2010-12-29

a complexidade da natureza humana

Li esta  dolorosa notícia. A Joana dá-lhe, quanto a mim, o contexto correcto. Mas começo mesmo a acreditar que as perplexidades quanto a este tema estão longe de ter um fim.

2010-12-27

Natal

Nasceu.
Foi numa cama de folhelho,
entre lençóis de estopa suja,
num pardieiro velho.
Trinta horas depois a mãe pegou na enxada
e foi roçar nas bordas dos caminhos
manadas de ervas
para a ovelha triste.
E a criança ficou no pardieiro
só com o fumo negro das paredes
e o crepitar do fogo,
enroscada num cesto vindimeiro,
que não havia berço
naquela casa.
E ninguém conta a história do menino
que não teve
nem magos a adorá-lo,
nem vacas a aquecê-lo,
mas que há-de ter
muitos Reis da Judeia a persegui-lo;
que não terá coroas de espinhos
mas coroas de baionetas,
postas até ao fundo
do seu corpo.
Ninguém há-de contar a história do menino.
Ninguém lhe vai chamar o Salvador do Mundo.

Álvaro Feijó

"Trazemos por viver ainda uma infância"

(...)Se olharmos para o enredo natalício, mesmo no modo sóbrio como os Evangelhos o relatam, percebemos que nada é cor-de-rosa. O que os seus atores vão viver é uma história de instabilidade, perturbação e desconcerto. “O que é que nos aconteceu?” – ter-se-ão perguntado repetidas vezes Maria e José, mas também os pastores acordados em sobressalto ou os magos vindos de longe. “O que é que nos aconteceu?”. E não tinham à mão (como nós não temos) tranquilizantes respostas, mas sim um caminho que lhes era proposto na surpresa, na maturação paciente e na confiança. O próprio local onde a cena se desenvolve, um modestíssimo piso térreo que servia de refúgio aos animais, mostra bem a implacável dureza das circunstâncias. Mas doutra maneira como é que esta divina história poderia servir de modelo para todas as histórias humanas?!

O Natal de Jesus, o mistério da sua encarnação, reconfigura radicalmente a condição humana, porque deposita nela inventivas possibilidades. Estamos habituados a ver no inelutável ciclo das estações, primavera, verão, outono, inverno, o modelo da própria vida. Julgamo-nos chegados, cada vez mais chegados, de uma primavera ou de um verão que julgávamos invencíveis ao irremediável obscurecer do outono ou à íngreme solidão da paisagem no inverno. O nascimento humano de Deus inaugura, porém, um esperançoso contraciclo: a nossa vida deixa de explicar-se como uma marcha do nascimento para a morte, para efetivar-se na imagem de um incessante renascer. Contemplando a manjedoura do Deus Menino, qualquer que seja a nossa idade e o peso dos nossos anos, sentimos como real aquele verso de Pedro Homem de Mello: «a minha [a nossa] infância ainda não morreu». De facto, a infância não é uma nostálgica trégua que o nosso passado encerrou, mas o futuro que um modo novo de entender a história nos entreabre. Trazemos por viver ainda uma infância - é o que o Natal nos segreda.

José Tolentino Mendonça
In Diário de Notícias da Madeira

(texto integral aqui)

2010-12-22

ousar dar e saber receber

Íamos, os cinco, nos Restauradores. O dinheiro era pouco e, por isso mesmo, rateado. Fazia frio e éramos felizes. Decidimos, dentro do frio e na nossa felicidade frugal, sentarmo-nos na casa dos sorvetes e comer meia cassata. Antigamente, no tempo do frio, ninguém, em Lisboa, comia gelados, e arrepiávamo-nos quando víamos, nos filmes, miúdos e graúdos a lamber cones de sorvete. Mais tarde, muito mais tarde, em Moscovo, surpreendi o deleite, para mim inaudito, de ver magotes de gente a medir-se com enormes invólucros de plástico repletos de sorvetes de várias cores. Caminhava pelas ruas cheias de neve, na companhia do meu amigo José David Lopes, camarada do Diário de Notícias, e resolvemos beber vodca pelo gargalo de uma garrafa avulsa, acaso como retaliação absurda pela quantidade de pessoas lambedoras de sorvete.
Mas, naquele dia, éramos os cinco e não havia infelicidade que nos tocasse no batente. Sorríamos uns para os outros, e eu estava com aquele orgulho, um pouco tolo, um pouco ufano, do patriarca que nunca se desentende da sua condição. Os nossos três rapazes estavam naquela idade em que a música dos sonhos nunca se esfuma e tudo é permitido e possível. A minha mulher, jovem, serena e vigilante, observava-nos a todos, e eu sentia a pulsão do imperativo que a animava. Um dia, pensei, hei-de escrever sobre este momento, no qual se desprende o íntimo de um coração, e se ignora a metáfora. Não sei se chegou a altura.
Ela e eu tínhamos combinado comprar umas prendas aos filhos, era Natal, e eu recebera um bónus do jornal onde trabalhava. Dava para muito pouco, o bónus, mas sempre dava para alguma coisa. Por outro lado, o nosso filho do meio decidira trabalhar, na quadra de Natal, numa empresa de mudanças, a fim de amealhar trinta contos, o preço de umas botas de bico longo, suas preferidas que eu detestava por as considerar grosseiras. Ele tinha 17 anos e contrariávamos essa ideia tida por nós como disparatada. Por fim, ganhara a sua perseverança, e lá andara, durante um período, a carregar móveis. A mãe, preocupada e inquieta; eu, um pouco orgulhoso.
Chupávamos a cassata, calculados no que fazíamos e exactos no prazer modesto, na felicidade pequena que nos abrangia. Eis senão quando o nosso filho do meio se ergueu, sorriso de ponta a ponta da boca, braços abertos na exuberância afortunada que até hoje se lhe mantém. "Ah!, ganda Gabriel!", exclamou, para outro rapaz que se lhe aproximava, também exuberante e também alegre. "É um amigo meu das mudanças." Abraçaram-se, no júbilo de um reencontro inesperado. O Gabriel meteu a mão no bolso. Procurava o que não descobria ou não tinha. Por fim, extraiu algo pequeno e, pelo seu olhar, fútil. Estendeu um rebuçado.
"Bom Natal!", disse.

Baptista-Bastos, in DN

2010-12-19

es amarga la verdad

Pues amarga la verdad,
Quiero echarla de la boca;
Y si al alma su hiel toca,
Esconderla es necedad.
Sépase, pues libertad
Ha engendrado en mi pereza
La Pobreza.
 
¿Quién hace al tuerto galán
Y prudente al sin consejo?
¿Quién al avariento viejo
Le sirve de Río Jordán?
¿Quién hace de piedras pan,
Sin ser el Dios verdadero
El Dinero.
 
