2010-04-28

O "Inverno da Igreja"

O padre Mário Oliveira nesta entrevista aborda a visita de Bento XVI a Portugal e o actual momento que a Igreja vive. Acutilante e sem papas na língua refere algumas questões essenciais.
Mário  Oliveira tem uma experiência particular de ser Igreja e ser padre. Louve-se-lhe a coragem e coerência. Capacidades humanas sem as quais não seria possível viver na forma "marginal" em que vive.

2010-04-27

Mais uma reflexão sobre a actual crise da Igreja

Pedofilia e poder Sagrado

Introdução

"Mas, qualquer que fizer tropeçar um destes pequeninos que crêem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma pedra de moinho, e que o lançassem na profundeza do mar". (Palavra de Jesus em Mt 18,6 e textos paralelos: Mc 9,42 / Lc 17,2).

A minha intenção com este artigo não é somente aprofundar os testemunhos sobre a pedofilia na Igreja; mas, ir às causas, raiz e consequências dessa perversidade. A pedofilia e outras iniquidades similares desencadearam uma crise na Igreja, que não é temporária, que possa ser ocultada e esquecida; mas uma crise profunda de credibilidade que pode levar muitas décadas para ser solucionada.
 
1. A Igreja entre a iniquidade e a libertação
  Um facto revelador é confrontar a atitude da Igreja diante da pedofilia e a atitude radicalmente diferente da mesma Igreja diante da Teologia da Libertação.
Por um lado, a hierarquia foi permissiva, tolerante, legitimadora e encobridora da pedofilia. Por outro lado, quase ao mesmo tempo, a hierarquia da Igreja teve uma vigilância extrema sobre a Teologia da Libertação que levou a muitas condenações e medidas altamente repressivas e bem divulgadas na mídia. Tivemos um modelo de Igreja onde se abusou das crianças e as prejudicou profundamente ma sua natureza humana. Quase na mesma época, tivemos outro modelo de Igreja que optou pelos pobres e buscou a sua libertação. À Teologia da Libertação foi exigida fidelidade irrestrita ao dogma católico e obediência ao Sumo Pontífice. À Igreja que sofria com o problema dos clérigos pedófilos lhe foi imposto guardar silêncio, ocultar os fatos, inclusive em casos graves; guardar a informação como "segredo pontifício" (cf. Carta de Hans Küng aos bispos).
 
2. Crise de uma Igreja cujo poder é a instituição, a lei e o dogma

Paulo de Tarso diz: "Separados estais de Cristo, vós os que vos justificais pela lei; da graça tendes caído. Quanto a nós, pelo Espírito da fé aguardamos a esperança da justiça" (Gal 5,4-5).
Existe um modelo de Igreja que busca a justiça no cumprimento fiel da lei, da norma, do Canon, do dogma, da doutrina, da rubrica e da estrutura hierárquica da Igreja. Existe outro modelo de Igreja que busca a justiça numa atitude crítica diante da lei, do dogma e da estrutura hierárquica da Igreja. Essa busca tornou-se efectiva numa nova maneira de fazer teologia (a teologia da Libertação), numa nova maneira de ser Igreja (as Comunidades de Base), numa nova maneira de interpretar a Bíblia (a leitura comunitária da Bíblia) e numa nova maneira de organizar os ministérios e de celebrar a liturgia, à margem da rubrica e da lei. A Igreja que buscou a justiça na defesa absoluta da lei "rompeu com Cristo e caiu em desgraça". A pedofilia é um signo dessa ruptura e dessa desgraça. A Igreja da lei já não é uma Igreja que busca a justiça por meio do Espírito e da prática da Fé.
"Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens que detêm a verdade em injustiça; porquanto o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta, porque Deus lho manifestou.
Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto a sua eterna potência como a sua divindade, se entendem e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis; porquanto, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se entenebreceu..." (cf. Carta de Paulo aos Romanos 1, 18-30).
"Nenhuma condenação existe para os que vivem em Cristo Jesus, porque a lei do espírito que dá vida em Jesus Cristo te libertou da lei do pecado e da morte (8, 1-2).

3. Leis, estruturas e dogmas que deram vida à perversão

a) A lei do celibato obrigatório
O celibato obrigatório pode causar danos profundos à natureza humana. Uma excepção, à luz dos Evangelios, seria o celibato assumido livremente por clérigos ou de leigos por causa do Reino de Deus. De facto, existem médicos, enfermeiras, educadores e muitas outras pessoas que entregam a vida inteira ao serviço dos pobres, dentro ou fora da Igreja.
Nos seminários e nos retiros espirituais aos sacerdotes, fala-se muito de "crucificar a sexualidade". Outras vezes se disse que os desvios de tipo sexual são subjetivos e podem ser superados com a oração, com uma boa disciplina e orientação psicológica, que não é dada normalmente por psicólogos, mas por "directores espirituais", prejudicados eles mesmos pelo celibato obrigatório.

