2010-08-27

os diferentes muros que nos dividem

Alguns serviços noticiosos, referiam há dias, a descoberta de setenta e dois corpos encontrados numa vala comum na fronteira do México com os EUA. Supunha-se de emigrantes que tinham sido apanhados num conflito de grupos que se dedicam ao tráfico de pessoas que desejam sair da sua realidade social e demandar a outra que lhes ofereça melhores perspectivas de vida.
De vez em quando, chegam-nos ecos das difíceis condições dessa demanda. Não poucas vezes, causando até a perda de vida. E, não acontecendo isso, são vários os riscos de atentado à integridade, dessas pessoas, sobretudo, jovens do sexo masculino.
Para a maior parte de nós é inimaginável uma  experiência semelhante. E reagimos a tais notícias com as mais variadas emoções e sentimentos, e, eventualmente, com as nossas opiniões mais ou menos condescendentes. Ou indiferentes, até.
Olhando para a História da humanidade, verificamos que nos tornámos uns exímios construtores de muros. Alguns tão rídiculos e absurdos como os actuais condomínios fechados. Mas existe sempre alguém disposto a pô-los em causa. Pagando caro por isso, boa parte das vezes. Não aprendemos nada com isso?

2010-08-26

diga(m) lá se não é lindo...

O maior bem

A partir do Vaticano II a Igreja deixa de definir-se como "sociedade perfeita" e passa a considerar-se "povo de Deus" e "comunidade de crentes"  .

É esse o "lugar" da Igreja no mundo.

não sei bem o que é a Humanidade a que Teixeira de Pascoaes alude, mas sem humanidade definhamos

Sem Poesia não há Humanidade.  É ela a mais profunda e a mais etérea manifestação da nossa alma. A intuição poética ou orfaica antecede, como fonte original, o conhecimento euclidiano ou científico. E nos dá o sentido mais perfeito e harmónico da vida. Aperfeiçoando o ser humano, afasta-o do antropóide e aproxima-o dos antropos. Que a mocidade actual, obcecada pela bola e pelo cinema, reduzida quase a uma fotografia peculiar e uma espécie de máquina de fazer pontapés, despreza o seu aperfeiçoamento moral; e, com o seu fato de macaco, prefere regressar à Selva a regressar ao Paraíso. E assim, igualando-se aos bichos, mente ao seu destino, que é ser o coração e a consciência do Universo: o sagrado coração e o santo espírito. Eis o destino do homem, desde que se tornou consciente. E tornou-se consciente, porque tal acontecimento estava contido nas possibilidades da Natureza. Sim, a nossa consciência é a própria Natureza numa autocontemplação maravilhosa. Ou é o próprio Criador numa visão da sua obra, através do homem. E, vendo-a, desejou corrigi-la, transfigurando-se em Redentor.

Teixeira de Pascoaes, in "A Saudade e o Saudosismo"



daqui

ó tempo devorador

daqui

2010-08-25

o essencial

"Queridos irmãos e irmãs, quereria dizer-vos a todos, mesmo a quem se encontra num momento de dificuldade no seu caminho de fé, ou que pouco participa da vida da Igreja, ou vive como se Deus não existisse: a todos peço que não tenham medo da verdade, que nunca interrompam o caminho em direcção a ela, que nunca deixem de procurar a verdade profunda sobre nós mesmos e sobre as coisas, com o olhar interior do coração". "Deus - insistiu - não deixará de dar a Luz para vermos e de imprimir o calor necessário para deixar o nosso coração perceber que Ele nos ama e deseja ser amado".

Bento XVI, 25/8/2010 na audiência geral, fez, ainda, um apelo à paz na Somália.

procurar a luz...inexoravelmente

Última Visio

Quando o homem resgatado da cegueira
Vir Deus num simples grão de argila errante,
Terá nascido nesse mesmo instante
A mineralogia derradeira!


A impérvia escuridão obnubilante
Há de cessar! Em sua glória inteira
Deus resplandecerá dentro da poeira
Como um gasofiláceo de diamante!


Nessa última visão já subterrânea,
Um movimento universal de insânia
Arrancará da insciência o homem precito...


A Verdade virá das pedras mortas
E o homem compreenderá todas as portas
Que ele ainda tem de abrir para o Infinito!


