2009-07-30

Duvidar, duvidar de Deus intensamente
o quê, haverá um Deus bom e todo poderoso
com toda esta crueldade na natureza
com a infernal crueldade humana
as crianças morrendo de fome, os explorados,
os nevróticos, os embrutecidos, os alcoólicos, todos os [resíduos humanos?

É bela, a imagem de Deus!

E o que é Deus senão pobre pequena ideia elaborada
no planeta em que somos
nada, no seio do universo brilhando
para dimensões inimagináveis
Objecções, objecções, agonia de Deus
no coração do homem de fé.
Ele respondeu cem vezes, mas trata-se de ausência
Pobre Deus em agonia
como o Verbo idêntico a Si no jardim das oliveiras
enquanto os seus melhores amigos dormiam…
Não é realmente nada pouco vigiar. Na sua agonia.



Maurice BelletIn
Cahiers pour croire aujourd'hui, Novembro 1993)

retirado daqui

2009-07-29

tadinhos, só um?


Foi mais ou menos assim: "Eu tenho uma ideia: deixem os ricos ter o iate!"


uma senhora que estava cheia de gripe, mas já não está.

2009-07-28

um vigoroso grito d'alma!!!

Não insossem a literatura! Este senhor não gosta! E tem carradas de razão!!!



Contos para meditar # 2


Tudo é ilusório


Ao longo de muitos anos, um mestre dizia sempre aos seus discípulos:

- Tudo neste mundo é ilusório, tudo é insusbstancial, tudo é variável. Sim, tudo é ilusório. Mantenham o equilíbrio da mente e a equanimidade do ânimo.

Assim o tinham ouvido os discípulos uma e outra vez e, por isso, quando muitos anos depois viram o seu mestre a derramar lágrimas pela morte do filho, disseram-lhe em tom sarcástico:

- Mas se sempre nos disse que neste mundo tudo é ilusório, por que chora?

Serenamente, o mestre respondeu:

- Os meus olhos choram, é certo, pela ilusão tão amarga de perder um filho neste mundo ilusório.




"Os melhores contos espirituais do Oriente"
Ramiro Calle~
imagem-Graça Morais


2009-07-25

separa-nos muito mais do que uma parede


Um mundo nos separa. A minha vizinha está a cozer pão num forno de lenha. Sinto os cheiros e os sons característicos do labor. Eu, estou ao computador enquanto a Taurus me faz o pão integral. O que me vale, é que ela, de vez em quando, bate-me à porta com um pãozinho de oferta.

espaço publicitário

Decorre em Caldas da Rainha, mais uma edição da festa da cerâmica. Com uma belíssima exposição de cerâmica contemporânea. Dos vários artistas dou dois exemplos: Bolota e Sara Guerreiro. Mas há mais - muitos bons.

A par disso, estão ao dispor duas rodas de oleiro, onde as crianças (e não só) experimentam manusear o barro e criar as suas peças. Grés para modelar e painéis para construir com desperdício de cerâmicas. E música! Termina amanhã, apressem-se.

2009-07-23

"quem a ajudará?"

Secundo o apelo do Migalhas. O Migalhas, é homem para dizer a uma mulher o que ela tem que ouvir, para despertar e mexer-se. Mas antes que esta mulher resolva a sua vida, precisa de ajuda imediata. Considerações farisaicas, dispensam-se.

2009-07-22

eu também não

dos livros que vou lendo # 1


Hermann Hesse é um dos escritores cuja escrita me envolve e renova. O último que li (parece que o mais lido) foi Siddartha. Cuja personagem central (tem o nome que dá o título ao livro), desde novo, decide empreender uma busca da plenitude espiritual.

Hermann Hesse coloca na personagem, as suas próprias perplexidades, frente às várias doutrinas. Porque militando em várias delas, e aprofundando-as até aos seus limites, sente o mesmo vazio que o levou a essa aventura espiritual.


Ao longo da caminhada de Siddartha, encontramos belos textos que são um perfeito exemplo das nossas buscas e angústias. Entremeadas, aqui e ali, da alegria da aprendizagem, da amizade, do amor e do sucesso. Da paz da contemplação.


