2009-04-30

a voz da Igreja:

(...)Na origem da crise estão o sistema neoliberal globalizado e a falta de ética na economia e na regulamentação do mercado, gerando corrupção e especulação. O mercado financeiro, na medida em que comanda as relações dos seres humanos entre si e com a natureza, reforça o consumismo comprometendo a justiça social e o equilíbrio ambiental. A crise financeira e econômica é apenas uma parte da crise mais profunda que é social, política, cultural, ambiental, ética e espiritual. Todas essas dimensões devem ser consideradas com coragem e lucidez, na busca de uma saída sustentável. (...)

Mensagem dos Bispos do Brasil para o Dia 1ª de Maio

coerências...

Na sua retórica de simplório, César das Neves, sempre mais papista que o papa, mete-se a interpretar a recente Nota dos Bispos sobre as próximas eleições. Segundo o iluminado senhor, um católico coerente não votará PS. O motivo: o programa do partido contemplar a hipótese de casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Cada vez se me fode mais o juízo, quando apelam à minha coerência de católica. É que eu até vou ter muitas dificuldades em votar, mas é por causa de notícias como esta: Os corpos de Ilsom, Nuno e Margarida chegaram ontem à noite a Avis em apenas duas urnas que, ainda assim, não couberam na capela mortuária, onde "só são velados os ciganos". À hora do fecho desta edição, as urnas continuavam na rua porque ninguém lhes abriu a porta da Igreja.

2009-04-29

o que é que posso dizer mais?

Estava para escrever qualquer coisinha sobre os senhores "pão-de-açúcar", mas a Ana já disse tudo: "Tive os melhores orgasmos da minha vida a ler o dito livro."

libertação feminina

So we are at a critical time. The parties' policies on violence against women could either become beacons of excellence, driven by genuine political will and resourced properly to move us closer to a safer world for women. Or they could prove the cynics right and use arguments about the economy to trade women's safety. Let's give the politicians a chance to prove themselves.



Holly Dustin, "The Guardian"



A libertação da mulher, ocorre por vontade da própria, quando assume que não lhe coube nenhum papel secundário, na vida. Não esquecer, porém, que sem políticas, sem empenho da sociedade, serão muito menos as que têm hipótese de vencer qualquer cenário de violência ou discriminação. Há cinquenta anos, neste país, por mais voluntariosa que uma mulher fosse, estava fortemente condicionada socialmente. Hoje, em certos meios, a violência é mais subtil - vem disfarçada de untuosa condescendência. A Lei da Paridade ( e estou a reverter a opinião que tive de início) é disso um exemplo.

se dúvidas restassem...


mas não, de todo: somos um país de mártires e virgens ofendidas.

2009-04-28

dai um saltinho

e ide ler o post "Álbum dos Santos" aqui. No tom claro e profundo do costume, o autor comunica e comunica-se.

manifestação de Deus

Disseram-lhe, então: «Que havemos nós de fazer para realizar as obras de Deus?» 29Jesus respondeu-lhes: «A obra de Deus é esta: crer naquele que Ele enviou.» 30Eles replicaram: «Que sinal realizas Tu, então, para nós vermos e crermos em ti? Que obra realizas Tu? 31*Os nossos pais comeram o maná no deserto, conforme está escrito: Ele deu-lhes a comer o pão vindo do Céu.» 32E Jesus respondeu-lhes: «Em verdade, em verdade vos digo: Não foi Moisés que vos deu o pão do Céu, mas é o meu Pai quem vos dá o verdadeiro pão do Céu, 33*pois o pão de Deus é aquele que desce do Céu e dá a vida ao mundo.» 34Disseram-lhe então: «Senhor, dá-nos sempre desse pão!» 35Respondeu-lhes Jesus:«Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim não mais terá fome e quem crê em mim jamais terá sede. 36Mas já vo-lo disse: vós vistes-me e não credes. 37Todos os que o Pai me dá virão a mim; e quem vier a mim Eu não o rejeitarei, 38porque desci do Céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou. 39E a vontade daquele que me enviou é esta: que Eu não perca nenhum daqueles que Ele me deu, mas o ressuscite no último dia. 40Esta é, pois, a vontade do meu Pai: que todo aquele que vê o Filho e nele crê tenha a vida eterna; e Eu o ressuscitarei no último dia.» (Jo 6, 28-40)

o silêncio de Deus

Poema do Silêncio

Sim, foi por mim que gritei.
Declamei,
Atirei frases em volta.
Cego de angústia e de revolta.

Foi em meu nome que fiz,
A carvão, a sangue, a giz,
Sátiras e epigramas nas paredes
Que não vi serem necessárias e vós vedes.

