2009-05-30

em júbilo anuncio:

a ternura tem mais um nome - chama-se Afonso. E é o meu sobrinho nascido hoje.

Vem, Espírito da sabedoria de Deus


Vem Espírito Santo. Desperta a nossa fé débil, pequena e vacilante. Ensina-nos a viver confiando no amor insondável de Deus nosso Pai a todos os Seus filhos e filhas, estejam dentro ou fora da Tua Igreja. Se se apaga esta fé em nossos corações, depressa morrerá também em nossas comunidades e igrejas.

Vem Espírito Santo. Faz que Jesus ocupe o centro da Tua Igreja. Que nada nem ninguém O suplante nem O obscureça. Não vivas entre nós sem atrair-nos para o Teu Evangelho e sem converter-nos para O seguir. Que não fujamos da Sua Palavra, nem nos desviemos do Seu mandato de amor. Que não se perca no mundo a Sua memória.
Vem Espírito Santo. Abre os nossos ouvidos para escutar as Teus chamamentos, os que nos chegam hoje, desde as interrogações, sofrimentos, conflitos e contradições dos homens e mulheres dos nossos dias. Faz-nos viver abertos ao Teu poder para gerar a fé nova que necessita esta sociedade nova. Que, na Tua Igreja, vivamos mais atentos ao que nasce que ao que morre, com o coração suportado pela esperança e não minado pela nostalgia.

Vem Espírito Santo e purifica o coração da Tua Igreja. Coloca verdade entre nós. Ensina-nos a reconhecer os nossos pecados e limitações. Recorda-nos que somos como todos: frágeis, medíocres e pecadores. Liberta-nos da nossa arrogância e falsa segurança. Faz que aprendamos a caminhar entre os homens com mais verdade e humildade.

Vem Espírito Santo. Ensina-nos a olhar de forma nova a vida, o mundo e, sobretudo, as pessoas. Que aprendamos a olhar como Jesus olhava aos que sofrem, aos que choram, aos que caem, aos que vivem sós e esquecidos. Se muda o nosso olhar, mudará também o coração e o rosto da Tua Igreja. Os discípulos de Jesus, irradiaremos melhor a Sua proximidade, a Sua compreensão e solidariedade para com os mais necessitados. Iremos parecer-nos mais ao nosso Mestre e Senhor.

Vem Espírito Santo. Faz de nós uma Igreja de portas abertas, coração compassivo e esperança contagiosa. Que nada nem ninguém nos distraia ou desvie do projecto de Jesus: fazer um mundo mais justo e digno, mais amável e ditoso, abrindo caminhos ao reino de Deus.



António José Pagola, aqui

sou violadora. Ah! mas podia ser pior...

Como católica sinto-me muito incomodada, com a forma como a Igreja tem reagido aos vários escândalos sexuais que se têm vindo a conhecer. Umas vezes, com um silêncio chocante. Outras, com declarações infelizes (no mínimo).

O cardeal Cañizares, Perfeito da Congregação para o Culto Divino, foi quem, ultimamamente, protagonizou mais um desses acontecimentos. Relativiza as violações e violências de menores, comparando-as com o aborto.


Com ironia e sabedoria, que parece faltar a quem tanto alarde faz dela, o Rui A., deixa este recado:


Dado o excesso e a frequência de declarações deste teor, sempre muito veiculadas pela comunicação social, não seria pior que o Papa, sem dúvida um homem sensato cuja teologia não deve compreender nem aceitar esta relativização do pecado, mandasse calar esta gente. Ou, em alternativa, mandar publicar um índex dos pecados, hierarquizando-os do menor ao maior, do menos para o mais grave, de modo a que sempre que estejamos à beira de cometer um, possamos procurar um outro que nos alivie mais a alma.

2009-05-28

um comentário




a uma "qeixaria" do Confessionário:



Caros Padres

Este diálogo apenas permite apontar de forma muito limitada para questões muito complexas. Mas vou tentar sintetizar. Vou sobretudo fazer perguntas. As mesmas que faço a mim própria.
As pessoas são, em geral, desconfiadas. Sobretudo, em relação ao que elas sentem como poder. E os padres, para as pessoas, representam poder.
Nesta questão que estamos a discutir existem duas vertentes importantes: a estrutura da Igreja Católica e a pessoa do padre.
O que é a Igreja, hoje? O que é uma comunidade paroquial?
O que é que as pessoas procuram na Igreja? E o que é que a Igreja tem para dar? Há equilíbrio nesta procura/oferta?
Os sacramentos que a Igreja celebra são celebrações de fé ou artigos de consumo como se encontra em qualquer mercado?
Agora a pessoa do padre:
Geralmente aceitamos bem relações onde nos sentimos gratificados e somos aceites. Já temos mais dificuldade em lidar com a rejeição. Mas somos adultos, e sabemos que encontramos as duas situações. Seremos tanto mais equilibrados se soubermos relacionarmo-nos tanto com as pessoas (ou situações) que nos gratificam tanto com as que nos põem em causa.
Mas o principal, ainda, é que nos aceitemos a nós próprios como somos. Que saibamos ver o que há em nós de bom e de mal. Nem sempre o fazemos bem. E quando não o fazemos, também não aceitamos que os outros o façam em relação a nós.
A coisa mais difícil e mais complicada é mostrarmo-nos como somos. Só o fazemos com um ou dois eleitos na vida. E às vezes nem isso. Mas se não nos mostramos como verdadeiramente somos, como é que queremos ser compreendidos como tal?

Muito sinceramente, meus queridos padres, acho que os padres são peritos nessa arte de se esconderem. Por uma razão que compreendo: as pessoas só querem ver na pessoa do padre, o bem. Depois, isto torna-se um círculo viciante. E perigoso. Não é bom para ninguém.
Não se pode ser amigo de toda a gente. Isso não existe. Nem somos obrigados a mostrar o mais íntimo de nós mesmos a qualquer pessoa. Mas quanto mais verdadeiros formos no que mostramos de nós, mais hipóteses temos de construir verdadeiras relações. Relações baseadas na confiança. E não sob o signo de qualquer medo.

