2009-09-30

mas nem a Igreja protege os seus Santos?

No Página 1 jornal on-line da Rádio Renascença, encontro um notícia numa pequena caixa, que me deixou estupefacta.

Começa assim:

Católicos há nos mais variados partidos, mas poucos partidos (mas ainda há mais surpresas?) se podem orgulhar de ter na sua sede o quarto onde viveu e morreu um beato, que poderá em breve ser elevado a santo.

E quem é o bem-aventurado partido? Nada mais do que o CDS-PP. A sede no Caldas, está num edifício do qual o Patriarcado é propietário, e o arrenda. Com o quarto do Padre Cruz, onde se fazem romarias, vindas de todo o país.

Será o Santo Padre Cruz obreiro das recentes vitórias do partido? Problema escatológico que não me apoquenta por aí além. Já esta promiscuidade religiosa-partidária é para mim um caso sério. Não havia mais ninguém a quem alugar o prédio e o quarto do beato?

2009-09-26

declaração de voto

Rompo o silêncio deste "Sábado Santo" da política, para aclarar ideias. Amanhã vou votar PS.
Lamento, porém, que não tenha ouvido nem de José Sócrates, nem de nenhuma figura grada do Partido Socialista, o arrependimento por todas as falhas de um governo de quatro anos -o que se prometeu e não cumpriu. Os interesses pessoais e partidários a sobreporem-se aos múltiplos interesses da sociedade portuguesa.

José Sócrates defendeu-se o tempo todo dos ataques de que foi alvo, fechando-se e isolando-se, dessa forma, aos esclarecimentos que a todos nós devia, e à mudança na sua conduta pessoal e política. Com tudo isto, é um voto de confiança, o meu.

2009-09-25

não basta crer

Vão sendo recorrentes neste blogue, as citações de José Tolentino de Mendonça, mas o que ele escreve é muito bom. E não tem muita concorrência dentro dos temas que aborda, na Igreja portuguesa.




Na era da crença descafeinada

Os tempos que correm assemelham-se a um dispositivo de proliferação de crenças, domesticadas por um subjectivismo portátil, crenças indolores, individualistas, transversais, descontínuas, consensuais, inofensivas. Declinam-se regressos, o do sagrado, o dos anjos, o das origens cristãs, mas numa narrativa escorreita, sem sobressaltos, nem fracturas. O religioso enche a montra todo o ano. Fala-se da recuperação da alma, mas não do que se omite na articulação culturalmente correcta desse discurso.

...
Recordo o que escreve Slavoj Zizek, em “A subjectividade por vir” (Relógio d’Água, 2006): “Talvez a proibição que recai sobre a adesão apaixonada a uma crença explique por que motivo a «cultura» tende a tornar-se hoje uma categoria central no mundo e nas nossas vidas. A religião é permitida – não como forma substancial de vida, mas como modo de «cultura»”. Zizek aborda a recepção do filme de Mel Gibson, um objecto que não aprecia, mas que lhe serve para pensar “a Paixão na era da crença descafeinada”.


O caminho que ele aí aponta, contrariando o hedonismo espiritualista e evanescente, tão do apetite pós-moderno, é a redescoberta de “um materialismo consequente”.

Numa outra obra, em que enfrenta mais sistematicamente a situação do cristianismo contemporâneo (The fragile absolute or, Why is the Christian legacy worth fighting for?, 2001), tematiza esse “materialismo consequente” tomando a categoria da “desconexão”. O cristianismo nasceu como uma comunidade de excluídos, na linha dos grupos excêntricos, e a verdadeira desconexão cristã “não é uma atitude de contemplação interior, mas a de um trabalho activo de amor que conduz necessariamente à criação de uma comunidade alternativa”.

José Tolentino Mendonça

24.09.09



(sublinhado meu)

Gustave Moreau - The Apparition 1874-6

2009-09-24

crer no Espírito crer na Igreja

Quando se diz no Credo, creio no Espírito Santo, creio na Igreja, não têm as duas afirmações de fé o mesmo sentido.