Foi quando compreendi
Que nada me dariam do infinito que pedi,
-Que ergui mais alto o meu grito
E pedi mais infinito!

Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas,
Eis a razão das épi trági-cómicas empresas
Que, sem rumo,
Levantei com sarcasmo, sonho, fumo...

O que buscava
Era, como qualquer, ter o que desejava.
Febres de Mais. ânsias de Altura e Abismo,
Tinham raízes banalíssimas de egoísmo.

Que só por me ser vedado
Sair deste meu ser formal e condenado,
Erigi contra os céus o meu imenso

Engano
De tentar o ultra-humano, eu que sou tão humano!

Senhor meu Deus em que não creio!
Nu a teus pés, abro o meu seio
Procurei fugir de mim,
Mas sei que sou meu exclusivo fim.

Sofro, assim, pelo que sou,
Sofro por este chão que aos pés se me pegou,
Sofro por não poder fugir.
Sofro por ter prazer em me acusar e me exibir!

Senhor meu Deus em que não creio, porque és minha criação!
(Deus, para mim, sou eu chegado à perfeição...)
Senhor dá-me o poder de estar calado,
Quieto, maniatado, iluminado.

Se os gestos e as palavras que sonhei,
Nunca os usei nem usarei,
Se nada do que levo a efeito vale,
Que eu me não mova! que eu não fale!

Ah! também sei que, trabalhando só por mim,
Era por um de nós. E assim,
Neste meu vão assalto a nem sei que felicidade,
Lutava um homem pela humanidade.

Mas o meu sonho megalómano é maior
Do que a própria imensa dor
De compreender como é egoísta
A minha máxima conquista...

Senhor! que nunca mais meus versos ávidos e impuros
Me rasguem! e meus lábios cerrarão como dois muros,
E o meu Silêncio, como incenso, atingir-te-á,
E sobre mim de novo descerá...

Sim, descerá da tua mão compadecida,
Meu Deus em que não creio! e porá fim à minha vida.
E uma terra sem flor e uma pedra sem nome
Saciarão a minha fome.

José Régio

2009-04-27

será?

Eu não acredito na alma, mas, se acreditasse, acho que ela ficaria muito ofendida se lhe dissessem que era só uma molécula,...

(Alexandre Quintanilha)

E se a nossa materialidade fosse coisa latente (tal crisálida )? Porque não? Quem é que quer ser pó e nada? Não, não é coisa para desprezarmos o "hoje". Hoje já somos, mas ainda não é manifesto o que havemos de ser.

crime e pecado

Juan Masiá, no blogue "Vivir y pensar en la frontera", está a fazer uma reflexão sobre crime e pecado:


A lei determina o que é delito, a consciência o que é pecado.

Se dizemos que nem todo o delito é pecado estamos correctos.

Se dizemos que nem tudo o que possa ser pecado deve necessariamente penalizar-se, também é correcto.

Se dizemos que a determinação do que é penalizável corresponde à legislação, também correcto.

Se dizemos que a Igreja determina o que é e não é pecado, nem correcto, nem incorrecto. Mas sim confuso. Porque a razão de que algo seja pecado não é porque a igreja o ponha numa lista como se fosse um catálogo de normas.


Quando o Direito Canónico (cânone 1398) afirma que quem pratica um aborto incorre em excomunhão automaticamente considera essa acção como um "delito em sentido canónico"; porém, como dizia o aforismo teológico tradicional, não pode a Igreja determinar se a dita pessoa pecou ou não. Isso se mantém no segredo da consciência religiosa perante Deus.
CANTAR DE AMIGO


À beira do rio fui dançar... Dançando
Me estava entretendo,
Muito a sós comigo,
Quando na outra margem, como se escondendo
Para que eu não visse que me estava olhando,
Por entre os salgueiros vi o meu amigo.

Vi o meu amigo cujos olhos tristes
Certo se alegravam
De me ver dançar.
Fui largando as roupas que me embaraçavam,
Fui soltando as tranças... Olhos que me vistes,
Doces olhos tristes, não no ireis contar!
Que o amor é lume bem eu o sei... que logo
Que vi meu amigo
Por entre os salgueiros,
Melhor eu dançava, já não só comigo
Toda num quebranto, ao mesmo tempo em fogo,
Melhor eu movia mãos e pés ligeiros.

Que Deus me perdoe, que aos seus olhos tristes
Assim ofertava
Minha formosura!
Se não fora o rio que nos separava,
Cruel com nós ambos, olhos que me vistes,
Nem eu me amostrara tão de mim segura...

