes que atendam à integralidade do ser humano. Para as questões imediatas, cada um tem a sua consciência formada e age de modo responsável de acordo com ela. No fim de tudo, também cabe à Igreja ser sinal da misericórdia de Deus para cada homem.

mais uma acha para a fogueira Papa/preservativo

Edward C. Green, director do projecto de pesquisa sobre a prevenção da SIDA da Universidade de Harvard (EUA), defendeu a posição de Bento XVI contra as campanhas de distribuição de preservativos como forma de combater a propagação do HIV/SIDA em África.
Num artigo de opinião intitulado "O Papa pode ter razão", publicado no "Washington Post", o investigador cita vários estudos científicos que indicam que os preservativos não estão a ter sucesso como forma primária de prevenção e que as campanhas de distribuição podem mesmo agravar a propagação do vírus naquele continente.



Adenda:

aqui fica o link para o artigo de Edward C. Green. Nele se vê que é dada razão ao Papa na abordagem da luta contra a Sida, em África (coisa que eu defendi quando esta polémica começou). Salvaguardando, no entanto, que o uso do preservativo deve ser acessível a qualquer um. Defendo o mesmo.

2009-03-29

escutemos os poetas:

Dá-nos tempo, Darwin, espera umas quantas gerações, e verás que nos crescerá um pescoço de girafa por andarmos sempre a espreitar por cima dos muros e da linha do horizonte, e asas, asas? Asas não sei, que para isso se inventaram os versos, talvez guelras, porque o mar está sempre a chamar-nos de volta e o chamamento do mar não cabe em nenhum poema.

(...)
Dá-nos tempo, Darwin, dá-nos tempo que, um dia, ainda nos tornaremos homens...


Não foi com essa intenção mas o José Eduardo fez um belo esboço de resposta à minha questão anterior. Se na Igreja houvessem mais místicos e poetas, quem sabe, talvez, ela atraísse mais homens que se queriam tornar mais.

o que é que se espera da Igreja?

No seguimento do texto de João, que postei anteriormente, é posta a seguinte fala na boca de Jesus: "E Eu, quando for erguido da terra, atrairei todos a mim".
Há vários dias que esta frase me provoca. Como pertença da Igreja, provocantemente, me pergunto: como devia ser a Igreja para atrair para Jesus?
Sorrateiramente, com as pessoas com quem falei este fim-de-semana, fui fazendo algumas perguntas. A minha sobrinha Sofia (6 anos) a quem perguntei se gostava de andar na catequese, respondeu:"É uma seca!". Num almoço de família, falou-se de um padre que fez humor sobre o futebol como se tivesse cometido uma blasfémia, quando contra argumentei, a resposta foi que um padre, na igreja, durante uma celebração, não tinha direito a fazer humor. E a seguir tive de levar com todas as considerações familiares sobre Papa e preservativos. Definitivamente, nem a Igreja, nem eu, estamos vocacionadas para atrair para Jesus.

Pois é, não tenho receita para atrair para Jesus. Confesso que com os pastores da minha Igreja também não fico melhor servida. De repente, começaram a opinar sobre o preservativo, para satisfazer a vontade de polémica que sempre preside a estas questões. Eu supunha que já somos todos crescidinhos e informados, a ponto de não precisarmos que o Papa, os bispos, ou até o prior da paróquia, venham dar ou não licença, para usar a borrachinha. Fico desanimada com uma Igreja que se faz notícia por assuntos destes.

Entretanto, fico sem resposta à pergunta: como atrair para Jesus?
(Diogo de Contreiras - Calvário 1500-1565)

2009-03-28

à luz da Palavra

Naquele tempo,

alguns gregos que tinha vindo a Jerusalém

para adorar nos dias da festa,

foram ter com Filipe, de Betsaida da Galileia,

e fizeram-lhe este pedido:

«Senhor, nós queríamos ver Jesus».

Filipe foi dizê-lo a André;

e então André e Filipe foram dizê-lo a Jesus.

Jesus respondeu-lhes:

«Chegou a hora em que o Filho do homem vai ser glorificado.

Em verdade, em verdade vos digo:

Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica só;

mas se morrer, dará muito fruto.

Quem ama a sua vida, perdê-la-á,

e quem despreza a sua vida neste mundo

conservá-la-á para a vida eterna.

