2009-11-29

já não há cruzadas, mas quase

A Europa esclarecida é assim!

pungente

(Pedro Anahory)




Num voo de pombas brancas, um corvo negro junta-lhe um acréscimo de beleza que a candura de um cisne não traria.




Giovani Boccaccio

em tumulto

retirado daqui

Foi-lhes dado a escolher tornarem-se reis ou mensageiros de reis. Com a ingenuidade das crianças todos escolheram ser mensageiros. Eis porque só existem mensageiros, que correm pelo mundo e, como não há mais reis, gritam uns para os outros mensagens que não têm mais sentido.





Franz Kafka, Aforismos

2009-11-27

miseráveis

Olhem estes também...

Na Igreja católica

coexistem realidades muito diferentes. Querer ver nela, apenas santos ou pecadores, é ver de modo limitado. Como diz o teólogo José Maria Castillo, tanto fazem parte da Igreja "heróis e mártires" como "pederastas e terroristas".

Isto, porque ainda estamos em choque com as revelações sobre os gravíssimos escândalos sexuais e conivência ainda mais escandalosa, das entidades públicas e da hierarquia católica.

Como pessoa da Igreja que sou, sempre me escandalizou que, no confronto entre a pessoa e a instituição, é sempre a pessoa que se submete. Ao completo arrepio do que é a mensagem cristã. Esta forma de viver em Igreja, pode causar males tão graves, como aqueles com que somos confrontados no presente caso: em que as vítimas são anuladas para preservar a imagem da Igreja. Não me conformo com isto. Nem vejo caminho que possa fazer para algum dia o aceitar. Mas sempre vi à minha volta quem o fizesse.

Recupero uma ideia e desejo de José Maria Castillo e faço-os meus:

El día que Roma les dé a los obispos normas claras y exigentes, sobre este tipo de crímenes, como se las da para los pecados de aborto o de eutanasia, ese día nos vamos a enterar de cosas desagradables. Pero seguramente temabién ese mismo día quizá se empiece a hablar más de las personas que por su fe en Jesús dan la vida. Y se hablará menos de los descerebrados que son capaces de abusar de personas inocentes sin piedad y sin vergüenza.

2009-11-25

vítimas silenciosas

Nestes dias, os meios de comunicação social têm referido o número de mulheres mortas, vítimas de violência doméstica. Os números falam por si. De referir, ainda, a juventude (menos de trinta e cinco anos) de grande parte das vítimas.
Há uma outra realidade, de que quase ninguém fala, e o João Tunes referencia, que são os restantes elementos do núcleo familiar - crianças e idosos. Vítimas passivas e silenciosas de um mal que teima em perpetuar-se.

2009-11-24

venha o debate

D. Manuel Clemente sobre o casamento homossexual diz o seguinte: “Esta e todas as questões sociais têm que ser alargadas para serem exactamente sociais. Não podem ser resolvidas rapidamente, exigem reflexão, aprofundamento dos factos, exigem argumentação e contra-argumentação”.

Tenho o D. Manuel como um pastor comprometido. Não preciso de esforço nenhum para concordar, quando diz que estas questões têm de ser alargadas. Não é com debates na televisão, nem artigos de opinião em jornais, nem tão pouco a profusão de ideias e conceitos fartamente publicadas na blogosfera, que fazemos da coisa uma questão social. É preciso mais.

Fico à espera do anúncio de debates a efectuar, nos diversos meios e comunidades eclesiais.
No site
ecclesia, um espaço de informação da Igreja, só encontro a reflexão e argumentação do discurso oficial da Igreja. Onde está o contraditório?