¿Quién con su fiereza espanta
El Cetro y Corona al Rey?
¿Quién, careciendo de ley,
Merece nombre de Santa?
¿Quién con la humildad levanta
A los cielos la cabeza?
La Pobreza.
 
¿Quién los jueces con pasión,
Sin ser ungüento, hace humanos,
Pues untándolos las manos
Los ablanda el corazón?
¿Quién gasta su opilación
Con oro y no con acero?
El Dinero.
 
¿Quién procura que se aleje
Del suelo la gloria vana?
¿Quién siendo toda Cristiana,
Tiene la cara de hereje?
¿Quién hace que al hombre aqueje
El desprecio y la tristeza?
La Pobreza.
 
¿Quién la Montaña derriba
Al Valle; la Hermosa al feo?
¿Quién podrá cuanto el deseo,
Aunque imposible, conciba?
¿Y quién lo de abajo arriba
Vuelve en el mundo ligero?
El Dinero.

Francisco Quevedo

sem imagens

Um passeio matinal pelo jardim traduz-se numa única palavra: paz.

2010-12-18

confessions

será melhor não ter tido ou ter perdido?..."O conhecimento não resulta de um simples contemplar nem apenas de um reflectir, mas de um agir e do analisar o que é criado. Assim, cada grau de conhecimento humano, sensível e racional, é uma actividade da qual participam o saber do homem e as suas experiências" (Sónia Kramer). A minha experiência (coisa pouca...o normal para uma mulher discreta que passou há pouco os cinquenta) portanto, é que o melhor é ter perdido, sem se ter perdido. O que implica que, por vezes, se diga sim e  não. E mais outras (muitas) que não se sabe o que dizer.

nu feminino #2

tua mão
no meu seio
sim não não sim
não é assim
que se mede
um coração


Alice Ruiz

nu feminino


 Sentido
Que fique muito mal explicado
Não faço força pra ser entendido
Quem faz sentido é soldado
Para todos os efeitos meus defeitos não são meus
Que importa o sentido se tudo vibra?
Não importa o sentido
O bramido do meu canto mudo
Comporta bemóis e sustenidos
Convoca ouvidos surdos
Ao silêncio suave
Da melodia sem conteúdo
Está escrito
Quem não quiser ceder ao canto das páginas
feche os olhos
ou tape com cera os ouvidos

Alice Ruiz

2010-12-15

epifania - Deus quer sempre. Nós, bem, nós somos seres muito complexos.

A epifania põe em causa qualquer estratégia do visível: o mais tangível do tangível não se vê. Não querer ver tudo nu, não assistir a tudo, não procurar compreender tudo e tudo "saber" é uma questão de decência. O medo de perder o mundo é o medo do desmembramento: a sensação de que o todo se quebrou, algures. Há saber que envenena e empanturra. Temos de perguntar, isto é, pôr a descoberto o que vamos sendo e que é apelo, mobilidade profunda, esforço de libertação, transfiguração. A resposta do mito é apaziguadora (função calmante da resposta). Não se rompe com a saturação do sentido senão cedendo à intensa e frágil visitação dos afectos: só o amor liberta. A compulsividade das evidências magoa mais do que o jogo do olhar entre o visível e o invisível. A loucura de Deus é ser Emanuel, Nome, Corpo, Dom, justiça - é esse Deus que assoma hoje à porta pelo milagre dos Magos. Entremos no mistério desta festa. Ajoelhemo-nos diante do ícone do Deus invisível.

José Augusto Mourão

2010-12-13

Pluralismo religioso como dom de Deus

  1. O pluralismo religioso é um dom de Deus e revela as riquezas singulares de sua sabedoria infinita e multiforme.
  2. Antes de expressarem uma busca tateante de Deus, as religiões já foram acolhidas por Deus na dinâmica de sua infinita abertura e misericórdia. Não são os sedentos que buscam a água, mas a água que busca os sedentos.
  3. As religiões são “fragmentos” que participam de uma sinfonia cujo horizonte é marcado pela tônica do inacabamento. Não há possibilidade de uma única tradição pretender-se detentora da posse da verdade.
  4. A verdade que anima a caminhada das religiões não é algo que se apropria como uma garantia assegurada, mas um mistério sempre aberto pelo qual as religiões devem deixar-se possuir.
  5. As religiões são marcadas por limites e ambigüidades, mas estão igualmente envolvidas pela maravilhosa liberdade do Espírito, que indica caminhos que são misteriosos e inusitados.
  6. Cada religião é portadora de um enigma que é irredutível e irrevogável, não podendo ser entendida como um marco de espera que encontra o seu acabamento ou remate numa outra tradição religiosa. A riqueza das religiões não é algo que se encontra fora delas, como se o seu valor estivesse na sua capacidade de abrir-se positivamente àquilo que ignoram.
  7. Desconhecer esse enigma ou mistério que envolve cada tradição religiosa é deixar de honrar a sua especificidade única e macular a riqueza intransponível da alteridade.
  8. A defesa de uma assimetria de princípio entre as religiões compromete a dinâmica misteriosa dos dons de um Deus que abraça a diversidade.
  9. A experiência de fé num Deus criador, que está presente e vivo em cada domínio do planeta, implica em reconhecer sua presença viva e acolhedora entre as diversas tradições religiosas.
  10. Deus atua na história através de mediações distintas e diversificadas. Não há razão plausível para concentrar a mediação fundamental da presença salvífica de Deus numa única instância ou “porta”, mas há que perceber outras formas dessa mediação, que podem ser uma pessoa, mas também um livro, um evento, um ensinamento ou uma práxis.
  11. A acolhida do pluralismo de princípio é uma condição essencial para o verdadeiro diálogo interreligioso. Não há como dialogar verdadeiramente com o outro desconhecendo a riqueza e o valor irredutível de sua dignidade religiosa.
  12. Fixar-se numa única tradição religiosa, excluindo-se da provocação criadora da interlocução da alteridade, é deixar escapar bens preciosos  que irradiam na dinâmica reveladora de Deus, sempre em ação na história.
  13. O reconhecimento da presença do Mistério Maior nos outros confere uma nova perspectiva à identidade, facultando a abertura para novas e enriquecedoras dimensões da própria fé.
  14. Longe de enfraquecer a fé, o diálogo verdadeiro abre horizontes novos e fundamentais para a sua afirmação num mundo plural.
  15. A acolhida do pluralismo de princípio requer não apenas o diálogo entre as religiões, mas também a abertura e aprendizado com outras formas de opções espirituais, sejam  religiosas, a-religiosas ou pós-religiosas.
Faustino Teixeira

2010-12-09

certeiro:

Ainda da mesma entrevista:

Entre os padres, conheci muitas personalidades não resolvidas, desequilibradas, cuja escolha de vida levou mais a uma carência do que a um crescimento interior. As problemáticas ligadas à sexualidade, que absolutamente não me parecem diminuir, são só um aspecto da questão que se manifesta muito mais frequentemente em atitudes de autoritarismo e de aridez afectiva, ou na exibição de um “Eu” ideal, o qual não correspondeu ao “Eu” real, em uma espécie de desdobramento esquizofrénico.

