2010-08-21

a eternidade (salvação) é agora

22Jesus percorria cidades e aldeias, ensinando e caminhando para Jerusalém. 23Disse-lhe alguém: «Senhor, são poucos os que se salvam?» Ele respondeu-lhes:
24*«Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque Eu vos digo que muitos tentarão entrar sem o conseguir. 25Uma vez que o dono da casa se levante e feche a porta, ficareis fora e batereis, dizendo: 'Abre-nos, Senhor!' Mas ele há-de responder-vos: 'Não sei de onde sois.' 26Começareis, então, a dizer: 'Comemos e bebemos contigo e Tu ensinaste nas nossas praças.' 27*Responder-vos-á: 'Repito-vos que não sei de onde sois. Apartai-vos de mim, todos os que praticais a iniquidade.' 28*Lá haverá pranto e ranger de dentes, quando virdes Abraão, Isaac, Jacob e todos os profetas no Reino de Deus, e vós a serdes postos fora.
29*Hão-de vir do Oriente, do Ocidente, do Norte e do Sul, sentar-se à mesa no Reino de Deus. 30*E há últimos que serão dos primeiros e primeiros que serão dos últimos.»


Lc 13, 22-29


"Serão poucos os que se salvam?" é a pergunta característica do eu religioso. É claro que o eu não procura outra coisa senão a sua autoafirmação. Devido ao seu carácter vazio e à sua incapacidade de viver no presente, procura constantemente ligar-se a algo que, numa perspectiva de futuro, lhe traga a satisfação ansiada.

A ironia consiste em que esse futuro é tão inexistente como o próprio eu que se projecta nele. Porém, entretanto, o eu sonha em chegar a ser feliz algum dia, identificando-se com diferentes sonhos - ter, poder, prazer -, sem estar consciente de que essa mesma identificação é o que torna impossível a felicidade. Dito com mais radicalidade: o único obstáculo à felicidade é a identificação com o eu.

Enquanto não se "desperta", essa armadilha mortal não se vê. E se o eu é religioso, ao seu futuro definitivo chamará "salvação": buscará salvar-se a todo o custo, numa perpetuação "eterna" de autoafirmação sempre impossível. Poderia imaginar uma promessa maior para a sua insaciável ambição?

Isso explica a religião mítica - a religião do eu -, na que todos nós temos crescido, e que tem girado em volta da questão da "salvação da alma". Não existindo preocupação maior do que esta: "como salvar-me?"


Frente a essa inquietação do eu, a resposta de Jesus anima a "entrar na porta estreita". Que o texto não nos diz exactamente em que consiste.

Dentro da lógica do próprio eu religioso, não surpreende que, ao longo da história, se tenha entendido como "sacrifício", "mortificação", até mesmo "submissão"...

O eu - cuja religião se tem baseado no esquema do mérito e da recompensa - é amante do voluntarismo perfeccionista e com ele, em não poucos casos, trata de saldar, sem dar-se conta, culpas inconscientes.

Uma leitura mais serena do texto do Evangelho, contudo, nos faz ver que não se pode confundir "porta estreita" com "carreira de méritos" - ainda que seja em forma de obstáculos - deve antes referir-se a algo bem diferente.

Se nos damos conta de que, pelo seu próprio carácter; o eu só busca "encher-se", de um modo inevitável e compulsivo, resulta evidente que é justamente o eu o que nunca poderá entrar pela "porta estreita".

Portanto, o convite para alcançar a “salvação”, não o que eu esperava mas o “despertar” da ignorância e do sofrimento, passa por desidentificar-se de si mesmo. “Entrai pela porta estreita” é a desapropriação do eu.

No entanto, o trabalho de desapropriação não é alcançado por “voluntarismo” que, novamente, não faria mais que alimentar o eu. Mas fruto da compreensão.

Não procuramos desidentificar-nos do eu por nenhum motivo “ascético”, mas simplesmente por termos começado a compreender que é essa a nossa verdadeira identidade. Por isso, na medida em que cresçamos nessa compreensão notaremos também um movimento interior a pôr em prática os meios que nos capacitem para vivê-la. Os diferentes meios coincidirão com o facto de fazerem crescer a consciência de não ser o eu que a nossa mente pensa e de nos fazerem viver de maneira despojada, sem nos sentirmos “fazedores”.

