2009-05-24





O PRÍNCIPE FELIZ


Sobranceira à cidade, numa coluna alta, erguia-se a es­tátua do Príncipe Feliz, revestida de cima a baixo de finas flores de oiro. Por olhos tinha duas safiras cintilantes, e no punho da espada brilhava-lhe um rubi enorme.Toda a gente a admirava.- Linda como um cata-vento - notou um dos verea­dores, que se arrogava gostos artísticos. - Só com a dife­rença de não ser tão útil - acrescentou logo, com medo de que o considerassem homem pouco prático, o que na realidade não era.- Por que não hás-de ser como o Príncipe Feliz? ­perguntou certa mãe ao filho que chorava por não lhe da­rem a Lua. -
O Príncipe Feliz nunca se lembra de chorar seja pelo que for.- Regozijo-me por verificar que existe neste mundo alguém inteiramente feliz - murmurou um desiludido ao contemplar a soberba estátua.- Parece mesmo um anjo - disseram os meninos do Recolhimento ao saírem da Catedral, com as suas capas de escarlate vivo e os seus bibes brancos muito limpos.- Como o sabeis? - replicou o professor de Matemá­tica. - Nunca vistes nenhum!- Ah, vemo-los em sonhos - afirmaram as crianças, enquanto o professor ficava carrancudo, pois não concor­dava com isso de os meninos sonharem.Uma noite, por cima da cidade, voou uma andorinha. As companheiras tinham partido já para o Egipto, havia seis semanas, mas esta deixara-se ficar para trás por estar enamorada dum junco formosíssimo. Conhecera-o no princípio da Primavera, quando descia o rio atrás duma grande borboleta amarela, e fora de tal modo cativada pe­la sua cintura esbelta que se demorara para falar com ele.- Gostas de mim? - inquiriu a andorinha, que ia sem­pre direita ao fim, sem maiores rodeios. O junco dobrou­-se numa inclinação profunda, e ela voou então várias ve­zes em torno dele, roçando a água com as asas e produ­zindo ondulações de prata. Era o seu processo de fazer a corte. O namoro prolongou-se todo o Verão.- Que afecto tão ridículo - chilreavam as amigas. ­O junco não tem dinheiro e a família é numerosa. - De facto, o rio estava cheio de juncos.
Com a chegada do Ou­tono, as outras andorinhas debandaram.Depois disso, começou ela a sentir-se muito só e a enfastiar-se do seu amado.«Não sabe conversar», dizia consigo. «Além disso, des­confio que é volúvel, pois está sempre a requebrar-se diante da viração.»Na verdade, sempre que a viração soprava, o junco flec­tia em amáveis cortesias.«Concordo que seja muito caseiro», continuava ela nas suas reflexões; «mas eu adoro viajar, e o meu marido, por consequência, deve viajar também.»- Queres vir comigo? - acabou por indagar.Mas o junco abanou a cabeça. Estava tão apegado ao lar! - Entretiveste-te comigo, nada mais - observou ela.- Pois agora vou até às Pirâmides. Adeus!Disse isto e voou. Voou todo o dia, e à noite chegou à cidade.«Onde hei-de instalar-me?», pensou. «Calculo que a ci­dade tenha feito os seus preparativos.»Viu então a estátua do Príncipe Feliz, na sua elevada co­luna.«Instalar-me-ei ali», declarou a si mesma. «A situação é óptima e não me faltará ar fresco.»E foi poisar mesmo aos pés do Príncipe Feliz.«Tenho um quarto doirado», murmurou, olhando em roda e preparando-se para dormir. Mas, no preciso ins­tante em que ia meter a cabeça debaixo da asa, caiu-lhe em cima uma grossa gota de água. «É curioso!», exclamou. «Não há uma única nuvem no céu, as estrelas estão puras e brilhantes, e no entanto chove! O clima da Europa Se­tentrional é realmente detestável. O junco apreciava a chuva, mas era só por egoísmo.»Caiu então outra gota.