Há também pessoas maravilhosas, que são autênticas testemunhas da fé, mas a minha sensação é de que elas souberam enfrentar melhor suas próprias fragilidades, com as quais todos nós devemos acertar as contas ao longo de toda a vida, não graças à instituição, mas graças a um percurso interior próprio.

futuro da Igreja...antes do futuro temos o presente...um presente tão problemático quanto desafiador

"Como leigo, todas as perspectivas que a minha Igreja me colocou à disposição consistiam em "dar uma mão" em actividades projectadas e geridas pelo clero. Não! Não é possível! Se somos todos baptizados, se somos povo sacerdotal, se recebemos o mesmo Espírito numa Igreja-comunhão, é absurdo que à maior parte de nós não seja reconhecida uma identidade, ministérios, carismas"

Christian Albini, nascido em 1973, em Crema, na Itália, é casado e pai de dois filhos. É formado em Ciências Políticas pela Università degli Studi di Milano e licenciado em Ciências Religiosas pelo Istituto di Corso Venezia. É membro da Associação Teológica Italiana. Na diocese de Crema, é membro da presidência do Conselho Pastoral e colabora com a Cáritas, a pastoral familiar e o Centro Diocesano deEspiritualidade. Na comunidade paroquial de San Giacomo, faz parte de um grupo de famílias e atua em um Centro di Ascolto delle Povertà. Autor de livros e artigos sobre temas teológicos, espirituais e filosóficos, Albini fez parte da redação da revista Aggiornamenti Sociali. Hoje, também mantém o blog Sperare per Tutti (sperarepertutti.blog.lastampa.it). É cofundador do Centro Viandanti.


Entrevista, Aqui

o pecado original de Santo Agostinho (grande pensador mas um mau tradutor)

En realidad, San Agustín llegó a esa siniestra idea sobre ti y sobre Dios por saber poco griego, y por haber traducido erróneamente una inocente palabra de San Pablo en la carta a los romanos (5,12), ephautó, que no quiere decir “en él”, como pensaba Agustín, sino “puesto que”, como traducen hoy todos. San Agustín pensó que nosotros seguimos sufriendo porque pecamos “en él” (en Adán, o Eva), es decir, porque heredamos su culpa, pero Pablo quería decir que seguimos sufriendo “puesto que” seguimos “pecando”, es decir, haciendo daño, igual que Adán y Eva. Corregido el malentendido gramatical, nos correspondería corregir el dogma, pero a la Iglesia le cuesta demasiado reconocer errores (es su particular pecado original).

ler o texto completo aqui

2010-12-08

uma ovelhinha do género masculino a caminho de Belém

Perdão, da Barbearia!
Depois de pesquisa exaustiva aqui fica o meu exemplar a concurso:
Pois

Créditos: aqui

(i)maculados

O mundo está abarrotado de palavreado contra o próprio mundo e os outros. É a estratégia para  ignorar as próprias feridas.
É normal que assim seja - queremos, a todo o custo, preservar a imagem que nos impeça de ver a própria fraqueza.
Mas também temos inscrita uma Palavra de eternidade. É nela que importa fixar o olhar.

(imagem - Jean-François Segura)

(i)maculada

Que nada me invada de fuera,
que sólo me escuche yo dentro.
Yo dios
de mi pecho.

(Yo todo: poniente y aurora;
amor, amistad, vida y sueño.
Yo solo
universo).

Pasad, no penséis en mi vida,
dejadme sumido y esbelto.
Yo uno
en mi centro.


Juan Ramon Jimenez

2010-12-07

LOS NADIES - eduardo galeano

"los nadies"

Sueñan las pulgas con comprarse un perro y sueñan los na-
dies con salir de pobres, que algún mágico día llueva de pronto
la buena suerte, que llueva a cántaros la buena suerte; pero la
buena suerte no llueve ayer, ni hoy, ni mañana, ni nunca, ni en
lloviznita cae del cielo la buena suerte, por mucho que los na-
dies la llamen y aunque les pique la mano izquierda, o se le-
vanten con el pie derecho, o empiecen el año cambiando de
escoba.
Los nadies: los hijos de nadie, los dueños de nada.
Los nadies: los ningunos, los ninguneados, corriendo la
Liebre, muriendo la vida, jodidos, rejodidos:
Que no son, aunque sean.
Que no hablan idiomas, sino dialectos.
Que no hacen arte, sino artesanía.
Que no practican cultura, sino folklore.
Que no son seres humanos, sino recursos humanos.
Que no tienen cara, sino brazos.
Que no tienen nombre, sino número.
Que no figuran en la historia universal, sino en la crónica
Roja de la prensa local.
Los nadies, que cuestan menos que la bala que los mata.

Eduardo Galeano

2010-12-03

ainda saberemos escolher a melhor parte?

Hoje, ao fim do dia, uma colega foi colocar um símbolo de Natal em cima da secretária que ocupo. Fiquei a olhar um instante para ele, completamente "ofuscado" pelos diversos dossiers em que estou a trabalhar. E, num relance, fiz a analogia entre a imagem que os meus olhos viam e o significado "HOJE" do Natal. Para mim...e não só. 
Depressa me voltei a concentrar no que estava a fazer, sem deixar de pensar: que maçada! Tanto trabalho para fazer...não dá jeito nenhum o Natal!  (uma atenuante: estou mesmo a precisar de uns dias de férias)


Mas ainda há quem saiba desafiar:

Concretizando: nascer de novo é despirmo-nos dos nossos preconceitos, dos nossos privilégios, das amarras do nosso egoísmo; é aceitar mudar o nosso padrão de vida para menos consumismo e maior responsabilidade no modo como ganhamos e gastamos o nosso dinheiro; é fazer trabalho bem feito e com utilidade social nos nossos diversos locais de trabalho; é dar atenção às relações humanas, cultivá-las e valorizá-las; é cuidar das necessidades do próximo e impulsionar formas organizativas de ajuda aos mais desfavorecidos; é promover e apoiar projectos que conduzam à inclusão e à partilha.

porquê (pergunto eu) se encerrou na Igreja, todo o debate sobre as grandes questões da fé?