b) A própria lei que justifica o celibato e condena a homossexualidade
A homossexualidade é uma opção legítima, quando está guiada por uma ética de amor e fidelidade. Um problema frequente surge quando se utiliza a condição clerical para encobrir a homossexualidade. A perversão não é a homossexualidade, mas a utilização da instituição eclesial para encobri-la. A homossexualidade manipulada, reprimida e escondida pode ser causa de sérias perversões sexuais. O Cardeal Tarcisio Bertone, Secretário de Estado do Vaticano, na visita ao Chile, sentenciou que não existe uma relação entre o celibato e a pedofilia; mas entre a homossexualidade e a pedofilia, e que esta constatação estaria fundada em sérias investigações científicas de psicólogos e psiquiatras. O Cardeal, numa só declaração, tentou justificar o celibato e condenar a homossexualidade, com o qual negou toda culpabilidade da Igreja nos delitos de pedofilia e culpabilizou aos homossexuais por esses delitos.

c) A lei absoluta na Igreja de incluir somente homens em sua hierarquia
A Igreja católica é a instituição religiosa mais antiga e poderosa onde toda a sua estrutura hierárquica é composta exclusivamente por homens. Uma revista (Newsweek) falou do "clube masculino com mais êxito e indestrutível em toda a história". O Papa, em Roma; o Bispo, em sua Diocese e o Pároco, em sua Paróquia é o poder sagrado masculino mais antigo na Igreja.
A exclusão da mulher da estrutura hierárquica da Igreja Católica é a outra cara da masculinização absoluta do ministério clerical. Essa situação transforma a hierarquia eclesial num espaço onde tudo é discutido e decidido entre homens. Qual seria a posição da hierarquia se a pedofilia fosse discutida entre homens e mulheres? Como seria a Igreja Católica se o cargo actual de Secretário de Estado fosse exercido por uma mulher ordenada cardeal ou se uma mulher estivesse a cargo de um dicastério no Vaticano?

d) Confrontação da Igreja Católica com a modernidade
A Igreja, desde o século XIX, se vê ameaçada pela modernidade. Por isso redigiu o "Sílabo dos erros modernos". O Concílio Vaticano I (1869-1870) enfrentou a "civilização moderna" quando afirma a autonomia da razão, do indivíduo, do Estado e das ciências frente à Igreja Católica.
Algumas conclusões do Concilio Vaticano I:
- que a Igreja é uma "sociedade verdadeira, perfeita, espiritual e sobrenatural";
- que a Igreja é "indefectível" e "infalível".
Define o primado do Pontífice Romano, a soberania temporal da Santa Sé e a função do Papa como juiz supremo de qualquer controvérsia eclesiástica, enquanto que ele não pode ser julgado por ninguém, nem sequer pelo Concílio. Finalmente, se proclama "como dogma divinamente revelado que o pontífice romano, quando fala ex-cátedra, goza de infalibilidade".
Enquanto tenhamos um modelo de Igreja marcado por essa tradição conservadora, a hierarquia católica será incapaz de aceitar os melhores avanços da modernidade, especialmente em matéria de sexualidade humana.

e) A lei que une perversão sexual e poder sagrado
O arcebispo de Pointers, Dom Albert Rouet, no seu livro intitulado "J’amerais vous dire" (Bayard, 2009) escreve: "A Igreja Católica esteve sacudida durante vários meses pela revelação de escândalos de pedofilia. Isso tudo é uma surpresa? Quisera antes de tudo precisar uma coisa: para que exista pedofilia são necessárias duas condições: uma perversão profunda e um poder. Isso quer dizer que todo sistema fechado, idealizado e sacralizado é um perigo. Quando uma instituição, incluída a Igreja, se fundamenta numa posição de direito privado e se afirma em uma posição de força, os desvios financeiros e sexuais chegam a ser possíveis".

4. As vítimas da pedofilia e a credibilidade da Igreja
É importante ver toda a realidade da pedofilia a partir das suas vítimas. A Igreja considerou até há pouco a pedofilia como um pecado e não como um delito. O pecado pode ficar oculto no segredo do sacramento da confissão; porém, o delito é um crime que deve ser levado a público, aos tribunais. A Igreja hierárquica rechaçou a culpabilização da pedofilia e ocultou ao pedófilo para salvar como Igreja a sua credibilidade e prestígio. A Igreja também ocultou a criminalização da pedofilia para evitar ser condenada e obrigada a pagar uma indemnização económica. Ocultar o delito e o delinquente para salvar o prestígio da Igreja é uma iniquidade e uma agressão às vítimas. Expressa também hipocrisia, farisaísmo e falta de solidariedade.
A Igreja Hierárquica ocultou aos padres pedófilos com o pretexto de tornar possível um seguimento psicológico. Os traslada de uma paróquia para outra ou os envia para uma diocese fora do país com o pretexto de uma reabilitação dos pedófilos de maneira a que a credibilidade e o prestígio da Igreja não sejam abalados. Argumentou-se que a pedofilia era uma "doença" que para ser "curada" devia evitar-se todo escândalo público (entrevista ao Cardeal Darío Castrillón Hoyos, realizada por Patricia Janiot, na CNN).
Um argumento utilizado para ocultar a pedofilia do clero era a prioridade que se devia dar à Instituição Eclesial sobre suas vítimas. A reabilitação do clero pedófilo era vista como necessária em função dos interesses da própria Igreja. Esta, além disso, não devia "perder" um sacerdote por causa de um "problema pessoal", como era considerada a pedofilia. Também argumentou-se que o número de sacerdotes pedófilos era insignificante em comparação com a maioria dos sacerdotes que não o eram. E discutiu-se que o percentual da pedofilia no clero era mínima se fosse comparada com o percentual da pedofilia em nível social e mundial.
Também a Igreja enfrentou os meios de comunicação que denunciavam a pedofilia na Igreja. Interpretou isso como uma campanha midiática perversa contra a Igreja Católica. A Igreja agora se apresentava como vítima e ocultava as verdadeiras vítimas da pedofilia.
Todos esses argumentos confirmam que a Igreja não via a pedofilia a partir de suas vítimas; mas, a partir de seus interesses, especialmente a partir da defesa de sua credibilidade e autoridade.