2009-05-24





O PRÍNCIPE FELIZ


Sobranceira à cidade, numa coluna alta, erguia-se a es­tátua do Príncipe Feliz, revestida de cima a baixo de finas flores de oiro. Por olhos tinha duas safiras cintilantes, e no punho da espada brilhava-lhe um rubi enorme.Toda a gente a admirava.- Linda como um cata-vento - notou um dos verea­dores, que se arrogava gostos artísticos. - Só com a dife­rença de não ser tão útil - acrescentou logo, com medo de que o considerassem homem pouco prático, o que na realidade não era.- Por que não hás-de ser como o Príncipe Feliz? ­perguntou certa mãe ao filho que chorava por não lhe da­rem a Lua. -
O Príncipe Feliz nunca se lembra de chorar seja pelo que for.- Regozijo-me por verificar que existe neste mundo alguém inteiramente feliz - murmurou um desiludido ao contemplar a soberba estátua.- Parece mesmo um anjo - disseram os meninos do Recolhimento ao saírem da Catedral, com as suas capas de escarlate vivo e os seus bibes brancos muito limpos.- Como o sabeis? - replicou o professor de Matemá­tica. - Nunca vistes nenhum!- Ah, vemo-los em sonhos - afirmaram as crianças, enquanto o professor ficava carrancudo, pois não concor­dava com isso de os meninos sonharem.Uma noite, por cima da cidade, voou uma andorinha. As companheiras tinham partido já para o Egipto, havia seis semanas, mas esta deixara-se ficar para trás por estar enamorada dum junco formosíssimo. Conhecera-o no princípio da Primavera, quando descia o rio atrás duma grande borboleta amarela, e fora de tal modo cativada pe­la sua cintura esbelta que se demorara para falar com ele.- Gostas de mim? - inquiriu a andorinha, que ia sem­pre direita ao fim, sem maiores rodeios. O junco dobrou­-se numa inclinação profunda, e ela voou então várias ve­zes em torno dele, roçando a água com as asas e produ­zindo ondulações de prata. Era o seu processo de fazer a corte. O namoro prolongou-se todo o Verão.- Que afecto tão ridículo - chilreavam as amigas. ­O junco não tem dinheiro e a família é numerosa. - De facto, o rio estava cheio de juncos.
Com a chegada do Ou­tono, as outras andorinhas debandaram.Depois disso, começou ela a sentir-se muito só e a enfastiar-se do seu amado.«Não sabe conversar», dizia consigo. «Além disso, des­confio que é volúvel, pois está sempre a requebrar-se diante da viração.»Na verdade, sempre que a viração soprava, o junco flec­tia em amáveis cortesias.«Concordo que seja muito caseiro», continuava ela nas suas reflexões; «mas eu adoro viajar, e o meu marido, por consequência, deve viajar também.»- Queres vir comigo? - acabou por indagar.Mas o junco abanou a cabeça. Estava tão apegado ao lar! - Entretiveste-te comigo, nada mais - observou ela.- Pois agora vou até às Pirâmides. Adeus!Disse isto e voou. Voou todo o dia, e à noite chegou à cidade.«Onde hei-de instalar-me?», pensou. «Calculo que a ci­dade tenha feito os seus preparativos.»Viu então a estátua do Príncipe Feliz, na sua elevada co­luna.«Instalar-me-ei ali», declarou a si mesma. «A situação é óptima e não me faltará ar fresco.»E foi poisar mesmo aos pés do Príncipe Feliz.«Tenho um quarto doirado», murmurou, olhando em roda e preparando-se para dormir. Mas, no preciso ins­tante em que ia meter a cabeça debaixo da asa, caiu-lhe em cima uma grossa gota de água. «É curioso!», exclamou. «Não há uma única nuvem no céu, as estrelas estão puras e brilhantes, e no entanto chove! O clima da Europa Se­tentrional é realmente detestável. O junco apreciava a chuva, mas era só por egoísmo.»Caiu então outra gota.«De que serve uma estátua», reflectiu, «se se não conse­gue proteger-nos da chuva? O que devo fazer é procurar uma chaminé.» E resolveu mudar-se quanto antes.Mal, porém, abria as asas, tombou-lhe em cima terceira gota. Olhou para o alto, e viu... Ah, que viu ela?Os olhos do Príncipe Feliz estavam cheio de lágrimas, e as lágrimas corriam-lhe pelas faces de oiro... Era tão belo o seu rosto, visto assim ao luar, que a andorinha se sentiu apiedada.- Quem sois? - perguntou.- O Príncipe Feliz.- Então por que chorais? Já me encharcastes toda!- Quando estava vivo e tinha coração humano - respondeu a estátua -, eu não sabia o que eram lágrimas, pois vivia no palácio de Sans-Souci, onde se não permite que entre a dor. De dia brincava no jardim, com os meus com­panheiros, e à noite dirigia o baile nos salões. Em volta do parque há um muro elevadíssimo, mas nunca me importei saber o que estava para além dele. Derredor de mim tudo era belo. Os cortesãos chamavam-me Príncipe Feliz, e eu era realmente feliz, se o prazer constitui felicidade. Assim vivi e assim morri. E agora, que estou morto, colocaram­-me aqui tão alto que é possível ver toda a fealdade e misé­ria da minha cidade. E, se bem que o meu coração seja fei­to de chumbo, não posso impedir-me de chorar.«O quê? Não é de oiro maciço?», disse a andorinha consigo mesma. Era demasiadamente bem-educada para fazer observações pessoais em voz alta.- Ali adiante - continuou a estátua, em voz baixa e mu­sical - há aquela ruazinha com uma casa modesta. Uma das janelas está aberta, e através dela vejo a moradora senta­da à mesa. Tem rosto magro e cansado, e mãos vermelhas e magoadas da agulha, pois é costureira. Borda flores de mar­tírio num vestido de cetim para a mais bela das damas de honor da rainha usar no próximo baile da corte. Na cama, a um canto do quarto, está deitado o filho doente, que tem febre e pede laranjas. A mãe não tem nada que lhe dê senão água do rio, e por isso chora. Minha querida andorinha, não lhe queres levar o rubi do punho da minha espada? Tenho os pés soldados ao pedestal, não posso mexer-me.- Esperam-me no Egipto - respondeu a andorinha. - As minhas companheiras voam sobre o Nilo, abaixo e acima, a conversar com as imensas flores de lódão. Em breve irão dormir no túmulo do faraó, que lá repousa no seu sarcófago pintado, envolto em linho amarelo e embal­samado com drogas aromáticas. Em torno do pescoço os­tenta um colar de jade verde-pálido. As suas mãos são co­mo folhas murchas.