..."Se Deus existe, ele é inteiramente diferente do que qualquer teólogo do mundo imagina". Eu acrescento: também inteiramente diferente do que alguns não crentes imaginam por "Deus".

ler a entrevista de onde foi retirada a citação aqui





2010-12-02

Nina Simone/ Feeling Good

Feeling Good

Feeling Good

Birds flying high you know how I feel
Sun in the sky you know how I feel
Breeze driftin' on by you know how I feel

(refrain:)x2
It's a new dawn
It's a new day
It's a new life
For me
And I'm feeling good

Fish in the sea you know how I feel
River running free you know how I feel
Blossom on the tree you know how I feel

(refrain)

Dragonfly out in the sun you know what I mean, don't you know
Butterflies all havin' fun you know what I mean
Sleep in peace when day is done
That's what I mean

And this old world is a new world
And a bold world
For me

Stars when you shine you know how I feel
Scent of the pine you know how I feel
Oh freedom is mine
And I know how I feel

(refrain)

não entrar no bailinho

estou a ver, com gosto, que ainda há quem resista.

2010-12-01

sozinhos, não descobriremos quem somos

Sophia de Mello Breyner escreveu: «Em todos os jardins hei de florir…». Acho que a podemos compreender bem, pois quem conhece minimamente o seu próprio coração sabe quanto ele se assemelha a um jardim. Por saber isso é que nos tornamos, claro está, nos primeiros interessados na peculiar arte de jardinagem que é o cuidado do nosso mundo interior. Há uma passagem bíblica, de um dos livros sapienciais, que traduz o que, a esse nível, nos cabe fazer. Diz assim: «Regarei as plantas do meu jardim e saciarei de água os meus canteiros» (Eclo 24,30).

A arte de jardinagem pede de nós três coisas. A primeira delas é o autoconhecimento. É necessário que nos debrucemos sobre o nosso mundo interno, antes de tudo para reconhecê-lo. Lembro-me de uma pergunta de Marguerite Yourcenar: «Quem pode haver tão insensato que se deixe morrer sem ter dado, pelo menos uma volta à sua prisão?». Se isto é verdade, em relação aos nossos limites (à nossa prisão), quanto mais em relação à nossa alma. Vivemos na época da grande mobilidade. A paisagem encheu-se de aeroportos, estações, vias rápidas. Não sei, contudo, se nos tornou mais disponíveis para essa que é a grande viagem: a descida ao íntimo do coração. Às vezes a sensação é que nos tornamos estrangeiros de nós próprios.

A segunda tarefa desta arte de jardinagem é, chamemos-lhe assim, uma solicitude activa. O «Principezinho», o irrequieto alter-ego de Saint-Exupéry, ajuda-nos a concretizar isto de que falamos. É a propósito dos embondeiros. Cito: «No planeta do principezinho, havia como em todos os planetas, ervas boas e ervas daninhas. E por conseguinte boas sementes de ervas boas e más sementes de ervas daninhas. Mas as sementes são invisíveis. Dormem no segredo da terra até que uma delas se lembra de despertar... Se se trata de um rebento de rabanete ou de roseira, podemos deixá-lo crescer à vontade. Mas no caso de se tratar de uma planta daninha, é necessário arrancá-la imediatamente mal formos capazes de a reconhecer. Ora, existiam sementes terríveis no planeta do principezinho... eram as sementes dos embondeiros. O solo do planeta estava infestado delas. Se não arrancarmos o embondeiro a tempo nunca mais nos conseguimos desembaraçar dele. Atravanca o planeta todo».  

A terceira etapa da nossa arte interior é o florescer. Não podemos estar a vida inteira em busca de conhecimento, mesmo se um bom quinhão de teoria não faça mal a ninguém. Nem podemos ficar apenas pela enérgica sacudidela do pó que se amontoa e torna tudo ilegível. Há estações interiores em que só nos falta isto: florir. Também aqui aprendamos dos jardins alguma sabedoria. As flores, por exemplo, não nascem apenas nos canteiros demarcados. Também acontece (e às mais belas) brotarem à beira dos caminhos ou fora de tempo. Numa das inesquecíveis passagens diarísticas de Raul Brandão ele conta o seguinte: ainda hoje recordo «aquela laranjeira que, de velha e tonta, deu flor no inverno em que secou».

José Tolentino Mendonça, daqui

a SIDA mata, irremedialvelmente!

"porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloquentes como "sempre" ou "nunca". Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicídio nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim - nós, não. Contidamente, continuamos. E substituímos expressões fatais como "não resistirei" por outras mais mansas, como "sei que vai passar". Esse o nosso jeito de continuar, o mais eficiente e também o mais cómodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência."

Caio Fernando Loureiro de Abreu (Santiago, 12 de Setembro de 1948 - Porto Alegre, 25 de Fevereiro de 1996)

2010-11-29

O Deus das pequenas coisas

“Quando não acreditamos que Deus está nas pequenas coisas, ficamos sem uma verdadeira relação com ele” (Kierkegaard) 

É curioso: desde há algum tempo deixei de me sentir "estrangeira" ou mais uma utente anónima, sempre que me desloco nos transportes públicos de Lisboa. Campo Grande, Baixa-Chiado, comboio linha de Cascais, algures a conversa surge e alguma cumplicidade também: informações que se trocam, dois dedos de conversa, uns sorrisos e  a comunicação acontece, humanizando um espaço que é adverso a qualquer proximidade.

2010-11-24

o melhor comentário que eu já li sobre o Papa e o preservativo

E eu com isso? Se ele quiser, pois que use. Se não quiser, pois que decida em consciência e responsabilidade.


mais opinião sobre as declarações do Papa

No acabo de entender el revuelo informativo que han provocado las declaraciones del papa sobre el uso del preservativo en el libro-entrevista de Benedicto XVI con su compatriota el periodista Robert Seewald La luz del mundo, que acaba de aparecer la editorial Herder en castellano y catalán. Es un género literario muy del gusto del papa, quien ya había concedido otras dos entrevistas al mismo periodista: una en 1997 publicada bajo el título La sal de la tierra y otra en 2000 convertida igualmente en un libro titulado Dios y el mundo.
Unos años antes, en 1985, había aparecido apareció la entrevista con el 3escritor y periodista periodista Vittorio Messori con el título Informe sobre la fe, donde proponía un programa de restauración de la Iglesia católica, que se convertiría en el guión a seguir durante el pontificado de Juan Pablo II bajo el signo de la involución, dando por amortizadas las reformas del concilio Vaticano II y retrocediendo a la etapa preconciliar. Ese libro sí marcó el devenir neoconservador de la Iglesia, que se mantiene inalterable veinticinco años después, ahora con claros signos de integrismo.