A quem não leu, recomendo.


“Olhou para o mundo a seu redor, como se o enxergasse pela primeira vez. Belo era o mundo! Era variado, era surpreendente e enigmático! Lá, o azul; acolá, o amarelo! O céu a flutuar e o rio a correr, o mato a eriçar-se e a serra também! Tudo lindo, tudo misterioso e mágico! E no centro disso tudo se achava Siddharta, a caminho de si próprio...” “Não havia mais aquela multiplicidade absurda, casual, do mundo dos fenómenos, desprezada pelos profundos pensadores brânames, que rejeitam a multiplicidade e esforçam-se por achar a unidade...” “... O sentido e a essência das coisas não se achavam em algum lugar atrás das coisas, senão no seu interior”.


2009-07-21

contos para meditar #1


A mulher do cientista


Era a esposa do mais badalado cientista do país. Certo dia, começou a chorar desconsoladamente e, ao vê-la, o seu marido disse-lhe:

- Mulher, pára de chorar. Não sabes que as lágrimas nada são além de muco, fósforo, água e sal?

A mulher olhou para ele com uma expressão entre irónica e desencantada, e disse:

- Ah, as lágrimas são só e apenas isso!


in Os melhores contos espirituais do Oriente

Ramiro Calle

pergunta impertinente

Segundo o último relatório da OMS, já há 311 mortos em todo o mundo, principalmente no mundo ocidental. Face a números tão aterradores, o que são 6 milhões de crianças morrendo anualmente devido a fome e subnutrição e 10 milhões devido a doenças que podiam ser evitadas com uma simples vacina?



Descontando a graciosa ironia de Manuel António Pina, o miolo da questão é claro. Já sabemos todos, e agimos em função disso, que a vida no Hemisfério Norte vale mais do que no Hemisfério Sul.


2009-07-20

abençoada tecnologia

Enquanto uns celebram com regozijo a chegada do Homem à Lua. E outros, com o véu da distância, recordam desgostos de amor, eu, ainda muito nova na altura para perceber o alcance de qualquer das coisas, celebro hoje, a bendita tecnologia que permitiu a cem quilómetros de distância, ouvir o coração do meu neto. Com o feeling que só uma avó babada pode ter, liguei para a Ana quando ela estava a fazer mais um CTG. E ouvi!

2009-07-16

e não pensem que enganam alguém

Romper com a mentalidade que divide o espiritual do social é um dos apelos do prelado. "Não se pode ler de forma simplista o que acontece no mundo contemporâneo. Não se pode ficar na epiderme, mas ir à profundidade das causas." E finaliza: "Há muito simplismo nos nossos discursos homiléticos".

Bispo Carlos Azevedo num comentário à nova Encíclica papal

possivelmente felizes



llaneza

Se abre la verja del jardín
con la docilidade de la página
que una frecuente devócion interroga
y adentro las miradas
no precisan fijarse en los objetos
que ya están cabalmente en la memoria.
Conozco las costumbres y las almas
y ese dialecto de alusiones
que toda agrupación humana va urdiendo.
No necesito hablar
ni mentir privilegios;
bien me conecen quienes aquí me rodean,
bien saben mis congojas y mi flaqueza.
Eso es alcanzar lo más alto,
lo que tal vez nos dará el Cielo:
no admiraciones ni victorias
sino sencillamente ser admitidos
como parte de uma Realidad innegable,
como las piedras y los árboles


Jorge Luis Borges - Poesía completa



2009-07-15

o equilíbrio possível

No i de ontem (foi a primeira vez que comprei e não me entusiasmou por aí além) vinha uma entrevista à economista venezuelana Carlota Pérez. Tendo como título "A economista que tem a solução para a crise". É uma afirmação temerária. Não creio nunca "na solução". E mesmo que seja não é possível rasgar este sistema e fazer aparecer outro novinho e pôr todos os agentes a executar o plano. Vão existir sempre vários ritmos de desenvolvimento, consoante as oportunidades, capacidades e sensibilidades. Mesmo na crescente globalização, não serão eliminadas as assimetrias.