Se alguém Me quiser servir, que Me siga,

e onde Eu estiver, ali estará também o meu servo.

E se alguém Me servir, meu Pai o honrará.

Agora a minha alma está perturbada.

E que hei-de dizer? Pai, salva-Me desta hora?

Mas por causa disto é que Eu cheguei a esta hora.

Pai, glorifica o teu nome».

(Jo 12, 20-33)



É claro e sabido que seguir Jesus não é um percurso de falinhas mansas e de conclusões de senso comum. Mas que ele próprio diga que para o seguir, é preciso deixar de amar a vida... é francamente demais.

Está Jesus errado e pede-nos algo de incompreensível e superior às nossas forças? Logo ele que também disse:"Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância!"

Jesus sabe muito bem da nossa natureza sempre propensa a escolher as coisas mais fáceis, mais imediatas, mais à nossa medida, e a ignorar aquelas que nos preenchem, as que perduram, as que nos fazem mais homens e mulheres inteiros.

Em Jesus a vida só fazia sentido estando ao serviço do Amor. Por isso, a deu, inteira. Não para nos trazer benefícios, um dia no Além, mas nos fazer hoje, a todos, mais felizes.

2009-03-26

a noção de igualdade no mundo antigo

Os Pitagóricos definiam a justiça pela igualdade. Esta ideia da igualdade essencial dos homens (sem distinção entre homens e mulheres) como filhos de Deus remonta pelo menos a 2000 anos antes da era cristã, porque a encontramos, nessa época, em documentos egípcios.

Simone Weil in "A Fonte Grega"

2009-03-25

desfazer o mito do homem "mau" e da mulher "boazinha"

Oscar Wilde é um bom contador de histórias (o que não é de todo o meu caso) e um excelente observador da natureza humana. A história do "Amigo fiel" passa-se num contexto relacional de amizade. Mas podemos extrapolá-la para outros.

Eu avanço com o paradigma homem/mulher. Não para nenhum caso particular, mas para o genérico das relações.


Em menos de dez horas, ouvi três histórias (reais) e comentários, sobre relações envolvendo homens e mulheres. Em todas elas era (aparentemente) sempre o homem que ficava mal. Interpretando-as à luz da história do "Amigo fiel" os homens eram sempre "moleiros" e as mulheres "bonzinhos Hans".


Sendo a nossa sociedade herdeira de determinada moralidade cristã onde o sacríficio e a "humildade" são modelos a seguir, fortemente alicerçada em sociedades patriarcais em que o homem detinha sempre e só o poder, e em que o papel da mulher oscilava entre a vítima e a sublimada (precisamente porque era vítima), não é difícil esta linha de pensamento.


O cristianismo correctamente entendido (Oscar Wilde não tem um papel tão inovador quanto à primeira vista se poderá supor), não orienta os papeis homem/mulher para que, na sua dimensão relacional, um seja o que domina e o outro o que se submete. Desde o Génesis a dimensão relacional homem/mulher é orientada para uma perfeita igualdade. Não apenas do ser homem e ser mulher, mas igualdade na relação.


Quando a dimensão relacional não é igualitária é porque enferma de um ou vários males, repartidos por ambas as partes, e é suposto que alguém, responsavelmente, aja para repôr a verdade.

2009-03-23

a amizade

Continuação do "Amigo Fiel"
(...)
-Há muitas pessoas que procedem bem - retrucou o moleiro -, mas poucas falam como deve ser, o que prova que o falar é o mais difícil dos dois predicados, e também o mais bonito. (...)