In “Música Ligeira”

José Régio,
1901 – 1969

2009-04-24

vida a prazo

Decido que era hoje o dia de pedir o Cartão de Cidadão. Já tinha ouvido falar de longas filas para o efeito. Ao entrar na Conservatória do Registo Civil de Caldas da Rainha, nem acredito quando vejo que não está ninguém à espera de ser atendido. Procuro a máquina das senhas e, um cartaz bem vísivel diz que não é preciso senha nem fotografias, só doze euros. Nem quero acreditar na sorte e dirijo-me ao balcão para o efeito. Um ou dois minutos de espera e digo ao que vou. - "Muito bem, fica marcado para 3 de Julho às nove horas. Pode ser?" - Gaguejo um "acho que pode".
Saio com Miguel Torga no pensamento:"Estava escrito que nunca seria o dono feliz dos meus actos". (Diário V)

2009-04-23

espalhem a notícia:

este gajo ressuscitou, Aleluia!!!

No dia do Livro:


Erasmo dizia que o texto bíblico não nos remete para uma língua unicamente, mas está repleto delas: “a língua dos homens e a dos anjos, a língua da terra e a do céu, a língua dos ínfimos e a língua de Deus”. A Bíblia é, em relação ao infinito, um observatório e um reservatório. A sua palavra aspira impacientemente à categoria de não-palavra, ou não-apenas-palavra. Busca o vislumbre. Não quer ser porta, quer transportar. Quer o contínuo do sentido como disseminação acessível e sem fim. A Bíblia foi escrita com palavras que sonham.

...

Scriptura cum legentibus crescit. O texto permanece em aberto não por insuficiência, mas por excesso. Ler a Bíblia, aproximar-se dela na pluralidade das traduções, das tradições, até mesmo das traições, é outra coisa, porventura, que observação de um infinito? Ler será, por isso, ampliar ainda os arquivos do espanto.


José Tolentino de Mendonça, aqui

o amor é lixado



Este senhor, vai estar hoje no Teatro S. Luís, a apresentar o seu mais recente trabalho "Boato". Eu, por cá, vou ouvindo esta versão em parceria com Luanda Cozetti.

2009-04-22

politicamente indigente


ao assistir a uma entrevista que ontem passou na RTP, a memória só me fugia para esta fábula de Millôr Fernandes:



Saiu o leão a fazer sua pesquisa estatística, para verificar se ainda era o Rei das Selvas. Os tempos tinham mudado muito, as condições do progresso alterado a psicologia e os métodos de combate das feras, as relações de respeito entre os animais já não eram as mesmas, de modo que seria bom indagar. Não que restasse ao Leão qualquer dúvida quanto à sua realeza. Mas assegurar-se é uma das constantes do espírito humano, e, por extensão, do espírito animal. Ouvir da boca dos outros a consagração do nosso valor, saber o sabido, quando ele nos é favorável, eis um prazer dos deuses. Assim o Leão encontrou o Macaco e perguntou: "Hei, você aí, macaco - quem é o rei dos animais?" O Macaco, surpreendido pelo rugir indagatório, deu um salto de pavor e, quando respondeu, já estava no mais alto galho da mais alta árvore da floresta: "Claro que é você, Leão, claro que é você!".


Satisfeito, o Leão continuou pela floresta e perguntou ao papagaio: "Currupaco, papagaio. Quem é, segundo seu conceito, o Senhor da Floresta, não é o Leão?" E como aos papagaios não é dado o dom de improvisar, mas apenas o de repetir, lá repetiu o papagaio: "Currupaco... não é o Leão? Não é o Leão? Currupaco, não é o Leão?".


Cheio de si, prosseguiu o Leão pela floresta em busca de novas afirmações de sua personalidade. Encontrou a coruja e perguntou: "Coruja, não sou eu o maioral da mata?" "Sim, és tu", disse a coruja. Mas disse de sábia, não de crente. E lá se foi o Leão, mais firme no passo, mais alto de cabeça. Encontrou o tigre. "Tigre, - disse em voz de estentor -eu sou o rei da floresta. Certo?" O tigre rugiu, hesitou, tentou não responder, mas sentiu o barulho do olhar do Leão fixo em si, e disse, rugindo contrafeito: "Sim". E rugiu ainda mais mal humorado e já arrependido, quando o leão se afastou.


Três quilômetros adiante, numa grande clareira, o Leão encontrou o elefante. Perguntou: "Elefante, quem manda na floresta, quem é Rei, Imperador, Presidente da República, dono e senhor de árvores e de seres, dentro da mata?" O elefante pegou-o pela tromba, deu três voltas com ele pelo ar, atirou-o contra o tronco de uma árvore e desapareceu floresta adentro. O Leão caiu no chão, tonto e ensanguentado, levantou-se lambendo uma das patas, e murmurou: "Que diabo, só porque não sabia a resposta não era preciso ficar tão zangado".

22 de Abril - Dia da Terra


Porque é preciso cuidar!

