2010-07-29

e o verão também é fantasia

nem tudo foi de férias, pois não?

Adianto já, que não vou mais além do que diagnosticar o mal. E também não sei a quem assacar culpas. Mas penso que todos os ministros da educação, desde que se criou o cargo, deviam sentir uma boa dose de vergonha.
O caso é o seguinte; nas relações que quotidianamente estabelecemos nem sempre o entendimento corre de forma satisfatória. O entendimento resulta da nossa matriz genética, mas também resulta, e muito, das capacidades e competências que fomos aprendendo e apreendendo ao longo da vida. Tendo a Escola um papel deveras importante.

Ainda recentemente se publicou um estudo de referência que aferia a capacidade dos portugueses para entenderem o que lêem. E a percentagem dos que o conseguem fazer é muitíssimo reduzida. Sendo um bom indicador das deficientes políticas e programas educativos. E não só, poderemos aferir de igual modo, os resultados para a Cultura, as Artes, o lazer etc.

Estando no meu local de trabalho, a suspirar nos intervalos dos espirros ocasionados pelo ar condicionado (ou isso ou o cérebro pára de vez) atendo uma chamada. Depois das formalidades próprias, convido a pessoa a dar a sua razão da mesma. Que tinha visto um anúncio, que precisavam de pessoas para a vindima...eu ainda pus mentalmente a hipótese da pessoa se ter enganado no número - não temos vinhas, não somos nenhuma empresa de Recursos Humanos. Mas também não queria despedir a pessoa que me estava a falar do outro lado, assim a "seco" tipo:"Isso não tem nada a ver com os nossos serviços". E as técnicas de marketing ensinam que se vendem até pentes a carecas...pedi mais explicações. E houve do outro lado duas palavras que para mim fizeram todo o sentido: "arranque de vinha". Ah! - não me contive - o que a senhora viu foi um anúncio de "Incentivos ao Arranque ou Reconversão de Vinhas". Sim, foi isso foi - ouvi do outro lado. - É por isso que estou a ligar; a minha filha está de férias e quer uma ocupação. Se estiverem a contratar pessoas para a vindima, ela está interessada... - Não, não estamos a contratar ninguém, com licença, muito boa tarde...

Se isto fosse um caso isolado, não tinha significado quase nenhum...mas são dias e dias a levar com parecidas.

2010-07-26

entendimento de um conto de fadas

(Alex Colville)


"O principal medo do inconsciente é o de esquecermos quem somos"
Carl Gustav Jung

Tu tens um medo


Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.

Que morres no amor.

Na tristeza.

Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.

No amor.

Na tristeza
Na dúvida.
No desejo.

Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.

Que morrerás por idades imensas.

Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.

Não ames como os homens amam.

Não ames com amor.

Ama sem amor.
Ama sem querer.

Ama sem sentir.
Ama como se fosses outro.

Como se fosses amar.
Sem esperar.

Tão separado do que ama, em ti,

Que não te inquiete
Se o amor leva à felicidade,

Se leva à morte,

Se leva a algum destino.
Se te leva.

E se vai, ele mesmo...

Não faças de ti

Um sonho a realizar.
Vai.

Sem caminho marcado.

Tu és o de todos os caminhos.
Sê apenas uma presença.

Invisível presença silenciosa.
Todas as coisas esperam a luz,

Sem dizerem que a esperam.

Sem saberem que existe.
Todas as coisas esperarão por ti,
Sem te falarem.
Sem lhes falares.

Sê o que renuncia
Altamente:
Sem tristeza da tua renúncia!

Sem orgulho da tua renúncia!
Abre as tuas mãos sobre o infinito.

E não deixes ficar de ti
Nem esse último gesto!
O que tu viste amargo,
Doloroso,

Difícil,
O que tu viste inútil

Foi o que viram os teus olhos
Humanos,

Esquecidos...

Enganados...
No momento da tua renúncia
Estende sobre a vida

Os teus olhos

E tu verás o que vias:

Mas tu verás melhor...
... E tudo que era efémero se desfez.
E ficaste só tu, que é eterno.

Cecília Meireles

2010-07-24

no divã


Confrontou-se com a atitude de elaborar contos de fadas. Expediente para atravessar a noite. Impertinente distracção. Só os olhos abertos descobrem o dia.

2010-07-21

não é preciso dizer mais, pois não?