Sin embargo, la relevancia que se le han dado a las declaraciones papales sobre el preservativo para nada se corresponde con la irrelevancia objetiva de las mismas.
Intentaré demostrarlo en estas breves reflexiones.

1. Creo que seguir discutiendo en la Iglesia católica diez años después de iniciado el tercer milenio si se puede o no se puede, si se debe o no se debe utilizar el preservativo en las relaciones sexuales es un anacronismo en toda regla y una muestra más de que al papa se le ha parado el reloj de la historia y camina en dirección contrario a ella. Es tema ya resuelto y un problema que ha dejado de serlo debido a la madurez de la sociedad.
Felizmente los ciudadanos –también los católicos y las católicas- ya no se rigen por las estrictas y represivas normas religiosas –en este caso, por la moral eclesiástica- en materia de sexualidad. Siguen los criterios de la ética cívica y laica, que conforma la conciencia moral poniendo en el primer plano la responsabilidad.
Volver a plantear ahora la licitud o ilicitud de los preservativos demuestra la desubicación histórica de la jerarquía eclesiástica y de los movimientos neoconservadores que siguen dócilmente sus consignas. Empeñarse en seguir dando vueltas a una de una casuística caduca y despreocuparse de las graves –y en muchos casos mortíferas- consecuencias que genera la prohibición del uso del condón como
regla general, me parece un acto de ceguera imperdonable y un ejemplo de insensatez culpable.

2. En las declaraciones del papa no aprecio cambio alguno. Vienen a ratificar punto por punto la doctrina tradicional y el pensamiento del propio Benedicto XVI contra el uso de los preservativos. Están en continuidad con las irresponsables afirmaciones que hiciera en África cuando dijo que el preservativo no resolvía el contagio del SIDA, sino que creaba nuevos problemas. El preservativo, dice ahora, no es la forma adecuada y verdadera de vencer la propagación del SIDA.
Lo que vuelve a demostrar una gran insensibilidad hacia situaciones que ponen en riesgo la vida.
EL papa sólo reconoce algunos casos particulares en que puede usarse el preservativo y, en un párrafo confuso que no logro entender, se refiere a la prostitución.
Pero las excepciones se dan en la mayoría de las leyes y preceptos morales. La prohibición de matar tiene también excepciones: hay toda una doctrina sobre la guerra justa, que justifica la muerte de los adversarios, y sobre la legítima defensa. Aun aceptando las posibles excepciones, la doctrina de la Iglesia católica se mantiene inalterable y viene a ratificar la prohibición que, para escándalo de tirios y troyanos, estableciera Pablo VI en la polémica encíclica Humanae vitae, criticada por cualificados
teólogos católicos como Bernhard Häring, Karl Rahner, Hans Küng y otros.
Fue una prohibición reiterada con tanto celo como severidad por Pablo II siendo su mano derecha Benedicto XVI cuando estaba al frente de la Congregación para la Doctrina de la Fe, quien la hizo suya en una declaraciones al mismo periodista Peter Seewald en 1997 en el libro-entrevista La sal de la tierra, editado en castellano por Ediciones Palabra, del Opus Dei, donde alertaba sobre la desmoralización de la sociedad y consideraba el uso de los preservativos como parte de esa desmoralización.

3. ¿Suponen las declaraciones del papa un tímido paso hacia adelante y el comienzo de una apertura, como han reiterado estos días los medios de comunicación, tantos los confesionales como los laicos, casi de manera unánime? Creo que no. Están más bien en la línea de mantenella y no enmendalla y vienen a demostrar que la Iglesia católica tiene una asignatura pendiente desde hace siglos que no logra ni quiere aprobar:
la sexualidad, y una fijación mental: el cuerpo de la mujer. Es el fiel reflejo de su concepción dualista del ser humano y de su pesimismo antropológico, que vienen de lejos, pero no tienen su origen en la predicación de Jesús ni en la práctica primitiva, sino en la deriva represiva de la sexualidad que siguió la moral cristiana con Agustín de Hipona como uno de los principales ideólogos.
Para salir de esta situación patológica multisecular quizá le ayudarían a la Iglesia la lectura y puesta en práctica del sabio decir del cuerpo en el poema de Eduardo Galeano: “Dice el mercado: el cuerpo es un negocio. Dice la Iglesia: el cuerpo es pecado. Dice el cuerpo: yo soy una fiesta”. El papa dice que hay que humanizar la sexualidad. De acuerdo, y yo creo que el uso del preservativo es una forma de humanizar la sexualidad. Totalmente de acuerdo.
Pero, a diferencia de Benedicto XVI, yo creo que el uso del preservativo es una forma de dicha
humanización, no las excepciones a las que se refiere el papa, que vienen a confirmar la regla general de la represión sexual.
Si la Iglesia siguiera la consigna de Eduardo Galeano dejaría de hablar tanto y tan negativamente de la sexualidad, renunciaría a condenar los “pecados sexuales” y no pondría límite alguno al uso de los preservativos. Las declaraciones del papa no siguen, ciertamente, estas recomendaciones. Todo lo contrario para desacreditar el ejercicio de la sexualidad, habla de adicción al sexo y la compara con una droga. Eso ya me parece patológico.

Juan José Tamayo, aqui



Juan José Tamayo es secretario general de la Asociación Juan XXIII y director de la Cátedra de Teología y Ciencias de las Religiones de la Universidad Carlos III de Madrid.
Este artículo, más resumido, lo publica hoy El Correo (Redacción de R. C.)

2010-11-22

um pequeno gesto que é uma tomada de posição

Petição Para Uma Nova Economia - Uma Tomada de Posição Pública 

 Uma iniciativa do Grupo Economia e Sociedade da Comissão Nacional Justiça e Paz


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O Francisco Louçã não pode ficar sozinho nessa luta

Se um padre, um locutor, a dra Manuela, o Cavaco dissessem isto às pessoas, eis o que era uma grande caridade. 

Tem razão, o Luís Januário. É relevante o serviço da Igreja de apoio aos mais carenciados, mas igualmente importante, é assumir com clareza a denúncia das diferentes injustiças sociais e da corrupção.

Ao longo da minha vida, ouvi muitas homilias de denúncia do pecado do "mundo". Nunca escutei o mesmo ênfase para denunciar o pecado da Igreja - no seu todo e nos diferentes membros.

Pois estamos, mas não todos.

"estamos mais pobres". Fica bem ao patrão da SONAE solidarizar-se com os portugueses que, ou por pobreza sistémica ou por redução do rendimento, estão ainda mais pobres. Mas dito assim "estamos", se não é ofensivo, é, pelo menos, demagógico e fútil.

