2010-02-27

assim não, Dra Isilda Pegado

Andei a vasculhar aqui e nem queria acreditar no que encontrei.
Ironia, sabem o que é? criaturas virtuosas...

poemas para a Quaresma #5

NI SIQUIERA SOY POLVO


No quiero ser quien soy. La avara suerte
me ha deparado el siglo diecisiete,
el polvo y la rutina de Castilla,
las cosas repetidas, la mañana
que, prometiendo el hoy, nos da la víspera,
la plática del cura y del barbero,
la soledad que va dejando el tiempo
y una vaga sobrina analfabeta.
Soy hombre entrado en años. Una página
casual me reveló no usadas voces
que me buscaban, Amadís y Urganda.
Vendí mis tierras y compré los libros
que historian cabalmente las empresas:
el Grial, que recogió la sangre humana
que el Hijo derramó para salvarnos,
el ídolo de oro de Mahona,
los hierros, las almenas, las banderas
y las operaciones de la magia.
Cristianos caballeros recorrían
los reinos de la tierra, vindicando
el honor ultrajado o imponiendo
justicia con los filos de la espada.
Quiera Dios que un enviado restituya
a nuestro tiempo ese ejercicio noble.
Mis sueños lo divisan. Lo he sentido
a vezes en mi triste carne cébile.
No sé aún su nombre. Yo, Quijano,
seré ese paladín. Seré mi sueño.
En esta vieja casa hay una adarga
antigua y una hoja de Toledo
Y una lanza y los libros verdaderos
que a mi brazo prometen la victoria.
A mi brazo? Mi cara (que no he visto)
no proyecta una cara en el espejo.
Ni siquiera soy polvo. Soy un sueño
que entreteje en el sueño y la vigilia
mi hermano y padre, el capitán Cervantes,
que militó en los mares de Lepanto
Y supo unos latines y algo de árabe...
Para que yo pueda soñar al otro
cuya verde memoria será parte
de los días del hombre, te suplico:
Mi Dios, mi soñador, sigue soñandome.



Jorge Luis Borges,
Poesía completa

2010-02-26

corpo e alma



Ando aqui a tentar dialogar com o Nuno sobre o alimento natural e espiritual. Conversa difícil. Sensibilidades muito diferentes. A poetisa Adélia Prado, neste vídeo, comunica e comunica-se sobre o tema. De modo sublime.

perdoai-nos, Senhor, a passividade a que nos acomodámos


Na conferência de imprensa para apresentar a visita do Papa Bento XVI a Portugal, D. Carlos Azevedo, manifestou o desejo de que a mesma seja capaz de "desinstalar os católicos" e que tenha "consequências nos próximos anos".

Não sei que milagre espera que aconteça, pelo facto do Papa pisar solo português. A passividade dos católicos está há muito enraizada. Ela é fruto duma pastoral de infantilização e de obediência estrita dos fiéis à hierarquia.
Os católicos sentem-se desligados da Igreja. Se permanecem, é sem compromisso e empenho. Quando rompem, é simplesmente um "desligar", como se, sem mais, se deixasse de visitar aquele amigo distante de quem já não se sente proximidade.
Bom, esperemos, então, pelo milagre de Maio.


2010-02-25

poemas para a Quaresma #4

Deus absconditus

onde estás, Deus libertador
que nos perguntam por ti e não te vemos?
Deus escondido, onde estás?
Devemos procurar-te entre os destroços,
a cinza e as mãos cortadas como canas verdes,
ou à frente das batalhas,
entre os que caminham como o vento
e as folhas das plantas, sensíveis à luz,
entre os que vão de cabeça alta e regressam
da servidão do saco e do tijolo
os que acordados vêm,
os pés recentemente desatados,
a língua solta?
Deus escondido, onde moras?
devemos procurar-te entre as que fizeram o êxodo
e começaram a amar,
os que morrendo a si já ressuscitam
os que rompem as muralhas da pele e pedem água?
devemos procurar-te naqueles que sobem à montanha
para molhar as mãos de luz e transfigurar-se?
na solidão dos montes apalparei a tua face?
na limpidez dos rios e a palavra
com que fizeste o mundo verei a tua mão correndo?

onde devemos esperar-te, Deus da surpresa

e como nós trânsfuga?
Deus dos que não têm voz nem barcos
para na albufeira olhar a alma
a crescer como a sombra dos pinheiros
anoitece a alma e o rio,
Deus gratuito, onde estás?

devemos procurar-te na poesia e no canto,

no amor e na beleza,
na barraca e no lixo?
onde apareces, Deus amigo dos pobres,
onde te acharemos, Deus libertador?