- Minha querida andorinha - disse o Príncipe -, fi­ca ao menos uma noite e sê minha emissária. O pequeno está sequioso e a mãe parece tão triste!- Não me agradam muito os rapazinhos - asseverou a andorinha. - No Verão que passou, quando eu andava no rio, estavam lá dois deles, grosseirões, filhos do molei­ro, os quais não se fartavam de me atirar pedras. É claro que nunca me acertaram: nós andorinhas voamos muito bem, e, além disso, procedo duma família notável pela sua agilidade. Mas aquilo não deixava de ser falta de respeito.Contudo, o Príncipe ficara tão triste que a andorinha se comoveu.- Apesar de estar muito frio aqui - declarou ela -, permanecerei convosco esta noite e serei vossa mensageira.- Obrigado, querida andorinha, obrigado.Assim arrancou ela da espada do Príncipe o enorme ru­bi e o levou no bico, por cima dos telhados da cidade.Passou junto da torre da Catedral, onde há estátuas de anjos de mármore branco; passou pelo palácio e ouviu sons duma dança: à varanda assomou uma rapariga, com o seu namorado.- Que lindas são as estrelas - dizia ele. - E que ex­traordinário é o poder do amor!- Espero que o meu vestido fique pronto para o baile de gala - retorquiu ela. - Recomendei que lhe bordassem flores de martírio, mas as costureiras são tão indolentes!Passou a andorinha sobre o rio e viu as lanternas que pendiam dos mastros dos navios. Passou sobre a judiaria e viu os seus habitantes a traficarem uns com os outros e a pesarem dinheiro em balanças de metal. Por fim chegou à casa modesta e espreitou para dentro. O pequeno agitava-se na cama, cheio de febre, e a mãe, de cansada, adormecera em cima do trabalho; a ave entrou, depôs o rubi na mesa, ao lado do dedal da costureira, e em segui­da voou em torno do leito, suavemente, refrescando com as asas a testa da criança.- Que fresco que eu sinto! - exclamou esta. - Devo estar a melhorar.E mergulhou em sono profundo.A andorinha voltou então para a estátua e contou ao Príncipe Feliz o que havia feito.- E curioso - observou ela. - Sinto agora calor, ape­sar de haver tanto frio.- Eis o resultado da boa acção que praticaste - repli­cou o Príncipe.A ave pôs-se a pensar e adormeceu: era coisa que sem­pre lhe dava sono!Ao romper a manhã, voou para o rio e tomou banho.- Cá está um fenómeno digno de menção - comen­tou um professor de Ornitologia, que passava na ponte. - Uma andorinha no Inverno!E escreveu uma extensa carta para a gazeta local. Toda a gente a citava, pois era abundante de palavras difíceis, que ninguém compreendia.- Esta noite sigo para o Egipto - disse a andorinha, muito satisfeita com a ideia.Visitou todos os monumentos públicos e esteve muito tempo no cimo do campanário da igreja. Por onde quer que passasse, os pardais chilreavam entre si (o que a ela dava grande prazer):- Que estrangeira tão distinta!Ao nascer da Lua, voltou ao Príncipe Feliz e pergun­tou-lhe:- Quereis alguma coisa para o Egipto? Vou partir ago­ra mesmo.- Minha querida andorinha, não me concedes a tua companhia por mais uma noite?- Esperam-me lá - redarguiu ela. - Amanhã as mi­nhas amigas tencionam voar sobre a segunda catarata. Ali, entre os juncais, é que se deitam os hipopótamos, e se sen­ta o deus Mémnon sobre um imenso trono de granito. Contempla as estrelas a noite inteira, e, ao despontar da estrela de alva, solta um grito de júbilo e torna a emude­cer. Ao meio-dia, vêm beber à margem do rio leões de pê­lo flavescente. Seus olhos são verdes quais berilos, seu ru­gido é mais forte que o das cataratas.- Minha querida andorinha - replicou o Príncipe -, vejo no extremo da cidade um rapaz numa água-furtada. Está debruçado sobre a mesa cheia de papéis, e a seu lado, num copo, há um ramo de violetas fanadas. Tem cabelos castanhos e ondulados, lábios rubros de romã, olhos gran­des e sonhadores. Tenta acabar uma peça para o empresá­rio do teatro, mas está muito frio para continuar a escre­ver. Não lhe arde lenha no fogão, a fome há-de obrigá-lo a desmaiar.- Ficarei mais uma noite convosco - respondeu a an­dorinha, que na verdade possuía bons sentimentos. ­Quereis que leve outro rubi?- Infelizmente não tenho mais nenhum - declarou o Príncipe Feliz. - Os olhos são tudo quanto me resta: compõem-se de duas safiras, trazidas da Índia há mil anos. Arranca-me um deles e leva a esse rapaz, que o venderá a qualquer joalheiro e poderá, assim, comprar comida e le­nha e acabar a peça.- Ilustre Príncipe - volveu a andorinha -, não tenho coragem para fazer uma coisa dessas.E começou a chorar.- Minha querida andorinha, faze como te mando.Então a avezita arrancou um dos olhos do Príncipe e voou para a água-furtada do estudante. Era fácil entrar lá, porque havia um buraco no telhado. Por aí se precipitou ela e chegou ao quarto. O rapaz tinha a cabeça apoiada nas mãos, pelo que não ouviu o sussurro das asas da andori­nha; mas quando ergueu os olhos descobriu a bela safira sobre as violetas fanadas.«Começo a ser apreciado», murmurou. «Isto há-de ter vindo de algum grande admirador. Agora é que vou aca­bar a peça.»Considerava-se inteiramente feliz.No dia seguinte a andorinha desceu ao porto, poisou nomastro dum navio enorme e observou o trabalho dos ma­rinheiros, que içavam do porão arcas muito pesadas.- Vou para o Egipto! - gritou a ave, sem que ninguém lhe desse atenção. Ao nascer da Lua regressou à estátua do Príncipe Feliz.- Venho dizer-vos adeus - participou.Minha querida andorinha, não queres ficar comigo mais uma noite?- É Inverno - replicou ela - e a neve frígida não tar­dará a cair aqui. No Egipto o sol é quente sobre as pal­meiras verdes, e os crocodilos refastelam-se no lodo, olhando preguiçosamente à sua volta. As minhas compa­nheiras constróem ninho no templo de Heleópolis, e as pombas brancas e róseas seguem-nas com a vista, arru­lhando entre si. Ilustre Príncipe, tenho de vos deixar, mas nunca me esquecerei de vós. Na Primavera próxima hei­-de trazer-vos duas lindas jóias para substituir aquelas de que vos desfizestes. O rubi será mais vermelho do que a rosa rubra, e a safira mais azul do que o imenso mar.- Lá em baixo na praça - disse o Príncipe - está uma pequena vendedora de fósforos. Deixou-os cair na valeta e eles ficaram inutilizados. Se não levar dinheiro para ca­sa, o pai há-de bater-lhe, e é por isso que ela chora. Não tem sapatos nem meias e está de cabeça descoberta. Arranca-me o outro olho e leva-lho. Assim o pai já não lhe baterá.- Ficarei convosco mais uma noite - explicou a an­dorinha - mas não tenho coragem de vos arrancar o ou­tro olho. Ficaríeis cego de todo.- Minha querida andorinha, faze o que te mando - ­ordenou o Príncipe.A ave arrancou-lhe o outro olho e partiu com ele. Ao passar pela rapariga, deixou-lhe cair a jóia na palma da mão.- Que lindo bocadinho de cristal! - exclamou ela, correndo satisfeita para casa.