2010-11-21

a vida nas nossas mãos

"humanização da sexualidade"

Era o que se esperava de uma Igreja depositária da Boa-Nova. Mas não, continuamos no maniqueísmo moralista: "Pode haver casos pontuais, justificados, como por exemplo a utilização do preservativo por um prostituto..." O Papa fala em prostituta. Que é o mesmo que dizer:"perdido por cem, perdido por mil".

E o maniqueísmo continua:"Ou seja, a mera fixação no preservativo significa uma banalização da sexualidade". Sexualidade responsável a tal "humanização da sexualidade" não cabe na mente dos seguidistas acríticos para os quais a pertença à Igreja  é " apenas uma espécie de droga que administram a si próprias".

2010-11-20

e a investida surge inesperadamente


com direito a fazer correr muita tinta (e vender livros, claro)




imagem-Hans Memling "Alegoria sobre a castidade"

e tão ou mais nociva é a condescendência para connosco próprios: impede-nos de nos vermos como somos

Comecemos pela condescendência. É uma atitude intelectualmente arrogante e pouco ética. Uma armadilha das cabecinhas orgulhosas e amargas porque a sua superioridade não lhes trouxe a alegria de viver. Para se relacionar com uma pessoa (diria mesmo: com as pessoas), a condescendência é o pior dos sentimentos - só comparável com a inveja. Pense assim: por mais estranho ou injusto que pareça, somos todos iguais. Não há cá seres superiores ou melhores que os outros. Variam apenas nos defeitos, e uns serão mais evidentes ou mais limitadores que outros, mas todos têm imperfeições. Senão até seria uma chatice.

"O ser humano é uma casa de hóspedes..."

Sin embargo, no existe error más grande que el de resistirse a lo que es. Porque, a pesar de todas nuestras resistencias, lo que es, es.
 
Pero si el yo lo ha etiquetado como “negativo”, no le queda otra alternativa que rebelarse contra él, entrando en un funcionamiento agotador y, en último término, autodestructivo.
 
Esto no significa afirmar la resignación, la pasividad o la indiferencia. No; significa, sencillamente, reconocer lo que es y darle la bienvenida.
A continuación, cuando, gracias a la aceptación, nos hayamos reconciliado con la realidad, brotará de nosotros la acción adecuada.
 
Esa es la actitud del sabio quien, más que etiquetar lo que le ocurre como “agradable” o “desagradable”, recibe todo como una oportunidad para aprender. Reconoce que todo lo que llega a nosotros es lo que necesitamos. Y si alguien le preguntara: ¿cómo lo sabes?, ¿cuál es la prueba de que es así?, su respuesta es invariable: “porque llega”.
 
Pero una tal actitud es impensable para el yo, que busca sólo lo que, en su corta visión, entiende como “beneficio” inmediato…, para quedar pronto frustrado. El yo se califica a sí mismo por los adjetivos: “yo soy esto…, yo soy aquello…”. Por eso, es incapaz de tolerar que “esto” o “aquello” se vean alterados. Sin embargo, la ley de la vida nos dice que esa alteración no sólo es inevitable, sino que ocurrirá muy pronto, debido a la ley de la impermanencia.
 
El sabio, por el contrario, que ha trascendido su identidad egoica, percibe su identidad como el “Yo Soy” universal, sin adjetivos que la delimiten; a salvo, por tanto, de cualquier cosa que pueda suceder.
 
Establecido en ese “Yo Soy”, atemporal e ilimitado, se ve no-separado de todo lo que es, como Presencia ecuánime e inalterable; como Vida que se despliega en infinitas y variadas formas. Quien se percibe así, sabe que, en nuestra identidad más profunda, somos Vida. Por eso, como Jesús, puede afirmar con toda certeza: “Hoy tendrás vida”.
 
Del mismo modo, para que la palabra de Jesús nos “alcance”, necesitamos abrirnos a ese mismo “lugar” donde él estaba, a nuestra identidad más honda, allí donde también nosotros nos reconocemos como Presencia y Vida, aquí y ahora. Sólo situados ahí, percibiremos que se modifica nuestra perspectiva, así como nuestra visión de las cosas y de nosotros mismos.
 
Y como no estaremos ya preocupados de vivir para el yo –eso equivale a “perder la vida”, decía el propio Jesús-, podremos acoger todo como oportunidad de crecimiento en conciencia de quienes somos. Veremos que, en la vida, no hay amigos o enemigos, sino sólo maestros.
 
Porque la vida no está interesada en nuestro “bienestar”, el bienestar del yo -¿quién nos hizo creer eso?-, sino en que aprendamos lo que necesitamos para, por fin, reconocernos en quienes somos.
 
Y quizás podamos empezar a hacer nuestras las sabias palabras de Rumi, el gran místico sufí del siglo XIII:
 
 “El ser humano es una casa de huéspedes.
Cada mañana un nuevo recién llegado.
Una alegría, una tristeza, una maldad,
que viene como un visitante inesperado.
¡Dales la bienvenida y recibe a todos!
Aun si son un coro de penurias que vacían tu casa violentamente.
Trata a cada huésped honorablemente,
él puede estar creándote el espacio para una nueva delicia.
El pensamiento oscuro, la vergüenza, la malicia,
recíbelos en la puerta sonriendo
e invítalos a entrar.
Agradece a quien quiera que venga,
porque cada uno ha sido enviado
como un guía del más allá”.


2010-11-16

qualquer coisa de conto de fadas



[Com o fogo não se brinca]

Com o fogo não se brinca
porque o fogo queima
com o fogo que arde sem se ver
ainda se deve brincar menos
do que com o fogo com fumo
porque o fogo que arde sem se ver
é um fogo que queima
muito
e como queima muito
custa mais
a apagar
do que o fogo com fumo


Adília Lopes,
De Um Jogo Bastante Perigoso (1985)




imagem-"A fada Azul segreda" Paula Rego

2010-11-13

daqui

um cristianismo liberto da religião

...Toda a teologia deve ser soteriológica: a teologia  é só uma reflexão sobre a salvação cristã, por mais que possa utilizar palavras abstrusas como consubstancialidade ou subsistência. Pois Deus não se revelou para entretenimento ou curiosidade dos intelectuais, mas para a salvação de todo o género humano.

Toda a boa teologia deve ser antropologia: não redutoramente (só antropologia), mas no sentido de que qualquer teologia que não implique uma dimensão antropológica é um mero "címbalo que retine" na expressão de S. Paulo. Porque Deus não podemos saber o que é, apenas que  revelou o seu amor por nós.


E numa frase de Simone Weil:"não é pela forma como o homem fala de Deus, mas pela forma como fala das coisas terrenas se pode discernir se a sua alma tem permanecido no fogo do amor de Deus".