Espero ser contradita.

preto-no-branco

Sobre a igualdade: ide ler o que escreveu o Pedro Mexia.

o vício dos livros

( L'homme qui aimait les femmes, François Truffaut 1977)
(despudoradamente surripiada, daqui)

2009-11-23

questões vitais

A propósito desta Nota da CEP, Laura Ferreira dos Santos publicou um comentário no Público. O texto está no Blogue "Manchas" do Luís Mourão.

a perfeita falácia

Existe ainda uma ironia final gritante. Que é mais corajoso, lutar por causas libertinas que toda a opinião pública tolera, ou defender os valores exigentes do casamento, família e vida? Quem são realmente rebeldes, os membros do Bloco de Esquerda que a imprensa exalta e os intelectuais apoiam, ou os que enfrentam as teses politicamente correctas? Onde está hoje a verdadeira heterodoxia, rebeldia, atrevimento? Quando a esquerda se torna estabelecida, burguesa, dominante, quem é realmente revolucionário?


João César das Neves, in DN

É do César da Neves, mas reúne uns tantos adeptos. Aqui se exemplifica a real inversão de valores. Uma tese pretensamente revolucionária, que pretende diminuir o que são algumas conquistas da modernidade. Não é tudo bom? pois não. O desafio é fazer o melhor possível dentro dos impossíveis que nos condicionam.

Quando tiver tempo e disposição, desenvolvo mais sobre este mesmo assunto.

gli sbandati-1955
Lucia Bosé

2009-11-22

a sangue quente

O Lino, propôs-me um desafio. Não vou aceitá-lo. Não sou nada boa nos jogos de palavras e não quero pensar muito numa ou duas alíneas da proposta.

Mas se é para falar um pouco mais de mim, conto uma pequena história da minha vida, passada no dia de ontem.

Saí na estação do metro no "Cais do Sodré", e ao subir com uma pequena multidão o lance de escadas, reparei numa mulher um pouco mais jovem do que eu que hesitava sobre o caminho a tomar. Perguntei-lhe para onde ia e, tal como eu, dirigia-se para o comboio. Começámos, então, a fazer o percurso; sentámo-nos juntas, (depois de me perguntar que lugar preferia) e fomos conversando. Contou-me a sua história de vida, sobretudo a parte que antecedeu a vinda para Portugal e as peripécias que por cá tem vivido. Fiquei a saber que é uma mulher com uma loucura saudável, a ponto de ser capaz de romper com uma vida estável e cómoda junto da família, e rumar a um país onde não conhecia ninguém, nem era possível reproduzir as condições de vida que tinha no Brasil.

Saímos as duas na mesma estação e corremos (como se partilhássemos algum destino comum) porque ela tinha de apanhar o autocarro. Despedimo-nos com um abraço e votos de mútuas felicidades. O mais certo é nunca mais nos vermos. Mas foi um momento feliz de encontro.

2009-11-17

ora tomem e embrulhem:

A família existe não só para garantir a reprodução da sociedade burguesa através da difusão do autoritarismo, mas também como correria de transmissão de um dos suportes do capitalismo: a propriedade privada. O papel da família é tão forte neste sentido que seus membros acabam por se julgar proprietários uns dos outros. Adquire-se o mesmo medo compulsivo de perder o outro, menos pela necessidade do amor e mais pela "tranqulidade psicológica" que ser proprietário (ou a propriedade) lhe dá. Esconder um do outro (ou até de si mesmo) algo novo e transformador, com o receio do risco da mudança, é a prática mais comum dos casais.

daqui

isto é que são baboseiras

E porquê? Porque, basicamente, a homossexualidade era, e bem, vista como luxúria, como um vício (como o jogo ou as drogas, por exemplo)

A insistência por parte dos militantes pelo casamento homossexual reveste-se, assim, de uma particular perversão: sabendo que a grande maioria das pessoas reprova os seus gostos e práticas sexuais (devem saber pois não se cansam de reclamar contra essa “discriminação no dia-a-dia”), insistem na usurpação de uma instituição ancestral, tentando dessa maneira que através do poder político as pessoas se vão desligando dos seus “preconceitos” e passem a aceitar plenamente a homossexualidade.