5. Os gritos das vítimas e os prantos da hierarquia católica
Não basta que a Igreja peça perdão pelos delitos de pedofilia cometidos por sua hierarquia episcopal e presbiteral. Tampouco basta a condenação dos sacerdotes pedófilos e da assim chamada "tolerância zero". Tampouco basta que a Igreja tome as medidas disciplinares para que a prática da pedofilia desapareça para sempre. Não basta reconhecer que a Igreja se sente ferida e arrependida. Não basta que os legionários de Cristo declarem que o seu fundador, o Padre Marcial Maciel, e alguns de seus discípulos não são exemplos de vida cristã e sacerdotal.
Tudo isso é justo e necessário; porém, falta o mais importante: escutar o grito das vítimas. Toda a problemática da pedofilia deve ser analisada e julgada por eles mesmos e a partir de sua própria realidade. Os que têm sido vítimas têm direito a ser sujeitos de sua própria vida, sujeitos da reconstrução de suas vidas e sujeitos da reconstrução dos factos dos quais  foram vítimas. Não desejam que sejam outros,  que falem por eles. Exigem eles mesmos uma explicação sobre o porquê a Igreja ocultou os clérigos e bispos pedófilos. Pedem pessoalmente uma condenação de seus agressores e uma indemnização pelos danos infligidos. Eles, como sujeitos querem ser solidários com outras vítimas de pedofilia, na Igreja e na sociedade que, todavia, ainda não puderam fazer sua denúncia e levá-la a julgamento. O grito das vítimas já ressoa no mundo inteiro.
Sentimos hoje a actualidade das palavras que Deus disse a Moisés: "Vi a aflição de meu povo no Egipto; escutei o seu clamor contra seus opressores e conheço seus sofrimentos. Vim para libertá-los e conduzi-los a uma terra onde jorra leite e mel" (Êxodo 3, 7-8).

Pablo Richard,


* Teólogo e biblista chileno

2010-04-20

a mentalidade submissa geradora de uma falsa noção de segurança

Pero, sin duda, la gran maestra en la formación de la mentalidad sumisa es la religión. Es un hecho que la Iglesia da abundantes muestras de estar más interesada en imponer deberes a la gente, que en defender los derechos de los ciudadanos. Lo que desencadena una consecuencia fatal. Como bien ha indicado J. Feinberg, un sistema moral basado más en la imposición de deberes que en la defensa de derechos desemboca en un sistema “moralmente empobrecido”.
Porque en él las personas desarrollan caracteres de servilismo, que suplica y espera los “favores” del amo, del patrono, del superior o del jerarca que gobierna. Si pensamos así, ¿de qué nos quejamos? ¿No tendríamos que clamar, ante todo, contra nuestra propia “mentalidad sumisa”?

é caricato demais para levar a sério, mas...

acebei de ser expulsa de um grupo de católicos do facebook. Interpelei um senhor, já com provas dadas de falta de carácter, e foi-me barrado o acesso. Renovar a Igreja? Sim, se ela não servir a outros fins. Ou melhor, que certas pessoas, não se sirvam dela para outros fins e objectivos bem determinados - a conquista do poder. Poder político, de carreira (a UC) etc.

2010-04-19

um beco sem saída?

Rui Bebiano num olhar crítico sobre a Igreja Católica, a partir da carta de Hans Küng: Nela, considera o teólogo suíço que a Igreja católica vive actualmente a maior crise desde os tempos da Reforma protestante – e não por causa dos casos recentemente mediatizados, que não passam de epifenómenos –, entendendo que existe um dever, por parte dos próprios responsáveis católicos, de promoverem grandes e urgentes reformas. Mas reconhece implicitamente que estas terão de contornar o imobilismo atávico da hierarquia. Sugere, assim, não propriamente uma correcção ou um aggiornamento, mas antes um reequilíbrio, talvez uma refundação. O que significaria a criação, a partir de dentro e com a intervenção dos próprios hierarcas, de uma outra Igreja. A ideia será simpática, evidentemente, para quem todos os dias observa, a partir de fora, a inadequação de Roma aos tempos que correm e à revalorização de um humano cada vez mais livre e plural. Só que ela é impossível de praticar a partir de dentro, uma vez que – e isso papa e Santa Cúria Apostólica vêem com clareza – tal conduziria à implosão dessa instituição, com vinte séculos de prestação de serviços e património acumulado, da qual constituem, actualmente, os corpos gerentes em exercício. O Vaticano jamais verá uma glasnost e Bento XVI não será Gorbatchev.

2010-04-18

ontem, as lágrimas nos teus olhos


Mergulhei recentemente o meu olhar no fundo dos teus olhos, ó Vida; vi o ouro cintilar no fundo dos teus olhos tenebrosos - e o meu coração encantado parou de bater.

