2010-07-26

entendimento de um conto de fadas

(Alex Colville)


"O principal medo do inconsciente é o de esquecermos quem somos"
Carl Gustav Jung

Tu tens um medo


Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.

Que morres no amor.

Na tristeza.

Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.

No amor.

Na tristeza
Na dúvida.
No desejo.

Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.

Que morrerás por idades imensas.

Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.

Não ames como os homens amam.

Não ames com amor.

Ama sem amor.
Ama sem querer.

Ama sem sentir.
Ama como se fosses outro.

Como se fosses amar.
Sem esperar.

Tão separado do que ama, em ti,

Que não te inquiete
Se o amor leva à felicidade,

Se leva à morte,

Se leva a algum destino.
Se te leva.

E se vai, ele mesmo...

Não faças de ti

Um sonho a realizar.
Vai.

Sem caminho marcado.

Tu és o de todos os caminhos.
Sê apenas uma presença.

Invisível presença silenciosa.
Todas as coisas esperam a luz,

Sem dizerem que a esperam.

Sem saberem que existe.
Todas as coisas esperarão por ti,
Sem te falarem.
Sem lhes falares.

Sê o que renuncia
Altamente:
Sem tristeza da tua renúncia!

Sem orgulho da tua renúncia!
Abre as tuas mãos sobre o infinito.

E não deixes ficar de ti
Nem esse último gesto!
O que tu viste amargo,
Doloroso,

Difícil,
O que tu viste inútil

Foi o que viram os teus olhos
Humanos,

Esquecidos...

Enganados...
No momento da tua renúncia
Estende sobre a vida

Os teus olhos

E tu verás o que vias:

Mas tu verás melhor...
... E tudo que era efémero se desfez.
E ficaste só tu, que é eterno.

Cecília Meireles

7 comentários:

  1. Adorei a pintura...
    espero...
    nunca esquecer quem eu sou...
    posso me reinventar...
    me esquecer...não quero...

    Beijos
    Leca

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  2. Patologicamente falando, esta próximo do alzheimer

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  3. Leca..."nunca" é muito tempo. :)

    este post é composto por uma cadeia de elementos onde cada um retira o que mais desejar.

    Existe uma tensão evidente entre o conceito junguiano e os sentidos do poema...

    E consta que esquecermos quem somos, por uns momentos, umas horas, uns pedaços de vida, não é necessariamente mau. Antes pelo contrário.

    Beijos,
    maria

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  4. o meu computador ou o blogger, está, sim. Ainda bem que um expert vem por aqui fazer diagnóstico.

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  5. Ena gente supersensivel, qual diagnostico qual carapuça,
    apenas aludi a uma frase, o medo de esquecermos quem somos.há um conceito médico que liga isto a uma doença.
    lembrou-me isso.

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  6. supersensível...com profundo conhecimento de causa, afirmo que é um património do qual não queria perder nem um niquinho...não deve ser possível.

    somos muito mais que patologias...é por aí que vai o post.

    nas caixinhas de comentários todos os anónimos correm o risco de ser "pardos". Confundi o seu com uma melga que por aqui andou. E como o Blogger me anda a pregar umas partidas verifiquei que tinha logo por baixo um post elegível (que eliminei) pensei que se estava a referir a isso. Pelos visto o meu entendimento anda pelas ruas da amargura...

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