...É a hora de pensar a presença do cristianismo fora da "Cristandade" (quer dizer: num mundo plural, configurado por estados não confessionais e onde todos os saberes humanos reclamam plena autonomia frente ao pensar teológico).
Presença do cristianismo como mais uma voz que não apela a mais autoridade do que a verdade que proclama e que não pretende impor, condenar nem negar a palavra, apenas e só propor e oferecer a sua.

José Ignacio González Faus, aqui

2010-11-10

são flores

retirado daqui

completamente de acordo

Não estou certo de que a flexibidade seja o melhor dos caminhos para dinamizar o mercado do trabalho, mas tenho a certeza de que é necessário agitar a comodidade dos que só querem ter emprego - público ou privado.

Uma consciência actuante, logo, eterna, precisa-se

A Igreja tem de ser compelida, e até arrastada, pelo movimento das ideias, a encorajar o protesto generalizado e a indignação colectiva. Não deve quedar-se, através de murmúrios compassivos, pela solidariedade inócua com o sofrimento. O essencial está em causa. A boa vontade não chega. É outra expressão do quietismo, a forma mais sórdida de cumplicidade, e outro modo de disciplina férrea, com que as classes dominantes impõem as suas leis e regras. Reformar quê? Quando, na realidade, estamos a falar do demo- níaco, contido numa ideologia que introduziu, como modelo de sociedade, a resignação e o aviltamento progressivo da condição humana. O campo da nossa batalha não é a procura do eterno: é a consciência do nosso tempo.

Baptista Bastos

2010-11-09

ca(u)sa comum

E, entretanto, cinco bispos anglicanos acolhem-se no regaço da Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana. Motivo da "conversão": nela não se ordenam mulheres.

2010-11-08

é assim mesmo:

O Papa que visitou a Espanha é aquele que humilha as mulheres negando-lhes o acesso ao sacerdócio e outros ministérios eclesiais, classificando a sua ordenação de delito grave comparável à pederastia e excomungando tanto as mulheres ordenadas como aos bispos que lhe impuseram as mãos. Uma pena maior que a dos pederastas.


Actuando assim, que credibilidade podem ter as palavras de Bento XVI e que autenticidade podemos dar aos seus gestos em Santiago de Compostela e Barcelona? 

Juan José Tamayo,
daqui

uma jóia portuguesa

2010-11-07

the perfect day

incongruências papais

Ao mesmo tempo que faz questão de envergar todos os artefactos símbolos de uma "Igreja poder",  já abandonados pelos seus antecessores, Bento XVI faz questão de consumir e difundir, um discurso de promoção da mulher:" Para que a mulher encontre em casa e no trabalho a sua plena realização". Ou:"A Igreja opõe-se a todas as formas de negação da vida humana".

Sendo mulher posso votar para dois dos órgãos de soberania do meu país.  E, se entender que decidi mal, corrigir nos próximos actos eleitorais. Não posso votar na eleição do próximo Papa. Alguns homens decidirão por mim. Nem eu nem mulher alguma.

o que se diz vida

"...Ora, Deus não é Deus de mortos, mas de vivos; pois, para Ele, todos estão vivos.»" LC 20,38

Para se dizer vivo, não basta acordar todas as manhãs. Viver, na perspectiva cristã, é cuidar da vida.
No realizar da vida diária, hoje, somos mais para nos consumir do que cuidar. 
Decidir é optar pela vida.

2010-11-06

que contas andamos a fazer?

O PIB vai ter de ser revisto, e já não informa sobre o bem-estar. Um exemplo, de Alfred Marshall, século XIX: se uma comunidade tem água potável, como o ar que respira, não entra nas contas nacionais. Se a comunidade polui todas as fontes de agua potável, e passa a ter de purificar a água, engarrafá-la, distribuí-la, comprá-la e trabalhar mais, o PIB aumenta. É o sinal errado: o PIB devia cair, a sociedade ficou mais pobre. Qualquer dia teremos todos de andar com uma garrafa de oxigénio e o PIB a aumentar. 
 
Outra interessante entrevista, aqui


e sobre o número elevado desemprego:


Há algo de errado num país que condena centenas de milhares de pessoas a não encontrar ocupação reconhecida, que gere rendimento.

porque há mais vida para além do mercado

A ideia de consumo vai ter de ir mudando. Há muitas outras formas de fruir a vida que podem estar muito mais ligadas à nossa satisfação intelectual e que não estão ligadas ao consumo material. Vai demorar gerações a mudar, mas acho que esta crise que estamos a viver é o primeiro grande sinal...

Nuno Ferrand de Almeida,
numa entrevista, aqui 

perspectivar

Tu
Olhas ora para mim
Ora para as nuvens

Sinto que
Estás tão longe quando olhas para mim
E tão perto quando olhas para as nuvens.



Gu Cheng

2010-10-27

2010-10-24

se quiseres falar com Deus...

um cristianismo laico...tal como Jesus

La consecuencia ha sido que el Cristianismo y la Iglesia se han orientado y configurado, ante todo, como una "religión" (templos, sacerdotes, sacramentos, dogmas, poderes religiosos...), siendo así que, en realidad, Jesús de Nazaret no pensó en nada de eso, ni en su vida se dedicó a poner en práctica nada de eso. De ahí que los grandes temas de Pablo son los que han configurado la "teología" cristina, mientras que los relatos de la vida de Jesús han quedado, en la vida y funcionamiento de la Iglesia, relegados a un segundo término, como elementos inspiradores de la "espiritualidad" cristiana. Así las cosas, y volviendo al comienzo de esta reflexión, lo más lógico tendría que ser que los cristianos nos preocupemos, ante todo y sobre todo, por vivir um "cristianismo laico", como lo vivió Jesús de Nazaret. Porque, si vivimos así nuestra relación con Jesús, lucharíamos más contra el Estado confesional y nos esforzaríamos mucho más por nuestra "religiosidad laica" y nuestra profunda espiritualidad, la "religiosidad alternativa", que vivió y nos enseñó Jesús.