2009-04-21

surpreendente



tem de ser o Deus, que concebe um Céu, onde cabem todos os "cromos" (estou a ser condescendente) que brotam neste planeta azul.
imagem - The Guardian

será culpa do "bo"?

(reuters)


Sentada, placidamente, a ver o mundo pela "janela" que é o pequeno ecran do meu computador, é muito fácil emitir opinião sobre o mesmo, e sobre os vários intervenientes que nele actuam. Mas entre fazer isso e fazer coisa nenhuma, o melhor é mesmo, assim, opinar.


Serve a presente, para exprimir a minha perplexidade, pela decisão do Presidente Obama em absolver os culpados das técnicas violentas de tortura, na interrogação dos suspeitos de terrorismo.

Tinha várias opções. Decerto que as considerou. Mas escolheu (não sei se já influenciado pelo inquilino canino, descendente de lusitanos) a mais cómoda: varrer tudo para debaixo do tapete. Uns não são culpados, porque não. E os outros não são culpados, porque obedeceram aos tais. É muito fraco para um Presidente dos Estados Unidos da América.

Do "The Guardian" respiguei este comentário sobre o tema:

When it comes to another tragic mistake – the recent predilection for torture – Obama tells the world that we should "look forward, not backwards". It is not the fault of the CIA agents, the argument goes, that they followed the law as the White House lawyers described it. Even though they might have wondered whether abusing prisoners was wrong, they were just doing as they were told, and we should not hound them now. For the security of the nation, the CIA must be allowed to get on with its job.

tem cuidado, carolina

2009-04-20

considerandos...


Quando me envolvo a pensar em qualquer tema, gosto de arranjar uma metáfora, e servir-me dela, como hermenêutica para avançar e tirar as devidas conclusões.

Para discorrer sobre a forma como nos relacionamos uns com os outros, coloco a actividade de garimpeiro - o que procura pedras preciosas - como chave de leitura.

Cada pessoa humana, é de tal modo rica e cheia de variantes, que classificá-la, à partida, como lixo ou pedra preciosa, é ser redutor e simplista. O garimpeiro consciente da sua actividade, sabe que tem da escavar muito, remover muita terra, e quando encontra a pedra preciosa, sente-se grato e recompensado por toda a actividade desenvolvida. Mas encontrar a pedra preciosa, não o demove de continuar à procura - felizmente que, o desejo de mais, está bem arreigado na alma humana - e continua a cavar, a cavar, a procurar no meio da areia. Esta actividade pressupõe que se está motivado, e que se reúnem, à partida, as condições necessárias. Muitos de nós, não fomos apetrechados, em tempo útil (infância e adolescência) para agirmos como garimpeiros. Ambicionamos a pedra preciosa, mas desprezamos o trabalho da procura. Daí o fixarmo-nos mais no lixo, do que no tesouro, é um pequeno passo. Deixamos de ver a realidade e passamos a ver o ideal.
Ocorreu-me isto tudo, ao ler a crónica do economista João César das Neves. No artigo desta semana, atira-se a alguns dos intelectuais de quem recebemos novas luzes para entender o que somos. Não vou colocar nenhum deles em altar e começar a prestar-lhe culto. Nem esquecer os erros que cometeram, por causa do pensamento que produziram. Apenas, olhar para eles como homens, na complexidade que todos somos. Só isso.

2009-04-17

umas gotas de claridade

"Deus: por onde começar?"

Por onde começar a investigar filosoficamente o problema de Deus? Que questão deve ter prioridade sobre as outras? Saber se existe? Saber o que é? Ou saber se é possível conhecer alguma coisa a seu respeito?

À primeira vista, qualquer uma parece igualmente boa para começar, mas uma análise mais cuidadosa revela que não é assim. Rapidamente se descobrem prós e contras em todas e o optimismo inicial corre o risco de se converter em pessimismo céptico e paralisar a investigação. Analisemos cada uma com algum detalhe e vejamos onde isso nos conduz.

Admitamos, por hipótese, que é a primeira a melhor para iniciar: "Deus existe ou não?" Não é lógico que é esta a questão das questões, a primeira de todas, a que deve ser colocada e respondida antes de qualquer outra? Pois, se Deus não existir, que sentido faz continuar a colocar as outras questões? Nenhum, não é verdade?! Se não existir, a questão da sua identidade ou essência, bem como do nosso conhecimento dele, são questões vazias e absurdas; por isso, devemos decidir primeiro se Deus existe ou não e só depois perguntar o que é e o que podemos saber sobre ele, certo?



João Carlos Silva,
aqui


Arcebispo Ortodoxo Severias Meliki Morad, durante a tradicional lavagem dos pés, no St. Mark's Church, em Jerusalém's 16 de abril de 2009.
(Imagem-Reuters)

2009-04-15

eu creio em Deus.