Crer no Espírito de Jesus que actua no mundo e na comunidade, é confiar e entregar-se a Ele. O Espírito que nos faz crer é a origem da fé. A Igreja não é objecto de fé, mas lugar e espaço de amadurecimento da fé, da sua prática e celebração.
A Igreja é também a comunidade convocada pelo poder do Espírito Santo que nos impele para que creiamos nele.


A Igreja é um lugar privilegiado para nos renovarmos na acção do Espírito Santo. Não quer isso dizer que, muitas vezes, não possamos discordar das propostas que a mesma nos faz. Qualquer cristão baptizado - e assistido pelo Espírito Santo - não se pode demitir da sua vocação de crescer e fazer a Igreja crescer. Tem, por isso, de estar atento aos sinais do Espírito que irrompe em cada instante da vida e ser-lhe fiel. Mesmo, ou sobretudo, se tiver de discordar do Magistério e da restante comunidade.

2009-09-23

direito/dever de votar

O Henrique esclarece:

Portanto, a luta pelo direito ao voto, luta essa bastante respeitável, deve ser acompanhada por uma luta pela seriedade do voto. O voto não é sério enquanto não traduzir esclarecimento, quer da parte do eleitorado, quer da parte dos eleitos.

Ler a Bíblia com humor

A Bíblia e o seu fascinante Humor

Olhemos para a Bíblia e divirtamo-nos com a sua leitura, sentindo como a Alegria é um lugar da revelação de Deus. É impossível avizinhar-se de Deus, sem perceber essa dimensão necessária. Encontramos na Bíblia páginas cheias de alegria, representada e transmitida segundo estratégias muito diferentes.

Deus faz-me rir


Um dos textos emblemáticos diz respeito a Abraão e Sara, sua mulher. Na história de Fé que eles escrevem, o riso e o humor emergem naturalmente. Há aquela situação inicial que todos nós conhecemos: a de Sara ser estéril e os dois se encontrarem numa idade muito avançada e ainda sem filhos. Dá-se, então, a inesperada promessa de Deus, que passado um ano, Sara será mãe! E Sara quando ouve dizer isto, fica a rir baixinho, por detrás do céu do pano da tenda.
O Senhor disse a Abraão: «Porque está Sara a rir e a dizer: ‘Será verdade que eu hei-de ter um filho, velha como estou?’ Haverá alguma coisa que seja impossível para o Senhor? Dentro de um ano, nesta mesma época, voltarei à tua casa, e Sara terá já um filho.»Cheia de medo, Sara negou, dizendo: «Não me ri.» Mas Ele disse-lhe: «Não! Tu riste-te.» (Génesis 18,13-15)
O diálogo do Senhor é delicioso e vai determinar o nome da criança que vai nascer. É que o nome Isaac significa “Deus sorri”. Sara rira primeiro por incredulidade, por pura descrença perante um anúncio desconcertante de Deus, que ela não via como pudesse desencadear-se! Mas precisamente nesse contexto, ela é desafiada a sorrir, percebendo como o humor de Deus desbloqueia a história dos seus impasses, e torna possível aquilo que ela, no seu coração, tinha já por impossível. Ela vai ter um filho e poder dizer: «Deus faz-me sorrir, e todos os que o souberem podem sorrir comigo!» (Génesis 21,6). Um riso absolutamente novo: o da confiança nos imprevisíveis caminhos de Deus.

O riso conduz-nos à sabedoria


Muitas vezes encontramos o riso associado à construção da verdadeira sabedoria. A Bíblia ensina-nos a rir dos nossos juízos e saberes, das coisas cheias de seriedade que fazemos, da esperteza com que tentamos salvar as aparências ou sobreviver às dificuldades. Este riso de nós próprios é um riso altamente purificador e abre-nos a um sentido novo, a um outro sorriso, que é o sorriso de Deus. Sobretudo nos livros Sapienciais, encontramos uma série de máximas para ler com um riso nos lábios, porque colocam-nos a nu descaradamente.

