2009-10-19

um mistério que me escapa

Conheci a MJ em contexto eclesial. Logo das primeiras impressões, ficou-me que era uma pessoa com uma capacidade de generosidade e entrega muito grandes, responsável e de uma fé profunda. (Mais tarde, descobri-lhe outras - como daquela vez que enfrentou uma sala de machistas com firmeza e elegância).
Um dia, confidenciei-lhe que tinha este espaço de partilha. Sempre que nos encontramos, acaba por comentar algo que escrevi e que lhe mereceu atenção.

No outro dia, mais uma vez, falou-se da Igreja Católica. E contou-me um pormenor da sua vida que eu desconhecia. Deu-me a permissão de o partilhar aqui, se quisesse.

O pai recusou baptizá-la em criança, e foi já por vontade própria que se iniciou no catecumenato - tempo de preparação para receber os sacramentos da iniciação cristã. Como as outras crianças da sua paróquia, ia à catequese que era realizada nos anexos paroquiais. Todas as crianças entravam na sala e sentavam-se nos respectivos lugares com a catequista. A MJ ficava à porta. Melhor dizendo; na rua. Fizesse chuva ou sol.

Muitos crentes, formados desde sempre na Igreja, não conseguem ultrapassar uma relação de amor-ódio, por todas as decepções que a vivência eclesial lhes causou. A MJ consegue. Não tenho dúvidas de que a sua personalidade e formação, são factores decisivos para que isso aconteça. Mas há uma parte de mistério que me escapa.

5 comentários:

  1. Olá MC
    há situações que são mesmo difíceis de explicar, eu tenho um profundo respeito por todos os que apesar de tudo o que lhes acontece vivem e sentem para lá do ressentimento. Que lição!

    não tanto relacionado com uma situação como a que contas, mas talvez com algo de parecido escrevi um post há duas semanas no tDeus.
    http://toquesdedeus.blogspot.com/2009/10/dos-fracos-reza-historia.html

    abraço

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  2. Que lição, dizes bem, Zé Maria.

    Uns dias antes de a MJ me ter dito isto partilhei com uma pessoa o desalento que sinto em relação à Igreja. Desalento que me impede de participar de forma mais activa na mesma. Embora eu também vá percebendo, devagarinho e em silêncio, que o activismo pode até ser contraprudecente. Por isso, neste momento, prudentemente aguardo vigilante.

    E ressentida, não estou de todo.

    Mas quando ouvi a história da MJ, assim, de viva voz e na 1ª pessoa, acordei para uma realidade diferente. E encaixei a lição.

    Li o teu post. Pois é, rapaz! o sucesso é que escreve a história.
    E aqui andamos nós feitos baratas tontas a fazer de tudo para camuflar os nossos pequenos e grandes desastres.

    E quando todos os dias temos de enfrentar o desconhecido, o erro, o fracasso, o desespero, a morte (não é preciso dizer mais, pois não?) saltamos com grande ligeireza para o primeiro "remédio milagroso" que nos alivie. Tornando sorrateiramente maior o "buraco".

    Abraço

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  3. e mais isto:

    estive a ler o texto de Bento Domingues no Público do dia 11, e encontrei lá uma expressão que convida ao questionamento: "Teologia de sucesso". É uma feliz expressão que esclarece muitas coisas.

    Se quiseres ler está aqui:

    http://www.triplov.com/espirito/frei_bento/2009/estupidez.htm

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  4. muito obrigado pela sugestão do txt do Frei Bento. Cheio de verdade...

    e qto ao ressentimento. lembro-me bem de aprender também contigo aqui neste Blog a viver para além dele... há frases que ficam guardadas para sempre. Fazem parte do nosso crescimento...
    abraço forte.

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  5. :)

    já muito se escreveu para aqui, sim...tanta vida.


    outro para ti, Zé Maria

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