-vi cintilar uma barca de ouro em águas tenebrosas, uma barca de ouro movediça que mergulhava, enchia-se, depois voltava sempre a aparecer.

Baixaste um olhar para os meus pés de dançarino apaixonado, um olhar móvel, risonho, interrogador, acariciador.

Duas vezes apenas as tuas mãozinhas agitaram as castanholas, e já o meu pé se lançava, dominado pelo furor da dança.

Os meus calcanhares firmavam-se, os meus dedos dos pés esforçavam-se por te compreender - porque o dançarino traz as orelhas nos dedos dos pés.

Projectei-me para ti mas tu furtaste-te ao meu impulso, e as mechas dos teus cabelos flutuantes, na tua fuga, pareciam línguas que me dardejavam.

Dei um salto para me afastar de ti e das tuas serpentes: já tu tinhas parado e desviado, com o olhar afogado de desejo.

O teu olhar oblíquo ensina-me os caminhos oblíquos; por esses caminhos oblíquos os meus pés aprendem todas as espécies de astúcias.

Receio-te, quando te aproximas - admiro-te, quando estás longe - fugindo, atrais-me - sofro, mas o que eu não sofreria de boa vontade por ti?


Nietzshe - "Assim falava Zaratrusta"

2010-04-15

carta aberta de Hans Kung a todos os bispos


Estimados obispos,

Joseph Ratzinger, ahora Benedicto XVI, y yo fuimos entre 1962 1965 los dos teólogos más jóvenes del concilio. Ahora, ambos somos los más ancianos y los únicos que siguen plenamente en activo. Yo siempre he entendido también mi labor teológica como un servicio a la Iglesia. Por eso, preocupado por esta nuestra Iglesia, sumida en la crisis de confianza más profunda desde la Reforma, os dirijo una carta abierta en el quinto aniversario del acceso al pontificado de Benedicto XVI. No tengo otra posibilidad de llegar a vosotros.

Aprecié mucho que el papa Benedicto, al poco de su elección, me invitara a mí, su crítico, a una conversación de cuatro horas, que discurrió amistosamente. En aquel momento, eso me hizo concebir la esperanza de que Joseph Ratzinger, mi antiguo colega en la Universidad de Tubinga, encontrara a pesar de todo el camino hacia una mayor renovación de la Iglesia y el entendimiento ecuménico en el espíritu del Concilio Vaticano II.
Mis esperanzas, y las de tantos católicos y católicas comprometidos, desgraciadamente no se han cumplido, cosa que he hecho saber al papa Benedicto de diversas formas en nuestra correspondencia. Sin duda, ha cumplido concienzudamente sus cotidianas obligaciones papales y nos ha obsequiado con tres útiles encíclicas sobre la fe, la esperanza y el amor. Pero en lo tocante a los grandes desafíos de nuestro tiempo, su pontificado se presenta cada vez más como el de las oportunidades desperdiciadas, no como el de las ocasiones aprovechadas:

- Se ha desperdiciado la oportunidad de un entendimiento perdurable con los judíos: el Papa reintroduce la plegaria preconciliar en la que se pide por la iluminación de los judíos y readmite en la Iglesia a obispos cismáticos notoriamente antisemitas, impulsa la beatificación de Pío XII y sólo se toma en serio al judaísmo como raíz histórica del cristianismo, no como una comunidad de fe que perdura y que tiene un camino propio hacia la salvación. Los judíos de todo el mundo se han indignado con el predicador pontificio en la liturgia papal del Viernes Santo, en la que comparó las críticas al Papa con la persecución antisemita.

- Se ha desperdiciado la oportunidad de un diálogo en confianza con los musulmanes; es sintomático el discurso de Benedicto en Ratisbona, en el que, mal aconsejado, caricaturizó al islam como la religión de la violencia y la inhumanidad, atrayéndose así la duradera desconfianza de los musulmanes.
- Se ha desperdiciado la oportunidad de la reconciliación con los pueblos nativos colonizados de Latinoamérica: el Papa afirma con toda seriedad que estos “anhelaban” la religión de sus conquistadores europeos.

- Se ha desperdiciado la oportunidad de ayudar a los pueblos africanos en la lucha contra la superpoblación, aprobando los métodos anticonceptivos, y en la lucha contra el sida, admitiendo el uso de preservativos.

- Se ha desperdiciado la oportunidad de concluir la paz con las ciencias modernas: reconociendo inequívocamente la teoría de la evolución y aprobando de forma diferenciada nuevos ámbitos de investigación, como el de las células madre.

- Se ha desperdiciado la oportunidad de que también el Vaticano haga, finalmente, del espíritu del Concilio Vaticano II la brújula de la Iglesia católica, impulsando sus reformas.
Este último punto, estimados obispos, es especialmente grave. Una y otra vez, este Papa relativiza los textos conciliares y los interpreta de forma retrógrada contra el espíritu de los padres del concilio. Incluso se sitúa expresamente contra el concilio ecuménico, que según el derecho canónico representa la autoridad suprema de la Iglesia católica.

- Ha readmitido sin condiciones en la Iglesia a los obispos de la Hermandad Sacerdotal San Pío X, ordenados ilegalmente fuera de la Iglesia católica y que rechazan el concilio en aspectos centrales.