"Não consultes uma mulher ciumenta sobre a sua rival,

um medroso sobre a guerra,
um negociante sobre os negócios,
um comprador sobre uma coisa para vender,
um invejoso sobre a gratidão,
um egoísta sobre a bondade,
um preguiçoso sobre qualquer trabalho,
um criado preguiçoso sobre uma grande tarefa!" (Eclesiástico 37,11)

Ao lermos este conselho no Livro do Eclesiástico rimo-nos por que reconhecemos a nossa realidade, mas o riso depura-nos, abre-nos a uma consciência profunda de nós mesmos. O riso serve de espelho: em vez de andarmos num esconde-esconde de aparências, dá-nos a possibilidade de uma contemplação desdramatizada que construtivamente nos incita à mudança.
O preguiçoso diz:"anda uma fera no caminho, um leão na estrada!”
Como a porta gira sobre os seus gonzos,
Assim o preguiçoso no seu leito.
O preguiçoso mete a mão no prato,
Mas cansa-se de a levar à boca (Provérbios 26,13-15)


Goteira a pingar em dia de chuva,
e mulher briguenta, tudo é a mesma coisa. (Provérbios 27,15)
A sanguessuga tem duas filhas,que se chamam: “Dá-me, dá-me” (Provérbios 30,15)
O Eclesiástico e os Provérbios estão pejados de máximas muito inspiradas pelo humor oriental, talvez em alguns aspectos um tanto divergente do nosso. Mas o importante é dar-se conta que o riso é uma forma sábia de entrarmos em nós próprios, na nossa realidade, e quebrarmos a falsa solidez das aparências, ousando vermo-nos como somos. Nesse sentido, o riso tem uma função sapiencial: é um indutor de sabedoria espiritual, conduz-nos a ela.


Na Bíblia há vários campeões de desculpas esfarrapadas. Quando Moisés chegou com as Tábuas da Lei, descendo do Monte da Revelação, teve a surpresa da sua vida! Quando era de esperar que todo o povo estivesse como um só coração e uma só alma para receber a Lei, estava afinal reunido em torno de um bezerro de ouro! Moisés pede justificações a Aarão, como nos descreve o capítulo 32 do livro do Êxodo. E Aarão dá a desculpa mais esfarrapada da tradição bíblica. Diz.: “eles queriam um deus, deram-me o ouro, eu lancei o ouro ao fogo e saiu-me este bezerro!” É interessante porque o livro do Êxodo, sendo um relato da libertação é também um relato de humor. Não nos libertamos sem aceitar o risível que nos habita.

José Tolentino Mendonça, aqui

2009-09-22

Deus omnipotente

(...)Porque nem tudo acontece como e quando queremos, quantas vezes me vejo a pedir a Deus que mude esta ou aquela situação, ou, simplesmente, “me tire deste filme”! E, quase sempre, escuto silêncio ou então, “aguenta”! É verdade que o medo é mau conselheiro e, muitas vezes, “agiganta” o desconhecido e mina a confiança. Mas sofro sempre um bocado com este desejo de que a realidade mude para aquilo que me parece melhor, que chego a julgar ser a própria vontade de Deus! E, nestes dias, com as leituras de domingo no pensamento, ia descobrindo: Deus não muda aquilo que nos compete viver, por mais difícil que seja; o que Ele muda é o modo como enfrentamos aquilo que temos de viver; não muda a nossa situação, muda-nos a nós mesmos! (...)

Padre Vitor Gonçalves, aqui

direito e dever de votar

Não há democracia sem participação. Corrigem-se as suas limitações, também com a participação, consciente e activa, que um acto eleitoral proporciona. Estas não podem dar lugar ao alheamento dos cidadãos. Antes, devem ser motivo de um seu maior empenhamento.

(Nota Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa)

Ainda sou do tempo em que o meu pai recebia um "convite" para ir votar. A minha mãe, não. Também por ela, será o meu voto no próximo domingo. Logo, concordo plenamente, com os bispos portugueses.