A globalização (o papão para muitos acomodados ao seu nacionalismo) é, segundo esta economista, uma oportunidade de desenvolvimento, redução de alguns problemas presentes e saída para a presente crise. Diz Carlota Pérez:

A globalização tem que ver com a possibilidade de ampliar mercados e a produção, e isto virá reduzir os problemas do terrorismo, da imigração, aproximando os continentes que ficam para trás: África e América Latina.

Mas o desenvolvimento tem que ser sustentado e orientado:

A solução passa pela especialização regional. Para os países desenvolvidos há várias áreas: entretenimento, educação, indústrias criativas, ambientais, biotecnologia, nanotecnologia etc., o que supõe investimentos em massa e emprego por muitos anos. Já a produção que requer muita mão-de-obra, pode ser oportunidade nos países densamente povoados como os asiáticos. Para a América Latina e África aproveitar-se-ão os recursos naturais.

Mas, digo eu, nada disto funcionará, se não houver um empenho global, uma regulação dos mercados, para que uns não sejam incitados a produzir, sem condições de trabalho, sem merecida recompensa e outros a consumir, saciando os abutres da finança mundial.

quase


é um dos dias em que quase odiaria Lisboa. Quase... não fosse o rio, os pedintes do metro, a multidão anónima, o sol abrasador, as cores...tudo me lembra que na vida (por mais anos que se vivam) pouco se aprende. E que há dias em que, na maior solidão, temos de decidir ser guerreiros ou desistir.

2009-07-13

frisson


O poema ensina a cair


sobre os vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor, ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede
até à queda vinda
da lenta volúpia de cair,
quando a face atinge o solo
numa curva delgada subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou especialmente a nós uma homenagem
póstuma.