Regressou a andorinha à estátua e disse ao Príncipe:- Agora estais cego. Ficarei convosco para sempre.- Não, minha querida andorinha, tens de partir para o Egipto.- Ficarei convosco sempre - repetiu ela.E adormeceu aos pés do Príncipe.No dia seguinte poisou-lhe no ombro e contou-lhe his­tórias do que vira em terras estranhas. Falou-lhe dos íbis encarnados que se conservam em longas filas nas margens do Nilo e com o bico apanham peixes oirescente; da Es­finge, que é tão velha como o mundo, e vive no deserto e tudo sabe; dos mercadores que caminham vagarosamente ao lado dos camelos e levam as mãos cheias de contas de âmbar; do Rei dos Montes da Lua, que é preto como éba­no e adora um cristal grandioso; da enorme serpente ver­de que dorme numa palmeira e tem vinte sacerdotes a alimentá-la com bolos de mel; e dos pigmeus que navegam num grande lago, em cima de largas folhas chatas e andam sempre em guerra com as borboletas.- Minha querida andorinha - disse o Príncipe Feliz -, tu contas-me coisas extraordinárias, mas o mais ex­traordinário de tudo é o sofrimento dos humanos. Não há mistério maior do que a Miséria. Voa sobre a minha cida­de, andorinha, e vem dizer-me o que viste.Então a andorinha voou sobre a extensa cidade, e viu os ricos divertirem-se em suas casas sumptuosas, enquanto os pedintes se sentavam nos portões. Voou sobre as vielas sombrias e viu faces pálidas de crianças esfomeadas, olhando distraídas para o vácuo. Sob o arco duma ponte estavam deitados dois rapazinhos, que se envolviam nos braços um do outro para se aquecerem.- Que fome que nós temos! - diziam eles.- Não podeis estar aqui! - replicou-lhes o guarda. E viram-se obrigados a ficar à chuva.Voltou a andorinha e relatou ao Príncipe o que presen­ciara.- Estou revestido de oiro - observou ele. ­Podias tirá-lo folha por folha e dá-lo aos meus pobres. Os vivos julgam sempre que o oiro os pode fazer felizes.Folha atrás de folha, a andorinha foi arrancando o oiro da estátua, até que o Príncipe ficou todo cinzento e sem brilho. Folha atrás de folha, a andorinha levou o oiro aos pobres, e as faces das crianças tomaram cor, e elas riram e brincaram nas ruas.- Agora já temos pão! - diziam todas.Por fim chegou a neve, e, após a neve, a geada. As ruaspareciam feitas de prata, por causa da brancura e do res­plendor. Dos beirais das casas pendiam longos pingentes gelados, que semelhavam adagas de cristal. Toda a gente usava peles, e os rapazinhos, de barretes encarnados, pati­navam no gelo.A pobre andorinha tinha cada vez mais frio, mas não desejava abandonar o Príncipe, a quem dedicava tanta es­tima. Ia apanhar migalhas à porta do padeiro, quando ele não estava a olhar, e tentava aquecer-se batendo as asas de contínuo.No entanto, acabou por se convencer de que morreria, e mal teve forças de voar mais uma vez para os ombros do Príncipe.- Adeus, ilustre Príncipe - disse-lhe em voz baixa. ­Permitis que vos beije a mão?- Estimo saber que partes finalmente para o Egipto ­retorquiu aquele.- Demoraste-te por cá muito tempo. Até podes beijar-me na boca, pois gosto bastante de ti.- Não é para o Egipto que eu vou - respondeu a an­dorinha. - Vou para a Mansão da Morte. A morte é irmã do Sono, não é verdade?E, assim falando, beijou o Príncipe nos lábios e caiu morta a seus pés.Nesse momento, soou dentro da estátua um estalido misterioso, como se se houvesse quebrado alguma coisa. A verdade é que o coração de chumbo se partira em dois bocados. Devia estar um frio muito intenso...Cedo, na manhã seguinte, o presidente do Município passava na praça em companhia dos vereadores. Ao che­garem defronte da coluna, ergueram a vista para a está­tua.- Meu Deus! O Príncipe tem tão mau aspecto! - dis­se o presidente.- De facto, de facto - concordaram os outros, que es­tavam sempre de acordo com aquele. E subiram para ver a estátua de perto.- Caiu-lhe o rubi da espada. Perdeu os olhos e já não há vestígios de oiro - declarou o presidente. - Não está muito melhor que um mendigo.- Pior até - acrescentaram os vereadores.- E há um pássaro morto, entre os pés - continuou o primeiro. - Temos de publicar uma postura a proibir que os pássaros venham morrer aqui.O secretário apontou a sugestão no seu livrinho de notas. A estátua do Príncipe Feliz foi apeada.- Visto que já não é belo, também já não é útil - sen­tenciou o professor de Arte da Universidade.Então fundiram a estátua num forno de alta tensão, e o presidente convocou uma reunião da Câmara para decidi­rem o destino que deviam dar ao metal.- Precisamos de fazer outra estátua - disse ele. - Po­deria ser a minha...- Ou a minha - disse cada um dos vereadores, sobre o que disputaram.Da última vez que ouvi falar deles, ainda estavam a dis­cutir sobre o caso.- Que coisa esquisita! - observou o capataz da fundi­ção. - Este coração de chumbo, partido, não é capaz de fundir. O melhor é deitá-lo fora.E atiraram-no para um montão de lixo onde jazia o ca­dáver da andorinha.- Traze-me as duas coisas mais preciosas dessa cidade - disse Deus a um dos seus anjos.E o anjo trouxe-lhe o coração de chumbo e a andorinha morta.- Fizeste boa escolha - observou o Senhor. - No meu jardim do Paraíso esta avezinha cantará eternamente. E na minha áurea cidade o Príncipe Feliz me renderá seu culto.
Oscar Wilde