«De que serve uma estátua», reflectiu, «se se não conse­gue proteger-nos da chuva? O que devo fazer é procurar uma chaminé.» E resolveu mudar-se quanto antes.Mal, porém, abria as asas, tombou-lhe em cima terceira gota. Olhou para o alto, e viu... Ah, que viu ela?Os olhos do Príncipe Feliz estavam cheio de lágrimas, e as lágrimas corriam-lhe pelas faces de oiro... Era tão belo o seu rosto, visto assim ao luar, que a andorinha se sentiu apiedada.- Quem sois? - perguntou.- O Príncipe Feliz.- Então por que chorais? Já me encharcastes toda!- Quando estava vivo e tinha coração humano - respondeu a estátua -, eu não sabia o que eram lágrimas, pois vivia no palácio de Sans-Souci, onde se não permite que entre a dor. De dia brincava no jardim, com os meus com­panheiros, e à noite dirigia o baile nos salões. Em volta do parque há um muro elevadíssimo, mas nunca me importei saber o que estava para além dele. Derredor de mim tudo era belo. Os cortesãos chamavam-me Príncipe Feliz, e eu era realmente feliz, se o prazer constitui felicidade. Assim vivi e assim morri. E agora, que estou morto, colocaram­-me aqui tão alto que é possível ver toda a fealdade e misé­ria da minha cidade. E, se bem que o meu coração seja fei­to de chumbo, não posso impedir-me de chorar.«O quê? Não é de oiro maciço?», disse a andorinha consigo mesma. Era demasiadamente bem-educada para fazer observações pessoais em voz alta.- Ali adiante - continuou a estátua, em voz baixa e mu­sical - há aquela ruazinha com uma casa modesta. Uma das janelas está aberta, e através dela vejo a moradora senta­da à mesa. Tem rosto magro e cansado, e mãos vermelhas e magoadas da agulha, pois é costureira. Borda flores de mar­tírio num vestido de cetim para a mais bela das damas de honor da rainha usar no próximo baile da corte. Na cama, a um canto do quarto, está deitado o filho doente, que tem febre e pede laranjas. A mãe não tem nada que lhe dê senão água do rio, e por isso chora. Minha querida andorinha, não lhe queres levar o rubi do punho da minha espada? Tenho os pés soldados ao pedestal, não posso mexer-me.- Esperam-me no Egipto - respondeu a andorinha. - As minhas companheiras voam sobre o Nilo, abaixo e acima, a conversar com as imensas flores de lódão. Em breve irão dormir no túmulo do faraó, que lá repousa no seu sarcófago pintado, envolto em linho amarelo e embal­samado com drogas aromáticas. Em torno do pescoço os­tenta um colar de jade verde-pálido. As suas mãos são co­mo folhas murchas.- Minha querida andorinha - disse o Príncipe -, fi­ca ao menos uma noite e sê minha emissária. O pequeno está sequioso e a mãe parece tão triste!- Não me agradam muito os rapazinhos - asseverou a andorinha. - No Verão que passou, quando eu andava no rio, estavam lá dois deles, grosseirões, filhos do molei­ro, os quais não se fartavam de me atirar pedras. É claro que nunca me acertaram: nós andorinhas voamos muito bem, e, além disso, procedo duma família notável pela sua agilidade. Mas aquilo não deixava de ser falta de respeito.Contudo, o Príncipe ficara tão triste que a andorinha se comoveu.- Apesar de estar muito frio aqui - declarou ela -, permanecerei convosco esta noite e serei vossa mensageira.- Obrigado, querida andorinha, obrigado.Assim arrancou ela da espada do Príncipe o enorme ru­bi e o levou no bico, por cima dos telhados da cidade.Passou junto da torre da Catedral, onde há estátuas de anjos de mármore branco; passou pelo palácio e ouviu sons duma dança: à varanda assomou uma rapariga, com o seu namorado.- Que lindas são as estrelas - dizia ele. - E que ex­traordinário é o poder do amor!