José Augusto Mourão

In O Nome e a Forma, ed. Pedra Angular



aqui

Lucas 9, 28-36

La escena es considerada tradicionalmente como "la transfiguración de Jesús". No es posible reconstruir con certeza la experiencia que dio origen a este sorprendente relato. Sólo sabemos que los evangelistas le dan gran importancia pues, según su relato, es una experiencia que deja entrever algo de la verdadera identidad de Jesús.
En un primer momento, el relato destaca la transformación de su rostro y, aunque vienen a conversar con él Moisés y Elías, tal vez como representantes de la ley y los profetas respectivamente, sólo el rostro de Jesús permanece transfigurado y resplandeciente en el centro de la escena.

Al parecer, los discípulos no captan el contenido profundo de lo que están viviendo, pues Pedro dice a Jesús: «Maestro, qué bien se está aquí. Haremos tres tiendas: una para ti, otra para Moisés y otra para Elías». Coloca a Jesús en el mismo plano y al mismo nivel que a los dos grandes personajes bíblicos. A cada uno su tienda. Jesús no ocupa todavía un lugar central y absoluto en su corazón.
La voz de Dios le va a corregir, revelando la verdadera identidad de Jesús: «Éste es mi Hijo, el escogido», el que tiene el rostro transfigurado. No ha de ser confundido con los de Moisés o Elías, que están apagados. «Escuchadle a él». A nadie más. Su Palabra es la única decisiva. Las demás nos han de llevar hasta él.
Es urgente recuperar en la Iglesia actual la importancia decisiva que tuvo en sus comienzos la experiencia de escuchar en el seno de las comunidades cristianas el relato de Jesús recogido en los evangelios. Estos cuatro escritos constituyen para los cristianos una obra única que no hemos de equiparar al resto de los libros bíblicos.
Hay algo que sólo en ellos podemos encontrar: el impacto causado por Jesús a los primeros que se sintieron atraídos por él y le siguieron. Los evangelios no son libros didácticos que exponen doctrina académica sobre Jesús. Tampoco biografías redactadas para informar con detalle sobre su trayectoria histórica. Son "relatos de conversión" que invitan al cambio, al seguimiento a Jesús y a la identificación con su proyecto.
Por eso piden ser escuchados en actitud de conversión. Y en esa actitud han de ser leídos, predicados, meditados y guardados en el corazón de cada creyente y de cada comunidad. Una comunidad cristiana que sabe escuchar cada domingo el relato evangélico de Jesús en actitud de conversión, comienza a transformarse. No tiene la Iglesia un potencial más vigoroso de renovación que el que se encierra en estos cuatro pequeños libros.


José Antonio Pagola
28 de febrero de 2010
2 Cuaresma (C)

(retirado daqui)

2010-02-24

notável

retirado daqui

sombrios tempos para a liberdade


Na vizinha Espanha, a ala mais conservadora da hierarquia católica (infelizmente, a mais influente), vai continuando a fazer estragos. Desta vez, depois das pressões inquisitoriais, conseguiu que a editora PPC mandasse recolher todos os exemplares da 9ª edição do livro "Jesus, Aproximación histórica" do teólogo José António Pagola.

Tenho um exemplar que foi editado em Portugal pela Gráfica de Coimbra, com tradução de Bernardino Henriques.

Da leitura do livro a única reacção possível é de incredulidade. Incredulidade perante tamanha ignorância e falta de inteligência, da parte daqueles que perseguem deste modo inquisitório, um livro inofensivo.

indigno

é o regime que permite isto.