- Apoya con todos los medios la misa medieval tridentina y él mismo celebra ocasionalmente la eucaristía en latín y de espaldas a los fieles.

- No lleva a efecto el entendimiento con la Iglesia anglicana, firmado en documentos ecuménicos oficiales (ARCIC), sino que intenta atraer a la Iglesia católico-romana a sacerdotes anglicanos casados renunciando a aplicarles el voto de celibato.

- Ha reforzado los poderes eclesiales contrarios al concilio con el nombramiento de altos cargos anticonciliares (en la Secretaría de Estado y en la Congregación para la Liturgia, entre otros) y obispos reaccionarios en todo el mundo.

El Papa Benedicto XVI parece alejarse cada vez más de la gran mayoría del pueblo de la Iglesia, que de todas formas se ocupa cada vez menos de Roma y que, en el mejor de los casos, aún se identifica con su parroquia y sus obispos locales.
Sé que algunos de vosotros padecéis por el hecho de que el Papa se vea plenamente respaldado por la curia romana en su política anticonciliar. Esta intenta sofocar la crítica en el episcopado y en la Iglesia y desacreditar por todos los medios a los críticos. Con una renovada exhibición de pompa barroca y manifestaciones efectistas cara a los medios de comunicación, Roma trata de exhibir una Iglesia fuerte con un “representante de Cristo” absolutista, que reúne en su mano los poderes legislativo, ejecutivo y judicial.
Sin embargo, la política de restauración de Benedicto ha fracasado. Todas sus apariciones públicas, viajes y documentos no son capaces de modificar en el sentido de la doctrina romana la postura de la mayoría de los católicos en cuestiones controvertidas, especialmente en materia de moral sexual. Ni siquiera los encuentros papales con la juventud, a los que asisten sobre todo agrupaciones conservadoras carismáticas, pueden frenar los abandonos de la Iglesia ni despertar más vocaciones sacerdotales.
Precisamente vosotros, como obispos, lo lamentaréis en lo más profundo: desde el concilio, decenas de miles de obispos han abandonado su vocación, sobre todo debido a la ley del celibato. La renovación sacerdotal, aunque también la de miembros de las órdenes, de hermanas y hermanos laicos, ha caído tanto cuantitativa como cualitativamente. La resignación y la frustración se extienden en el clero, precisamente entre los miembros más activos de la Iglesia.
Muchos se sienten abandonados en sus necesidades y sufren por la Iglesia. Puede que ese sea el caso en muchas de vuestras diócesis: cada vez más iglesias, seminarios y parroquias vacíos. En algunos países, debido a la carencia de sacerdotes, se finge una reforma eclesial y las parroquias se refunden, a menudo en contra de su voluntad, constituyendo gigantescas “unidades pastorales” en las que los escasos sacerdotes están completamente desbordados.
Y ahora, a las muchas tendencias de crisis todavía se añaden escándalos que claman al cielo: sobre todo el abuso de miles de niños y jóvenes por clérigos -en Estados Unidos, Irlanda, Alemania y otros países- ligado todo ello a una crisis de liderazgo y confianza sin precedentes. No puede silenciarse que el sistema de ocultamiento puesto en vigor en todo el mundo ante los delitos sexuales de los clérigos fue dirigido por la Congregación para la Fe romana del cardenal Ratzinger (1981-2005), en la que ya bajo Juan Pablo II se recopilaron los casos bajo el más estricto secreto. Todavía el 18 de mayo de 2001, Ratzinger enviaba un escrito solemne sobre los delitos más graves (Epistula de delitos gravioribus) a todos los obispos.
En ella, los casos de abusos se situaban bajo el secretum pontificium, cuya vulneración puede atraer severas penas canónicas. Con razón, pues, son muchos los que exigen al entonces prefecto y ahora Papa un mea culpa personal. Sin embargo, en Semana Santa ha perdido la ocasión de hacerlo. En vez de ello, el Domingo de Ramos movió al decano del colegio cardenalicio a levantar urbi et orbe testimonio de su inocencia.
Las consecuencias de todos estos escándalos para la reputación de la Iglesia católica son devastadoras. Esto es algo que también confirman ya dignatarios de alto rango. Innumerables curas y educadores de jóvenes sin tacha y sumamente comprometidos padecen bajo una sospecha general. Vosotros, estimados obispos, debéis plantearos la pregunta de cómo habrán de ser en el futuro las cosas en nuestra Iglesia y en vuestras diócesis. Sin embargo, no querría bosquejaros un programa de reforma; eso ya lo he hecho en repetidas ocasiones, antes y después del concilio. Sólo querría plantearos seis propuestas que, es mi convicción, serán respaldadas por millones de católicos que carecen de voz.

1. No callar: en vista de tantas y tan graves irregularidades, el silencio os hace cómplices. Allí donde consideréis que determinadas leyes, disposiciones y medidas son contraproducentes, deberíais, por el contrario, expresarlo con la mayor franqueza. ¡No enviéis a Roma declaraciones de sumisión, sino demandas de reforma!