Escolhi para leitura neste tempo pascal (a festa litúrgica da Páscoa prolonga-se por 50 dias) o livro "A vida Eterna" de Fernando Savater (importante pensador espanhol).
É uma desafiante reflexão - do ponto de vista "não crente" - sobre a religião, a razão, Deus, a morte e a vida eterna.

Sem responder, ainda, de modo directo, às questões do autor, (também ainda vou só na pág. 92), não enjeito assumir-me como a crente ingénua, e fazer minhas, estas belas palavras de Raúl Brandão:


Nós não vemos a vida – vemos um instante da vida. Atrás de nós a vida é infinita, adiante de nós a vida é infinita. A primavera está aqui, mas atrás deste ramo em flor houve camadas de primaveras de oiro, imensas primaveras extasiadas, e flores desmedidas por trás desta flor minúscula. O tempo não existe. O que eu chamo a vida é um elo, e o que aí vem um tropel, um sonho desmedido que há-de realizar-se. E nenhum grito é inútil, para que o sonho vivo ande pelo seu pé. A alma que vai desesperada à procura de Deus, que erra no universo, ensanguentada e dorida, a cada grito se aproxima de Deus. Lá vamos todos a Deus…Toda a vida está por explorar: só conhecemos da vida uma pequena parte – a mais insignificante. E o erro provém de que reduzimos a vida espiritual ao mínimo, e a vida material ao máximo. (...)Deus é eterno… A alma há-de acabar por se exprimir, Deus, que olha pelos nossos olhos e fala pela nossa boca, há-de acabar por falar claro. Siga a vida seu curso esplêndido. Sabe a sonho e a ferro. É ternura e desespero. Leva-nos, arrasta-nos, impele-nos, enche-nos de ilusão, dispersa-nos pelos quatro cantos do globo. Amolga-nos. Levanta-nos. Aturde-nos. Ampara-nos. Encharca-nos no mesmo turbilhão. Mas, um momento só que seja, obriga-nos a olhar para o alto, e até ao fim ficamos com os olhos estonteados. Eu creio em Deus.

Raul Brandão (1867-1930)

2009-04-14

mais um poucochinho de incongruências

Lamenta-se a Igreja Católica do Novo Projecto do PS, para a Educação Sexual nas escolas, classificando-o de redutor. Lá está a Igreja a querer chegar onde não pode nem deve.
Para a educação que defende, é a si própria que a Igreja tem que exigir. E tem meios para o fazer eficazmente, se se dispuser a usá-los.

2009-04-13

mais incongruências

Não, não é só na Igreja Católica, o lugar onde a Mulher é o elo mais fraco. Exemplos na sociedade não nos faltam. Durante a semana passada, ficámos a saber que numa "Loja do Cidadão" as funcionárias não deviam vestir roupas onde o "decoro" fosse posto em causa.
Como muito bem ironiza Manuel António Pina, a decência tem de começar por algum lado. Começa sempre pelo que dá mais jeitinho.

incongruências

Fernando Lugo, Presidente do Paraguai, e ex-bispo católico, é alvo de uma acção judicial para reconhecimento da paternidade de uma criança, nascida enquanto era bispo.

Para um conservador, será normal, tal procedimento. Sendo bispo, não cabia reconhecer-se como pai. Será?

2009-04-07

teologia e dor



O regresso é uma promessa. Nos presentes modelos de sucesso não cabe o sofrimento, a dor e o fracasso. O lamento de angústia e aflição "Meu Deus, meu Deus porque me abandonaste?" (Mt 27,26) continua a ouvir-se. Educar para a doçura é uma resposta.
imagem-Jean luc Godard, "vivre sa vie" . Anna Karina

2009-04-05

teologia do silêncio




Uma das coisas que durante muito tempo me incomodava era pensar por que é que Deus não era mais claro, não se exprimia melhor. Hoje acredito que o silêncio de Deus é a coisa mais preciosa que Ele nos dá! Quanto mais Ele se exprimisse da maneira que eu queria, mais se confundiria com este dia-a-dia. O silêncio de Deus é a afirmação da sua transcendência e da sua solicitude permanente e amorosa em relação ao Homem.




2009-04-03

o amor não é prático...