2010-02-21

madeira - 20/02/2010

depois queixem-se



A dra Isilda Pegado foi para a Avenida manifestar-se pelo casamento e pela família. E que não é contra ninguém. Acha a dra Isilda.
À manifestação que, não sendo uma organização da Igreja Católica, foi anunciada com destaque no site ecclesia e contou com o apoio mais ou menos explícito de vários padres, juntaram-se grupos de extrema direita que são bem conhecidos pelas posições de exclusão que defendem.
A dra Isilda e as pessoas que a acompanharam na Avenida, invocavam o direito a votar em referendo e a um debate alargado, mas as frases que empunhavam, os discursos, as palavras de ordem, eram bem taxativos. No fantástico mundo de famílias felizes e perfeitas, não cabem os diferentes.
Senão, vejamos alguns dos cartazes:"não nos tirem os nossos valores" e "tu acomodas-te, eles incomodam-te". E que dizer da mulher que, ladeada pelos filhos, empunha o cartaz:"sou mãe graças ao pai dos meus filhos, que é meu marido". Uma mulher feliz, sem dúvida.
Para os senhores bispos que não se quiseram comprometer a descer a Avenida, também havia um recado:"Srs Bispos não confundam o povo". Também acho.

2010-02-20

para se entender melhor o que está em causa na manifestação de hoje

Ajuda na reflexão, a leitura deste texto de José Maria Castillo. A palavra fundamental é o fanatismo. Vale a pena ler tudo, mas este excerto esclarece o essencial:

O pior que o fanatismo tem é que a sua essência "reside no desejo de obrigar os outros a mudar" (Amos Oz). Ou seja, os fanáticos vêem-se a si mesmos investidos com o sagrado direito de:

!º - Não aceitar jamais o ponto de vista oposto.
2º - Obrigar o que se lhe opõe a que mude a sua maneira de ver a vida e as soluções necessárias à pessoa, à sociedade...



(tradução livre do texto original)

porque fico em casa


Nesta manifestação não está em causa a defesa da família. Está, sim, a defesa de um modelo de família que se quer impor a todos os outros, excluindo-os e marginalizado-os.

poemas para a Quaresma # 3



IGNOTO DEO


Desisti de saber qual é o Teu nome,
Se tens ou não tens nome que Te demos,
Ou que rosto é que toma, se algum tome,
Teu sopro tão além de quanto vemos.

Desisti de Te amar, por mais que a fome
Do Teu amor nos seja o mais que temos,
E empenhei-me em domar, nem que os não dome,
Meus, por Ti, passionais e vãos extremos.

Chamar-Te amante ou pai... grotesco engano
Que por demais tresanda a gosto humano!
Grotesco engano o dar-te forma! E enfim,

Desisti de Te achar no quer que seja,
De Te dar nome, rosto, culto, ou igreja...
– Tu é que não desistirás de mim!


José Régio

2010-02-18

convite - contra a indiferença

Ainda estou expectante. Para já sou fã. O que é coisa fraquinha. Mas promete agitar as águas turvas da politiquice que nos cerca. Vamos ver!

desagravo



Dois adolescentes ao passarem defronte deste museu, exprimiram o desconhecimento sobre o mesmo, aludindo a que devia ser do pai da Ana Malhoa, cantora.


Espero que não sejam residentes na cidade e concelho. Mesmo não o sendo, lamento a falta de conhecimento. Bom, mas até podia não ser nada disso. E ser antes uma piadinha para a cota ouvir. Euzinha, claro.


Ilustra este textinho de desagravo, o quadro mais emblemático de José Malhoa - O Fado - pintado em 1910. Sei que anda algures pela capital entre Museu da Cidade e Museu do Fado. Não sei em qual dos dois está neste momento. Mas está em Lisboa.

poemas para a Quaresma # 2


Deserto


Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.


Sophia de Mello Breyner Andresen

2010-02-17

poemas para a Quaresma

(Miguel Ângelo, A Queda de Faetonte)



Quando sob os pinheiros, e quando escrava,
minha alma vestia um corpo torturado,
ainda a terra voava célere para mim
e as aves se desvairavam ao som rouco dos cavalos,

Agulhas negras, escamas dos pinheiros,
as cascas
e rubro sob os pés jorra
o mirtilo,
e meus furiosos dedos rasgam pálpebras,
meu corpo quer viver. Será que este
sou eu?