Esta promoção do casamento homossexual é 1. uma provocação imoral à sociedade, e 2. um atentado (mais um) à instituição do casamento.

Filipe Abrantes, um moço a quem as aulas de educação sexual fizeram muita falta.

pois precisamos, mas o mal são sempre os outros

Inércia, passividade, respeito temeroso pela hierarquia, individualismo das famílias e das pessoas, a ausência da dimensão do futuro no viver quotidiano: eis alguns aspectos da subjectividade actual dos portugueses. Para ela contribui fortemente o sistema das invejas.
Todos estes aspectos são graves, indiciando uma não coesão do tecido social. Ora, precisamos, hoje mais do que nunca, de solidariedade, coesão, laços de respeito mútuo e vontade comum à volta do reconhecimento de uma situação "à beira do abismo" que nos ameaça a todos. Não consenso e unanimismo passivos, mas uma vaga que nos levaria a avançar e a abrir o espírito à evidência da urgência da acção comum. Precisamos de transformar o Estado e a sociedade civil, precisamos de uma colectividade coesa e consistente.

José Gil in "Portugal Hoje- O medo de existir"

raio de vendilhões

Incham-se todos para dizer que os afectos não contam para nada. Não consigo conceber a origem de tal baixeza. "Rais os afundem!" citando o Luiz Pacheco.

2009-11-15


A leste do paraíso


a leste do paraíso deus colocou um anjo com uma espada de fogo
para guardar o caminho que conduz ao pé da árvore da vida

ao pé da árvore da vida
deixa-me ser eu a seduzir-te
.......................................eu mulher
.......................................eu serpente
eu provarei os frutos de ouro fascinante

aprenderás a transgressão
tu mulher
tu serpente
eu provarei os frutos de ouro
e fascinado
ousarei a transgressão
e o teu corpo nu

...........................amigo
............................a carícia
............................como um fruto proibido
............................recorta todos os perfis
............................e os silêncios
............................da (falta de) memória
............................e da vergonha

............................atravessa a rua
............................o tempo
............................como actividade erótica

parábola
e assim inventaram o pecado
o privilégio a proibição e a dor
............................beija-me na boca lentamente

............................ou noutro lugar

............................beija-me...............................a leste de qualquer paraíso


Ernesto de Sousa

2009-11-13

bom fim-de-semana

imagem - Irma Gruenholz
mais aqui

não percebo nada do que aqueles senhores estão ali a falar

Sexta-feira treze, a Ritinha ainda sondou sobre as razões da minha mal disfarçada nostalgia, eu aleguei que só se fosse efeito de alguma desastre retroactivo.
Mas agora estão ali uns senhores a falar de regime contributivo. Bagão Félix fala em aumentos de taxas para agricultores, pescadores e trabalhadora(e)s doméstica(o)s e reduções de dois por cento para administradores e gestores. Mas não tenho a certeza se o ouvi bem.

A seguir fala em jacobinos (eles andam aí) e tirar nomes a hospitais (a propósito, ando há três dias a tentar marcar uma RM, já telefonei várias vezes, pedi número de fax, tentei enviar e nada. Vai daí, tenho de ir a Lisboa fazer o que podia fazer sem sair de casa, se isto fosse um país decente...mas adiante), arrasar feriados religiosos e tal. Não percebi qual era o drama dele, já me bastam os meus.

Solução da crise implica compromisso de todos


"A construção do bem comum, responsabilidade da pessoa"

Os homens e mulheres de hoje, cada vez mais citadinos mas mais solitários, agarram-se com unhas e dentes à sua autonomia evitando relações e compromissos que lhes tolham a independência, mas simultaneamente têm de recorrer a psicólogos e fármacos para resolver problemas que as sociedade anteriores à nossa apresentavam em muito menor grau. Problemas de solidão, de falta de diálogo, de frustrações profundas, de uma insatisfação permanente.