2009-09-20

o que nos convém

Promulgastes, Senhor,
os vossos preceitos para se cumprirem fielmente.
Fazei que os meus passos sejam firmes
na observância dos vossos mandamentos.

(Sl 118, 4-5)

às vezes, salva-nos a memória


Às vezes as coisas dentro de nós


O que nos chama para dentro de nós mesmos
é uma vaga de luz, um pavio, uma sombra incerta.
Qualquer coisa que nos muda a escala do olhar
e nos torna piedosos, como quem já tem fé.
Nós que tivemos a vagarosa alegria repartida
pelo movimento, pela forma, pelo nome,
voltamos ao zero irradiante, ao ver
o que foi grande, o que foi pequeno, aliás
o que não tem tamanho, mas está agora
engrandecido dentro do novo olhar.



Para Maria de Lourdes Pintasilgo
em breve homenagem

Fiama Hasse Pais Brandão
"As Fábulas", edições quasi



Nestes dias insidiosos, lembrar a mulher e política, Maria de Lurdes Pintassilgo, é fazer memória para orientar o presente. Porque não chega ficarmos incomodados ou alheados, à espera que outros façam.

2009-09-19

o ouvido - um orgão cada vez mais ignorado


No meio da vertigem das tempestades de palavras em que vivemos, que nos atordoam e paralisam, tal- vez se torne urgente parar. Para ouvir.
Ouvir o quê? Ouvir o silêncio. E só depois de ouvir o silêncio será possível falar, falar com sentido e palavras novas, seminais, iluminadas e iluminantes, criadoras. De verdade. Onde se acendem as palavras novas, seminais, iluminadas e iluminantes, criadoras, e a Poesia, senão no silêncio, talvez melhor, na Palavra originária que fala no silêncio?
Ouvir o quê? Ouvir a voz da consciência, que sussurra ou grita no silêncio. Quem a ouve?
Ouvir o quê? Ouvir música, a grande música, aquela que diz o indizível e nos transporta lá, lá ao donde somos e para onde verdadeiramente queremos ir: a nossa morada.
Ouvir o quê? Ouvir os gemidos dos pobres, os gritos dos explorados, dos abandonados, dos que não podem falar, das vítimas das injustiças.
Ouvir o quê? Talvez Deus - um dia ouvi Jacques Lacan dizer que os teólogos não acreditam em Deus, porque falam demasiado dele -, o Deus que, no meio do barulho, só está presente pela ausência.
Ouvir o quê? Ouvir a sabedoria. Sócrates, o mártir da Filosofia, que só sabia que não sabia, consagrou a vida a confrontar a retórica sofística com a arrogância da ignorância e a urgência da busca da verdade. Falava, depois de ouvir o seu daímon, a voz do deus e da consciência.
Ninguém sabe se Deus existe ou não. Como escreve o filósofo André Comte-Sponville, tanto aquele que diz: "Eu sei que Deus não existe" como aquele que diz: "Eu sei que Deus existe" é "um imbecil que toma a fé por um saber". Deus não é "objecto" de saber, mas de fé. E há razões para acreditar e razões para não acreditar.
Comte-Sponville não crê, apresentando argumentos, mas compreendendo também os argumentos de quem crê. Numa obra sua recente, L'Esprit de l'athéisme, mostra razões para não crer, mas sublinhando a urgência de pensar, se se não quiser cair no perigo iminente de fanatismos e do niilismo, e, consequentemente, na barbárie, "uma espiritualidade sem Deus".
Constituinte dessa espiritualidade, no quadro de um "ateísmo místico", é precisamente o silêncio. "Silêncio do mar. Silêncio do vento. Silêncio do sábio, mesmo quando fala. Basta calar-se, ou, melhor, fazer silêncio em si (calar-se é fácil, fazer silêncio é outra coisa), para que só haja a verdade, que todo o discurso supõe, verdade que os contém a todos e que nenhum contém. Verdade do silêncio: silêncio da verdade."