Logo que passou o Inverno, e as florinhas desabrocharam cá e lá, o moleiro disse á mulher que ia visitar o seu amigo Hans.
-Que bom coração que tu tens! - declarou ela - estás sempre a pensar nos outros. Não te esqueças de trazer o cabaz maior, para trazeres flores.(...)
-Bom dia, amigo Hans.
-Bom dia, retorquiu este, apoiado à enxada e sorrindo de orelha a orelha.
-Como passaste o Inverno? - inquiriu o recém-chegado.
-Assim, assim...É muito amável, realmente, o teu interesse. Para falar verdade não foi lá muito bom, mas agora temos a Primavera e eu sinto-me feliz. As flores medram todas muito bem.
-Falámos de ti bastantes vezes, este Inverno, Hans. Pensávamos como estarias...
-Vocês são umas jóias! Receava que se houvessem esquecido de mim.
-Que ideia, Hans! A amizade nunca se esquece. É o que ela tem de mais extraordinário. Mas tu, se calhar, não compreendes a poesia da vida. A propósito as tuas margaridas estão lindíssimas.
-Na verdade, não estão feias. É uma sorte para mim ter tantas. Tenciono levá-las ao mercado e vendê-las à filha do burgomestre. Com esse dinheiro resgatarei o meu carrinho de mão...!
-O quê? Queres dizer com isso que o empenhaste? Fizeste um disparate!
-Pois vi-me obrigado a fazê-lo. O Inverno como sabes foi rigoroso, e eu em boa verdade, não tinha com que comprar pão. Comecei poe empenhar os botões de prata do meu fato de ver a Deus, depois a corrente também de prata, a seguir o cachimbo e por último o carrinho de mão. Mas agora vou reaver tudo isso.-Hans, disse o moleiro - vou dar-te o meu carrinho de mão. Já não está novo. Para falar francamente, falta-lhe um dos lados e há qualquer coisa que não me parece certa lá nos raios de uma roda. Mas, apesar de tudo isso, vou dar-to. Sei que é uma grande generosidade da minha parte, e há-de haver quem me acuse de perdulário. Mas não sou como os outros, entendo que a generosidade é a essência da amizade, e além disso tenho um carrinho novo para meu uso. Não te preocupes mais conta com o carrinho de mão.

Hans disse que tinha uma tábua que daria para consertar o carrinho. O moleiro acabou por lha pedir para um conserto no moinho. E, a seguir, pede-lhe que encha o cesto de flores. O que fez com que o bondoso Hans ficasse sem nenhumas para vender.

Como é que acabará esta história? E qual a moralidade dela?

2009-03-22

quando é que a Igreja assume isto em verdade?

Os sacramentos são para os seres humanos, não os seres humanos para os sacramentos.



Frei Bento Domingues, no Público de hoje

via anomalias

Um sentido de Igreja, segundo Hans Kung:

La Iglesia del presente y del futuro necesita aggiornamento y no tradicionalismo de la fe y de la doctrina moral; colegialidad del Papa con los obispos y no un centralismo romano autoritario; apertura al mundo moderno y no de nuevo una campaña antimodernista; diálogo también en el seno de la Iglesia católica y no de nuevo la Inquisición y la negación de la libertad de conciencia y de enseñanza; ecumenismo y no de nuevo la proclamación arrogante de una única Iglesia verdadera.
Porque no sólo existe la dictadura del relativismo, como dice el Papa Ratzinger, sino también la dictadura del absolutismo, que muchos ven corporeizada en el culto personal al papado. Ninguna de estas dictaduras se corresponde con la verdad cristiana.

Entrevista, aqui

2009-03-20

fundamentos da esperança

Para o cristão, a utopia do Reino supera as utopias seculares, sejam elas políticas, técnicas ou científicas. Espera-se, neste mundo, a realização plena das promessas de Deus o que plenifica e transfigura o mundo. Assim, à luz dessas promessas elencadas na Bíblia, o cristão mantém sempre uma postura crítica frente a toda realização histórica, bem como diante dos modelos utópicos. O homem novo e o mundo novo são resultados do esforço humano através do dom de Deus que, em última instância, os conduzem ao ápice. Noutras palavras, quem espera em Cristo não absolutiza jamais uma situação adquirida ou a ser conquistada. Toda a progressão é relativa e, portanto, passível de aperfeiçoamento, até que a Criação retorne ao seio do Criador. Pois Deus realiza progressivamente, na história humana, a sua salvação.

Frei Betto

2009-03-17

sobre a amizade

-Era uma vez - começou o pintarroxo - um homenzinho chamado Hans.
-Pessoa distinta? - interrompeu a ratazana.
-Não me parece que o fosse, excepto a bondade do seu coração e pelas faces redondas engraçadas, de tipo bem-humorado. Vivia sózinho numa cabana e todos os dias trabalhava no seu quintal. Em toda a redondeza não havia quintal mais bem tratado. Ali cresciam cravos, goivos, bolsas-de-pastor, bocas-de-lobo, havia rosas brancas e amarelas, lilases, violetas, na altura própria floriam as columbinas, as mangeronas, as prímulas, os manjericos, os narcisos e as cravinas, conforme passavam os meses. Uma flor tomava o lugar de outra, de maneira que se viam sempre coisas bonitas e se aspiravam sempre aromas deliciosos.