2009-11-11

Deus

Deus meu, fizeste-me tão rica, deixa-me, por favor, partilhar generosamente essa riqueza. A minha vida tornou-se um diálogo ininterrupto Contigo, meu Deus, um grande diálogo. Quando estou em algum canto do campo, de pés plantados na tua terra, os olhos levantados para o Teu céu, há alturas em que me correm lágrimas pelas faces, brotadas de uma comoção e gratidão interiores, que procuram uma saída. Do mesmo modo, à noite, quando estou deitada e descanso em Ti, meu Deus, as lágrimas de gratidão correm-me, por vezes, pelo rosto, e isso é, também, a minha prece.(...)Não me revolto contra Ti, meu Deus, a minha vida é um diálogo ininterrupto Contigo. Talvez nunca venha a tornar-me a grande artista que, na verdade, gostaria de ser, mas já estou demasiado protegida em Ti, meu Deus. Por vezes, gostaria de registar pequenas sabedorias e relatos vibrantes, mas volto sempre à mesma palavra - Deus - que compreende tudo, pelo que nada mais necessito de dizer. E toda a minha força criativa se converte em diálogos interiores Contigo, o bater do meu coração tornou-se aqui mais amplo e agitado e tranquilo ao mesmo tempo, e é como se a minha riqueza interior crescesse cada vez mais...

Etty Hillesum in Cartas 1941-1943

Ainda há dias constatávamos que a palavra Deus anda um tanto destruída. Culpa nossa, sem dúvida. Não vivemos situações extremas de vida, como a de Etty Hillesum - prisioneira no campo de Westerbork na Holanda - mas nem por isso deixamos de precisar de ter cuidado em enriquecer a nossa vida interior.
O dom da Fé é um mistério tão absoluto como o próprio Deus, os que nos vamos deixando tocar por ele, temos a missão de o guardar, aprofundar e testemunhar com a vida. E agradecê-lo como o dom mais precioso de que dispomos.

2009-11-10

duas histórias de mulheres:

Dois casos passados no tempo do Estado Novo, em que as famílias e as mulheres tinham os tais valores de que os nossos bispos tanto gostam:

1º caso:

Um casal rural vivendo da terra e dos produtos que a mesma dispensa. Homem e mulher casados no sacramento do matrimónio, dividem as tarefas fora de casa. Dentro, trabalhava ela sozinha. À segunda-feira era o dia de mercado. Era ele que ia sozinho. O produto da venda raramente chegava a casa. Também era ele sozinho que se encarregava dessa tarefa.
O dinheiro faltava para as despesas necessárias, mas havia perto um compadre disposto a dispensar o crédito. Era ela sozinha que ia pedir ajuda para providenciar às situações mais aflitivas. Uma doença, um remédio para os filhos, um pagamento em falta.
Dos cinco filhos, dois são muito parecidos com o compadre e vizinho.

2º caso:

A D. Gracinda casada com o Senhor Raúl, já tinha sido mãe uma vez. Não queria ter uma família, como tantas que conhecia, em que cada filho que aparecia era considerado uma fatalidade. Fez vários abortos. E a maioria dos dias, levanta-se ainda antes de o sol aparecer. E do marido acordar.

um bispo que até começa bem...mas fala da família, da mulher e acaba mal

Do "Discurso de D. Jorge Ortiga na abertura da Assembleia Plenária da Conferência Episcopal Portuguesa" retirei estes apontamentos positivos:


Esta nova consciência missionária e a reflexão que dela fazemos, obriga-nos a repensar, à luz do Concílio Vaticano II, o papel da Igreja no mundo. Durante muito tempo apenas vimos “o mundo da Igreja”. Hoje, é inequívoco que não existe o “mundo da Igreja”, mas que Ela deve estar no meio do mundo, não como senhora mas como serva. Estar no coração do mundo é já uma luta a travar, uma vez que a mudança que modernidade ocidental trouxe consigo deslocou o cristianismo do centro para a “periferia dos dispensáveis e dos irrelevantes”.