2009-05-22

nem só de festa se faz uma homenagem...


Antonio Maria Rouco Varela, cardeal, faz 50 anos de ordenação presbiteral. Várias associações galegas, entre elas, de médicos, empresários e taxistas, pretendem agraciá-lo com um almoço num hotel de Madrid. Pela módica quantia de 50 euros, têm direito a uma variada ementa e ainda... parqueamento grátis.
O motivo do almoço é homenagear e demonstrar carinho a um galego ilustre e "humano" (as aspas são minhas). E, entre outras coisas, conhecer el “nuevo Madrid” de los negocios.

O folheto de propaganda à homenagem do cardeal madrileno, refere ainda, que a mesma não consta só de festa (e negócios, digo eu) antes está previsto uma acto religioso, em concreto, uma Eucaristia.

Resumindo, nem só de festa vive um católico e se homenageia um ilustre bispo, há que assistir também à missinha.


2009-05-20

as funções da religião

Para ajudar a perceber a discussão sobre religião, suscitada no post "um deus à medida", coloco aqui um pequeno excerto de um texto de Ken Wilber (confesso que é um conhecimento muito recente, ainda não li nenhuma obra dele, apenas uns textos) que, quanto a mim, esclarece os modos de crer. Basicamente, dois grupos. E, como se vê, desequilibrados em número. E não só.



Numa série de livros (e.g., Um Deus Social, Up from Eden e The Eye of Spirit) tento mostrar que a religião sempre cumpriu duas funções muito importantes, mas muito diferentes. Em primeiro lugar, ela age de modo a criar significado para o self alienado: oferece mitos, histórias, contos, narrativas, rituais e revivescências que, em conjunto, ajudam o self a entender e suportar as pedras e flechas do destino implacável. Normalmente, esta função da religião não necessariamente altera o nível de consciência da pessoa; não provoca transformação radical. Nem provoca, tampouco, uma libertação definitiva do self alienado. Ao contrário, ela consola o self, fortalece o self, defende o self, promove o self. À medida que o self alienado acredita nos mitos, executa os rituais, balbucia as orações ou aceita os dogmas, então crê fervorosamente que será “salvo” – ainda nesta vida, pela glória da salvação de Deus ou da protecção da Deusa, ou na vida após a morte, quando ser-lhe-á assegurada felicidade eterna.

Mas, em segundo lugar, a religião cumpre – usualmente para uma muito, mas muito pequena minoria – uma função de transformação radical e de libertação. Esta função da religião não fortalece o self alienado; ao contrário, despedaça-o completamente – não a consolação mas devastação, não entrincheiramento mas esvaziamento, não complacência mas explosão, não conforto mas revolução – em síntese, não fortalecimento convencional da consciência mas transmutação e transformação radicais nas profundezas da própria consciência.


Ken Wilber:
Uma espiritualidade que transforma

execrável

é a conduta de quem praticou, e de quem soube, e nada fez. Como é possível?

2009-05-18

um deus à medida:

Escreve o Luís Januário, e eu concordo inteiramente:



Eles pediram a Deus que salvasse Portugal da guerra. Em 1940 o nazi fascismo ocupava a Europa, bombardeava a Inglaterra, perseguia implacavelmente os judeus, e o país entrava no décimo quarto ano de suspensão das liberdades. Os bispos portugueses não pediram a Deus para que a barbárie fosse derrotada. Fizeram um pedido privado ao seu pequeno deus nacional, que poupasse Portugal.



Mário Benedetti (1920-2009)

Morreu o poeta uruguaio Mário Benedetti. Chau, Mário!

Chau número tres


Te dejo con tu vida
tu trabajo
tu gente
con tus puestas de sol
y tus amaneceres.


Sembrando tu confianza
te dejo junto al mundo
derrotando imposibles
segura sin seguro.

Te dejo frente al mar
descifrándote sola
sin mi pregunta a ciegas
sin mi respuesta rota.

Te dejo sin mis dudas
pobres y malheridas
sin mis inmadureces
sin mi veteranía.

Pero tampoco creas
a pie juntillas todo
no creas nunca creas
este falso abandono.

Estaré donde menos
lo esperes
por ejemplo
en un árbol añoso
de oscuros cabeceos.

Estaré en un lejano
horizonte sin horas
en la huella del tacto
en tu sombra y mi sombra.

Estaré repartido
en cuatro o cinco pibes
de esos que vos mirás
y enseguida te siguen.

Y ojalá pueda estar
de tu sueño en la red
esperando tus ojos
y mirándote.


Um discurso de Obama

Por indicação do "Religionline" cheguei ao discurso do Presidente Obama na Universidade de Notre-Dame. Gostei de ler e deixo também o link:

It is this last challenge that I'd like to talk about today. For the major threats we face in the 21st century -- whether it's global recession or violent extremism; the spread of nuclear weapons or pandemic disease -- do not discriminate. They do not recognize borders. They do not see color. They do not target specific ethnic groups.

Moreover, no one person, or religion, or nation can meet these challenges alone. Our very survival has never required greater cooperation and understanding among all people from all places than at this moment in history.

2009-05-17

Arvo Pärt

Deus é Amor

Aquele que não ama não chegou a conhecer a Deus, pois Deus é amor. (1ª Jo 4,8)

Tenho presentes pessoas, a quem nenhuma estrutura familiar ou social, as fez sentirem-se amadas. Terem contacto com um Deus que "não faz acepção de pessoas" (Act 10,34), mas a todos convida a experimentarem o seu amor, foi a possibilidade de adquirirem dignidade.

Em vez de "impor normas" a Deus sobre as suas manifestações de omnipotência, convém-me cumprir o mandamento: É isto o que vos mando: que vos ameis uns aos outros.» (Jo 15, 17)


2009-05-14

pra mim começou o fim-de-semana, roam-se...




"Onde estava Deus"

Através da Ler cheguei a este texto de José Saramago:

À pergunta angustiada, ainda que carregada de uma retórica fácil, que o papa lançou em Auschwitz para surpresa e escândalo do mundo crente: “Onde estava Deus?”, vem esta grande exposição de Sofía Gandarias responder com simplicidade: “Deus não está aqui”. (...)