O nosso Hans tinha muitos amigos, mas o mais fiel era o corpulento e rico moleiro Hugo. Era na verdade tão fiel e dedicado ao seu Hans que nunca passava pelo quintal deste sem se debruçar sobre o muro para colher um braçado de flores ou para encher as algibeiras de ameixas e cerejas, caso fosse tempo de fruta.
-Os amigos sinceros - dizia ele - deviam ter tudo em comum.
Hans fazia que sim com a cabeça, sorrindo, e sentia-se orgulhoso de ter um amigo com ideias tão elevadas.
(...)
Hans trabalhava sempre no seu quintal. Durante as três primeiras estações do ano podia-se dizer que vivia feliz, mas quando chegava o Inverno e ele não tinha nem flores nem fruta que levasse ao mercado, passava o seu bocado de frio e fome e não era raro deitar-se sem ter comido mais que umas pêras passadas e meia dúzia de nozes. Além disso ficava muito só, porque nessa altura o moleiro nunca o ia visitar.
-Não vale a pena ir a casa do amigo Hans enquanto durar a neve - explicava o moleiro à mulher. - Quando as pessoas estão em apuros, convém deixá-las sozinhas, sem serem importunadas. Esta é pelo menos a minha opinião acreca da amizade, e julgo que tenho razão. Portanto, esperarei pela Primavera e então irei visitá-lo. Ele já me poderá dar, nessa ocasião, um cabaz: de margaridas com que se há-de sentir contentíssimo.
-Estás sempre a pensar nos outros - responde a mulher, confortavelmente sentada numa poltrona, junta da lareira onde ardia um lume de pinhas. - Ralas-te de mais. Mas é agradável escutar as tuas ideias sobre a amizade. Estou convencida de que o prior não seria capaz de dizer coisas tão bonitas como tu, embora viva em casa de três andares e use anel de oiro no dedo.

continua...

Oscar Wilde "O amigo fiel"

ai valha-me deus...isto é só "ó tempo volta para trás"


assim não há condições:

Bento XVI, ontem mesmo, anunciou o "Ano Sacerdotal" (19/06/2009 a 19/06/2010). Entre as propostas "salientou também a urgência de recuperar a consciência que leva os padres a estarem presentes, a serem identificáveis e reconhecíveis seja pelo juízo de fé seja pelas virtudes pessoais, seja também pelo hábito...".


questões de fé


Indo o Papa a caminho de África, previsivelmente, foi inquirido pelos jornalistas sofre a posição da Igreja sobre o uso do preservativo como método de prevenção da SIDA. A resposta do Papa foi a esperada: o problema da SIDA não "pode ser resolvido com o uso do preservativo". Propondo uma ajuda "espiritual e humana.

Entendo as posições defendidas pelo Papa, não sendo uma conhecedora da matéria, tenho as minhas dúvidas sobre a eficácia do uso do preservativo nos povos africanos (é uma realidade sociológica diferente da europeia ou norte-americana), mas defendo que quem está no terreno, deve socorrer-se de todos os meios ao seu alcance, para minorar o avanço da doença.

Estas sempre previsíveis polémicas, não nos façam esquecer que as Igrejas em África têm um papel essencial na ajuda a todos os que são vítimas da doença:

2009-03-16

o sentido do pecado

Uma professora do 1º ciclo começa a falar sobre os problemas da sua turma de vinte e quatro alunos. São variados. Além dos problemas de aprendizagem, há uma elevada taxa de ansiedade manifestada nas crianças. Na conclusão do diagnóstico, verifica que são crianças de famílias desestruturadas. Começa a contar, e os dedos das duas mãos já não chegam para contar os casos. Não assumir o compromisso de paternidade e maternidade responsáveis é um pecado.