Curiosamente, na fragilidade desta periferia podemos reencontrar a nossa identidade cristã, a qual se plasma na única segurança que vem de Cristo. É neste contexto de humildade, que teremos de passar duma atitude de detentores da verdade para uma transparência da verdade, de emissores únicos e autoritários a peregrinos dialogantes nesta mesa comum da procura.

Ao falar da família, referencia, apenas, os aspectos mais problemáticos, veiculando um pessismismo que não corresponde a uma visão real das fa mílias. Se existem os problemas que enumera, também existem muitos outros aspectos que são o resultado de mais e melhores meios de que a família dispõe.


"Hoje, a família encontra-se exposta ao relativismo dos valores, o que estará a degenerar em anti‑valores: rupturas familiares, crise social da figura do pai, dificuldade em assumir compromissos estáveis, graves ambiguidades acerca da relação de autoridade entre pais e filhos, o número crescente dos divórcios, a praga do aborto, o recurso cada vez mais frequente à esterilização e a instauração de uma verdadeira e própria mentalidade contraceptiva (cf. FC 6)."

E, mesmo previsíveis, são as considerações sobre a mulher:

Continua a infiltrar‑se, em muitos casos de uma maneira camuflada, a “teoria do género”, como verdadeira ideologia apostada em redefinir a família, a relação matrimonial, a procriação e a adopção. Ninguém ignora os problemas reais com os quais a instituição familiar se debate quotidianamente. Perante estas novas problemáticas, vão surgindo tentativas de solução baseadas nos valores tradicionais de liberdade, igualdade e saúde que, para além dos seus significados verdadeiros, começam a ficar mergulhados num conjunto de ambiguidades, desviando-se duma antropologia sadia e verdadeiramente confirmada pela genuína cultura.

Em muitos casos, a justa liberdade da mulher já não encerra uma verdadeira emancipação das discriminações sociais e do poder autoritário do homem. Enveredou por uma competição entre os dois sexos, onde aparece com evidência a rivalidade e o antagonismo que conduzem a uma procura da afirmação individual, quando deveria estruturar-se em termos de solidariedade e complementaridade responsável. A violência doméstica prolifera e o desencanto familiar multiplica-se.

Não sei como é que se consegue estruturar uma relação em termos de solidariedade e complementariedade sem uma afirmação individual. Porque é que têm de ser imcompatíveis?

E sobre a sexualidade é melhor nem ler:

Também na área da saúde reprodutiva, sob o pretexto da prevenção e da preocupação por evitar as doenças, aconselha-se o exercício meramente amistoso, ou até simplesmente lúdico, da sexualidade, não a integrando numa perspectiva de verdadeiro amor aberto, responsavelmente, à procriação. Neste terreno, o aborto é banalizado com orientações legais que desrespeitam o valor indiscutível da vida e assim o decréscimo da natalidade atinge níveis preocupantes, motivados por interpretações egoístas do dom da sexualidade.

2009-11-09

confissão de um padre

Deus, a oração de petição, a Igreja, o celibato...uma abordagem pessoal e íntima feita por um padre que deixou a Igreja.


Takó acreditava que todos celebravam com ele o luto pelo seu pai. Mas eles estavam de luto pelos milhares de húngaros mortos pelo nazismo.

Um filme de Istiván Szavó (que também tem as suas nebulosas), 1966

celebremos, pois


A queda de um muro como a que celebramos hoje, nunca é apenas o esforço de uma só pessoa. Muitas vontades e gestos concorrem para que tal aconteça. Que se celebre a queda do Muro de Berlim, com todos os significados que a mesma encerra.

Não esquecer também todos os que, na mesma Europa, ainda dividem os povos do Hemisfério Norte dos do Sul.