Aprenderemos progressivamente a observar o nosso eu, em qualquer dos disfarces que use – eufórico ou deprimido, submisso ou irado…-, e a adquirir distância dele. E cuidaremos, acima de tudo, viver no momento presente, como meio privilegiado de experimentar a Presença que somos.


A partir da nova percepção da nossa identidade, todas as questões são redimensionadas: modifica-se a percepção da realidade. Se o eu andava desesperadamente procurando a sua “salvação” num futuro que imaginava “eterno”, viremos a reconhecer que a Presença é já eternidade enquanto Plenitude atemporal.


Se era fácil identificar o insaciável eu com a piada de Woody Allen – “que feliz seria se fosse feliz”-, a partir da nova compreensão, viremos a reconhecer, com Ludwig Wittengenstein, que “para a vida no presente, não existe a morte”.

Como escreveu o lúcido filósofo ateu André Comte-Sponville, “a morte não me roubará mais que o futuro e o passado, que não têm existência. Mas o presente e a eternidade (o presente, logo a eternidade) estão fora do seu alcance. Só me arrebatará o eu. Por isso, me roubará tudo e não me roubará nada. A morte só me roubará as minhas ilusões.

A salvação - segundo o texto – consiste em “sentar-se à mesa no reino de Deus”, uma imagem festiva, convivencial e comensal, com que a Bíblia designa a Plenitude divina.

Essa “mesa” coincide também com a Presença, quer dizer, com a atemporalidade ou eternidade. A mesa já está posta – sempre tem estado – mas só poderemos saboreá-la se, transcendendo a nossa identidade egoísta que anda em busca de migalhas, nas quais tem posto as expectativas de bem estar, viermos à Presença luminosa e eterna, nossa identidade mais profunda.

Ao aceder a essa identidade, descobrimos que a pergunta inicial – “Serão poucos os que se salvam?” – nasce unicamente da grande ignorância em que vivemos. Porque ancorados na Presença que somos, descobrimos que já estamos no reino de Deus: a eternidade é Agora. E que nos privamos da felicidade porque nos escapamos do Presente.


Compreendo bem que isto pode ofender a quem diz estar envolto em sofrimento e pode ferir a nossa sensibilidade perante a constatação diária de situações de injustiça.

Não sei porque é que o mundo é como é, nem creio que a nossa mente chegue a encontrar resposta para isso. Só sei – e não é uma “crença”, mas algo que qualquer um pode experimentar – que, mais além e a um nível mais “fundo” o nosso “sonho quotidiano”, na Presença que é a nossa identidade repartida, tudo está bem.

E que só crescendo nessa consciência – que é compreensão – e a partir dela o que brote será Vida. Porque o nosso maior problema é a incapacidade para reconhecermos e vivermos – como – Presença.


Enrique Martinez Lozano

http://www.enriquemartinezlozano.com/


(NB - traduzi o texto para facilitar a própria compreensão do mesmo.)

2 comentários:

  1. Este post levanta (pelo menos) duas questões, q fui aprofundando ao longo da minha vida de crente:
    1) "O Reino de Deus está próximo" é geralmente interpretado como "está para breve", num certo tom milenarista ou (num sentido popularizado e, quanto a mim, redutor) apocalíptico. Na minha maturação de fé, fui percebendo q esse "estar próximo" é algo quase físico: estar perto, estar aqui ao lado, podemos tocar-lhe e saboreá-lo, é um Reino q está presente, é a própria vida, q há q aproveitar.
    2) O q é a "salvação"? O senso comum associa salvar com uma situação de perigo eminente, de q se é afastado. Mas se formos ver à própria raiz etimológica da palavra, percebemos q "salvação" é da mesma família de "saúde" ou do verbo "saudar" Ou seja: salvar tem a ver com a integridade do nosso ser, com "estar bem", estar de acordo com o q se é.

    Enfim... dois exemplos de como fui descobrindo q a linguagem, os termos q se usam e a maneira como os entendemos, podem fazer muita diferença no modo como vivemos a nossa fé, a nossa vida.

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  2. :)

    obrigada, Rui. Completas muito bem o sentido do post.

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