Luísa Neto Jorge

imagem-Manuel Alvarez Bravo

2009-07-10

maridos...não leveis a mal...é amor, é amor


I love my husband

Eu amo meu marido. De manhã à noite. Mal acordo, ofereço-lhe café. Ele suspira exausto da noite sempre maldormida e começa a barbear-se. Bato-lhe à porta três vezes, antes que o café esfrie. Ele grunhe com raiva e eu vocifero com aflição. Não quero meu esforço confundido com um líquido frio que ele tragará como me traga duas vezes por semana, especialmente no sábado.Depois, arrumo-lhe o nó da gravata e ele protesta por consertar-lhe unicamente a parte menor de sua vida. Rio para que ele saia mais tranqüilo, capaz de enfrentar a vida lá fora e trazer de volta para a sala de visita um pão sempre quentinho e farto.Ele diz que sou exigente, fico em casa lavando a louça, fazendo compras, e por cima reclamo da vida. Enquanto ele constrói o seu mundo com pequenos tijolos, e ainda que alguns destes muros venham ao chão, os amigos o cumprimentam pelo esforço de criar olarias de barro, todas sólidas e visíveis.A mim também me saúdam por alimentar um homem que sonha com casas-grandes, senzalas e mocambos, e assim faz o país progredir. E é por isto que sou a sombra do homem que todos dizem eu amar. Deixo que o sol entre pela casa, para dourar os objetos comprados com esforço comum. Embora ele não me cumprimente pelos objetos fluorescentes. Ao contrário, através da certeza do meu amor, proclama que não faço outra coisa senão consumir o dinheiro que ele arrecada no verão. Eu peço então que compreenda minha nostalgia por uma terra antigamente trabalhada pela mulher, ele franze o rosto como se eu lhe estivesse propondo uma teoria que envergonha a família e a escritura definitiva do nosso apartamento.O que mais quer, mulher, não lhe basta termos casado em comunhão de bens? E dizendo que eu era parte do seu futuro, que só ele porém tinha o direito de construir, percebi que a generosidade do homem habilitava-me a ser apenas dona de um passado com regras ditadas no convívio comum.Comecei a ambicionar que maravilha não seria viver apenas no passado, antes que este tempo pretérito nos tenha sido ditado pelo homem que dizemos amar. Ele aplaudiu o meu projeto. Dentro de casa, no forno que era o lar, seria fácil alimentar o passado com ervas e mingau de aveia, para que ele, tranqüilo, gerisse o futuro. Decididamente, não podia ele preocupar-se com a matriz do meu ventre, que devia pertencer-lhe de modo a não precisar cheirar o meu sexo para descobrir quem mais, além dele, ali estivera, batera-lhe à porta, arranhara suas paredes com inscrições e datas.Filho meu tem que ser só meu, confessou aos amigos no sábado do mês que recebíamos. E mulher tem que ser só minha e nem mesmo dela. A idéia de que eu não podia pertencer-me, tocar no meu sexo para expurgar-lhe os excessos, provocou-me o primeiro sobressalto na fantasia do passado em que até então estivera imersa. Então o homem, além de me haver naufragado no passado, quando se sentia livre para viver a vida a que ele apenas tinha acesso, precisava também atar minhas mãos, para minhas mãos não sentirem a doçura da própria pele, pois talvez esta doçura me ditasse em voz baixa que havia outras peles igualmente doces e privadas, cobertas de pêlo felpudo, e com a ajuda da língua podia lamber-se o seu sal?Olhei meus dedos revoltada com as unhas longas pintadas de roxo. Unhas de tigre que reforçavam a minha identidade, grunhiam quanto à verdade do meu sexo. Alisei meu corpo, pensei, acaso sou mulher unicamente pelas garras longas e por revesti-las de ouro, prata, o ímpeto do sangue de um animal abatido no bosque? Ou porque o homem adorna-me de modo a que quando tire estas tintas de guerreira do rosto surpreende-se com uma face que Ihe é estranha, que ele cobriu de mistério para não me ter inteira?De repente, o espelho pareceu-me o símbolo de uma derrota que o homem trazia para casa e tornava-me bonita. Não é verdade que te amo, marido? perguntei-lhe enquanto lia os jornais, para instruir-se, e eu varria as letras de imprensa cuspidas no chão logo após ele assimilar a notícia. Pediu, deixe-me progredir, mulher. Como quer que eu fale de amor quando se discutem as alternativas econômicas de um país em que os homens para sustentarem as mulheres precisam desdobrar um trabalho de escravo.Eu lhe disse então, se não quer discutir o amor, que afinal bem pode estar longe daqui, ou atrás dos móveis para onde às vezes escondo a poeira depois de varrer a casa, que tal se após tantos anos eu mencionasse o futuro como se fosse uma sobremesa?Ele deixou o jornal de lado, insistiu que eu repetisse. Falei na palavra futuro com cautela, não queria