2009-08-18

diário breve

Depois de apanhar o melhor transporte de Lisboa - o primeiro autocarro que me traz de volta às Caldas, posso, aqui, limpar a manhã de hoje.
F. tem repetido nos últimos tempos, que sou a mais forte da família. Obrigada. "Em terra de cegos quem tem um olho é rei." Mas ganhei a reputação (culpa minha; ouço, ouço e exponho-me quase nada. Só para os mais próximos baixo as reservas) e há que mantê-la. E, no entanto, a melhor forma de vencermos os medos é expor-mo-nos.

Li o Luiz Pacheco durante duas longas horas, num corredor a fazer de sala de espera. Não conseguindo, a intervalos, deixar de observar a família mais a namorada de um jovem de mais ou menos vinte anos que ia para a consulta pela qual eu esperava. Os pais mostravam ansiedade: a mãe falava em pequenos segredos para o marido, que se levantava amiúde e olhava para um e outro lado do corredor. O rapaz permanecia com a cabeça baixa, apático aos sorrisos da namorada que evidenciava estar a leste do ambiente que a rodeava. Ainda bem para ela , e um regalo para mim. Exalava uma beleza de adolescente inócua e ao mesmo tempo exuberante.

Chamam por mim para a consulta, uma médica um pouco mais velha do que eu, pergunta-me pelo RX ao tórax. Vou fazer a seguir - respondo eu. - Não pode - e mais um chorrilho de recriminações, responde ela. Tenho que ir ao serviço de radiologia, fazer o RX e voltar para a consulta. Para isso, tenho de passar pela família e mais o jovem, e lastimo interiormente ir fazê-los esperar ainda mais.
Ralham comigo no serviço de radiologia por não ter marcado o exame. Digo-lhe que achei que tinha ficado marcado, tal como os outros. Até me disseram que era no mesmo dia da consulta. (Aguenta-te, Maria. Antes de ficares doente devias ter tirado um curso de burocracia hospitalar.)

Lá volto à bendita consulta, já com o estômago às voltas de fome. Esqueço-me sempre de levar mantimentos, para fazer um piquenique, numa das "agradáveis" salas de espera (vulgo corredor) hospitalares.

Começam então as perguntas da praxe: já foi operada? tem ou teve familiares com doenças graves? e que medicamentos está a tomar? - coversyl para a tensão e dois antidepressivos. Levanta a cabeça e pergunta como se estivesse a fazer de juiz no tribunal: - e porque é que os está a tomar? Passaram-me um seriado de palavrões pela mente, mas sem fazer uso de nenhum, e depois de pensar a seguir por que raio tinha de expor a minha vida, ali, naquele exacto momento e com aquela pessoa? Fiz uma síntese muito breve a explicar que a vida para mim é importante demais para não a viver com a qualidade possível. E achei que, neste momento, precisava de químicos e pedi-os. Acabou por dizer que tinha feito bem.

O Luiz Pacheco arranjava forma de ganhar uma notita, contando o seu dia-a-dia. Eu, se ganhar um leitor atento, já ficarei satisfeita. Não ganhando, fico na mesma.


6 comentários:

  1. Andas mesmo com azar aos médicos!
    Beijos

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  2. Bem realmente... até parece que alguém anda nestas andanças se tiver alternativa.

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  3. lino,

    acho que não é isso. Mas esperar que atravesse esta longa saga, calma e tranquila, é o mesmo que intentar endireitar a torre de Pisa.

    Beijos

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  4. Acho que não, Pedro. E isso é bem visivel.

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  5. "Leitor atento"?
    Presente!

    Aqui do alto do sistema de saúde alemão, o melhor é ficar calada.
    Isso é desumano, indigno, insuportável.

    (Pronto, conto só uma coisa: outro dia precisei das minhas mamografias mais recentes. Fui ao hospital onde as fiz e pedi-as no guichet de atendimento. Disseram-me para esperar um bocadinho. Daí a cinco minutos, deram-me - gratuitamente - dois CDs com cópias de todos os exames que fiz naquele hospital.)

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  6. Helena,


    eu estou a omitir factos. E isso não é correcto da minha parte.

    O SNS portugûes também é atento e ligeiro na execução. Senão vejamos:



    Quando eu cheguei na terça à porta do gabinete onde ia ser atendida (que eu não conhecia) estava uma mesinha à porta com uma caixa de sapatos forrada com papel autocolante azul (sou muito observadora, não?) e uma folha A4 por cima que dizia que colocássemos ali o nosso cartão identificativo do hospital. Passados dez minutos veio uma funcionária, agarrou no cartão e levou-o para dentro. Passados cinco minutos, veio cá fora e chamou pelo meu nome. Eu toda ingénua achei que era a chamar para a consulta que estava marcada para as dez. Eram dez e dez. (Toda a gente, e era uma multidão, tinha marcação para a mesma hora. Pelo menos só chegou a tal família depois de mim).

    Pois a funcionária, que tinha consultado o meu processo no computador, viu que eu não tinha pago as taxas das análises e electrocardiograma (porque ninguém me pediu)que fiz no dia treze.
    Sorri de tamanha rapidez, disse que fizesse os recibos que eu pagava tudo.

    Agora pergunto: porque não viu ela que me faltava o RX?

    A atenção, cara Helena, não é ao doente, mas à carteira do mesmo.



    Desculpa o testamento, mas afirmaste-te leitora atenta. :)

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