A questão do sofrimento e do Mal, por muita especulação teológica (e não só) que se tenha feito, continua a não ter resposta que humanamente seja aceitável.
Segue, sobre o tema, uma refleção do teólogo Hans Kung. Não resolve a questão nem a crentes nem a ateus, mas, até por isso, talvez nos sugira que não é motivo de mútuo arremesso. Que independentemente de encontrarmos uma resposta podemos em comum descobrir caminhos para minorar o sofrimento e vigiar para que horrores como o Holocausto não se repitam. (Desconte-se aqui a minha ingenuidade natural)


"Tendo em conta os acontecimentos da últimas décadas parece-me que não existe uma resposta teórica para o problema da teodiceia! Do ponto de vista dos crentes temos que afirmar o seguinte:
-Se Deus existe, Deus também esteve em Auschwitz! Crentes de diversas religiões continuam a crer em Deus mesmo nessa fábrica de morte. Apesar de tudo - Deus existe.
-Simultaneamente os crentes admitem que não é possível responder à pergunta: como poderia Deus ter estado em Auschwitz sem impedir que Auschwitz acontecesse?
Para consolo de toda a apologética religiosa, devemos confessar sobriamente o seguinte: quem, na qualidade de teólogo, pretender desvendar o mistério do próprio Deus, encontra no melhor dos casos o seu próprio teologumeno, a sua própria descobertazita teológica. Nem a Bíblia hebraica, nem o Novo Testamento explicam como o Deus bom, justo e poderoso - afinal não podemos desistir de todos estes atributos quando se trata de Deus! -, pôde permitir que acontecesse neste mundo um sofrimento imenso? Como pôde assistir a Auschwitz?

Ou será que me devo consolar com a fórmula clássica sobre o sofrimento do Holocausto, isto é, Deus não "quer" o sofrimento; mas também não quer não querer o sofrimento, pelo contrário deixa-o apenas acontecer:"permite" que aconteça. Porém, isto resolve todos os enigmas? Não, resolve tão pouco hoje como resolveu ontem. Perguntamo-nos então:conseguiremos justamente nós eliminar do mundo este problema primordial do Homem? Com base em que novos conhecimentos, com base em que experiências próprias? Não tem que ser necessariamente o Holocausto. Por vezes basta um fracasso profissional, uma doença, a perda, a traição ou a morte de uma única pessoa para nos lançar no desespero. (...)

Para resolver o problema há quem proponha o seguinte: a ideia de omnipotência deve ser suprimida. Outros também experimentam a tentação do seguinte pensamento:"When Good Things Happen to Bad People", desejam negar a bondade e justiça de Deus. Nenhum destes dois caminhos permite solucionar o dilema. Já ouvimos dizer que a omnipotência é uma característica erradamente atribuída e Deus. Todavia, um Deus despojado de todo o poder deixaria de ser Deus. E a ideia de que o Deus da Bíblia é cruel e despótico em vez de justo e bom seria ainda mais insuportável.
Quer queiramos quer não temos que nos resignar. Nem as mencionadas negações precipitadas, nem as mencionadas afirmações especulativas resolvem o problema. (...)
Para este ponto específico sugiro a teologia do silêncio."

2009-05-13

a propósito de fundamentalismo religioso (católico)

El rector de la universidad Notre Dame (Estado de Indiana), la más prestigiosa de las universidades católicas de Estados Unidos, ha invitado al presidente Obama a pronunciar, el próximo 17 de mayo, el importante discurso de graduación. La invitación del rector ha alterado a buena parte de la citada universidad. Un grupo, bautizado Escándalo en Notre Dame, ya ha entregado al rectorado 344.000 firmas de oposición a la conferencia del presidente. ¿Por qué? Porque Obama es tolerante en cuestiones que contradicen la posición de muchos obispos: aborto, investigación con células madre, permisividad en el uso del preservativo.

Al comentar esta noticia, ni pretendo oponerme a los obispos, ni identificarme con Obama. Tampoco es mi intención pronunciarme sobre las cuestiones que motivan la oposición al presidente de Estados Unidos. De todo eso ya se ha escrito lo indecible y no soy tan ingenuo como para pensar que voy a convencer a unos o a otros en el reducido espacio de un artículo de opinión. Lo que sí me parece que puede interesar a los lectores es recodar que las cuestiones, que tanto alborotan a la universidad Notre Dame - y a tantos miles de católicos en todo el mundo - son “cuestiones debatidas” en la sociedad y, por tanto, sobre las que no existe un consenso en la Iglesia, ni siquiera entre los obispos. Lo que ocurre es que, como la postura del Vaticano es tan intransigente sobre estos asuntos, son muchos los obispos, muchísimos los sacerdotes y religiosos e incontables los laicos que, por respeto (¿miedo, a veces?) a la Curia Vaticana, no se atreven a pronunciarse públicamente. En todo caso, es importante saber que las “quaestiones disputatae” en la Iglesia no son, ni pueden ser, cuestiones de fe. Porque, como dijo el concilio Vaticano primero (a. 1870), “deben creerse con fe divina y católica todas aquellas cosas que se contienen en la palabra de Dios…, y son propuestas por la Iglesia para ser creídas como divinamente reveladas” (Denzinger-Hün. 3011). Ahora bien, los asuntos discutidos, entre laicos y clérigos, teólogos y obispos, no reúnen estas condiciones. Por tanto, si son cuestiones disputadas, son cuestiones de las que se puede disentir sin que eso lleve consigo apartarse de la fe de la Iglesia o incurrir necesariamente en pecado.

Es importante tener esto claro. Porque hay gente de buena voluntad que tiene la idea de que todo lo que dice el papa es “verdad de fe”. Lo mismo que hay quienes piensan que el papa personalmente, prescindiendo de lo que piensa y cree el conjunto de la Iglesia con sus obispos, puede decidir de modo definitivo en toda cuestión surgida en asuntos relacionados con la fe y las costumbres. Pero no es así. La última definición dogmática, que un papa ha pronunciado en la Iglesia, fue el año 1950, cuando Pío XII definió el dogma de la Asunción de la Virgen María. Y es bien sabido que aquel papa procedió a pronunciar la definición después de preguntar a todos los obispos del mundo si él podía definir tal dogma. Y sólo lo hizo cuando recibió la aceptación de todo el episcopado católico.