feri-lo, mas já não mais desistia de uma aventura africana recém-iniciada naquele momento. Seguida por um cortejo untado de suor e ansiedade, eu abatia os javalis, mergulhava meus caninos nas suas jugulares aquecidas, enquanto Clark Gable, atraído pelo meu cheiro e do animal em convulsão, ia pedindo de joelhos o meu amor. Sôfrega pelo esforço, eu sorvia água do rio, quem sabe em busca da febre que estava em minhas entranhas e eu não sabia como despertar. A pele ardente, o delírio, e as palavras que manchavam os meus lábios pela primeira vez, eu ruborizada de prazer e pudor, enquanto o pajé salvava-me a vida com seu ritual e seus pêlos fartos no peito. Com a saúde nos dedos, da minha boca parecia sair o sopro da vida e eu deixava então o Clark Gable amarrado numa árvore, lentamente comido pelas formigas. Imitando a Nayoka, eu descia o rio que quase me assaltara as forças, evitando as quedas d'água, aos gritos proclamando liberdade, a mais antiga e miríade das heranças.O marido, com a palavra futuro a boiar-lhe nos olhos e o jornal caído no chão, pedia-me, o que significa este repúdio a um ninho de amor, segurança, tranqüilidade, enfim a nossa maravilhosa paz conjugal? E acha você, marido, que a paz conjugal se deixa amarrar com os fios tecidos pelo anzol, só porque mencionei esta palavra que te entristece, tanto que você começa a chorar discreto, porque o teu orgulho não lhe permite o pranto convulso, este sim, reservado à minha condição de mulher? Ah, marido, se tal palavra tem a descarga de te cegar, sacrifico-me outra vez para não vê-lo sofrer. Será que apagando o futuro agora ainda há tempo de salvar-te?Suas crateras brilhantes sorveram depressa as lágrimas, tragou a fumaça do cigarro com volúpia e retomou a leitura. Dificilmente se encontraria homem como ele no nosso edifício de dezoito andares e três portarias. Nas reuniões de condomínio, a que estive presente, era ele o único a superar os obstáculos e perdoar aos que o haviam magoado. Recriminei meu egoísmo, ter assim perturbado a noite de quem merecia recuperar-se para a jornada seguinte.Para esconder minha vergonha, trouxe-lhe café fresco e bolo de chocolate. Ele aceitou que eu me redimisse. Falou-me das despesas mensais. Do balanço da firma ligeiramente descompensado, havia que cuidar dos gastos. Se contasse com a minha colaboração, dispensaria o sócio em menos de um ano. Senti-me feliz em participar de um ato que nos faria progredir em doze meses. Sem o meu empenho, jamais ele teria sonhado tão alto. Encarregava-me eu à distância da sua capacidade de sonhar. Cada sonho do meu marido era mantido por mim. E, por tal direito, eu pagava a vida com cheque que não se poderia contabilizar.Ele não precisava agradecer. De tal modo atingira a perfeição dos sentimentos, que lhe bastava continuar em minha companhia para querer significar que me amava, eu era o mais delicado fruto da terra, uma árvore no centro do terreno de nossa sala, ele subia na árvore, ganhava-lhe os frutos, acariciava a casca, podando seus excessos.Durante uma semana bati-lhe à porta do banheiro com apenas um toque matutino. Disposta a fazer-lhe novo café, se o primeiro esfriasse, se esquecido ficasse a olhar-se no espelho com a mesma vaidade que me foi instilada desde a infância, logo que se confirmou no nascimento tratar-se de mais uma mulher. Ser mulher é perder-se no tempo, foi a regra de minha mãe. Queria dizer, quem mais vence o tempo que a condição feminina? O pai a aplaudia completando, o tempo não é o envelhecimento da mulher, mas sim o seu mistério jamais revelado ao mundo.Já viu, filha, que coisa mais bonita, uma vida nunca revelada, que ninguém colheu senão o marido, o pai dos seus filhos? Os ensinamentos paternos sempre foram graves, ele dava brilho de prata à palavra envelhecimento. Vinha-me a certeza de que ao não se cumprir a história da mulher, não lhe sendo permitida a sua própria biografia, era-lhe assegurada em troca a juventude.Só envelhece quem vive, disse o pai no dia do meu casamento. E porque viverás a vida do teu marido, nós te garantimos, através deste ato, que serás jovem para sempre. Eu não sabia como contornar o júbilo que me envolvia com o peso de um escudo, e ir ao seu coração, surpreender-lhe a limpidez. Ou agradecer-lhe um estado que eu não ambicionara antes, por distração talvez. E todo este troféu logo na noite em que ia converter-me em mulher. Pois até então sussurravam-me que eu era uma bela expectativa. Diferente do irmão que já na pia batismal cravaram-lhe o glorioso estigma de homem, antes de ter dormido com mulher.Sempre me disseram que a alma da mulher surgia unicamente no leito, ungido seu sexo pelo homem. Antes