Augusto dos Anjos

emergindo da retórica das palavras

“Há ambientes muito próximos de nós que um dia foram tocados pelo Evangelho e ainda permanecem com muita simbologia e muitas tradições de Fé, mas agora se encontram realmente afastadas de Cristo”, 

 Foram mesmo tocados pelo Evangelho? E o afastamento é de Cristo ou de um determinado modo de estar na Igreja?

2010-08-23

somos sempre os maiores...ou não

POEMA EM LINHA RECTA


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Álvaro de Campos

agora que andam por aí a desvendar os segredos das múmias

O Val lembrou-se de analisar as pirâmides. Dei também o meu parecer.

2010-08-22


SE O HOMEM PUDESSE DIZER

Se o homem pudesse dizer o que ama,

Se o homem pudesse levantar seu amor pelo céu

Como uma nuvem na luz;

Se como muros que se derrubam,

Para saudar a verdade erguida no meio,

Pudesse derrubar seu corpo, deixando só a verdade de seu amor,

A verdade de si mesmo,

Que não se chama glória, fortuna ou ambição,

Mas amor ou desejo,

Eu seria aquele que imaginava;

Aquele que com sua língua, seus olhos e suas mãos

Proclama ante os homens a verdade ignorada,

A verdade de seu amor verdadeiro.

Liberdade não conheço senão a liberdade de estar preso em alguém

Cujo nome não posso ouvir sem arrepio;

Alguém por quem me esqueço desta existência mesquinha,

Por quem o dia e a noite são para mim o que quiser.

E meu corpo e espírito flutuam em seu corpo e espírito

Como troncos perdidos que o mar afoga ou levanta

Livremente, com a liberdade do amor,

A única liberdade que me exalta,

A única liberdade por que morro.

Tu justificas minha existência:

Se não te conhecer, não vivi;

Se morrer sem te conhecer, não morro, porque não vivi.

Luis Cernuda


imagem-"winter light" Ingmar Bergman


La plage - Yann Tiersen

2010-08-21

a eternidade (salvação) é agora

22Jesus percorria cidades e aldeias, ensinando e caminhando para Jerusalém. 23Disse-lhe alguém: «Senhor, são poucos os que se salvam?» Ele respondeu-lhes:
24*«Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque Eu vos digo que muitos tentarão entrar sem o conseguir. 25Uma vez que o dono da casa se levante e feche a porta, ficareis fora e batereis, dizendo: 'Abre-nos, Senhor!' Mas ele há-de responder-vos: 'Não sei de onde sois.' 26Começareis, então, a dizer: 'Comemos e bebemos contigo e Tu ensinaste nas nossas praças.' 27*Responder-vos-á: 'Repito-vos que não sei de onde sois. Apartai-vos de mim, todos os que praticais a iniquidade.' 28*Lá haverá pranto e ranger de dentes, quando virdes Abraão, Isaac, Jacob e todos os profetas no Reino de Deus, e vós a serdes postos fora.
29*Hão-de vir do Oriente, do Ocidente, do Norte e do Sul, sentar-se à mesa no Reino de Deus. 30*E há últimos que serão dos primeiros e primeiros que serão dos últimos.»


Lc 13, 22-29


"Serão poucos os que se salvam?" é a pergunta característica do eu religioso. É claro que o eu não procura outra coisa senão a sua autoafirmação. Devido ao seu carácter vazio e à sua incapacidade de viver no presente, procura constantemente ligar-se a algo que, numa perspectiva de futuro, lhe traga a satisfação ansiada.

A ironia consiste em que esse futuro é tão inexistente como o próprio eu que se projecta nele. Porém, entretanto, o eu sonha em chegar a ser feliz algum dia, identificando-se com diferentes sonhos - ter, poder, prazer -, sem estar consciente de que essa mesma identificação é o que torna impossível a felicidade. Dito com mais radicalidade: o único obstáculo à felicidade é a identificação com o eu.

Enquanto não se "desperta", essa armadilha mortal não se vê. E se o eu é religioso, ao seu futuro definitivo chamará "salvação": buscará salvar-se a todo o custo, numa perpetuação "eterna" de autoafirmação sempre impossível. Poderia imaginar uma promessa maior para a sua insaciável ambição?

Isso explica a religião mítica - a religião do eu -, na que todos nós temos crescido, e que tem girado em volta da questão da "salvação da alma". Não existindo preocupação maior do que esta: "como salvar-me?"


Frente a essa inquietação do eu, a resposta de Jesus anima a "entrar na porta estreita". Que o texto não nos diz exactamente em que consiste.