Encontrei Raul Solnado apenas uma vez. Num casamento. Surpreendeu-me a imagem que me ficou: a de um homem reflexivo. Não professava nenhuma religião. Por isso, não teve funeral religioso. Mas deixou um pequeno escrito, com uma experiência, no silêncio, na Expo, em Lisboa, em 2007.
"Numa das vezes que fui à Expo, em Lisboa, descobri, estranhamente, uma pequena sala completamente despojada, apenas com meia dúzia de bancos corridos. Nada mais tinha. Não existia ali qualquer sinal religioso e por essa razão pensei que aquele espaço se tratava de um templo grandioso. Quase como um espanto, senti uma sensação que nunca sentira antes e, de repente, uma vontade de rezar não sei a quem ou a quê. Sentei-me num daqueles bancos, fechei os olhos, apertei as mãos, entrelacei os dedos e comecei a sentir uma emoção rara, um silêncio absoluto. Tudo o que pensava só poderia ser trazido por um Deus que ali deveria viver e que me envolvia no meu corpo amolecido. O meu pensamento aquietou-se naquele pasmo deslumbrante, naquela serenidade, naquela paz. Quando os meus olhos se abriram, aquele Deus tinha desaparecido em qualquer canto que só Ele conhece, um canto que nunca ninguém conheceu e quando saí daquela porta, corri para a beira do rio para dar um grito de gratidão à minha alma, e sorri para o Universo. Aquela vírgula de tempo foi o mais belo minuto de silêncio que iluminou a minha vida e fez com que eu me reencontrasse. Resta-me a esperança de que, num tempo que seja breve, me volte a acontecer. Que esse meu Deus assim queira."

Anselmo Borges, DN

2009-09-18

Mad Men



Um dos raros momentos em que vale a pena ligar a televisão.
Hoje, na 2.

escolher

Um cristão minimamente informado e formado, sente alguma confusão perante as diversas propostas políticas destinadas a sufrágio. Se na "direita" política há uma maior aproximação à Igreja (aqui ponho a tónica na Igreja Católica porque ainda é a que tem mais expressão no nosso país) e a alguns valores que a mesma defende. É, porém, na "esquerda" que os valores chamados sociais - que estão na génese do cristianismo - são maioritariamente defendidos.

Como não há nenhum partido cristão, nem seria desejável que tal acontecesse, o caminho é descobrir qual a proposta mais consentânea com o modelo de sociedade que cada um deseja.

2009-09-15

As ciências não podem dizer o que Deus é ou não é

A Revista IHU-Online tem como tema: Narrar Deus numa sociedade pós-metafísica. Possibilidades e impossibilidades

Da entrevista ao jesuíta William Stoeger fica este pequeno trecho:

Incompatibilidade entre criação divina e o Big Bang.
William Stoeger - Não há incompatibilidade entre a criação divina e o Big Bang, simplesmente porque a criação divina de modo algum substitui o que o Big Bang é ou o que o causou. A criação divina não tem a ver com um acontecimento ou com uma origem temporal, e sim simplesmente com a relação básica entre o Criador e tudo o que existe, com o que dá existência, ordem e dinamismo e criatividade a tudo o que existe, inclusive ao que levou ao Big Bang, seja lá o que isso for. O Criador simplesmente possibilita ou capacita tudo o que existe a ser o que é. Ele não o substitui, controla ou microgerencia.

2009-09-13

e quem é capaz da oração perfeita?

Alugámos uma viatura e percorremos essa parte do país que vai desde o Mar Morto até ao Mar da Galileia. E visitámos muitas cidades e pontos relevantes nos evangelhos. Foi fantástico. Queremos lá voltar no próximo ano.

Num só dia vi três situações que me aguçam a vontade de problematizar, a necessidade de questionar, e a inevitabilidade da dúvida.