dele a mãe insinuou que o nosso sexo mais parecia uma ostra nutrida de água salgada, e por isso vago e escorregadio, longe da realidade cativa da terra. A mãe gostava de poesia, suas imagens sempre frescas e quentes.Meu coração ardia na noite do casamento. Eu ansiava pelo corpo novo que me haviam prometido, abandonar a casca que me revestira no cotidiano acomodado. As mãos do marido me modelariam até os meus últimos dias e como agradecer-lhe tal generosidade? Por isso talvez sejamos tão felizes como podem ser duas criaturas em que uma delas é a única a transportar para o lar alimento, esperança, a fé, a história de uma família.Ele é único a trazer-me a vida, ainda que às vezes eu a viva com uma semana de atraso. O que não faz diferença. Levo até vantagens, porque ele sempre a trouxe traduzida. Não preciso interpretar os fatos, incorrer em erros, apelar para as palavras inquietantes que terminam por amordaçar a liberdade. As palavras do homem são aquelas de que deverei precisar ao longo da vida. Não tenho que assimilar um vocabulário incompatível com o meu destino, capaz de arruinar meu casamento.Assim fui aprendendo que a minha consciência que está a serviço da minha felicidade ao mesmo tempo está a serviço do meu marido. É seu encargo podar meus excessos, a natureza dotou-me com o desejo de naufragar às vezes, ir ao fundo do mar em busca das esponjas. E para que me serviriam elas senão para absorver meus sonhos, multiplicá-los no silêncio borbulhante dos seus labirintos cheios de água do mar? Quero um sonho que se alcance com a luva forte e que se transforme algumas vezes numa torta de chocolate, para ele comer com os olhos brilhantes, e sorriremos juntos.Ah, quando me sinto guerreira, prestes a tomar das armas e ganhar um rosto que não é o meu, mergulho numa exaltação dourada, caminho pelas ruas sem endereço, como se a partir de mim, e através do meu esforço, eu devesse conquistar outra pátria, nova língua, um corpo que sugasse a vida sem medo e pudor. E tudo me treme dentro, olho os que passam com um apetite de que não me envergonharei mais tarde. Felizmente, é uma sensação fugaz, logo busco o socorro das calçadas familiares, nelas a minha vida está estampada. As vitrines, os objetos, os seres amigos, tudo enfim orgulho da minha casa.Estes meus atos de pássaro são bem indignos, feririam a honra do meu marido. Contrita, peço-lhe desculpas em pensamento, prometo-lhe esquivar-me de tais tentações. Ele parece perdoar-me à distância, aplaude minha submissão ao cotidiano feliz, que nos obriga a prosperar a cada ano. Confesso que esta ânsia me envergonha, não sei como abrandá-la. Não a menciono senão para mim mesma. Nem os votos conjugais impedem que em escassos minutos eu naufrague no sonho. Estes votos que ruborizam o corpo mas não marcaram minha vida de modo a que eu possa indicar as rugas que me vieram através do seu arrebato.Nunca mencionei ao marido estes galopes perigosos e breves. Ele não suportaria o peso dessa confissão. Ou que lhe dissesse que nessas tardes penso em trabalhar fora, pagar as miudezas com meu próprio dinheiro. Claro que estes desatinos me colhem justamente pelo tempo que me sobra. Sou uma princesa da casa, ele me disse algumas vezes e com razão. Nada pois deve afastar-me da felicidade em que estou para sempre mergulhada.Não posso reclamar. Todos os dias o marido contraria a versão do espelho. Olho-me ali e ele exige que eu me enxergue errado. Não sou em verdade as sombras, as rugas com que me vejo. Como o pai, também ele responde pela minha eterna juventude. É gentil de sentimentos. Jamais comemorou ruidosamente meu aniversário, para eu esquecer de contabilizar os anos. Ele pensa que não percebo. Mas, a verdade é que no fim do dia já não sei quantos anos tenho.E também evita falar do meu corpo, que se alargou com os anos, já não visto os modelos de antes. Tenho os vestidos guardados no armário, para serem discretamente apreciados. Às sete da noite, todos os dias, ele abre a porta sabendo que do outro lado estou à sua espera. E quando a televisão exibe uns corpos em floração, mergulha a cara no jornal, no mundo só nós existimos.Sou grata pelo esforço que faz em amar-me. Empenho-me em agradá-lo, ainda que sem vontade às vezes, ou me perturbe algum rosto estranho, que não é o dele, de um desconhecido sim, cuja imagem nunca mais quero rever. Sinto então a boca seca, seca por um cotidiano que confirma o gosto do pão comido às vésperas, e que me alimentará amanhã também. Um pão que ele e eu comemos há tantos anos sem reclamar, ungidos pelo amor, atados pela cerimônia de um casamento que nos declarou marido e mulher. Ah, sim, eu amo meu marido.