2010-10-23

o fariseu e publicano que somos. ou numa interpretação psicológica - a imagem e a sombra (LC 18, 9-14)

En el nivel histórico (o literal), “fariseo” y “publicano” son dos tipos de personas que, según los cánones religiosos, se encontraban en posiciones antagónicas: el primero es el observante estricto con conciencia de “justo”; el segundo, un pecador público, excomulgado de la religión y supuestamente rechazado por Dios.
Hacía falta mucho atrevimiento y una admirable libertad para descalificar el comportamiento del fariseo y ensalzar el del publicano. Y eso es lo que hace Jesús. Con ello, denuncia radicalmente toda religión centrada en la idea del “mérito” y de la “recompensa”, y propone una actitud religiosa centrada en el reconocimiento de la propia verdad –eso es la humildad- y en la afirmación de la gratuidad divina. Una actitud integradora, que a nadie juzga, descalifica ni condena…, y que, con demasiada frecuencia, no se halla en las religiones. 
En el nivel psicológico (o simbólico), “fariseo” y “publicano” pueden entenderse como dos aspectos presentes en cada persona: la imagen y la sombra.
“Imagen” es todo aquello que, desde niños, nos hemos esforzado en construir para tratar de lograr el reconocimiento y la aprobación por parte de los otros.
“Sombra”, por el contrario, es el precio que tuvimos que pagar para poder construir aquella imagen, ya que, para cada uno de los rasgos de la imagen que queríamos potenciar, tuvimos que esconder –aun sin darnos cuenta- el rasgo opuesto, que fue relegado a la zona oscura de nuestro psiquismo.  
“Sombra”, por tanto, es el material psíquico que hemos reprimido, negado, disociado o enajenado, produciendo una fractura o escisión –una neurosis- en nuestro interior.
La unificación de la persona, la salida de la mentira personal y la superación del sufrimiento neurótico sólo serán posibles en la medida en que logremos reconocer, aceptar e integrar nuestra propia sombra, como parte de nosotros mismos. Es decir, únicamente la integración de la imagen con la sombra hará posible la reconciliación psicológica de la persona: eso es lo que muestra con toda nitidez la parábola de Jesús.
 
Cuando uno no trabaja con la propia sombra, sus mejores propósitos (éticos, religiosos, espirituales…) pueden verse saboteados y, lo peor de todo, por motivos inconscientes y sin darnos cuenta de ello. Queremos ser mejores personas…, pero hay “algo” que no nos deja.
 
Porque negar la sombra no la elimina, sólo la oculta. Aquélla regresa en forma de obsesiones, miedos, ansiedades y dolorosos síntomas neuróticos.
 
Dentro, por tanto, de cada uno de nosotros conviven un “fariseo” orgulloso e hipócrita, que busca autoafirmarse falsamente ocultándose parte de su verdad, y un “publicano” con frecuencia despreciado y relegado a la oscuridad más completa. Sólo cuando nos abramos a esa doble realidad y podamos aceptarla, “bajaremos a nuestra casa justificados”, es decir, reconciliados.
 
Porque la conclusión de la parábola no puede entenderse en el sentido de que Dios no perdona al fariseo o no quiere justificarlo. Se trata de algo mucho más simple: es su propia actitud, incapaz de reconocer toda su verdad, la que lo mantiene “roto” en su interior, por más que pretenda ofrecer una imagen “perfecta”.
 
 
Pero la comprensión del fenómeno de la sombra nos aporta algo más. Todo el material relegado, oculto o negado, sigue activo, como poderosa energía psíquica. Puesto que no se le permite “vivir” en la propia persona, será, forzosa e inconscientemente, proyectado en otras.
 
Como consecuencia, creeremos ver en los demás aquello que no soportamos en nosotros mismos: eso nos crispará –aunque desconozcamos el motivo real- y condenaremos ferozmente en el otro lo que hemos rechazado con la misma ferocidad en nosotros. Esto explica el cumplimiento de una “ley” que, a mi parecer, no admite excepciones: “Todo lo me crispa del otro, me pertenece”.
 
Si aplicamos este principio a la parábola, entenderemos mucho mejor la actitud real del fariseo: después de resumir la “media verdad” que alimentaba a su imagen, se compara con aquellos a quienes parece despreciar por ser “ladrones, injustos y adúlteros”.
 
No era consciente –porque se hallaban escondidos en lo más profundo de su sombra- de que, en su interior, habitaba también un yo ladrón, injusto y adúltero, que pugnaba por salir. Más en concreto: cuando el fariseo afirma: “no soy ladrón…”, otra voz en su interior –la voz de la sombra, que él es incapaz de oír- añade: “…pero me encantaría serlo”. Sin embargo, en lugar de reconocer esa verdad, trabajarla e integrarla, le resulta más cómodo verla fuera de sí, en los otros, a quienes ve peores que él y condena sin piedad.
 
Por el contrario, sólo la comprensión de la verdad que el fenómeno de la sombra encierra empieza a situarnos en la buena dirección, para resolver conflictos relacionales, evitar el juicio –“no juzguéis”, insistía Jesús- y la descalificación, y crecer en unificación, integración y armonía.
 
Sobre la base de que los humanos no estamos llamados a ser “perfectos” –como suelen creer los “observantes”-, sino “completos”, capaces de reconocer, nombrar y aceptar toda nuestra verdad. De este modo paradójico, el reconocimiento de la sombra, al bajarnos del pedestal de nuestra imagen idealizada, nos hace humildes, es decir, nos humaniza (humildad y humanidad, como humor, provienen de la misma etimología: “humus”, la tierra blanda, receptiva y fértil).
 
¿Qué hacer para avanzar en esa integración que, unificándonos, nos pacifica y humaniza? Aparte de todo el trabajo psicológico, hecho desde la lucidez y la aceptación de la propia verdad –como se indica en los libros que cito al final de este comentario-, es imprescindible una actitud creciente y sentida de acogida de sí.
 
Necesitamos –mirándonos con bondad y acogiéndonos con amor- abrazar pacientemente, una y otra vez, toda nuestra debilidad, fragilidad, vulnerabilidad…, como si estuviéramos comprendiendo y amando a nuestro mejor amigo. Cada abrazo de nuestra parte débil nos hará crecer, de un modo paradójico, en fortaleza interior. Porque el núcleo de la debilidad, si la aceptamos sin contarnos “historias mentales” sobre ella, es fortaleza. Y al abrazar la vulnerabilidad estamos recorriendo el camino de “vuelta a casa”, donde nos sentiremos cada día más unificados.
En el nivel espiritual (o profundo), por fin, la parábola contiene una profunda sabiduría. No puede haber auténtico camino ni crecimiento espiritual –viene a decirnos-, si no está cimentado en la aceptación de la propia verdad y no conduce progresivamente a la desapropiación del yo.
La imagen idealizada –representada en la figura del fariseo- es sólo otra manera de nombrar al ego. Desconocer o negar la sombra nos condena a vivir para el ego. Sin embargo, en la medida en que la vamos aceptando, se va produciendo la integración psicológica del yo, que posibilitará el que sea trascendido. Habremos pasado así del “nivel racional” (egoico) de conciencia al estadio transpersonal.
Pero parece innegable que, si no se avanza en la integración psicológica –aceptando la imagen y la sombra-, el camino espiritual carecerá de consistencia y se verá expuesto a sorpresas desagradables.