2009-05-20

as funções da religião

Para ajudar a perceber a discussão sobre religião, suscitada no post "um deus à medida", coloco aqui um pequeno excerto de um texto de Ken Wilber (confesso que é um conhecimento muito recente, ainda não li nenhuma obra dele, apenas uns textos) que, quanto a mim, esclarece os modos de crer. Basicamente, dois grupos. E, como se vê, desequilibrados em número. E não só.



Numa série de livros (e.g., Um Deus Social, Up from Eden e The Eye of Spirit) tento mostrar que a religião sempre cumpriu duas funções muito importantes, mas muito diferentes. Em primeiro lugar, ela age de modo a criar significado para o self alienado: oferece mitos, histórias, contos, narrativas, rituais e revivescências que, em conjunto, ajudam o self a entender e suportar as pedras e flechas do destino implacável. Normalmente, esta função da religião não necessariamente altera o nível de consciência da pessoa; não provoca transformação radical. Nem provoca, tampouco, uma libertação definitiva do self alienado. Ao contrário, ela consola o self, fortalece o self, defende o self, promove o self. À medida que o self alienado acredita nos mitos, executa os rituais, balbucia as orações ou aceita os dogmas, então crê fervorosamente que será “salvo” – ainda nesta vida, pela glória da salvação de Deus ou da protecção da Deusa, ou na vida após a morte, quando ser-lhe-á assegurada felicidade eterna.

Mas, em segundo lugar, a religião cumpre – usualmente para uma muito, mas muito pequena minoria – uma função de transformação radical e de libertação. Esta função da religião não fortalece o self alienado; ao contrário, despedaça-o completamente – não a consolação mas devastação, não entrincheiramento mas esvaziamento, não complacência mas explosão, não conforto mas revolução – em síntese, não fortalecimento convencional da consciência mas transmutação e transformação radicais nas profundezas da própria consciência.


Ken Wilber:
Uma espiritualidade que transforma

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