Nélida Piñon (site oficial)

2009-07-07

um empurrãozinho...


...para promover a violência física.
Ontem o Tribunal de Viana do Castelo condenou um homem de quarenta e sete anos, por assassínio da própria mulher, com uma pena de oito anos.
O homem era useiro e vezeiro em partir para a agressão física (quem sabe, porque a sopa estava um todenadinha mais quente) e, naquele dia 2 de Março de 2007, resolveu apimentar a prática corrente, regando-a com álcool.
Teve como atenuantes, o facto de estar algo perturbado pelo consumo de bebidas alcoólicas e ser bom camarada para os colegas.

Ficaram sem protecção três filhos e três enteados.
Não sendo eu apologista de penas muito longas... mas isto não é uma leviandade do tribunal?

Nova Encíclica "caritas in veritate"


79. O desenvolvimento tem necessidade de cristãos com os braços levantados para Deus em atitude de oração, cristãos movidos pela consciência de que o amor cheio de verdade - caritas in veritate -, do qual procede o desenvolvimento autêntico, não o produzimos nós, mas é-nos dado. Por isso, inclusive nos momentos mais difíceis e complexos, além de reagir conscientemente devemos sobretudo referir-nos ao seu amor. O desenvolvimento implica atenção à vida espiritual, uma séria consideração das experiências de confiança em Deus, de fraternidade espiritual em Cristo, de entrega à providência e à misericórdia divina, de amor e de perdão, de renúncia a si mesmos, de acolhimento do próximo, de justiça e de paz. Tudo isto é indispensável para transformar os « corações de pedra » em « corações de carne » (Ez 36, 26), para tornar « divina » e consequentemente mais digna do homem a vida sobre a terra. Tudo isto é do homem, porque o homem é sujeito da própria existência; e ao mesmo tempo é de Deus, porque Deus está no princípio e no fim de tudo aquilo que tem valor e redime: « quer o mundo, quer a vida, quer a morte, quer o presente, quer o futuro, tudo é vosso; mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus » (1 Cor 3, 22-23). A ânsia do cristão é que toda a família humana possa invocar a Deus como o « Pai nosso ». Juntamente com o Filho unigénito, possam todos os homens aprender a rezar ao Pai e a pedir-Lhe, com as palavras que o próprio Jesus nos ensinou, para sabê-Lo santificar vivendo segundo a sua vontade, e depois ter o pão necessário para cada dia, a compreensão e a generosidade com quem nos ofendeu, não ser postos à prova além das suas forças e ver-se livres do mal (cf. Mt 6, 9-13).

Bento XVI.


retirada daqui

2009-07-04

um largo suspiro

é inevitável perante esta notícia. No país da trampa (diria outra coisa, mas a idade anda a pôr-me púdica) que somos, governado por contabilistas mesquinhos, é inevitável que tudo o que não seja para brilho público e súbito, vá sendo tratado de forma leviana e desprezível.


Maria João Pires é um génio e será má gestora. Pois. Não devia o Estado ter vigiado os subsídios e o projecto? Foi melhor este fim indigno?

um sentido que supera a interrogação

21As doze portas eram doze pérolas. Cada uma das portas era uma só pérola. E a praça da cidade era de ouro puro, semelhante ao vidro transparente. 22*Templo, não vi nenhum na cidade; pois o senhor Deus, o Todo-Poderoso, e o Cordeiro são o seu templo. 23E a cidade tão-pouco necessita de Sol nem de Lua para a iluminar; pois a glória de Deus a ilumina e a sua lâmpada é o Cordeiro. (Ap 21, 21-23)

voltei

Ontem comi as primeiras amoras. Às fiéis visitas deste blogue, deixo, apenas, a imagem delas (a foto foi gamada) e um abraço.