"Existe uma maneira", respondeu a Roseira, "mas é tão terrível que não ouso contar-te." "Conta-me", disse o Rouxinol. "Não tenho medo.""Se queres uma rosa vermelha", disse a Roseira, "tens de criá-la com a tua música ao luar, e tingi-Ia com o sangue de teu coração. Tens de cantar para mim apertando o peito contra um espinho. A noite inteira tens de cantar para mim, até que o espinho perfure o teu coração e o teu sangue penetre nas minhas veias, e se torne meu."
"A Morte é um preço alto a pagar por uma rosa vermelha", exclamou o Rouxinol, "e todos dão muito valor à Vida. É agradável, no bosque verdejante, ver o Sol na sua carruagem de ouro, e a Lua na sua carruagem de madrepérola. Doce é o perfume do pilriteiro, e belas são as campânulas que se escondem no vale, e as urzes que florescem no monte. Porém o Amor é melhor que a Vida, e o que é o coração de um pássaro comparado com o coração de um homem?" Assim, ele abriu as asas pardas e levantou voo. Atravessou o jardim como uma sombra, e como uma sombra voou pelo arvoredo.
O jovem Estudante continuava deitado na relva, onde o Rouxinol o havia deixado, e as lágrimas ainda não haviam secado nos seus belos olhos."Regozija-te", exclamou o Rouxinol, "regozija-te; terás a tua rosa vermelha. Vou criá-la com a minha música ao luar, e tingi-la com o sangue do meu coração. Tudo que te peço em troca é que ames de verdade, pois o Amor é mais sábio que a Filosofia, por mais sábia que ela seja, e mais poderoso que o Poder, por mais poderoso que ele seja. As suas asas são da cor do fogo, e tem a cor do fogo seu corpo. Seus lábios são doces como o mel, e o seu hálito é como o incenso. O Estudante levantou os olhos e ficou a escutá-lo, porém não compreendia o que lhe dizia o Rouxinol, pois só conhecia as coisas que estão escritas nos livros.

