Entre os homens, um escravo não se torna semelhante ao seu amo obedecendo-lhe. Pelo contrário, quanto mais submetido, maior é a distância entre ele e aquele que manda.
Com o homem em relação a Deus é diferente. Uma criatura racional torna-se, ao mesmo tempo que lhe pertence, imagem perfeita do Todo-Poderoso se é absolutamente obediente.
Aquilo que no homem é imagem de Deus é algo que, em nós, se liga ao facto de se ser uma pessoa, mas não é esse facto nele mesmo. É a faculdade de renunciar à pessoa. É a obediência.
De todas as vezes que um homem se eleva a um grau de excelência que faz dele, por participação, um ser divino, aparece nele algo de impessoal, de anónimo. A sua voz reveste-se de silêncio. Isto é manifesto nas grandes obras de arte e do pensamento, nos grandes actos dos santos e nas suas palavras.
É, por conseguinte, verdadeiro, de certa forma, que é necessário conceber Deus como impessoal, no sentido de que Ele é o modelo divino de uma pessoa que se transcende ao renunciar-se. Concebê-Lo como uma pessoa toda-poderosa, ou ainda, sob o nome de Cristo, como uma pessoa humana, é excluir-se do verdadeiro amor a Deus. Por isso, é necessário amar a perfeição do Pai celeste na difusão igual da luz do sol. O modelo divino, absoluto, dessa renúncia em nós que é a obediência, esse é o princípio criador e organizador do universo, essa é a plenitude do ser.
É porque a renúncia a ser uma pessoa faz do homem o reflexo de Deus, que é tão terrível reduzir os homens ao estado de matéria inerte ao precipitá-los na infelicidade. Com a qualidade de pessoa humana tira-se-lhes a possibilidade de a ela renunciar, exceptuando aqueles que estão já suficientemente preparados. Assim como Deus criou a nossa autonomia para que tivéssemos a possibilidade de a ela renunciar por amor, pela mesma razão devemos querer a conservação da autonomia nos nossos semelhantes. Aquele que é perfeitamente obediente tem como infinitamente preciosa a faculdade de livre arbítrio nos homens.
Do mesmo modo, não há contradição entre o amor à beleza do mundo e a compaixão. Este amor não impede o sofrimento próprio quando se é infeliz. Nem tão pouco impede o sofrimento pela infelicidade dos outros. Está num plano diferente do sofrimento.
O amor à beleza do mundo, sendo completamente universal, arrasta consigo, como amor que lhe é secundário e subordinado, o amor a todas as coisas verdadeiramente preciosas que a má fortuna pode destruir. As coisas verdadeiramente preciosas são aquelas que constituem degraus na direcção da beleza do mundo, aberturas para ela. Aquele que foi mais longe, até à própria beleza do mundo, não lhes traz daí um amor menor, mas muito maior do que anteriormente.
Neste número estão as realizações puras e autênticas da arte e da ciência. De uma maneira muito mais geral, é tudo o que reveste de poesia a vida humana atravessando todas as camadas sociais. Todo o ser humano se enraíza, neste mundo, numa certa poesia terrestre, reflexo da luz celeste, que é o seu vínculo mais ou menos vagamente sentido com a sua pátria universal. A infelicidade é o desenraizamento.
Em especial as cidades humanas, cada uma em maior ou menor grau, de acordo com o seu nível de perfeição, revestem de poesia a vida dos seus habitantes. Elas são imagens e reflexos da cidade do mundo. De resto, quanto mais tomam a forma de nação, quanto mais pretendem ser, elas próprias, pátrias, mais constituem imagens deformadas e sujas. Mas destruir cidades, seja material seja moralmente, ou excluir seres humanos da cidade atirando-os para o meio dos dejectos sociais, é cortar todo o vínculo de poesia e de amor entre essas almas humanas e o universo. É mergulhá-las à força no horror da fealdade. Quase não há crime maior. Todos tomamos parte, por cumplicidade, numa quantidade quase inumerável de crimes deste género. Deveríamos todos, se ao menos pudéssemos compreender, chorar por eles lágrimas de sangue.
Simone Weil
in Espera de Deus, Assírio & Alvim