Sábado, 9:00h. Preparávamo-nos para sair do Hotel, quando ouvimos, vindos de uma sala do Hotel, cânticos religiosos. Seguimos o rasto do som e demos, de caras, com uma celebração de uma igreja cristã que se reunia nesse mesmo hotel. Um pastor evangélico dirigia os cânticos e as orações.

Nesse mesmo dia, perto da hora do almoço, visitámos o «Muro das Lamentações». Mexeu comigo, violentamente, ter visto um judeu ortodoxo que chorava, literalmente, «baba e ranho», enquanto, num movimento pendular com a cabeça para a frente e para trás, pranteava a glória perdida de Israel e a angústia da demora dessa restauração.

A meio da tarde, já do outro lado do vale de Cedron, perto do jardim do Getsêmani, vi um muçulmano prostrado com a face no chão, sobre um tapete, voltado para Meca. Indiferente a quem passasse e despreocupado com o facto de ter abandonado o seu ponto de negócio ambulante, lá estava ele rendido e totalmente entregue à sua oração da tarde.

Chegou a noite e, antes de me deitar, a pergunta assaltou-me sem pedir licença. Ainda hoje me persegue, me incomoda e me interpela: quais, dentre estes, Deus se recusa a ouvir?

Luis Melancia, aqui
Docente na LIc. em Ciência das Religiões

comovo-me de tamanha devoção


No debate Louçã-Portas, ou Portas-Louçã - como for do vosso agrado - o líder do BE citou a "Fátima Missionária" (pequeno jornal da comunidade espiritana), para nos fazer crer que até a Igreja Católica é mais tolerante em relação aos imigrantes, do que o líder do PP. Este, qual prestigiador encartado, saca duma citação de D. José Policarpo, onde o mesmo sugeria que não se deviam receber imigrantes sem critério.

Comove-me profundamente que Louçã leia a "Fátima Missionária". E também que Paulo Portas faça o seu programa eleitoral, tendo como referência a "voz" dos bispos e a Doutrina Social da Igreja. Não sei o que Deus achará disto. Que lhes perdoe o oportunismo, se for capaz.

ora abóbora,


tou aqui a ver se passam as caravanas partidárias, mas parece que se esqueceram todos de mim. Até o Jirónimo já nem se alembra mais.

2009-09-10

informações úteis


Via Ler, descubri o novo site de Joel Neto. Uma crónica destravadinha: "Eu não gosto de ler", repõe a verdade dos factos. Verdade, verdadinha, como diz a Manelinha.

2009-09-09

informações (in)úteis


Os figos, este ano, estão absolutamente deliciosos. Dia sim, dia sim, religiosamente, cometo os pecados capitais todos. E mais que houvessem.

é sempre bom relembrar. Para agir em conformidade

"Reitero com veemência o que muitas vezes foi dito pelos meus Predecessores: a Igreja não age para ampliar o seu poder ou reforçar o seu domínio, mas para levar a todos Cristo, salvação do mundo."

da Mensagem de Bento XVI para o dia Mundial das Missões

retorno à caverna


Tortures

Nothing has changed.
The body is susceptible to pain,
it must eat and breathe air and sleep,
it has thin skin and blood right underneath,
an adequate stock of teeth and nails,
its bones are breakable, its joints are stretchable.
In tortures all this is taken into account.

Nothing has changed.
The body shudders as it shuddered
before the founding of Rome and after,
in the twentieth century before and after Christ.
Tortures are as they were, it's just the earth that's grown smaller,
and whatever happens seems right on the other side of the wall.

Nothing has changed. It's just that there are more people,
besides the old offenses new ones have appeared,
real, imaginary, temporary, and none,
but the howl with which the body responds to them,
was, is and ever will be a howl of innocence
according to the time-honored scale and tonality.

Nothing has changed. Maybe just the manners, ceremonies, dances.
Yet the movement of the hands in protecting the head is the same.
The body writhes, jerks and tries to pull away,
its legs give out, it falls, the knees fly up,
it turns blue, swells, salivates and bleeds.
Nothing has changed. Except for the course of boundaries,
the line of forests, coasts, deserts and glaciers.
Amid these landscapes traipses the soul,
disappears, comes back, draws nearer, moves away,
alien to itself, elusive, at times certain, at others uncertain of its own
existence,
while the body is and is and is
and has no place of its own.