Mas o Carvalho compreendeu, e entristeceu-se, pois ele gostava muito do pequeno Rouxinol que havia construído um ninho nos seus galhos."Canta uma última canção para mim", sussurrou ele; "vou sentir-me muito solitário depois que tu partires." Assim, o Rouxinol cantou para o Carvalho, e a sua voz era como água jorrando de uma jarra de prata. Quando o Rouxinol terminou a sua canção, o Estudante levantou-se, tirando do bolso um caderno e um lápis."Forma ele tem", disse ele a si próprio, enquanto se afastava, caminhando pelo arvoredo, "isso não se pode negar; mas terá sentimentos? Temo que não. Na verdade, ele é como a maioria dos artistas; só estilo, nenhuma sinceridade. Não seria capaz de sacrificar-se pelos outros. Pensa só na música, e todos sabem que as artes são egoístas. Mesmo assim, devo admitir que há algumas notas belas em sua voz. Pena que nada signifiquem, nem façam nada de bom na prática." E foi para seu quarto, deitou-se na sua pequena enxerga e começou a pensar no seu amor; depois de algum tempo, adormeceu. E quando a Lua brilhava nos céus, o Rouxinol voou até a Roseira e cravou o peito no espinho. Cantou a noite inteira apertando o peito contra o espinho, e a Lua, fria e cristalina, inclinou-se para ouvir. A noite inteira ele cantou, e o espinho foi-se cravando cada vez mais fundo no seu peito, e o sangue foi-lhe escapando das veias. Cantou primeiro o nascimento do amor no coração de um rapaz e de uma moça. E no ramo mais alto da Roseira abriu-se uma rosa maravilhosa, pétala após pétala, à medida que canção seguia canção. Pálida era, de início, como a névoa que paira sobre o rio - pálida como os pés da manhã, e prateada como as asas da alvorada. Como a sombra de uma rosa num espelho de prata, como a sombra de uma rosa numa poça d' água, tal era a rosa que floresceu no ramo mais alto da Roseira. Porém a Roseira disse ao Rouxinol que se apertasse com mais força contra o espinho. Aperta-te mais, pequeno Rouxinol", exclamou a Roseira, "senão o dia chegará antes que esteja pronta a rosa." Assim, o Rouxinol apertou-se com ainda mais força contra o espinho, e seu canto soou mais alto, pois ele cantava o nascimento da paixão na alma de um homem e uma mulher. E um toque róseo delicado surgiu nas folhas da rosa, tal como o rubor nas faces do noivo quando ele beija os lábios da noiva. Porém o espinho ainda não havia penetrado até o coração, e assim o coração da rosa permanecia branco, pois só o coração do sangue de um Rouxinol pode tingir de vermelho o coração de uma rosa. E a Roseira insistia para que o Rouxinol se apertasse com mais força contra o espinho. "Aperta-te mais, pequeno Rouxinol", exclamou a Roseira, "senão o dia chegará antes que esteja pronta a rosa."Assim, o Rouxinol apertou-se com ainda mais força contra o espinho, e uma feroz pontada de dor atravessou-lhe o corpo. Terrível, terrível era a dor, e mais e mais tremendo era seu canto, pois ele cantava o Amor que é levado à perfeição pela Morte, o Amor que não morre no túmulo. E a rosa maravilhosa ficou rubra, como a rosa do céu ao alvorecer. Rubra era sua grinalda de pétalas, e rubro como um rubi era seu coração. Porém a voz do Rouxinol ficava cada vez mais fraca, e suas pequenas asas começaram a bater, e seus olhos se embaciaram. Mais e mais fraca era a sua canção, e ele sentiu algo a sufocar-lhe a garganta. Então desprendeu-se dele uma derradeira explosão de música. A Lua alva ouviu, e esqueceu-se do amanhecer, e permaneceu no céu. A rosa rubra ouviu, e estremeceu de êxtase, e abriu as suas pétalas para o ar frio da manhã. O Eco vou-a para sua caverna púrpura nas montanhas, e despertou dos seus sonhos os pastores adormecidos. A música flutuou por entre os juncos do rio, e eles levaram a sua mensagem até o mar."Olha, olha!", exclamou a Roseira, "a rosa está pronta." Porém o Rouxinol não deu resposta, pois jazia morto na relva alta, com o espinho cravado no coração. E ao meio-dia o Estudante abriu a janela e olhou para fora."Ora, mas que sorte extraordinária!", exclamou. "Eis aqui uma rosa vermelha! Nunca vi uma rosa semelhante em toda minha vida. É tão bela que deve ter um nome comprido em latim." E, abaixando-se, colheu-a. Em seguida, pôs o chapéu e correu até a casa do Professor com a rosa na mão. A filha do Professor estava sentada à porta, enrolando seda azul num carretel, e seu cãozinho estava deitado a seus pés."Disseste que dançarias comigo se eu te trouxesse uma rosa vermelha", disse o Estudante. "Eis aqui a rosa mais vermelha de todo o mundo. Tu a usarás junto ao teu coração, e quando dançarmos ela te dirá quanto te amo."Porém a moça franziu a testa."Creio que não vai combinar com o meu vestido", respondeu ela; "e, além disso, o sobrinho do Tesoureiro enviou-me jóias de verdade, e todo mundo sabe que as jóias custam muito mais do que as flores.""Ora, mas és mesmo uma ingrata", disse o Estudante, zangado, e jogou a rosa na rua; a flor caiu na sarjeta, e uma carroça passou por cima dela."Ingrata!". Exclamou a moça, "Tu é que és muito mal-educado; e quem és tu? Apenas um Estudante. Ora, creio que não tens sequer fivelas de prata nos teus sapatos, como tem o sobrinho do Tesoureiro." E, levantando-se, entrou em casa."Que coisa mais tola é o Amor!", disse o Estudante enquanto se afastava. "É bem menos útil que a Lógica, pois nada prova, e fica todo o tempo a dizer-nos coisas que não vão acontecer, e fazendo-nos acreditar em coisas que não são verdade. No final das contas, é algo muito pouco prático, e como em nossos tempos ser prático é tudo, vou retomar a Filosofia e estudar Metafísica."Assim, voltou para o seu quarto, pegou num livro grande e poeirento, e começou a ler.

Oscar Wilde - "O rouxinol e a rosa"

Perante o amor (que é dádiva e conquista) pode surgir a indiferença. Nem todos estamos dispostos aos sacrifícios que o amor exige.
Nesta história de Oscar Wilde, a mulher é apresentada como fútil e interesseira. O mundo feminino, tal como o masculino, é muito vasto. Há mulheres de muitos sentires e muitos sentires nas mulheres. Tiremos da história, que do amor surge sempre algo de belo, compete-nos fazê-lo perdurar ou morrer.

2009-04-01

jardim avariado...



O jardim foi atacado por uma inoportuna maleita. Escusado será dizer que eu não a sei erradicar. Espera-se que a Ana tenha um pouco de tempo. Entretanto, peço desculpa...e ouçam baixiiinho a Maria Rita

mais uma fábula ...

"Ela disse que dançaria comigo se eu lhe trouxesse rosas vermelhas", exclamou o jovem Estudante, "mas em todo o meu jardim não há nenhuma rosa vermelha."Do seu ninho no alto da azinheira, o Rouxinol ouviu-o, e olhou por entre as folhas, e ficou a pensar."Não há nenhuma rosa vermelha em todo o meu jardim!", exclamou ele, e seus lindos olhos encheram-se de lágrimas. "Ah, nossa felicidade depende de coisas tão pequenas! Já li tudo que escreveram os sábios, conheço todos os segredos da filosofia, e no entanto por falta de uma rosa vermelha a minha vida é infeliz."