- Espero que o meu vestido fique pronto para o baile de gala - retorquiu ela. - Recomendei que lhe bordassem flores de martírio, mas as costureiras são tão indolentes!Passou a andorinha sobre o rio e viu as lanternas que pendiam dos mastros dos navios. Passou sobre a judiaria e viu os seus habitantes a traficarem uns com os outros e a pesarem dinheiro em balanças de metal. Por fim chegou à casa modesta e espreitou para dentro. O pequeno agitava-se na cama, cheio de febre, e a mãe, de cansada, adormecera em cima do trabalho; a ave entrou, depôs o rubi na mesa, ao lado do dedal da costureira, e em segui­da voou em torno do leito, suavemente, refrescando com as asas a testa da criança.- Que fresco que eu sinto! - exclamou esta. - Devo estar a melhorar.E mergulhou em sono profundo.A andorinha voltou então para a estátua e contou ao Príncipe Feliz o que havia feito.- E curioso - observou ela. - Sinto agora calor, ape­sar de haver tanto frio.- Eis o resultado da boa acção que praticaste - repli­cou o Príncipe.A ave pôs-se a pensar e adormeceu: era coisa que sem­pre lhe dava sono!Ao romper a manhã, voou para o rio e tomou banho.- Cá está um fenómeno digno de menção - comen­tou um professor de Ornitologia, que passava na ponte. - Uma andorinha no Inverno!E escreveu uma extensa carta para a gazeta local. Toda a gente a citava, pois era abundante de palavras difíceis, que ninguém compreendia.- Esta noite sigo para o Egipto - disse a andorinha, muito satisfeita com a ideia.Visitou todos os monumentos públicos e esteve muito tempo no cimo do campanário da igreja. Por onde quer que passasse, os pardais chilreavam entre si (o que a ela dava grande prazer):- Que estrangeira tão distinta!Ao nascer da Lua, voltou ao Príncipe Feliz e pergun­tou-lhe:- Quereis alguma coisa para o Egipto? Vou partir ago­ra mesmo.- Minha querida andorinha, não me concedes a tua companhia por mais uma noite?- Esperam-me lá - redarguiu ela. - Amanhã as mi­nhas amigas tencionam voar sobre a segunda catarata. Ali, entre os juncais, é que se deitam os hipopótamos, e se sen­ta o deus Mémnon sobre um imenso trono de granito. Contempla as estrelas a noite inteira, e, ao despontar da estrela de alva, solta um grito de júbilo e torna a emude­cer. Ao meio-dia, vêm beber à margem do rio leões de pê­lo flavescente. Seus olhos são verdes quais berilos, seu ru­gido é mais forte que o das cataratas.- Minha querida andorinha - replicou o Príncipe -, vejo no extremo da cidade um rapaz numa água-furtada. Está debruçado sobre a mesa cheia de papéis, e a seu lado, num copo, há um ramo de violetas fanadas. Tem cabelos castanhos e ondulados, lábios rubros de romã, olhos gran­des e sonhadores. Tenta acabar uma peça para o empresá­rio do teatro, mas está muito frio para continuar a escre­ver. Não lhe arde lenha no fogão, a fome há-de obrigá-lo a desmaiar.- Ficarei mais uma noite convosco - respondeu a an­dorinha, que na verdade possuía bons sentimentos. ­Quereis que leve outro rubi?- Infelizmente não tenho mais nenhum - declarou o Príncipe Feliz. - Os olhos são tudo quanto me resta: compõem-se de duas safiras, trazidas da Índia há mil anos. Arranca-me um deles e leva a esse rapaz, que o venderá a qualquer joalheiro e poderá, assim, comprar comida e le­nha e acabar a peça.- Ilustre Príncipe - volveu a andorinha -, não tenho coragem para fazer uma coisa dessas.E começou a chorar.- Minha querida andorinha, faze como te mando.Então a avezita arrancou um dos olhos do Príncipe e voou para a água-furtada do estudante. Era fácil entrar lá, porque havia um buraco no telhado. Por aí se precipitou ela e chegou ao quarto. O rapaz tinha a cabeça apoiada nas mãos, pelo que não ouviu o sussurro das asas da andori­nha; mas quando ergueu os olhos descobriu a bela safira sobre as violetas fanadas.