Serei eu de carbonizada boca procurando
os joelhos das raízes secas, e que a terra
engole como outrora o sangue, e as irmãs
de Faetonte se transfiguram, choram âmbar?



Arseny A. Tarkovsky






Trad. Nina Guerra e Filipe Guerra
in Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o Futuro, Assírio & Alvim



2010-02-07

"Igreja fracturada, sociedade fracturada"


O padre Anselmo Borges, no artigo de opinião no DN de ontem, aludiu a uma carta escrita pelo jesuíta Henri Boulad, ao Papa. Deu-lhe um título de que pessoalmente não gostei - "Carta demolidora ao Papa".
Pelo que já tinha lido anteriormente, a carta foi escrita há cerca de três anos. Foi uma carta pessoal endereçada a Bento XVI. Não obteve resposta à mesma e decidiu torná-la pública.
Pode ser lida neste blogue de um padre português. Acho curioso que a leitura da carta não desperte troca de comentários nos frequentadores do blogue. Os que escreveram, vieram através de um link brasileiro.

A carta, quanto a mim, reflecte com seriedade alguns dos problemas que afectam a Igreja de hoje. Não os ver e enunciar é manifestação de um alheamento muito pouco cristão.
A mensagem cristã convoca para a missão. Mas só pode responder aos apelos de Deus uma comunidade desperta para os mesmos e com empenho ciativo.
Os grandes sinais que nos vêm de Roma são de continuidade do conservadorismo. Numa sociedade que é dinâmica, as fracturas vão-se expondo.


Também José Maria Castillo remete para a importância da religião. Diz que "uma religião fracturada, acaba também fracturando a convivência e rompendo a sociedade". Mais à frente, questiona em que Deus cremos verdadeiramente. E devíamos começar por aí numa reflexão séria sobre a religião e o seu papel na vida das pessoas e da sociedade.



imagem sorrateiramente roubada daqui

é urgente reagir aos desiluminados opinadores que nos cercam


com permissão de www.malvados.com.br/

só quem é livre pode dizer

«Eis-me aqui, envia-me.»

(Isaías 6, 8)

2010-02-06

Poderosas, assumi-vos


A Joana Lopes desafia-me. Que assuma, aqui e agora, que sou poderosa. Vindo da Joana, que considero uma referência feminina, é quase uma ordem. Então vamos a isto:

Publico o selinho.

Nomeio alguém para continuar a corrente. Pois, aqui é que estamos mal. Tirando a Joana e a Helena (já nomeada pela Joana) fico sem grandes hipóteses. Mas desistir é que não. Vai o convite para a Zazie que é mulher para valer por cinco.
E,finalmente, sou Poderosa porque assumo as escolhas que faço. Poderosa no sentido de força: sou, pois!

2010-02-04

em dívida para com os poetas

Para aqueles que frenquentam o jardim
o mundo está sempre a florescer

Longe de mim diminuir o louvor



Um amigo enviou-me este pequeno trecho da poesia de José Tolentino de Mendonça com a referência de que ganhou o Prémio Literário Fundação Inês de Castro 2009, graças ao livro 'O Viajante sem Sono'.
A poesia abre-nos os olhos. Deixemo-nos iluminar.

a normalização da cupidez

Baptista-Bastos em artigo de opinião no DN, reflecte sobre a falta de arrependimento, manifestada perante uma Comissão de Inquérito, de Tony Blair, acerca da invasão do Iraque. Escreve: A inversão de valores parece ter encontrado, no comportamento de muitos políticos, a verdadeira natureza dos seus objectivos. Desejam tornar conversíveis para a "normalidade" o que, ainda não há muito tempo, era entendido como desonestidade e vileza.
Não deixa de referir, também, que Blair é um recém-convertido ao catolicismo. Não sei se formalmente isso já se verificou. Um sinal eficaz - legível - dessa conversão, era o reconhecimento público, do logro que foi a invasão do Iraque.