"Finalmente, eis um que ama de verdade", disse o Rouxinol. "Noite após noite eu o tenho cantado, muito embora não o conhecesse: noite após noite tenho contado a sua história para as estrelas, e eis que agora o vejo. Seus cabelos são escuros como a flor do jacinto, e seus lábios são vermelhos como a rosa de desejo; porém a paixão transformou-lhe o rosto em marfim pálido, e cravou-lhe na fronte a sua marca."

"Amanhã haverá um baile no palácio do príncipe", murmurou o jovem Estudante, "e a minha amada estará entre os convidados. Se eu lhe trouxer uma rosa vermelha, ela há de dançar comigo até o dia raiar. Se lhe trouxer uma rosa vermelha, eu a terei nos meus braços, e ela deitará a cabeça no meu ombro, e sua mão ficará apertada na minha. Porém não há nenhuma rosa vermelha no meu jardim, e por isso ficarei sozinho, e ela passará por mim sem me olhar. Não me dará nenhuma atenção, e meu coração será destroçado."

"Sim, ele ama de verdade", disse o Rouxinol. "Aquilo que eu canto, ele sofre; o que para mim é júbilo, para ele é sofrimento. Sem dúvida, o Amor é uma coisa maravilhosa. É mais precioso do que as esmeraldas, mais caro do que as opalas finas. Nem pérolas nem romãs podem comprá-lo, nem é coisa que se encontre à venda no mercado. Não é possível comprá-lo de comerciante, nem pesá-lo numa balança em troca de ouro".

"Os músicos no balcão", disse o jovem Estudante, "tocarão os seus instrumentos de corda, e o meu amor dançará ao som da harpa e do violino. Dançará com pés tão leves que nem sequer hão de tocar no chão, e os cortesãos, com os seus trajes coloridos, vão cercá-la. Porém, comigo ela não dançará, porque não tenho nenhuma rosa vermelha para lhe dar." E jogou-se na relva, cobriu o rosto com as mãos e chorou. "Por que chora ele?", indagou um pequeno Lagarto Verde, ao passar correndo com a cauda levantada."Sim, por quê?", perguntou uma Borboleta, que esvoaçava em torno de um raio de sol."Sim, por quê?", sussurrou uma Margarida, virando-se para sua vizinha, com uma voz suave."Ele chora por uma rosa vermelha", disse o Rouxinol."Uma rosa vermelha?", exclamaram todos. "Mas que ridículo!" E o pequeno Lagarto, que era um tanto cínico, riu à grande. Porém o Rouxinol compreendia o segredo da dor do Estudante, e calou-se no alto da azinheira, pensando no mistério do Amor. De repente ele abriu as asas pardas e levantou vôo. Atravessou o arvoredo como uma sombra, e como uma sombra cruzou o jardim. No centro do jardim havia uma linda Roseira, e quando a viu o Rouxinol foi até ela, pousando num ramo."Dá-me uma rosa vermelha", exclamou ele, "que cantarei meu canto mais belo para ti". Porém a Roseira fez que não com a cabeça."As minhas rosas são brancas", respondeu ela, "tão brancas quanto a espuma do mar, e mais brancas que a neve das montanhas. Procura a minha irmã que cresce junto ao velho relógio de sol, e talvez ela te possa dar o que queres." Assim, o Rouxinol voou até a Roseira que crescia junto ao velho relógio de sol. "Dá-me uma rosa vermelha", exclamou ele, "que cantarei meu canto mais belo para ti."Porém a Roseira fez que não com a cabeça."Minhas rosas são amarelas", respondeu ela, "amarelas como os cabelos da sereia que está sentada num trono de âmbar, e mais amarelas que o narciso que floresce no prado quando o ceifeiro ainda não veio com sua foice. Porém procura a minha irmã que cresce junto à janela do Estudante, e talvez ela possa te dar o que queres."Assim, o Rouxinol voou até a Roseira que crescia junto à janela do Estudante. "Dá-me uma rosa vermelha", exclamou ele, "que cantarei meu canto mais belo para ti. "Porém a Roseira fez que não com a cabeça. "As minhas rosas são vermelhas", respondeu ela, "vermelhas como os pés da pomba, e mais vermelhas que os grandes leques de coral que ficam a abanar na caverna no fundo do oceano. Porém o inverno congelou minhas veias, e o frio queimou meus rebentos, e a tempestade quebrou os meus galhos, e não darei nenhuma rosa este ano.""Uma única rosa vermelha é tudo o que quero", exclamou o Rouxinol, só uma rosa vermelha! Não há nenhuma maneira de consegui-la?"

continua...

Na Fábula presente, procura-se uma rosa vermelha. Em troca dela, o estudante espera a felicidade. Que significaria hoje a "rosa vermelha"?