«Começo a ser apreciado», murmurou. «Isto há-de ter vindo de algum grande admirador. Agora é que vou aca­bar a peça.»Considerava-se inteiramente feliz.No dia seguinte a andorinha desceu ao porto, poisou nomastro dum navio enorme e observou o trabalho dos ma­rinheiros, que içavam do porão arcas muito pesadas.- Vou para o Egipto! - gritou a ave, sem que ninguém lhe desse atenção. Ao nascer da Lua regressou à estátua do Príncipe Feliz.- Venho dizer-vos adeus - participou.Minha querida andorinha, não queres ficar comigo mais uma noite?- É Inverno - replicou ela - e a neve frígida não tar­dará a cair aqui. No Egipto o sol é quente sobre as pal­meiras verdes, e os crocodilos refastelam-se no lodo, olhando preguiçosamente à sua volta. As minhas compa­nheiras constróem ninho no templo de Heleópolis, e as pombas brancas e róseas seguem-nas com a vista, arru­lhando entre si. Ilustre Príncipe, tenho de vos deixar, mas nunca me esquecerei de vós. Na Primavera próxima hei­-de trazer-vos duas lindas jóias para substituir aquelas de que vos desfizestes. O rubi será mais vermelho do que a rosa rubra, e a safira mais azul do que o imenso mar.- Lá em baixo na praça - disse o Príncipe - está uma pequena vendedora de fósforos. Deixou-os cair na valeta e eles ficaram inutilizados. Se não levar dinheiro para ca­sa, o pai há-de bater-lhe, e é por isso que ela chora. Não tem sapatos nem meias e está de cabeça descoberta. Arranca-me o outro olho e leva-lho. Assim o pai já não lhe baterá.- Ficarei convosco mais uma noite - explicou a an­dorinha - mas não tenho coragem de vos arrancar o ou­tro olho. Ficaríeis cego de todo.- Minha querida andorinha, faze o que te mando - ­ordenou o Príncipe.A ave arrancou-lhe o outro olho e partiu com ele. Ao passar pela rapariga, deixou-lhe cair a jóia na palma da mão.- Que lindo bocadinho de cristal! - exclamou ela, correndo satisfeita para casa.
Regressou a andorinha à estátua e disse ao Príncipe:- Agora estais cego. Ficarei convosco para sempre.- Não, minha querida andorinha, tens de partir para o Egipto.- Ficarei convosco sempre - repetiu ela.E adormeceu aos pés do Príncipe.No dia seguinte poisou-lhe no ombro e contou-lhe his­tórias do que vira em terras estranhas. Falou-lhe dos íbis encarnados que se conservam em longas filas nas margens do Nilo e com o bico apanham peixes oirescente; da Es­finge, que é tão velha como o mundo, e vive no deserto e tudo sabe; dos mercadores que caminham vagarosamente ao lado dos camelos e levam as mãos cheias de contas de âmbar; do Rei dos Montes da Lua, que é preto como éba­no e adora um cristal grandioso; da enorme serpente ver­de que dorme numa palmeira e tem vinte sacerdotes a alimentá-la com bolos de mel; e dos pigmeus que navegam num grande lago, em cima de largas folhas chatas e andam sempre em guerra com as borboletas.- Minha querida andorinha - disse o Príncipe Feliz -, tu contas-me coisas extraordinárias, mas o mais ex­traordinário de tudo é o sofrimento dos humanos. Não há mistério maior do que a Miséria. Voa sobre a minha cida­de, andorinha, e vem dizer-me o que viste.Então a andorinha voou sobre a extensa cidade, e viu os ricos divertirem-se em suas casas sumptuosas, enquanto os pedintes se sentavam nos portões. Voou sobre as vielas sombrias e viu faces pálidas de crianças esfomeadas, olhando distraídas para o vácuo. Sob o arco duma ponte estavam deitados dois rapazinhos, que se envolviam nos braços um do outro para se aquecerem.- Que fome que nós temos! - diziam eles.- Não podeis estar aqui! - replicou-lhes o guarda. E viram-se obrigados a ficar à chuva.Voltou a andorinha e relatou ao Príncipe o que presen­ciara.