Dentro da lógica do próprio eu religioso, não surpreende que, ao longo da história, se tenha entendido como "sacrifício", "mortificação", até mesmo "submissão"...

O eu - cuja religião se tem baseado no esquema do mérito e da recompensa - é amante do voluntarismo perfeccionista e com ele, em não poucos casos, trata de saldar, sem dar-se conta, culpas inconscientes.

Uma leitura mais serena do texto do Evangelho, contudo, nos faz ver que não se pode confundir "porta estreita" com "carreira de méritos" - ainda que seja em forma de obstáculos - deve antes referir-se a algo bem diferente.

Se nos damos conta de que, pelo seu próprio carácter; o eu só busca "encher-se", de um modo inevitável e compulsivo, resulta evidente que é justamente o eu o que nunca poderá entrar pela "porta estreita".

Portanto, o convite para alcançar a “salvação”, não o que eu esperava mas o “despertar” da ignorância e do sofrimento, passa por desidentificar-se de si mesmo. “Entrai pela porta estreita” é a desapropriação do eu.

No entanto, o trabalho de desapropriação não é alcançado por “voluntarismo” que, novamente, não faria mais que alimentar o eu. Mas fruto da compreensão.

Não procuramos desidentificar-nos do eu por nenhum motivo “ascético”, mas simplesmente por termos começado a compreender que é essa a nossa verdadeira identidade. Por isso, na medida em que cresçamos nessa compreensão notaremos também um movimento interior a pôr em prática os meios que nos capacitem para vivê-la. Os diferentes meios coincidirão com o facto de fazerem crescer a consciência de não ser o eu que a nossa mente pensa e de nos fazerem viver de maneira despojada, sem nos sentirmos “fazedores”.

Aprenderemos progressivamente a observar o nosso eu, em qualquer dos disfarces que use – eufórico ou deprimido, submisso ou irado…-, e a adquirir distância dele. E cuidaremos, acima de tudo, viver no momento presente, como meio privilegiado de experimentar a Presença que somos.


A partir da nova percepção da nossa identidade, todas as questões são redimensionadas: modifica-se a percepção da realidade. Se o eu andava desesperadamente procurando a sua “salvação” num futuro que imaginava “eterno”, viremos a reconhecer que a Presença é já eternidade enquanto Plenitude atemporal.


Se era fácil identificar o insaciável eu com a piada de Woody Allen – “que feliz seria se fosse feliz”-, a partir da nova compreensão, viremos a reconhecer, com Ludwig Wittengenstein, que “para a vida no presente, não existe a morte”.

Como escreveu o lúcido filósofo ateu André Comte-Sponville, “a morte não me roubará mais que o futuro e o passado, que não têm existência. Mas o presente e a eternidade (o presente, logo a eternidade) estão fora do seu alcance. Só me arrebatará o eu. Por isso, me roubará tudo e não me roubará nada. A morte só me roubará as minhas ilusões.

A salvação - segundo o texto – consiste em “sentar-se à mesa no reino de Deus”, uma imagem festiva, convivencial e comensal, com que a Bíblia designa a Plenitude divina.

Essa “mesa” coincide também com a Presença, quer dizer, com a atemporalidade ou eternidade. A mesa já está posta – sempre tem estado – mas só poderemos saboreá-la se, transcendendo a nossa identidade egoísta que anda em busca de migalhas, nas quais tem posto as expectativas de bem estar, viermos à Presença luminosa e eterna, nossa identidade mais profunda.

Ao aceder a essa identidade, descobrimos que a pergunta inicial – “Serão poucos os que se salvam?” – nasce unicamente da grande ignorância em que vivemos. Porque ancorados na Presença que somos, descobrimos que já estamos no reino de Deus: a eternidade é Agora. E que nos privamos da felicidade porque nos escapamos do Presente.


Compreendo bem que isto pode ofender a quem diz estar envolto em sofrimento e pode ferir a nossa sensibilidade perante a constatação diária de situações de injustiça.

Não sei porque é que o mundo é como é, nem creio que a nossa mente chegue a encontrar resposta para isso. Só sei – e não é uma “crença”, mas algo que qualquer um pode experimentar – que, mais além e a um nível mais “fundo” o nosso “sonho quotidiano”, na Presença que é a nossa identidade repartida, tudo está bem.

