2010-03-02

a instrumentalização da pessoa é um atentado à vida

Hans Castorp sonhava, o olhar preso ao braço de Madame Chauchat. Como as mulheres se vestiam! Mostrando aqui e ali um pouco da nuca e do peito, velando os braços com uma gaze transparente...Faziam o mesmo em qualquer lugar do mundo, tudo para despertar o nosso desejo ansioso. Meu Deus, como a vida era bela! E era bela devido a certas evidências, como o facto das mulheres vestirem roupas sedutoras - pois que era de uma absoluta evidência, uma coisa tão natural e conhecida em toda a parte que deixara de ser motivo de reflexão e passara a simples dado inconscientemente aceite. Mas era necessário ganhar consciência em relação a isso, pensava Hans Castorp, para se fruir a vida em plenitude e perceber que se tratava, no fundo, de um mecanismo fabuloso e afortunado. É claro que era em função de uma determinada finalidade que as mulheres tinham o direito de vestir-se de modo tão fabuloso e afortunado, sem com isso violarem as regras do decoro. Era obviamente a geração futura, a reprodução do género humano que estava em causa. Mas, e então, se a mulher estava doente por dentro e não servia o objectivo da maternidade - o que sucedia nesse caso? Haveria, então, algum sentido em usar mangas de gaze e despertar a curiosidade do homem em relação ao seu corpo - um corpo interiormente enfermo? É evidente que não fazia nenhum sentido e deveria ser, portanto, declarado indecoroso e interdito. Pois que um homem se interessasse por uma mulher enferma era decididamente tão pouco razoável como...bem, como o secreto interesse que Hans Castorp em tempos nutrira por Pribislav Hippe.

Thomas Mann, "A Montanha Mágica" pág. 151



Este pequeno texto, focado num tempo histórico próprio, não deixa de ter actualidade quando, hoje, se levantam algumas vozes a apelar para a exclusiva funcionalidade reprodutora do casamento. Isto a propósito da legislação de acesso ao casamento civil por parte de casais de pessoas do mesmo sexo.


Bento XVI, não se cansa de advertir contra o relativismo frente à vida humana. E tem razão. Relativismo é sempre que apelamos a um sistema moral utilitário da pessoa. E, neste caso, das pessoas que constituem um casal do mesmo sexo.
Dizer que esses casais são inférteis é, nem mais nem menos, que estar a pretender instrumentalizar as pessoas que os compõem.
O homem não é só materialidade. E a fecundidade vai muito para além da reprodução biológica.

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