Con esto quiero decir que ni los discursos o encíclicas de los papas, ni siquiera la doctrina del concilio Vaticano II, nada de eso es doctrina de fe. Porque ninguno de esos documentos, ni siquiera los del último concilio (que Juan XXIII lo planteó como un concilio pastoral, no dogmático), son definiciones dogmáticas de la fe de la Iglesia universal. Y me parece que es importante tener esto muy claro siempre. Pero más en este tiempo nuestro en el que abundan los grupos fundamentalistas religiosos, que se empeñan en imponer como religiosamente obligatorios determinados puntos de vista o doctrinas en las que se puede disentir de lo que dice el papa o el obispo, sin que por ello se incurra en una desviación de la fe y mucho menos en un pecado de herejía.

Los grupos fundamentalistas religiosos son una de las amenazas más serias que tiene el mundo en estos momentos. Por supuesto, cuando se trata de fundamentalistas violentos hasta el extremo de traducir en muerte sus ideas personales. Porque son grupos de fanáticos. Y nunca me cansaré de repetir lo que sabiamente ha dicho Amos Oz: “Creo que la esencia del fanatismo reside en el deseo de obligar a los demás a cambiar”. Pero el peligro no viene sólo de los terroristas que matan con bombas y pistolas. Si terrorismo es infundir terror, no deberíamos olvidar que hay muchos procedimientos para aterrorizar a otras personas. Se puede infundir terror con la palabra, sobre todo cuando se habla con la pretensión de que se habla en nombre de Dios. De ahí que pude ser muy peligroso el terror que se infunde en misas, direcciones espirituales y reuniones piadosas de la más alta “espiritualidad” (?).

El terror es una forma de violencia. Y la violencia no se puede ejercer contra nadie, por más que eso se pretenda hacer en nombre de Dios. ¿Qué Dios es ése en cuyo nombre y con cuya presunta autoridad se le mete miedo a la gente, se ejerce violencia y se crean divisiones y enfrentamientos? Pero, sin llegar a tanto, protesto aquí también por los comportamientos de todos los que, basados en argumentos religiosos que no son obligatorios por fe ni siquiera para los creyentes, anteponen sus puntos de vista discutibles a algo que es indiscutible: que no se deben poner más dificultades a quienes, como es el caso del presidente Obama, con sus limitaciones y defectos, presenta un proyecto de acercamiento entre pueblos y culturas, de mayor justicia y menos sufrimiento en el mundo.

José Mª Castillo, Atrio

com clareza e frontalidade:

Juan Masiá, expõe em dez pontos, a sua perspectiva sobre o aborto.

2009-05-12

vencer o mal é uma decisão



Tu podes

Acontece que há histórias, velhas como o mundo, que continuam iluminantes. E em horas de encruzilhada como são as que vivemos, reposicionam-nos perante a tarefa essencial, que não é apenas a da reconstrução dos mercados, mas a do Ser Humano, a de nós próprios.
Penso na história dramática de Caim e Abel. Ali é-nos dito que o projecto ético (no caso, o da fraternidade) não se matura como mero dado natural, nem é uma imposição do sangue, pois este inclusive se pode voltar contra o seu igual. Os irmãos podem matar-se. A fraternidade continua ao alcance do homem, no entanto, mas como uma decisão.
É curioso o diálogo que Deus tem com Caim no capítulo 4 do Livro do Génesis: “Porque estás zangado e de rosto abatido? Se procederes bem, certamente voltarás a erguer o rosto, se procederes mal, o pecado deitar-se-á à tua porta e andará a espreitar-te. Cuidado, pois ele tem muita inclinação para ti, mas tu deves/podes (timshel) dominá-lo”.



O belíssimo romance de John Steinbeck, “A Leste do Paraíso”, pega nesta palavra que Deus dirige a Caim e desenvolve uma pesquisa talmúdica sobre o seu sentido. O verbo hebraico timshel é traduzido nas Bíblias mais correntes por “Tu deves”, mas Steinbeck, partindo de algumas versões rabínicas, propõe que se leia “Tu podes”. E expõe esta ideia em algumas páginas intensíssimas. Ao homem em confronto com o Mal, transtornado a ponto de eliminar o seu próprio irmão, Deus não diz: “vou retirar-te a liberdade, vou condicionar-te para que isso não mais aconteça”. Antes afirma “Tu podes vencer o Mal”.

O Mal aparece como um desafio a vencer, e não como uma inexorável fatalidade. Não somos colocados perante uma moral automática e peremptória, mas no interior dinâmico de uma moral narrativa. O Bem e o Mal constituem decisões éticas. Perguntamo-nos: ‘como pode o desgostado Caim não matar Abel, se despeitado lhe dedica uma inveja mortífera, se todos os seus direitos de filho mais velho acabam por ser relativizados por uma preferência aparentemente caprichosa de Deus?’ Tudo lhe dá razão, é verdade, mas a razão de Caim não constitui um direito de eliminar o irmão, porque Deus lhe diz uma palavra inesperada: «Tu podes (timshel) dominar o mal».

José Tolentino Mendonça

In Página 1, 07.05.2009

2009-05-09



Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanece em mim e Eu nele, esse dá muito fruto, pois, sem mim, nada podeis fazer. (Jo 15,5)


A união com Jesus não é automática, nem ritual, nem externa. Exige actualização contínua.

2009-05-08

confesso

que a única palavra que me vem à cabeça é obtuso, obtuso, obtuso...com um esboço de elegância feminil, fica o poema:



Mesmo
uma
linha
recta
é o labirinto
porque
entre
cada dois pontos
está o infinito


Adília Lopes

2009-05-07

2009-05-05

Diálogo na Igreja, preservativo, despenalização do aborto

Juan Masiá responde ao "El Pais". (Destaque meu de algumas afirmações):

Calificar como "mitad cómico, mitad anacrónico" el debate eclesiástico sobre el uso del preservativo le costó hace dos años al jesuita Juan Masiá Clavel (Murcia, 1941) la carrera universitaria y el secuestro de su último libro, Tertulias de bioética. Manejar la vida, cuidar a las personas. Masiá era director de la cátedra de Bioética de la Universidad Pontificia de Comillas, en Madrid, cuando el Vaticano pidió su cabeza a los jesuitas. Hoy es coadjutor en la parroquia de Rokko, de los jesuitas, en Kobe (Japón); profesor de Bioética en la Universidad Católica Santo Tomás, de la diócesis de Osaka, y colaborador en Tokio de la comisión católica de Justicia y Paz y de la sección japonesa de la Conferencia Mundial de Religiones por la Paz. De vez en cuando regresa a España, reclamado para múltiples actividades. Es uno de los firmantes del manifiesto Ante la crisis eclesial, junto con otros 300 pensadores cristianos.