Wislawa Szymborska

2009-09-07

nova humanidade não digo, mas melhorzinha...era desejável.

Jesus "deseja vencer no homem a solidão e a incomunicabilidade criadas pelo egoísmo, para dar rosto a uma nova humanidade, a humanidade da escuta e da palavra, do diálogo, da comunicação, da comunhão com Deus".
Esta nova humanidade é "uma humanidade sem discriminações, sem exclusões, para que o mundo seja verdadeiramente para todos um campo de genuína fraternidade na abertura ao amor pelo Pai comum que nos criou e nos tornou filhos e filhas seus".


Bento XVI, Viterbo, 6 de Setembro 2009

2009-09-03

a Igreja e a liberdade

A mensagem cristã é uma proposta de simplicidade e de maturidade. Não é, de todo, uma promoção da ingenuidade e da passividade.
O cristão não é aquele que vive medindo a sua vida, com a vida de Jesus. Não vive dos seus exemplos. Vive a vida inserindo-a, com maior ou menor consciência, na vida de Cristo Vivo. Não vive, portanto, do passado. Vive o presente - que é o único tempo de que dispõe.

Não é, infelizmente, isto que alguns "pastores" nos propõem. D. José Policarpo - bispo de Lisboa, numa conferência ao clero, em Fátima, diz as seguintes palavras:"Enquanto houver alguns, bispos e padres, que se consideram com o direito de decidir pela sua cabeça, os caminhos de pastoral, o sentido da existência moral, a maneira de celebrar, estamos a fragilizar a proposta cristã, num mundo que saberá aproveitar, com os seus critérios, as nossas divisões. A Igreja é hoje um todo global, perante um mundo globalizado”. Também quatro dezenas de padres italianos estão a ser inquiridos pelos respectivos bispos para aferir da sua ortodoxia. O "delito" cometido foi a subscrição de uma carta que apela ao "Testamento vital."

Segundo D. José Policarpo, pensar pela própria cabeça é um delito condenável. Toda e qualquer pessoa que não aceite as propostas da Igreja Católica está a fazê-lo maquinando ataques à mensagem cristã. Qual é o fundamento disto?

2009-09-01

que livro levar para uma ilha deserta?


Nunca perdi tempo a magicar sobre tal questão. Acho improvável ver-me em tal situação. E sou incapaz de eleger "O livro da minha vida". Por uma razão muito simples: ainda não encontrei livro nenhum onde me lesse de forma total, nem nenhum que, de modo absoluto, alterasse a minha vida. Nem tão pouco que me encantasse de modo a esquecer todos os que li e espero ler.

Ando a ler, há vários meses, o Húmus de Raul Brandão. E se não desejava perder-me com o mesmo, onde não tivesse outras hipóteses de leitura, incessantemente, me perco nele.

Um pequeno exemplo:


Um Deus-força, um Deus que não se comove com os meus gritos nem com as minhas súplicas, não me interessa. Um Deus que caminha para um fim que não atinjo é um Deus absurdo. De que me serve este Deus? Não ouve os gritos - destrói. Destrói e caminha. É inalterável. Ilude-nos. Deixa-nos um segundo diante deste espectáculo, para nos mergulhar no nada. A nossa aspiração não cabe aqui: entrevemos, sonhamos, e, a meio do caminho, talvez no início de sonho maior, destrói-nos. Pior: tem uma necessidade de sofrimento cada vez maior, de sofrimento inocente ou culpado. Revê-se na dor. Deus é cego...


...Quanto mais espezinhas, mais gritos, mais ternura nas árvores, mais estrelas nos céus...


...Estou nas tuas mãos! Estou nas tuas mãos!...
imagem - Filipoiu Marius