2009-11-08

quanta ternura


-Que fazes Tu aí, oh Cristo antigo,
Pregado nessa Cruz, eternamente?
Liberta a Tua mão omnipotente,
Desprega esses Teus pés...e vem comigo!

Não sabes que sem Ti nada consigo?
Não vês que fazes falta a tanta gente?
Oh, vem de novo, como antigamente!
Viver connosco e nós Contigo!

Não vens? Não queres ouvir a humilde prece
Num mundo que, sem Ti, desaparece,
Vencido pela morte e pela dor?

Não vens? Não pode a Cruz ficar sozinha?
Pois bem: Permite então que seja minha!
-Eu fico nela...e desce Tu, Senhor!


Pe Abel Varzim
(imagem-Donatello, 1412-1413)

à luz da Palavra

8Então o SENHOR disse-lhe: 9*«Levanta-te, vai para Sarepta de Sídon e fica lá, pois ordenei a uma mulher viúva de lá que te alimente.» 10Ele levantou-se e foi para Sarepta; ao chegar à entrada da cidade, eis que havia lá uma mulher viúva que andava a apanhar lenha; chamou-a e disse-lhe: «Vai-me arranjar, te peço, um pouco de água numa vasilha, para eu beber.» 11Ela foi buscar a água e Elias chamou-a e disse-lhe: «Traz-me também um pedaço de pão nas tuas mãos.» 12*Então ela respondeu: «Pela vida do SENHOR, teu Deus, não tenho pão cozido; tenho apenas um punhado de farinha na panela e um pouco de azeite na ânfora; mal tenha reunido um pouco de lenha entrarei em casa para preparar esse resto para mim e para meu filho; vamos comê-lo e depois morreremos.»13Elias disse-lhe: «Não tenhas medo; vai a casa e faz como disseste. Disso que tens faz-me um pãozinho e traz-mo; depois é que prepararás o resto para ti e para o teu filho. 14Porque assim fala o SENHOR, Deus de Israel: 'A panela da farinha não se esgotará, nem faltará o azeite na almotolia até ao dia em que o SENHOR mandar chuva sobre a face da terra.'»15Ela foi e fez como lhe dissera Elias: comeu ele, ela e a sua família, durante alguns dias. 16Nem a farinha se acabou na panela, nem o azeite faltou na almotolia, conforme dissera o SENHOR pela boca de Elias.

(1ºReis, 17, 8-16)

Nestes tempos, que são os nossos, em que o incitamento à riqueza e à acumulação de todo o tipo de bens, nos condiciona e impele, é consolador o elogio de Deus à pobreza e ao despojamento. Hoje Deus desafia-nos a um menos que nos é desconhecido e motivo de escândalo.

2009-11-04

rechaço do mito do trabalho como castigo


Através do trabalho humano, o homem torna-se natureza transformada (...) como natureza transformada, o homem resgata o pacto com o mundo natural, devolvendo às suas próprias criações o autêntico significado de uma espiritualidade do trabalho.


Simone Weil, segundo o perfil de Miguell Ângelo Guimarães Juliano; aqui
imagem - "O amolador" Goya




2009-11-03

cristianismo - compromisso com a liberdade

A pessoa humana, dotada de actividade livre e consciente, não pode fazer a vontade de Deus senão quando recebe a verdade divina através das exigências da sua consciência. Portanto ela não pode atingir o seu fim último senão formando prudentemente o juízo da sua consciência e obedecendo-lhe fielemente. Pela natureza das coisas, nenhum outro homem, nenhuma instituição humana podem substituir-se à consciência do homem que ajuíza livremente.

Mons. de Smedt, bispo de Bruges
Lido na 70ª Congregação Geral,
19 de Novembro de 1963

(destaque meu)

escandaloso

O sacerdote fez-me perguntas de uma minúcia que nunca vi, como advogada, serem feitas em tribunal. O meu corpo, o corpo de uma criança, foi escrutinado atrás de uns quadradinhos de madeira, o confessionário.

Isabel Moreira