2009-03-15

o "Sermão da Montanha", hoje

Ao ver a multidão, Jesus subiu a um monte. Depois de se ter sentado, os discípulos aproximaram-se dele. Então tomou a palavra e começou a ensiná-los, dizendo:«Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu. Felizes os que choram, porque serão consolados. Felizes os mansos, porque possuirão a terra. Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. Felizes os puros de coração, porque verão a Deus. Felizes os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus. Felizes os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o Reino do Céu. Felizes sereis, quando vos insultarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o género de calúnias contra vós, por minha causa.» (Mt 5, 1-11)

Jesus Cristo é (...) a única fonte de que nos advém o conhecimento da essência e da lei da história, tal como Deus as pensou e quis. Bom é o agir adequado à realidade de Jesus Cristo; o agir adequado a Cristo é agir adequado à realidade. Esta proposição - corretamente entendida - não é uma exigência ideal, mas uma enunciação que dimana da própria realidade.
(...)

O Sermão da Montanha como proclamação do amor de Deus feito homem chama o homem ao amor para com o outro homem e, justamente por isso, a renegar tudo aquilo que o impede no cumprimento desta tarefa, em resumo, chama-o a renegar-se a si mesmo. Ao renunciar à sua felicidade, ao seu direito, à sua justiça, à sua dignidade, à força e ao êxito, ao renunciar à sua vida, o homem torna-se disponível para amar o próximo. O amor de Deus liberta o olhar do homem ofuscado e transviado pelo amor de si e torna-o capaz de reconhecer de modo claro a realidade, o próximo e o mundo, torna-o assim e só assim pronto a assumir uma autêntica responsabilidade.
Por isso, o Sermão da Montanha põe o homem também diante da necessidade de agir historicamente de modo responsável. Vira-se para o indivíduo, não para que este seja algo em si mesmo, mas antes para que seja aquele que é à luz de Deus, a saber, alguém que se encontra em situação de responsabilidade histórica.
Mas porque o indivíduo está já, desde sempre, em situação de responsabilidade, a antiga questão de se o Sermão da Montanha se dirigia ao indivíduo como tal, mas não ao indivíduo em situação de responsabilidade para com outros, levanta-se de modo erróneo. O próprio Sermão da Montanha situa o homem em situação de responsabilidade em face dos outros e não conhece nenhum indivíduo como indivíduo. Nem ele se contenta com prepará-lo para desempenhar a sua tarefa na comunidade, antes o solicita directamente a agir de modo responsável. Chama-o àquele amor que se manifesta agindo responsavelmente para com o próximo e que nasce do amor de Deus, o qual inclui em si toda a realidade. Assim como o amor de Deus pelo mundo não conhece limitações, assim também o amor humano que dimana do amor de Deus não está limitado a determinados âmbitos da vida e a determinadas relações. Tudo nele está incluído. O Sermão da Montanha como palavra do amor de Deus que reconcilia o mundo vale em toda a parte e sempre, ou então não nos diz verdadeiramente respeito. A vida idílica no lago de Genezaré, que de resto não foi assim tão idílica, não teve mais a ver com o amor de Deus pelo mundo do que as cidades industriais e as grandes potências políticas da nossa época. A crucifixão de Jesus Cristo é a prova mais rigorosa de que o amor de Deus está igualmente próximo e igualmente longe de todos os tempos. Um amor limitado em qualquer sentido não deveria ter acabado na cruz. Jesus morre porque Deus amou o mundo inteiro. E somos chamados a entrar neste mesmo amor por todo o mundo, selado pela Cruz de Jesus. (...)
Uma das abstrações do pensamento pseudo-realista é indicar a auto-afirmação como a única lei da acção política e a negação de si como a única lei do agir cristão e ver nelas uma oposição em que uma tese exclui a outra, uma dupla moral. Encontramo-nos aqui em face da compreensão da realidade mundana e da realidade cristã segundo a lógica dos princípios, que passa por cima da realidade da encarnação de Deus e que, por isso, não apreende nem a realidade mundana nem a realidade cristã. Que o amor de Deus pelo mundo abarque também actividade política, que a forma mundana do amor cristão possa, por isso, assumir igualmente a forma daquele que luta pela auto-afirmação, pelo poder, pelo êxito e pela segurança é algo que se pode compreender só onde se toma a sério a encarnação do amor de Deus. Manifestam-se aqui, pois, também os limites ou, melhor, os bastidores da lei da auto-afirmação na actividade política.
Agir politicamente significa assumir responsabilidades – o que não é possível fazer sem poder. O poder põe-se ao serviço da responsabilidade.