- Estou revestido de oiro - observou ele. ­Podias tirá-lo folha por folha e dá-lo aos meus pobres. Os vivos julgam sempre que o oiro os pode fazer felizes.Folha atrás de folha, a andorinha foi arrancando o oiro da estátua, até que o Príncipe ficou todo cinzento e sem brilho. Folha atrás de folha, a andorinha levou o oiro aos pobres, e as faces das crianças tomaram cor, e elas riram e brincaram nas ruas.- Agora já temos pão! - diziam todas.Por fim chegou a neve, e, após a neve, a geada. As ruaspareciam feitas de prata, por causa da brancura e do res­plendor. Dos beirais das casas pendiam longos pingentes gelados, que semelhavam adagas de cristal. Toda a gente usava peles, e os rapazinhos, de barretes encarnados, pati­navam no gelo.A pobre andorinha tinha cada vez mais frio, mas não desejava abandonar o Príncipe, a quem dedicava tanta es­tima. Ia apanhar migalhas à porta do padeiro, quando ele não estava a olhar, e tentava aquecer-se batendo as asas de contínuo.No entanto, acabou por se convencer de que morreria, e mal teve forças de voar mais uma vez para os ombros do Príncipe.- Adeus, ilustre Príncipe - disse-lhe em voz baixa. ­Permitis que vos beije a mão?- Estimo saber que partes finalmente para o Egipto ­retorquiu aquele.- Demoraste-te por cá muito tempo. Até podes beijar-me na boca, pois gosto bastante de ti.- Não é para o Egipto que eu vou - respondeu a an­dorinha. - Vou para a Mansão da Morte. A morte é irmã do Sono, não é verdade?E, assim falando, beijou o Príncipe nos lábios e caiu morta a seus pés.Nesse momento, soou dentro da estátua um estalido misterioso, como se se houvesse quebrado alguma coisa. A verdade é que o coração de chumbo se partira em dois bocados. Devia estar um frio muito intenso...Cedo, na manhã seguinte, o presidente do Município passava na praça em companhia dos vereadores. Ao che­garem defronte da coluna, ergueram a vista para a está­tua.- Meu Deus! O Príncipe tem tão mau aspecto! - dis­se o presidente.- De facto, de facto - concordaram os outros, que es­tavam sempre de acordo com aquele. E subiram para ver a estátua de perto.- Caiu-lhe o rubi da espada. Perdeu os olhos e já não há vestígios de oiro - declarou o presidente. - Não está muito melhor que um mendigo.- Pior até - acrescentaram os vereadores.- E há um pássaro morto, entre os pés - continuou o primeiro. - Temos de publicar uma postura a proibir que os pássaros venham morrer aqui.O secretário apontou a sugestão no seu livrinho de notas. A estátua do Príncipe Feliz foi apeada.- Visto que já não é belo, também já não é útil - sen­tenciou o professor de Arte da Universidade.Então fundiram a estátua num forno de alta tensão, e o presidente convocou uma reunião da Câmara para decidi­rem o destino que deviam dar ao metal.- Precisamos de fazer outra estátua - disse ele. - Po­deria ser a minha...- Ou a minha - disse cada um dos vereadores, sobre o que disputaram.Da última vez que ouvi falar deles, ainda estavam a dis­cutir sobre o caso.- Que coisa esquisita! - observou o capataz da fundi­ção. - Este coração de chumbo, partido, não é capaz de fundir. O melhor é deitá-lo fora.E atiraram-no para um montão de lixo onde jazia o ca­dáver da andorinha.- Traze-me as duas coisas mais preciosas dessa cidade - disse Deus a um dos seus anjos.E o anjo trouxe-lhe o coração de chumbo e a andorinha morta.- Fizeste boa escolha - observou o Senhor. - No meu jardim do Paraíso esta avezinha cantará eternamente. E na minha áurea cidade o Príncipe Feliz me renderá seu culto.
Oscar Wilde

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