2010-01-27

espaço interior

Ah, sim, uma coisa que ainda queria perguntar-te: quando e onde perdeste parte do teu pobre dedo indicador direito e doeu muito?


De uma carta de Etty Hillesum a seu amigo Osias Kormann em Setembro de 1942. Etty morreu em Auschwitz em Novembro de 1943

2010-01-23

cantares


Ele

1 Ah! Como és bela, minha amiga!
Como estás linda! Teus olhos são pombas,
por detrás do teu véu.
O teu cabelo é como um rebanho de cabras
que descem do monte Guilead;
2 os teus dentes são um rebanho de ovelhas,
a subir do banho, tosquiadas:
todas elas deram gémeos
e nenhuma ficou sem filhos.
3 Como fita escarlate são teus lábios
e o teu falar é encantador;
as tuas faces são metades de romã,
por detrás do teu véu.
4 O teu pescoço é como a torre de David
erguida para troféus:
dela pendem mil escudos,
tudo broquéis dos heróis.
5 Os teus dois seios são dois filhotes
gémeos de uma gazela
que se apascentam entre os lírios,
6 antes que rebente o dia e as sombras desapareçam.
Quero ir ao monte da mirra
e à colina do incenso.
7 Toda bela és tu, ó minha amada,
e em ti defeito não há.
8 *Vem do Líbano, esposa,
vem do Líbano, aproxima-te.
Desce do cimo de Amaná,
do cume de Senir e do Hermon,
dos esconderijos dos leões,
das tocas dos leopardos.

9 Roubaste-me o coração, minha irmã e minha noiva,
roubaste-me o coração com um dos teus olhares,
com uma só conta do teu colar.
10 Como são doces as tuas carícias, minha irmã e noiva!
Muito melhores que vinho são as tuas carícias;
mais forte que todos os odores
é a fragrância dos teus perfumes.
11 Os teus lábios destilam doçura, ó minha noiva;
há mel e leite sob a tua língua,
e o aroma dos teus vestidos
é como o aroma do Líbano.

12 És um jardim fechado, minha irmã e minha esposa,
um jardim fechado, uma fonte selada.
13 Os teus rebentos são um pomar de romãzeiras
com frutos deliciosos,
com alfenas e nardos,
14 nardo e açafrão,
cálamo e canela,
com toda a espécie de árvores de incenso,
mirra e aloés, com todos os bálsamos escolhidos.
15* És fonte de jardim, nascente de água viva
que jorra desde o Líbano.


Ela

16 Levanta-te, vento norte;
vem, vento do sul;
vem soprar no meu jardim.
Que se espalhem os seus perfumes.
O meu amado entrará no seu jardim
e comerá os seus frutos deliciosos.

Cântico dos Cânticos (4, 1-16)

2010-01-18

Zilda Arns, morreu no Haiti por causa de Deus


Zilda Arns, médica pediatra de setenta e cinco anos, morreu vítima do terramoto no Haiti. Fundadora da Pastoral da Criança e do Idoso, tinha-se lá deslocado, para uma conferência. Morreu como viveu - à procura de Deus nos mais fragilizados.

para crer é preciso sentir

Cada vez mais tenho como certo que a fé precisa da sensibilidade. Não a sensibilidade daqueles que só sabem dizer:"coitadinhos, coitadinhos", mas a capacidade de sentir para além de todas as evidências. Não uma sensibilidade inata, mas conquistada.

2010-01-12

os lances oportunistas

A iniciativa passou como um gesto empenhado de um determinado movimento de leigos. Sobre a recolha de assinaturas para que houvesse um referendo à possibilidade do casamento gay, a ordem para as paróquias, era de que os párocos se contivessem nos apoios. Justificação: não devia passar a imagem de que o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo era uma questão religiosa. (E não é.)
Mas agora, reunida a comissão permanente da CEP, pela fala do seu porta-voz padre Manuel Morujão, vem o recado: “uma certa ferida democrática em consequência de ter havido uma movimentação tão rápida de cidadãos”, através da Plataforma Cidadania e Casamento, que “em pouquíssimas semanas se dinamizou a ponto de recolher quase uma centena de milhar de assinaturas para que pudesse haver um referendo” sobre o casamento homossexual, solicitação no entanto rejeitada pela maioria dos deputados. Não tinham nada a ver com isso, mas avaliam a qualidade da democracia.
Enfim, ser fiel católico implica, também, aprender um pouco de xadrez.

2010-01-10

o superior interesse da criança - desde o tempo do "Quim-Mau"


Tem sido um longo processo na história da humanidade, mas o olhar que dirigimos às crianças, tem evoluído com o tempo. Na sociedade portuguesa também se deu essa evolução. Mas as crianças, ainda são dos grupos mais desprotegidos que, de diversos modos, merecem a nossa atenção e empenho.

Portugal já não vive a realidade do "Quim Mau" mas ainda existe uma desresponsabilização familiar, social, governamental, sobre o que deve ser o cuidar, das crianças que vivem situações familiares de maior fragilidade.