Dietrich Bonhoeffer, "Ética"

recuperar o sentido do pecado

"Bento XVI enviou uma mensagem na qual salienta que no nosso tempo constitui sem dúvida uma das prioridades pastorais, formar rectamente a consciência dos crentes, porque na medida em que se perde o sentido do pecado, aumentam, infelizmente os sentimentos de culpa que se desejariam eliminar com remédios paliativos insuficientes."

2009-03-13

bom fim-de-semana

(Cícero Dias)

O VÔO

Dói o domingo
no ninho dos tédios.

Dói o verão:
esta pele seca
estirada
sobre os ministérios vazios.

Dói o clube
dos domingos.
Dói o rito
dos domingos:
o amargo esporte
de viver.
O amargo esporte
de esquecer.

Dói a divisão da vida:
o pão subtraído,
o peixe poluído,
a paz envenenada.

Dói o vôo cortante desta tarde.

H. Dobal

atentamente 4

Livrai-nos, ó Deus, do linguajar presumido da Palavra.

atentamente 3

Aceitar a imperfeição é um acto realista. Justificar-se com ela é cobardia.

2009-03-12

atentamente 2

O enfoque a dar ao pecado não é o da violação da lei, mas ofensa sobre a pessoa: Deus, aos outros e a si mesmo.

atentamente

A passividade é um pecado de omissão. A conversão é activa e participativa.

Bento XVI escreve aos bispos:

sobre a remissão de excomunhão aos bispos ordenados por Marcel Lefebvre. Li e surpreendeu-me. O Papa sentiu-se "tocado" pelas reacções que tal remissão proporcionou. Põe-se um pouco no papel de vítima (sem o ser), mas acusa uma vertente humana que me surpreende e agrada. Mas vale a pena ler a carta e meditar nela.

..."Mas não deveria a grande Igreja permitir-se também de ser generosa, ciente da concepção ampla e fecunda que possui, ciente da promessa que lhe foi feita? Não deveremos nós, como bons educadores, ser capazes também de não reparar em diversas coisas não boas e diligenciar por arrastar para fora de mesquinhices? E não deveremos porventura admitir que, em ambientes da Igreja, também surgiu qualquer dissonância? Às vezes fica-se com a impressão de que a nossa sociedade tenha necessidade pelo menos de um grupo ao qual não conceda qualquer tolerância, contra o qual seja possível tranquilamente arremeter-se com aversão. E se alguém ousa aproximar-se do mesmo – do Papa, neste caso – perde também o direito à tolerância e pode de igual modo ser tratado com aversão sem temor nem decência."



2009-03-11

siga a corrente

O João Tunes passou-me esta corrente. E eu ato-me e passo-a já.


"Um modesto emprego, não tenho avidez, quero trabalhar para vir a encontrar toda a tranquilidade."


E esta, hem? parece de encomenda.


O livro de onde foi retirada é "A Misteriosa Chama da Rainha Loana" de Umberto Eco.


Passo a:


helena

on

pedro

antónio j.

josé

que escolhem, para serem lindos, a quinta frase da página 161 (não se atrevam a perguntar quem foi o inventor disto) de um livro que estejam a ler. obrigada.




dilema





desprendida,


ou expectante?


quem desviaria


os olhos


do mar...



imagem-David Ligare


2009-03-10

mortificação e ascética, que sentido?

No século XXI que sentido se pode encontrar para o sacrifício auto-infligido? Será uma via explorada apenas por pessoas com alguma patologia psíquica? Que enquadramento humanista, religioso, espiritual para a prática do sacrifício?


No cristianismo, sobretudo na Idade Média, era comum a prática do sacrificio. Dela, parece que nos ficou a menor valia - uma imagem de Deus que se compraz mais com as nossas dores, do que com o nosso gozo. Não é esse o Deus do Evangelho.