2. Acometer reformas: en la Iglesia y en el episcopado son muchos los que se quejan de Roma, sin que ellos mismos hagan algo. Pero hoy, cuando en una diócesis o parroquia no se acude a misa, la labor pastoral es ineficaz, la apertura a las necesidades del mundo limitada, o la cooperación mínima, la culpa no puede descargarse sin más sobre Roma. Obispo, sacerdote o laico, todos y cada uno han de hacer algo para la renovación de la Iglesia en su ámbito vital, sea mayor o menor. Muchas grandes cosas en las parroquias y en la Iglesia entera se han puesto en marcha gracias a la iniciativa de individuos o de grupos pequeños. Como obispos, debéis apoyar y alentar tales iniciativas y atender, ahora mismo, las quejas justificadas de los fieles.

3. Actuar colegiadamente: tras un vivo debate y contra la sostenida oposición de la curia, el concilio decretó la colegialidad del Papa y los obispos en el sentido de los Hechos de los Apóstoles, donde Pedro tampoco actuaba sin el colegio apostólico. Sin embargo, en la época posconciliar los papas y la curia han ignorado esta decisión central del concilio.
Desde que el papa Pablo VI, ya a los dos años del concilio, publicara una encíclica para la defensa de la discutida ley del celibato, volvió a ejercerse la doctrina y la política papal al antiguo estilo, no colegiado. Incluso hasta en la liturgia se presenta el Papa como autócrata, frente al que los obispos, de los que gusta rodearse, aparecen como comparsas sin voz ni voto. Por tanto, no deberíais, estimados obispos, actuar solo como individuos, sino en comunidad con los demás obispos, con los sacerdotes y con el pueblo de la Iglesia, hombres y mujeres.

4. La obediencia ilimitada sólo se debe a Dios: todos vosotros, en la solemne consagración episcopal, habéis prestado ante el Papa un voto de obediencia ilimitada. Pero sabéis igualmente que jamás se debe obediencia ilimitada a una autoridad humana, solo a Dios. Por tanto, vuestro voto no os impide decir la verdad sobre la actual crisis de la Iglesia, de vuestra diócesis y de vuestros países. ¡Siguiendo en todo el ejemplo del apóstol Pablo, que se enfrentó a Pedro y tuvo que “decirle en la cara que actuaba de forma condenable” (Gal 2, 11)!
Una presión sobre las autoridades romanas en el espíritu de la hermandad cristiana puede ser legítima cuando estas no concuerden con el espíritu del Evangelio y su mensaje. La utilización del lenguaje vernáculo en la liturgia, la modificación de las disposiciones sobre los matrimonios mixtos, la afirmación de la tolerancia, la democracia, los derechos humanos, el entendimiento ecuménico y tantas otras cosas sólo se han alcanzado por la tenaz presión desde abajo.

5. Aspirar a soluciones regionales: es frecuente que el Vaticano haga oídos sordos a demandas justificadas del episcopado, de los sacerdotes y de los laicos. Con tanta mayor razón se debe aspirar a conseguir de forma inteligente soluciones regionales. Un problema especialmente espinoso, como sabéis, es la ley del celibato, proveniente de la Edad Media y que se está cuestionando con razón en todo el mundo precisamente en el contexto de los escándalos por abusos sexuales. Una modificación en contra de la voluntad de Roma parece prácticamente imposible.
Sin embargo, esto no nos condena a la pasividad: un sacerdote que tras madura reflexión piense en casarse no tiene que renunciar automáticamente a su estado si el obispo y la comunidad le apoyan. Algunas conferencias episcopales podrían proceder con una solución regional, aunque sería mejor aspirar a una solución para la Iglesia en su conjunto. Por tanto:

6. Exigir un concilio: así como se requirió un concilio ecuménico para la realización de la reforma litúrgica, la libertad de religión, el ecumenismo y el diálogo interreligioso, lo mismo ocurre en cuanto a solucionar el problema de la reforma, que ha irrumpido ahora de forma dramática. El concilio reformista de Constanza en el siglo previo a la Reforma acordó la celebración de concilios cada cinco años, disposición que, sin embargo, burló la curia romana. Sin duda, esta hará ahora cuanto pueda para impedir un concilio del que debe temer una limitación de su poder. En todos vosotros está la responsabilidad de imponer un concilio o al menos un sínodo episcopal representativo.

La apelación que os dirijo en vista de esta Iglesia en crisis, estimados obispos, es que pongáis en la balanza la autoridad episcopal, revalorizada por el concilio. En esta situación de necesidad, los ojos del mundo están puestos en vosotros. Innúmeras personas han perdido la confianza en la Iglesia católica. Para recuperarla sólo valdrá abordar de forma franca y honrada los problemas y las reformas consecuentes. Os pido, con todo el respeto, que contribuyáis con lo que os corresponda, cuando sea posible en cooperación con el resto de los obispos; pero, si es necesario, también en solitario, con “valentía” apostólica (Hechos 4, 29-31). Dad a vuestros fieles signos de esperanza y aliento y a nuestra iglesia una perspectiva.

Os saluda, en la comunión de la fe cristiana,




(destaques meus)
Adenda:
Para ajudar a compreender o contexto e alcance desta carta de Hans Kung, ler este post e documento, generosamente publicado pela Joana Lopes.
E mais este de José Maria Castillo.

2010-04-11

imagem íntima



- Vem ao jardim na primavera, disseste.

- Aqui estão todas as belezas, o vinho e a luz.