Como aqui se diz: As crianças e adolescentes desprovidos de meio familiar não merecem menos do que quaisquer outras crianças. Vítimas de erros, actos e omissões dos adultos por eles responsáveis, dos pais aos restantes elementos da família e da sociedade, têm percursos de vida difíceis, traumáticos e negativos. Só por isso, quanto mais não fosse, são merecedores de todos os cuidados e carinhos que possam contribuir para que o presente não se torne obrigatoriamente futuro, e para que consigam inverter a tendência destrutiva do seu percurso de vida, transformando-a em projectos de sucesso, de integração e de tranquilidade.


Promover e proteger a família tem vários significados. Um deles é que é preciso deixar de ver a institucionalização de crianças como o primeiro meio para as proteger, para além da família biológica que, por motivos vários, não tem condições de o fazer.
Uma responsabilização pessoal e social, perante as nossas crianças, ajudava a mudar certos discursos e reservas sobre aquilo que se apelida "o superior interesse da criança".

The Simpsons - 25 Anos

2010-01-09

um dia bom


este blogue já tem 2200 entradas. e vai no sexto ano de edição. e a Ana publicou esta foto do Gabriel no facebook, respiguei-a para aqui. este menino é uma descoberta feliz.

amoroso e interpelador

é este texto!

se mantenho a esperança, na Igreja?

Mantenho, sim. Na Igreja e em Igreja.



"Deus não faz acepção de pessoas" - no mais íntimo de cada um "mora" Deus. Fazer essa descoberta é como nascer de novo. Fazer a experiência de Deus é tarefa para toda uma vida. Com altos e baixos, com relativos sucessos e amargas derrotas, tudo é percurso de fé.
Fazer a experiência de Deus é reconhecer que é Ele o senhor da nossa vida. Só as nossas limitações inibem que isto seja vísivel aos olhos de todos.
34*Então, Pedro tomou a palavra e disse: «Reconheço, na verdade, que Deus não faz acepção de pessoas, 35 mas que, em qualquer povo, quem o teme e põe em prática a justiça, lhe é agradável. 36*Enviou a sua palavra aos filhos de Israel, anunciando-lhes a Boa-Nova da paz, por Jesus Cristo, Ele que é o Senhor de todos. 37 Sabeis o que ocorreu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do baptismo que João pregou: 38*como Deus ungiu com o Espírito Santo e com o poder a Jesus de Nazaré, o qual andou de lugar em lugar, fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo diabo, porque Deus estava com Ele.



Act 10, 34-38

2010-01-07

um simplismo opressor

Creo en la bondad mucho más que en la verdad. Creo solamente en la verdad de Dios que no es otra cosa que la piedad universal inquebrantable. Creo en la Verdad que nadie posee, en la Verdad que todos buscamos como la vida busca el cuidado, en la Verdad que a todos nos busca y envuelve como nos buscan y envuelven la luz y la noche. Creo en la verdad de la bondad.

São palavras de despedida do teólogo fransciscano José Arregui. Vai deixar de publicar as suas reflexões e partilhas, como aconteceu nos últimos de seis anos.
A Igreja oficial (alguns bispos) não suportam a reflexão livre. Estão reféns de um simplismo que os impede de ver que a vida, o homem, Deus são realidades complexas. Vivem entrincheirados atrás de uma retórica doutrinária totalmente desligada da vida. Fiéis ao dogma, mas infiéis ao Evangelho.
Lamento mais esta vítima deste modo desumano de ser Igreja.

a arma dos pacóvios


retirado daqui

2010-01-06

é mesmo connosco

Copio integralmente um texto de opinião de Manuel António Pina. Não faz parte dos temas que nos emocionam e impulsionam a grandes debates e frentes de combate, mas existe ao nosso lado, pode até viver connosco, e devia envergonhar-nos. Seria um bom primeiro passo.


Noticia o DN que, no domingo passado, entre as 10 da manhã e as 10 da noite, foram encontrados mortos em Lisboa e levados pela PSP para o Instituto de Medicina Legal nove velhos. Viviam quase todos sozinhos, abandonados por filhos e família, sobrevivendo com a ajuda de vizinhos ou da Misericórdia, e pelo menos um deles tinha-se, em desespero, enforcado.
Segundo a notícia, só as autópsias revelarão as "causas" dessas mortes. Só que nem os bisturis dos patologistas nem a química dos analistas podem alcançar no terrível e silencioso cancro social que ceifa hoje, em Portugal, a maior parte dos nossos velhos, a solidão. Expulsos da família e da sociedade, os velhos "atravessam o presente desculpando-se por não estarem já mais longe" e, amontoados em sórdidos "lares" e hospitais públicos ou entregues a si mesmos, trilham, desamparados, o resignado e último percurso "du lit à la fenêntre, puis du lit au fauteuil, puis du lit au lit" e às campas rasas dos cemitérios. Evitamos falar disso porque a principal doença de que morrem hoje os velhos é uma doença nossa, vergonhosa, que nos culpa a todos
.




Manuel António Pina