No entanto, a ascese é um meio único, para encontrarmos um sentido para a nossa vida. Se baseado na sabedoria, na devida proporção entre o que renunciamos e o que partilhamos. Não renunciamos para agradar ao nosso ego, mas em favor de algo, que por nosso julgamento é sempre um bem maior. Tão bem o explicita Paulo (1ª Cor 13) ..."sem amor" de nada vale.

2009-03-09

contemplar

A verdadeira contemplação é obra de um amor que transcende toda satisfação e toda experiência para repousar na noite da fé pura e nua. Essa fé nos leva para tão perto de Deus que se poderia dizer que o toca e percebe, tal como Ele é, embora na escuridão. E o efeito de um contacto assim muitas vezes é uma profunda paz que extravasa sobre as faculdades inferiores da alma, constituindo, assim, uma ‘experiência’. Mas essa experiência ou sentimento de paz continua sempre sendo um acidente da contemplação, de maneira que a ausência dessa ‘sensação’ não significa que nosso contacto com Deus tenha cessado.”
...
Jamais teremos perfeita paz interior e recolhimento se não estivermos desapegados até mesmo do desejo de paz e recolhimento. Jamais oraremos perfeitamente enquanto não estivermos desapegados dos prazeres da oração.


Thomas Merton,
aqui

2009-03-08

ser mulher


Viver é enfrentar. Sem tributozinhos adocicados nem armadilhadas concessões. A "obra" é vasta como o mar.

imagem- "Nazarena"

retirada daqui

na mais absoluta intimidade


Deus não é a projeção dos nossos desejos. Nem resposta às nossas necessidades. Deus é o que é. E quer que sejamos com Ele. Na intimidade.

2009-03-05

há gente teimosa...



...também nos amores. Bebo e Cigala com um gostinho especial.

assédios



O secretário de D. Manuel Clemente, bispo do Porto, assediou-o para as novas tecnologias. D. Manuel, um bispo por quem até é fácil sentir empatia, assedia-nos com uma mensagem para esta Quaresma de 2009.
Torço o nariz a esta prontidão para virtualizar a mensagem dum bispo. A net está cheia de palavras. As do bispo serão mais umas. Se os habitantes do Porto não receberem as palavras do seu bispo de uma forma mais próxima, isto não passa de mais um assédio verbal.

ainda há quem saiba virar as costas à crise

http://tv1.rtp.pt/multimedia/index.php?tvprog=20716&formato=flv

Os pais da Mariana escolheram criar as filhas onde elas possam viver em liberdade e sem medos. São pais corajosos que não acham de primeira importância viver rodeado de centros comerciais ou outros bens da civilização. Uma família feliz, graças a Deus. Mesmo que o "Magalhães" seja uma miragem. E que falta faz ele, no meio do paraíso da Pena?

2009-03-04

quando se fala de amor

O amor de que trata o Evangelho, e diferentemente de qualquer filosofia, não é um método de conduta para com os homens, mas consiste em ser introduzido e em se introduzir num acontecimento, isto é, na comunhão de Deus com o mundo levada a cabo em Jesus Cristo: o "amor" não existe como atributo abstracto de Deus, mas como o ser-amado do homem real e do mundo por parte de Deus. Nem o amor existe como qualidade humana, antes como uma real pertença recíproca, uma real co-existência do homem com o homem e com o mundo em virtude do amor de Deus por mim e por eles. Assim como o amor de Deus entrou no mundo e se expôs aos mal-entendidos e às ambiguidades de toda a realidade mundana, assim também o amor cristão existe só no seio da realidade mundana, na riqueza infinita do agir mundano concreto, sujeito a todas as falsas interpretações e condenações.



Toda a tentativa de propor um cristianismo do amor "puro", destilado de todas as "impurezas" mundanas, é falso purismo e perfeccionismo, que despreza a encarnação de Deus e partilha o destino de todas as ideologias. Como Deus não era demasiado puro para não poder entrar no mundo, nem sequer a pureza do amor consistirá em manter-se longe do mundo, mas manifestar-se-á justamente na sua forma mundana. Nesta base torna-se não só possível, mas forçoso, conceber o agir histórico como agir cristão, como agir que brota do amor encarnado de Deus.



