2010-06-09

como eles nos vêem

Um poema de amor

todas as mulheres
todos os beijos delas as
formas variadas como amam e
falam e carecem.

suas orelhas elas todas têm
orelhas e
gargantas e vestidos
e sapatos e
automóveis e ex-
maridos.

principalmente
as mulheres são muito
quentes elas me lembram a
torrada amanteigada com a manteiga
derretida
nela.

há uma aparência
no olho: elas foram
tomadas, foram
enganadas. não sei mesmo o que
fazer por
elas.

sou
um bom cozinheiro, um bom
ouvinte
mas nunca aprendi a
dançar — eu estava ocupado
com coisas maiores.

mas gostei das camas variadas
lá delas
fumar um cigarro
olhando pro tecto. não fui nocivo nem
desonesto. só um
aprendiz.

sei que todas têm pés e cruzam
descalças pelo assoalho
enquanto observo suas tímidas bundas na
penumbra. sei que gostam de mim algumas até
me amam
mas eu amo só umas
poucas.

algumas me dão laranjas e pílulas de vitaminas;
outras falam mansamente da
infância e pais e
paisagens; algumas são quase
malucas mas nenhuma delas é
desprovida de sentido; algumas amam
bem, outras nem
tanto; as melhores no sexo nem sempre
são as melhores em
outras coisas; todas têm limites como eu tenho
limites e nos aprendemos
rapidamente.


todas as mulheres todas as
mulheres todos os
quartos de dormir
os tapetes as
fotos as
cortinas, tudo mais ou menos
como uma igreja só
raramente se ouve
uma risada.

essas orelhas esses
braços esses
cotovelos esses olhos
olhando, o afecto e a
carência me
sustentaram, me
sustentaram.

Charles Bukowski
tradução brasileira, retirada daqui

10 comentários:

  1. quando tiver um bocadinho de tempo vou dedicar-me a este poema.

    ver o quanto por lá ando...

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  2. eles quem? os solteiros veem de uma maneira, os casados de outra, os amantes de outra, os namorados de outra, os gays de outra.

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  3. será? (exceptuando talvez os gays) ;)

    mas não tem opinião própria? Ou nunca faz generalizações? (caso para estudo)

    E, caso não tenha reparado, o poema enuncia vários tipos de mulheres

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  4. Pois, ja passei por vários eles quem,( menos gay ), por isso não duvido que os olhares são diferentes, se tenho opinião própria? tenho, conforme o olhar. Eu diria que o texto reflete um olhar de amante.

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  5. Ok, olhar de amante...pode ser. os vários olhares implicam diversos destinatários, ou serão possíveis para um unico?

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  6. ("os vários olhares implicam diversos destinatários, ou serão possíveis para um unico?")


    Eu julgo que é isso que tenho vindo a dizer, os varios olhares implicam diversos destinatários e há olhares que não podem ser dirigidos a qualquer destinatário. Vejamos.

    O ohar pode ser o começo de uma sedução, um olhar penetrante, assim... tá a ver? LOL.

    Prende-se com o olhar. Depois, espera-se, e se ela nos procurar de novo o olhar, é indicação de que o jogo começou. Por isso mudamos e colocamo-nos noutra posição, mais afastada, à espera que nos encontre novamente o olhar. Quando os olhares se cruzarem, fixam-se bem e sorri-se, como que a dizer: Ahâ. Apanhei-te à minha procura. Mudamos outra vez de posição a ver no que dá. Aproximamo-nos um bocadinho para ser audíveis, com um ar matreiro a meter conversa. E é assim que o jogo do olhar funciona, só necessitando de um olhar firme, maroto, sensual, hipnótico e muito fixo.

    Quem não consegue falar a olhar olhos nos olhos, que desista.

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  7. Ahã! o primeiro capítulo do manual do sedutor...tem a certeza que inclui a parte do pão com manteiga?

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  8. Estou a ver que você já estudou também, aliás para mim não é preciso estudar, basta fazer "olhinhos" toda a gente sabe o que é, não é? Aprende-se na ” primária”, Verdade. È preciso é saber jogar. Quanto ao pão com manteiga, mantenho os vicios da infancia, já a lambi.

    Mas agora a sério e para terminar já que me fez uma interrogação, (“Ou nunca faz generalizações? (caso para estudo”), eu diria que o poema que a senhora ai colocou não me toca muito,foi mais o "como eles nos veem", mas quanto a generalização do sentimento, então quanto a troca de cromos para acabar, para poemas sobre olhares então eu sugiro isto:

    O amor, quando se revela,
    Não se sabe revelar.
    Sabe bem olhar p'ra ela,
    Mas não lhe sabe falar.

    Quem quer dizer o que sente
    Não sabe o que há de dizer.
    Fala: parece que mente
    Cala: parece esquecer

    Ah, mas se ela adivinhasse,
    Se pudesse ouvir o olhar,
    E se um olhar lhe bastasse
    Pr'a saber que a estão a amar!

    Mas quem sente muito, cala;
    Quem quer dizer quanto sente
    Fica sem alma nem fala,
    Fica só, inteiramente!

    Mas se isto puder contar-lhe
    O que não lhe ouso contar,
    Já não terei que falar-lhe
    Porque lhe estou a falar..

    Fernando Pessoa

    de resto é melhor continuar a olhar "como eles nos veem", e como nos interpretamos isso

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  9. well, well, convocado o Pessoa, que mais se pode dizer?!

    Talvez que o menos importante disto são as lições que se estudam. A vida já brota com pujança suficiente. Hoje mesmo, o Gabriel, com apenas dez meses, ficou a repetir até à exaustão a mesma gracinha, só porque espontaneamente ri da primeira vez.

    Pois eu gostei bastante do poema e ficam algumas interrogações. Que não carecem de resposta rápida.

    Votos de bons olhares.

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