Digo que yo no soy un hombre puro

Digo que não sou um homem puro
Não vou dizer-te que sou um homem puro.
Entre outras coisas
resta saber se o puro de facto existe.
Ou se é, digamos, necessário.
Ou possível.
Ou se tem bom gosto .
Acaso já provaste a água quimicamente pura,
a água de laboratório,
sem um grão de terra ou de esterco,
sem o pequeno excremento de um pássaro,
a água feita apenas de oxigénio e hidrogénio?
Bah! que porcaria.
Não te digo, pois, que sou um homem puro,
não te digo isso, mas bem o contrário.
Que amo (as mulheres, naturalmente,
pois meu amor pode dizer seu nome),
e gosto de comer carne de porco com batatas,
e grão-de-bico e chouriço, e
ovos, frango, carneiro, peru,
peixe e mariscos,
e bebo rum e cerveja e aguardente e vinho,
e fornico (inclusive com o estômago cheio).
Sou impuro, o que queres que te diga?
Completamente impuro.
No entanto,
creio que há muitas coisas puras no mundo
que não são mais que pura merda.
Por exemplo, a pureza da virgindade nonagenária.
A pureza dos noivos que se masturbam
em vez de se deitarem juntos numa pousada.
A pureza dos internatos, onde
abre suas flores de sémen provisional
a fauna pederasta.
A pureza dos clérigos.
A pureza dos académicos.
A pureza dos gramáticos.
A pureza dos que asseguram
que devemos ser puros, puros, puros.
A pureza dos que nunca tiveram blenorragia.
A pureza da mulher que nunca lambeu uma glande.
A pureza do homem que nunca sugou um clitóris.
A pureza daquela que nunca pariu.
A pureza daquele que nunca procriou.
A pureza daquele que se dá golpes no peito, e
diz santo, santo, santo,
quando é um diabo, diabo, diabo.
Enfim, a pureza
de quem não chegou a ser suficientemente impuro
para saber o que é a pureza.

Nicolás Guillén,
poeta cubano

2010-07-18

uma só coisa é necessária:

Todos necessitamos que haja quem nos ajude, quem nos estenda uma mão, que haja alguém que faça alguma coisa por nós. Porém, se pensarmos seriamente nisso, o que todos mais necessitamos é de quem nos preste atenção, quem nos dê o seu tempo, quem nos escute, sem pressas, com interesse e atenção, alguém para quem eu seja interessante, alguém que está disposto a aprender de mim porque o que eu sou e o que vivo lhe interessa, o preocupa. O que faz com que me sinta bem, me sinta importante e me faça perceber que tenho diante de mim alguém que não está interessado nas "minhas coisas" mas em "mim".

o que ela disse


e disse muito bem:

O linguado tinha um ar fresquíssimo e o empregado aconselhou-lho vivamente. Mas, quando o trouxe no prato – de cabo a rabo, e não em lombos – e o pôs à frente do escritor, ele ficou estarrecido a olhar e perguntou, aflito: «Como é que isto se come?» A Paul Auster nem me custou muito tirar-lhe as espinhas…

1º Dia Mundial Nelson Mandela


Um símbolo da Paz e dos Direitos Humanos - O Homem Nelson Mandela

2010-07-17

espaço de encantamento

aqui

Paul Newman by Dennis Hopper, 1964

a arte de se comunicar

... a palavra e a história são próprias das classes dominantes. São elas que tentam monopolizar a comunicação verbal. Os habitantes dos porões desenvolvem outras formas de comunicação, tais como o gesto, a música, a dança, a poesia, a capoeira e, é claro, a imagem, o toque e o ditado repetido de boca em boca. A arte das ruas e dos campos se contrapõe à arte das galerias e dos museus. É coreograficamente mais viva, vibrante, cheia de vida e energia.

Jesus mostra entender dessa arte. Suas palavras e gestos se dirigem directamente aos corações marcados pelo sofrimento, mas donos de uma sabedoria oculta. Quantas vezes Ele toca e se deixa tocar! Sabe que, para quem atravessou o mistério da dor, não há salvação sem a mágica do toque. Toque que pode concretizar-se numa palavra, num olhar, num beijo, num abraço, num aperto de mão, num convite, numa visita, numa mão sobre o ombro... O toque é bálsamo incomparável para quem desceu aos "infernos" do sofrimento humano. Por mais adultos e crescidos que sejamos, consciente ou inconscientemente, todos temos saudades do colo da mãe e de suas mãos acalentadoras.

daqui

2010-07-16

para pensar de vez em quando...