Que posso fazer com tudo isso sem ti?

E, se estás aqui, para que preciso disso?


Rumi, poeta sufi

a Vida que Deus oferece

12*Entretanto, pela intervenção dos Apóstolos, faziam-se muitos milagres e prodígios no meio do povo. Reuniam-se todos no Pórtico de Salomão 13 e, dos restantes, ninguém se atrevia a juntar-se a eles, mas o povo não cessava de os enaltecer. 14 Sempre em maior número, juntavam-se, em massa, homens e mulheres, acreditando no Senhor, 15* a tal ponto que traziam os doentes para as ruas e colocavam-nos em enxergas e catres, a fim de que, à passagem de Pedro, ao menos a sua sombra cobrisse alguns deles. 16 A multidão vinha também das cidades próximas de Jerusalém, transportando enfermos e atormentados por espíritos malignos, e todos eram curados.

(Act 5, 12-16)

2010-04-10

observar atentamente


É o que faço, perante uma Igreja que leva séculos de obsessão em relação ao sexo. E, agora, se vê confrontada com a mesma.





imagem:
Untitled Film Still" (1980) by Cindy Sherman

2010-04-08

dois olhares sobre o presente da Igreja

É pouco dizer que a pedofilia envergonha a Igreja, ou pedir desculpas e rezar... Aqui

Não chegou a hora de enfrentarmos todos as nossas próprias responsabilidades?...Aqui

2010-04-07

Para a Ana e para o Vítor, igualmente

Poema da Maternidade


Pode lá ser! Não quero, não consinto!
Tudo em mim se revolta: a carne, o instinto,
A minha mocidade, o meu amor,
A minha vida em flor!

É mentira! É mentira!
Se o meu filho respira,
Se o meu corpo consente,
Covardemente,
A minh'alma não quer!
Eu não quero ser mãe! Basta-me ser mulher!
Basta-me ser feliz!
E o meu instinto diz:
— "Acabou-se! Acabou-se! Agora renuncia:
Começa a tua noite: acabou-se o teu dia!
Tens vinte anos? Embora! A tua mocidade
Perdeu chama e calor, perdeu a própria idade.
Resigna-te. És mulher! Foi Deus que assim o quis.
Já foste flor: agora é só raiz." —
Não pode ser! É injusta a minha sorte!
Não quero dar vida a quem me traz a morte!
O meu destino há de ter outro brilho!
Vida, quero viver! E morro, morro...

Filho!
Pode lá ser, Jesus! Eu não mereço tanto!
Filho da minha dor, eu já não choro — canto!
Filho que Deus me deu! Por quê, Senhor,
Há só uma palavra: Amor, Amor, Amor?!
"Dai-me outra voz que nunca tenha dito
Coisas más, coisas vis... e que saiba a infinito...
Dai-me outro coração, mais puro, mais profundo,
Que o meu já se quebrou de encontro ao mundo...
Dai-me outro olhar que nunca tenha olhado,
Que não tenha presente nem passado...
Dai-me outras mãos, que as minhas já tocaram
A vida e a morte... o bem e o mal... e já pecaram...

Filho, por que seria? Ao vires para mim
Mudaste num jardim
Os espinhos da minha carne triste...
E como conseguiste
Dar uma cor de sol às horas mais sombrias?

Meu menino, dorme, dorme,
E deixa-me cantar
Para afastar
A vida, um papão enorme...
Meu menino, dorme, dorme...

Vamos agora brincar...
Que brinquedo, meu menino?
O mar, o céu, esta rua?
já te dei o meu destino,
Posso bem dar-te a Lua.
Toma um navio, um cavalo,
Toma agora o mar sem fundo...
Ainda achas pouco? Deixá-lo!
Se quiseres dou-te o mundo!
Mas por que não vens brincar?
Por que preferes chorar?
Jesus! Que tem o meu filho?
Que vida estranha no brilho
Do seu olhar?
Uma vida inquieta e obscura
Anda a queimar-lhe a frescura ...
Ainda hoje, meu filho, não sorriste
E o teu olhar é triste...
Cheiras a noite, a luto, a azebre ...

Senhor! O meu filho tem febre!
O seu hálito queima, o seu olhar escalda...
Ele que tinha um olhar de estrela ou de esmeralda
E um perfume de flor,
Agora tem na boca um amargo sabor
E cheira a noite, a luto, a azebre...

Senhor! O meu filho tem febre!
Tirai-me dos olhos toda a luz!
Livrai-me da blasfêmia... Deus! Jesus!
Pois se o meu filho morre, se agoniza,
Por que há flores no chão que ele não pisa?
Se num coval o hei de pôr, de rastros,
Por que estarão tão altos os astros?
Senhor, eu sou culpada. . . Eu sei o que é o pecado
Mas ele, meu Jesus, ainda não tem passado...
Para mim, não há mal que não aceite,
Mas ele, ainda tão perto do teu céu!
A sua vida era beber-me leite...
No olhar com que me olhava tinha um véu
De neblinas, de névoas de outras vidas...
As vezes, tinha as pálpebras descidas
E punha-se a chorar no meu regaço
Com saudades, talvez, do céu, do espaço...
O meu filho tem febre!
Por que andam a cantar pelos caminhos?
Por que há berços e ninhos?
Vida! O meu filho era belo,
O meu filho era forte!
Vida, que mãe és tu? Defende-me da morte!
Vida! Vida! Vida!