E que só crescendo nessa consciência – que é compreensão – e a partir dela o que brote será Vida. Porque o nosso maior problema é a incapacidade para reconhecermos e vivermos – como – Presença.


Enrique Martinez Lozano

http://www.enriquemartinezlozano.com/


(NB - traduzi o texto para facilitar a própria compreensão do mesmo.)

2010-08-19

boa noite

assim vão os dias 2

numa época tradicional de férias (para uns tantos, não todos) ando eu a cair para o lado de exaustão. Vale-me o Gabriel que, numa explosão de vida, se decidiu a dar os primeiros passos e a encher as nossas vidas de gozo.

assim vão os dias

quando era pequena tinha um medo estúpido de ciganos. mas cresci. e hoje revoltei-me interiormente com um comentário que ouvi sobre uma romena que, num café, bebia uma qualquer bebida alcoólica. não olhei, não sei qual era. vi a romena. era uma mulher como eu e as duas que estavam comigo e todas as outras que estavam no café e as que iam na rua...como as francesas filhas de pais franceses e avós e tetravós todos genuinamente franceses (o monsieur sarkozy parece que tem umas misturas) e como as que, com meia dúzia de euros, regressam à roménia para não instigarem os medos de ninguém.

2010-08-15

canto de Fé

- 46*Maria disse, então:
«A minha alma glorifica o Senhor
47e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador.
48Porque pôs os olhos na humildade da sua serva.
De hoje em diante, me chamarão bem-aventurada todas as gerações.
49*O Todo-poderoso fez em mim maravilhas.
Santo é o seu nome.
50*A sua misericórdia se estende de geração em geração
sobre aqueles que o temem.
51*Manifestou o poder do seu braço
e dispersou os soberbos.
52Derrubou os poderosos de seus tronos
e exaltou os humildes.
53*Aos famintos encheu de bens
e aos ricos despediu de mãos vazias.
54*Acolheu a Israel, seu servo,
lembrado da sua misericórdia,
55*como tinha prometido a nossos pais,
a Abraão e à sua descendência, para sempre.»


LC 1, 46-55

2010-08-09

palavra de leitor...e escritor

Um livro, meus queridos, é bom e vale quando nos fala ao coração. Se vem com charanga, tambores e foguetório, deixá-lo passar.

a frequentar tabernas e a ler blogues, não tem tempo de ler os comentários aos artigos que publica

Nas tabernas e blogs dizem-se coisas até mais graves.

aprender a ser hóspedes

Precisamos, de vez em quando, de ver como nos comportamos nos nossos variados relacionamentos. Como acolhemos e como aceitamos ser acolhidos. A maior parte das vezes, se formos verdadeiros, veremos coisas bem feias. É preciso aguentar o olhar.

Somos demasiado possessivos e focados nas nossas necessidades de atenção.
Uma relação com um bébé ou uma criança pequena é uma situação privilegiada para aferirmos das nossas motivações e comportamentos. Aí, não há jogos possíveis. A menos que os tornemos mais um objecto de posse.

2010-08-03

afectuosamente

Tem um objecto-fetiche. Repete-lhe o nome desde que acorda até cair de sono. Bola, bola, bola...já diz "vó", mas eu ainda não ouvi...é a nossa barrigada de riso, como diz a mãe. Completa hoje um ano de vida. Parabéns, meu querido Gabriel!

2010-08-02

Silvio Rodriguez Unicornio

Unicornio

Mi unicornio azul
ayer se me perdió,
pastando lo dejé
y desapareció.
Cualquier información
bien la voy a pagar.
Las flores que dejó
no me han querido hablar.

Mi unicornio azul
ayer se me perdió,
no sé si se me fue,
no sé si extravió,
y yo no tengo más
que un unicornio azul.
Si alguien sabe de él,
le ruego información,
cien mil o un millón
yo pagaré.
Mi unicornio azul
se me ha perdido ayer,
se fue.

Mi unicornio y yo
hicimos amistad,
un poco con amor,
un poco con verdad.
Con su cuerno de añil
pescaba una canción,
saberla compartir
era su vocación.

Mi unicornio azul
ayer se me perdió,
y puede parecer
acaso una obsesión,
pero no tengo más
que un unicornio azul
y aunque tuviera dos
yo solo quiero aquel.
Cualquier información
la pagaré.
Mi unicornio azul
se me ha perdido ayer,
se fue.

Silvio Rodriguez