2009-10-29

mais palavras para quê?

O novo padre, deu-lhes tema para conversa por uns bons quinze minutos. Não chegássemos nós ao destino e o tema continuaria. Fiquei a saber que tem uns vinte sete anos, gosta muito de estar ali com elas, na segunda foi fazer um funeral com umas calças de ganga e camisa aos quadrados - com o pormenor de levar um botão desabotoado -, o anterior andava sempre de fato e colarinho. E este perguntou à família do defunto, se queriam missa de corpo presente. Todas queriam rivalizar nos conhecimentos sobre o recém-chegado. Os olhinhos da mais velha - uns setenta e picos - até brilhavam.

Atentem neste rol de personalidades: Raúl Rego, José Marmelo e Silva, Serafim Ferreira, António Borges Coelho, Afonso Praça, Luís Mourão...e mais para trás: Aquilino Ribeiro, António de Oliveira Salazar, Miguel Torga, Virgílio Ferreira, Tomaz da Fonseca... e mais distantes ainda: Camilo Castelo Branco, António Cândido, Fernão Mendes Pinto, Vasco da Gama...todos eles de percursos vitais, façanhas tão variadas, com um traço comum que, aposto! o Leitor não é capaz de adivinhar. Todos ex-seminaristas. Despadrados. (...) Meninos que foram parar ao Seminário por uma razão ou outra e dele se escapuliram; deram ao Diabo a conezia e as sua prebendas; arrenegaram do hábito e da tonsura e, agora cito Virgílio Ferreira, - reagiram frente à vida que já os não esperava, mergulharam até onde soubessem haver vida e descobrir - um acto semelhante ao dos goliardos medievais.

Luis Pacheco in "Raio de Luar" - Os dêfroquês

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