Pregunta. Sostienen ustedes que la Iglesia católica está cometiendo "ridículos mayores que los del caso Galileo".

Respuesta. Galileo tenía razón en su intuición sobre el movimiento de los astros, pero no la tenía en sus argumentos. En cambio, hoy la ciencia suministra datos que la curia romana prefiere desconocer: por ejemplo en problemas referentes al inicio y al fin de la vida. La consecuencia es que la proclamada síntesis entre fe y razón se ve así puesta en entredicho. Hay que evitar nuevos casos Galileo. Es muy cómodo rehabilitar a los Galileos del pasado mientras se condena a los de hoy. La Inquisición ha de extinguirse. La Congregación para la Doctrina de la Fe, que presidió Ratzinger tantos años, debería haber desaparecido.

P. ¿Por qué ahora ese manifiesto por la crisis eclesial, y no antes?
R. Era muy necesario. La situación eclesiástica en algunas áreas es francamente anormal. Parece como si las autoridades eclesiásticas estuvieran haciendo todo lo posible por ahuyentar a las personas para apartarlas de la Iglesia. Hacia fuera pierden credibilidad y hacia dentro dañan la comunión eclesial [Masiá distingue eclesial y eclesiástico; peyorativo lo segundo, como curial]. Callar sería irresponsable. Nos lo reprocharían en el futuro como hoy reprochamos los silencios cómplices de la era de la dictadura.


P. Achacan ustedes a la jerarquía "incapacidad para escuchar" y escaso respeto hacia la libertad. Pero se escuchan muchas voces críticas.
R. Hay críticas en todas las direcciones. Quienes son más papistas que el Papa se escandalizarán de que hayamos dicho que los papas no deben ser divinizados. A quienes nos querrían más radicales, no les gustará que hayamos expresado solidaridad con Benedicto XVI. Desde un lado pareceremos cismáticos y desde el otro nos acusarán de maquiavelismo jesuítico. Mejor jugar bien a las siete y media, sin pasarse ni quedarse corto. En el medio, como Aristóteles o como la vía media budista.


P. Lo cierto es que el manifiesto salva a Benedicto XVI.
R. No buscábamos ni atacar, ni defender. Sí orar con él y por él, a la vez que le decimos, con afecto y respeto, lo que haya que decirle, igual que se lo dijo Pablo a Pedro o igual que se lo dijo Casaldáliga a Juan Pablo II.


P. Los obispos siguen empeñados en creer que el aborto es un problema católico, que debe ser tratado católicamente. La vieja idea de que lo que es pecado es también delito y debe ser castigado como tal por las leyes.
R. Como ciudadanos los obispos tienen derecho a expresar su opinión, y como creyentes tienen derecho a proponer sus valores. Pero no deben interferir en el proceso legislativo de la manera que lo hicieron contra la ley de reproducción asistida o la de investigación biomédica, ni deben imponer al parlamentario católico una disciplina de voto.

P. En el debate se echa en falta la opinión de un bioético. Esa idea episcopal de que la ley despenaliza la matanza de niños es pura truculencia.
R. Si me preguntan por el comienzo de una vida humana individual, diré que no antes de la implantación del preembrión en el útero materno y no después, como muy tarde, de la novena semana. Pero no hay que mezclar este tema con el de la legislación. La pregunta no es si ha comenzado o no una vida humana, sino en qué casos y con qué condiciones de seguridad jurídica se puede interrumpir el proceso de una vida naciente (en camino hacia el nacimiento), sin hacer violencia al respeto debido tanto al feto como a la gestante. Es lamentable que no se pueda debatir serenamente sobre estas cuestiones. Tengo mucha confianza en que hay bastantes parlamentarios, tanto en el partido del Gobierno como en la oposición, y tanto de una confesionalidad como de otra o de ninguna, que coinciden en el sentido común, en la responsabilidad en cuestiones de Estado, en hacer compatible la defensa de la vida con la despenalización y la seguridad jurídica de madres y profesionales de la sanidad.


P. ¿Que le pareció la metedura de pata de Benedicto XVI, en África, sobre el preservativo y el sida?
R. Dijo una frase inapropiada, tuvo un lapsus linguae ante los periodistas. No es papal ni competencia de la Iglesia prohibir el preservativo, ni recomendarlo. Ciertas posiciones morales de algunos eclesiásticos chocan con las medidas relativamente eficaces para combatir la pandemia, usadas por personal sanitario católico implicado en la prevención del sida. Es cuestión de sentido común, de responsabilidad y de buen humor, tres características de la que a veces se carece en el mundillo eclesiástico. El cardenal Martini ha dicho cosas muy atinadas sobre este tema. Ha dicho que es necesario hacer todo por combatir el sida y que "en la situación de los esposos, uno de los cuales está infectado de sida, éste está obligado a proteger a la pareja y ésta también debe poder protegerse".


P. Le pregunté sobre la afirmación episcopal de que el Gobierno, si aprueba la ley del aborto, estará matando a personas.
R. Es retórica demagógica unida a exageración hispánica. Hacen un flaco favor a la vida que pretenden proteger y dan lugar a reacciones opuestas extremistas. Es el mismo error que cuando apoyan al obispo brasileño que enarbola la excomunión por el aborto de la menor violada o cuando se ponen del lado de Bush contra la investigación con células madre, o del lado de Berlusconi contra el respeto a la dignidad del morir de la joven Eluana. La ideología político-religiosa da lugar a extrañas compañías de cama.


P. La tesis episcopal es que pueden (y hasta deben) meterse en todo, como si fueran legisladores preferentes.
R. Tienen la asignatura pendiente sobre las relaciones correctas entre iglesias y Estados. No aprueban en el examen sobre el decreto conciliar acerca de la libertad religiosa. No han aprendido la lección sobre la laicidad y la religión. Necesitarían una clase de ética cívica. Es elemental entender bien la relación entre ética y derecho en una sociedad plural. Se puede estar, como estamos muchas personas, en favor de la vida, oponerse al aborto injusto y defender los derechos humanos, pero al mismo tiempo en favor de no penalizar determinados comportamientos que uno no querría adoptar y que considera éticamente cuestionables.


P. ¿Llegó a Japón la noticia de la campaña episcopal del lince?
R. En Japón, en vez del lince, habría sido más oportuno poner una ballena...

El Pais