2009-09-25

não basta crer

Vão sendo recorrentes neste blogue, as citações de José Tolentino de Mendonça, mas o que ele escreve é muito bom. E não tem muita concorrência dentro dos temas que aborda, na Igreja portuguesa.




Na era da crença descafeinada

Os tempos que correm assemelham-se a um dispositivo de proliferação de crenças, domesticadas por um subjectivismo portátil, crenças indolores, individualistas, transversais, descontínuas, consensuais, inofensivas. Declinam-se regressos, o do sagrado, o dos anjos, o das origens cristãs, mas numa narrativa escorreita, sem sobressaltos, nem fracturas. O religioso enche a montra todo o ano. Fala-se da recuperação da alma, mas não do que se omite na articulação culturalmente correcta desse discurso.

...
Recordo o que escreve Slavoj Zizek, em “A subjectividade por vir” (Relógio d’Água, 2006): “Talvez a proibição que recai sobre a adesão apaixonada a uma crença explique por que motivo a «cultura» tende a tornar-se hoje uma categoria central no mundo e nas nossas vidas. A religião é permitida – não como forma substancial de vida, mas como modo de «cultura»”. Zizek aborda a recepção do filme de Mel Gibson, um objecto que não aprecia, mas que lhe serve para pensar “a Paixão na era da crença descafeinada”.


O caminho que ele aí aponta, contrariando o hedonismo espiritualista e evanescente, tão do apetite pós-moderno, é a redescoberta de “um materialismo consequente”.

Numa outra obra, em que enfrenta mais sistematicamente a situação do cristianismo contemporâneo (The fragile absolute or, Why is the Christian legacy worth fighting for?, 2001), tematiza esse “materialismo consequente” tomando a categoria da “desconexão”. O cristianismo nasceu como uma comunidade de excluídos, na linha dos grupos excêntricos, e a verdadeira desconexão cristã “não é uma atitude de contemplação interior, mas a de um trabalho activo de amor que conduz necessariamente à criação de uma comunidade alternativa”.

José Tolentino Mendonça

24.09.09



(sublinhado meu)

6 comentários:

  1. Pois, é adiferença entre a recta fé e a recta via, por isso é que há muitos crirtãos que seguem a recta fé, batem no peito e creem, mas depois não seguem a recta via. A vontade do “pai” fica sempre para depois.

    ResponderEliminar
  2. Beijos, lino. :)

    Bom fim-de-semana.

    ResponderEliminar
  3. não tenho nada que contrariar a sua observação.

    Colocar este texto tinha como objectivo, tornar perceptivel a proposta cristã.

    Na mensagem cristão não há nenhuma oposição entre o ser e o agir.

    A fé cristã não é uma proposta de aconchego interior. É uma proposta de mudança.

    Na Europa, o cristianismo tem perdido capacidade de comunicação.

    Para o homem moderno Ocidental a proposta cristã não é apelativa. Por várias causas:

    Há uma perda de objectivos de vida.
    Há uma racionalização exarcebada de todas as vivências - sentimentais, emocionais, afectivas, espirituais.
    Há um afastamento muito grande entre as hierarquias religiosas (estou a referir-me à católica que é a que experiencio) e as pessoas comuns e as sua vidas.

    E há o que refere na sua observação.

    Que fazer?

    ResponderEliminar
  4. (“E há o que refere na sua observação.
    Que fazer?”)

    Que fazer? Não me compete a mim pronunciar-me sobre a conduta de quem quer que seja que se diz cristão ou não.

    Na minha observação perante uma afirmação de que “não basta crer”, respondi com o que esta nos textos sagrados.

    Às vezes pensamos que nossas atitudes são evangélicas, mas na verdade podem não ser, quais são os fundamentos da vida cristã? A contradição entre o ser e o agir não deve ser.

    "Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! Entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em Teu nome, e em Teu nome não expelimos demônios, e em Teu nome não fizemos muitos milagres? Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade."

    "Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! Entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai”

    (“Na mensagem cristão não há nenhuma oposição entre o ser e o agir.”)

    Ou como diz o Papa “se a fé não está acompanhada por obras puras, não é sincera e, portanto, não leva à salvação.”

    Por isso muitos cristãos são hipócritas, dizem uma coisa a fazem outra. Ha diferença entre o ser e o agir cristão, apregoando modelos e valores de vida como que sem a crença em Deus, sem as leis do “livro sagrado”, sem as promessas divinas, o mundo seria um caos. As pessoas não teriam um sentido para a vida.

    A meu ver o mundo estaria melhor se de facto os governos dos paises fossem laicos, baseados nos direitos humanos e não envolvidos com éticas e práticas religiosas. Embora num primeiro olhar pareça que a religião só traz o bem, ela foi e é a responsável por muitas guerras, mortes e perseguições ao longo da história humana, e os seus respingos ainda se fazem sentir nos dias actuais.

    Por isso, “ Não basta crer “, é preciso viver, de acordo com a crença, ou será que vale a pena o, olha para o que eu digo não para o que eu faço.

    ResponderEliminar