2009-09-23

Ler a Bíblia com humor

A Bíblia e o seu fascinante Humor

Olhemos para a Bíblia e divirtamo-nos com a sua leitura, sentindo como a Alegria é um lugar da revelação de Deus. É impossível avizinhar-se de Deus, sem perceber essa dimensão necessária. Encontramos na Bíblia páginas cheias de alegria, representada e transmitida segundo estratégias muito diferentes.

Deus faz-me rir


Um dos textos emblemáticos diz respeito a Abraão e Sara, sua mulher. Na história de Fé que eles escrevem, o riso e o humor emergem naturalmente. Há aquela situação inicial que todos nós conhecemos: a de Sara ser estéril e os dois se encontrarem numa idade muito avançada e ainda sem filhos. Dá-se, então, a inesperada promessa de Deus, que passado um ano, Sara será mãe! E Sara quando ouve dizer isto, fica a rir baixinho, por detrás do céu do pano da tenda.
O Senhor disse a Abraão: «Porque está Sara a rir e a dizer: ‘Será verdade que eu hei-de ter um filho, velha como estou?’ Haverá alguma coisa que seja impossível para o Senhor? Dentro de um ano, nesta mesma época, voltarei à tua casa, e Sara terá já um filho.»Cheia de medo, Sara negou, dizendo: «Não me ri.» Mas Ele disse-lhe: «Não! Tu riste-te.» (Génesis 18,13-15)
O diálogo do Senhor é delicioso e vai determinar o nome da criança que vai nascer. É que o nome Isaac significa “Deus sorri”. Sara rira primeiro por incredulidade, por pura descrença perante um anúncio desconcertante de Deus, que ela não via como pudesse desencadear-se! Mas precisamente nesse contexto, ela é desafiada a sorrir, percebendo como o humor de Deus desbloqueia a história dos seus impasses, e torna possível aquilo que ela, no seu coração, tinha já por impossível. Ela vai ter um filho e poder dizer: «Deus faz-me sorrir, e todos os que o souberem podem sorrir comigo!» (Génesis 21,6). Um riso absolutamente novo: o da confiança nos imprevisíveis caminhos de Deus.

O riso conduz-nos à sabedoria


Muitas vezes encontramos o riso associado à construção da verdadeira sabedoria. A Bíblia ensina-nos a rir dos nossos juízos e saberes, das coisas cheias de seriedade que fazemos, da esperteza com que tentamos salvar as aparências ou sobreviver às dificuldades. Este riso de nós próprios é um riso altamente purificador e abre-nos a um sentido novo, a um outro sorriso, que é o sorriso de Deus. Sobretudo nos livros Sapienciais, encontramos uma série de máximas para ler com um riso nos lábios, porque colocam-nos a nu descaradamente.

"Não consultes uma mulher ciumenta sobre a sua rival,

um medroso sobre a guerra,
um negociante sobre os negócios,
um comprador sobre uma coisa para vender,
um invejoso sobre a gratidão,
um egoísta sobre a bondade,
um preguiçoso sobre qualquer trabalho,
um criado preguiçoso sobre uma grande tarefa!" (Eclesiástico 37,11)

Ao lermos este conselho no Livro do Eclesiástico rimo-nos por que reconhecemos a nossa realidade, mas o riso depura-nos, abre-nos a uma consciência profunda de nós mesmos. O riso serve de espelho: em vez de andarmos num esconde-esconde de aparências, dá-nos a possibilidade de uma contemplação desdramatizada que construtivamente nos incita à mudança.
O preguiçoso diz:"anda uma fera no caminho, um leão na estrada!”
Como a porta gira sobre os seus gonzos,
Assim o preguiçoso no seu leito.
O preguiçoso mete a mão no prato,
Mas cansa-se de a levar à boca (Provérbios 26,13-15)


Goteira a pingar em dia de chuva,
e mulher briguenta, tudo é a mesma coisa. (Provérbios 27,15)
A sanguessuga tem duas filhas,que se chamam: “Dá-me, dá-me” (Provérbios 30,15)
O Eclesiástico e os Provérbios estão pejados de máximas muito inspiradas pelo humor oriental, talvez em alguns aspectos um tanto divergente do nosso. Mas o importante é dar-se conta que o riso é uma forma sábia de entrarmos em nós próprios, na nossa realidade, e quebrarmos a falsa solidez das aparências, ousando vermo-nos como somos. Nesse sentido, o riso tem uma função sapiencial: é um indutor de sabedoria espiritual, conduz-nos a ela.


Na Bíblia há vários campeões de desculpas esfarrapadas. Quando Moisés chegou com as Tábuas da Lei, descendo do Monte da Revelação, teve a surpresa da sua vida! Quando era de esperar que todo o povo estivesse como um só coração e uma só alma para receber a Lei, estava afinal reunido em torno de um bezerro de ouro! Moisés pede justificações a Aarão, como nos descreve o capítulo 32 do livro do Êxodo. E Aarão dá a desculpa mais esfarrapada da tradição bíblica. Diz.: “eles queriam um deus, deram-me o ouro, eu lancei o ouro ao fogo e saiu-me este bezerro!” É interessante porque o livro do Êxodo, sendo um relato da libertação é também um relato de humor. Não nos libertamos sem aceitar o risível que nos habita.

José Tolentino Mendonça, aqui

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