Dietrich Bonhoeffer, "Ética",

edição "Assírio & Alvim"

paraísos

(Ribeira Sacra)

2009-03-02

inexorável

...O amor é melhor do que a sabedoria, mais precioso do que a riqueza e mais belo do que os pés das filhas dos homens. Não o pode destruir o fogo, nem apagá-lo a água. Chamei-te de madrugada e não me respondeste. A Lua ouviu o teu nome, e tu não me deste atenção. Arrependo-me de te ter deixado para ir vaguear para longe; o teu amor, porém, levei-o sempre comigo, tão forte que nunca pôde ser vencido, embora eu tenha alçado os olhos tanto para o bem como para o mal. Agora, que morreste, é natural que eu morra também.

A alma suplicou-lhe que partisse; ele, contudo, não o quis, tão grande era o seu amor. O mar aproximou-se mais e tentou cobri-lo com as suas ondas; assim, vendo que o fim não tardava, o pescador beijou loucamente os lábios da sereia e estalou o coração que ele tinha dentro de si. E como pela sua grande paixão o coração se lhe partira, a alma pôde ter ingresso e nele se instalou como outrora. E o mar, com as suas ondas, cobriu o corpo do pescador.

Pela manhã saiu o cura a benzer o mar, que estivera antes revolto. Com ele iam os frades e os músicos, e os que levam os círios, e os que seguram os turíbulos, e muito acompanhamento de povo.

Ao chegar à costa viu o pescador afogado na ressaca, com o corpo da sereia apertado nos braços. Então recuou, de má catadura, e, tendo feito o sinal da cruz, disse em voz alta:

- Não abençoarei o mar nem nada do que nele existe. Malditos sejam os seus habitantes e os que têm trato com ele. E quanto ao que, pelo seu amor, se esqueceu de Deus e aqui jaz com a sua amante despedaçada por sentença do Altíssimo, digo que lhe peguem no corpo, e igualmente no dela, e que os enterrem longe, sem pôr na campa sinal de nenhuma espécie, para que ninguém saiba o lugar em que repousam. Foram malditos em vida e malditos serão na morte.

O povo fez como ele ordenou, e num campo afastado, onde não crescem ervas odoríferas, abriu-se uma cova funda e nela puseram os dois cadáveres.

Passou o terceiro ano e, num dia santificado, o cura foi à capela para mostrar ao povo as chagas do Senhor e falar acerca da ira divina.

Depois de se haver paramentado, entrou na capela, curvou-se diante do altar e notou que este estava coberto de estranhas flores como ele jamais vira. Eram maravilhosas à vista, a sua beleza perturbou-o, o seu aroma afagou-lhe as narinas e ele sentiu-se contente sem no entanto saber a razão.

Abriu o tabernáculo, incensou o ostensório que nele se continha e mostrou ao povo a sagrada partícula. Ocultou-a de novo atrás do véu dos véus e começou a falar aos fiéis, desejoso de se ocupar da cólera celeste. Mas a beleza das flores perturbava-o, e a suavidade do perfume deliciava-lhe o olfacto, e as palavras que lhe vinham aos lábios não se referiam à ira divina mas apenas ao amor de Deus. Por que motivo assim se expressava, ele não sabia.

Quando chegou ao fim, a multidão chorou, e o cura retirou-se para a sacristia com os olhos repletos de lágrimas. Os diáconos entraram e começaram a desvesti-lo, tiraram-lhe a alva e a faixa, o manípulo e a estola. Ele, porém, estava como no meio dum sonho.

Depois de lhe haverem tirado os paramentos, o cura olhou para eles e perguntou:
- Que flores são as que estão no altar e donde vieram?
- Vieram daquele terreno em que enterrámos o pescador...Que flores são, não sabemos.
O sacerdote estremeceu, voltou para casa e orou.


Oscar Wilde - "O pescador e a alma"

2009-03-01

tão próximo e discreto




Eu olhei em torno, procurando-O. Ele não estava na Cruz. Dirigi-me ao templo do ídolo, ao antigo pagode; nenhum sinal Dele era visível ali. Fui então para a Caaba; Ele não se achava naquele refúgio de velhos e jovens. Perguntei a Ibn Sina (Avicena) do Seu estado; Ele não se achava ao alcance de Ibn Sina. Olhei para o meu próprio coração. Aí eu O vi. Ele não estava em nenhum outro lugar.


Jalal Ud-Din Rumi