Como fazer-te saber que há sempre tempo?

Que temos que buscá-lo e dá-lo…
Que ninguém estabelece normas, senão a vida…
Que a vida sem certas normas perde formas…
Que a forma não se perde com abrirmo-nos…
Que abrirmo-nos não é amar indiscriminadamente…
Que não é proibido amar…
Que também se pode odiar…
Que a agressão porque sim, fere muito…
Que as feridas fecham-se…
Que as portas não devem fechar-se…
Que a maior porta é o afecto…
Que os afectos definem-nos…
Que definir-se não é remar contra a corrente…
Que não quanto mais se carrega no traço mais se desenha…
Que negar palavras é abrir distâncias…
Que encontrar-se é lindo…
Que o sexo faz parte da lindeza da vida…
Que a vida parte do sexo…
Que o porquê das crianças tem o seu porquê…
Que querer saber de alguém não é só curiosidade…
Que saber tudo de todos é curiosidade malsã…
Que nunca é demais agradecer…
Que autodeterminação não é fazer as coisas sozinho…
Que ninguém quer estar só…
Que para não estar só há que dar…
Que para dar devemos antes receber…
Que para nos darem há também que saber pedir…
Que saber pedir não é oferecer-se…
Que oferecer-se, em definitivo, não é querer-se…
Que para nos quererem devemos mostrar quem somos…
Que para alguém ser é preciso dar-lhe ajuda…
Que ajudar é poder dar ânimo e apoiar…
Que adular não é apoiar…
Que adular é tão pernicioso como virar a cara…
Que as coisas cara a cara são honestas…
Que ninguém é honesto por não roubar…
Que quando não se tira prazer das coisas não se vive…
Que para sentir a vida temos de esquecer que existe a morte…
Que se pode estar morto em vida…
Que sentimos com o corpo e a mente…
Que com os ouvidos se escuta…
Que custa ser sensível e não se ferir…
Que ferir-se não é sangrar…
Que para não nos ferirmos levantamos muros…
Que melhor seria fazer pontes…
Que por elas se vai à outra margem e ninguém volta…
Que voltar não implica retroceder…
Que retroceder também pode ser avançar…
Que não é por muito avançar que se amanhece mais perto do sol…

Como fazer-te saber que ninguém estabelece normas, senão a vida?


Mario Benedetti
Tradução A.M.

retirado daqui

2010-07-11

Ajuda-te e Deus te ajudará


Já houve tempos em que me interessei muito por esta frase (máxima). Nas minhas meditações, pensava que ela me aproximava mais daquilo que Deus é.
Hoje, dia em que liturgicamente a Igreja nos convida a meditar na parábola do "Bom Samaritano", dei para embirrar com ela. De pouco nos valemos se Deus não cuidar de nós. Não é próprio do actuar de Deus, fazê-lo de forma directa e espectacular. Deus não é vocacionado para os nossos espectáculos. Mas de muitos modos nos cura. E de outros tantos nos sugere que aceitemos curar. Sem mesquinhice nem espectáculo. A dar o que temos, apenas.

2010-07-07

2010-07-06

para a Maria João

 Que há trinta e dois anos também escorregou para nos fazer sentir uma intensa alegria. Um beijo da mãe e um poema da Matilde Rosa Araújo.


O menino que brincava muito
Que gostava muito de brincar
Saltou para cima de uma nuvem
E disse a Deus:
- Deus! Lá em baixo há tantos meninos
Que não brincam
Têm fome … fominha negra mesmo!
E Deus ralhou:
-Salta lá para baixo, menino!
Depressa!
Tens lá muito que fazer!
Corre! E o menino concordou:
-Tens razão, Deus! Mas dás uma ajudinha, dás?
Meu Deus!
Deus deu. Deu um encontrão na nuvem.
E o menino escorregou para a terra
E nunca mais parou.

                              Matilde Rosa Araújo in Mistérios

2010-07-05

borda d'água

Por aí, não sei. Aqui, comem-se os figos lampos. Não coloco imagem porque seria uma perversa ostentação.
Mas posso falar do peso...hummmm, quatro perfazem um quilo.