Louvado seja Deus! A morte foi-se embora!
Jà não tens febre agora!
Louvado seja Deus! O meu menino vive,
Este menino, o meu, que só eu tive!

E pude blasfemar!
E o meu menino chora, e eu posso já cantar!
E o meu menino canta e eu posso já chorar!
O meu menino vive e toda a vida canta,
Toda a terra é uma fresca e sonora garganta!
Que toda a gente o saiba e toda a terra o veja!
Louvado seja Deus!
Louvado seja!



Fernanda de Castro

2010-04-06

Sobre a homilia de Raniero Cantalamessa

Sobre a homilia de Raniero Cantalamessa na Sexta-Feira Santa (2 de Abril) que fez correr alguma "tinta" e outra tanta indignação, o Jorge Pires Ferreira discorre com serenidade e bom senso. Ler aqui:

“Padre Cantalamessa equiparou ataques à Igreja com perseguição aos judeus."

Comparou mesmo? Talvez. Mas quem fez primeiro a comparação foi um judeu.
Se eu me sentisse perseguido, como muitos responsáveis da Igreja se dizem sentir, e se tivesse recebido um carta de alguém que pertence a um povo que foi a maior vítima do século XX, julgo que a usaria, como fez Cantalamessa. Não reivindicaria para mim tal estatuto de vítima – nem ele o fez. O Holocausto, o cúmulo do anti-semitismo, foi algo inominável e não é invocável para autodefesa por quem nele não participou. Mas se um elemento do povo judeu adverte para mecanismos semelhantes aos do anti-semitismo, de “recurso ao estereótipo” e de “passagem da responsabilidade pessoal para a colectividade”, nos tempos de hoje, em relação à Igreja, não poderei eu usar essas palavras?


O Jorge tem o link para a homilia completa. Eu li e surpreendi-me.

Se tudo quanto existe


Se tudo quanto existe
é lenta evolução,
longa transformação
sem Deus e sem mistério;
se tudo no Universo tem sentido
sem o sopro divino;
se o segredo da vida, a criação,
se explica pela ciência,
e a corrente vital
é também consequência;
se a humana consciência
é simples equação...
que significa a vocação do eterno,
que quer dizer a aspiração do Céu
e o terror do Inferno?

E se acaso é o instinto a lei da vida,
se a verdade
é só necessidade
inexorável, lenta, laboriosa,

que sábia explicação
tem esta frágil, esta inútil rosa?


Fernanda de Castro «Asa no espaço», 1955

recolhido aqui

2010-04-05

imagem de uma procissão


O Luís cruzou-se com uma procissão. No coração de Lisboa. A descrição que dela faz é a de uma Igreja decadente. Não consegui evitar de fazer, automaticamente, um paralelo com o desabafo efectuado por um padre aquando da chegada à nova comunidade. Também ele chegava cheio de ilusões e, não conseguia disfarçar o desânimo, perante a decadência que lhe surgia diante dos olhos.
E lá fico eu na corda bamba, dividida; sabendo por experiência que a fé não nasce de forma espontânea. No meu caso, nada mesmo. Que manter a fé viva, exige entrar no mundo daqueles que, a meu lado, procuram Cristo ou ostensivamente o ignoram. E não desistir de procurar nunca - a fé não é uma coisa de impressões e sensações básicas. É procurar o Cristo vivo no meio dos vivos.

Mas, por outro lado, será possível que uma religião que privilegia o rito, reduzida ao cumprimento de umas tantas celebrações rotineiras e vazias de significado, desperte alguma chama de fé, para quem se depara todos os dias com questões vitais da pessoa? A realidade global da Igreja Católica não é esta, mas uma boa parte subsiste nesta desanimadora decadência.

2010-04-04

convite a olhar para a luz...para quem priviligia remexer na estrumeira

Esta é a alegre notícia que importa anunciar e que tem valor e dá valor e sentido à nossa vida, ecoando na Liturgia desta Solene Vigília. Alguma comunicação social anda, permanentemente, a tentar descobrir o que corrompe, o que escraviza, o que escandaliza e envergonha, o que mata… Alguma informação parece que prefere descobrir, na vida das pessoas, das Instituições e da Sociedade em geral, um mar de lama e de podridão… Convido e desafio todos os profissionais dos media a voltarem o seu interesse e a prestarem mais atenção ao que liberta, ao que purifica, ao que dignifica, ao que ajuda a dar vida nova e vida feliz, também àqueles que, por qualquer razão, caíram mas querem levantar-se… Todos ganhávamos e o mundo seria melhor e o futuro teria mais esperança… Não peço encobrimento nem mudança da realidade, mas os pecadores, quaisquer que eles sejam – e todos o somos – são chamados a arrepender-se e a reparar as suas falhas, sobretudo quando o seu pecado feriu alguém. Porém, no coração de Deus, iniciada a conversão, todos temos lugar, apoio, misericórdia e libertação.


Da Homilia da Vígilia Pascal, do Bispo de Viseu, Ilídio Leandro
aqui

firmeza essencial

Sem hesitações, o Gabriel olha na direcção certa, sempre que se lhe pergunta: Onde está a luz?