2010-08-22


SE O HOMEM PUDESSE DIZER

Se o homem pudesse dizer o que ama,

Se o homem pudesse levantar seu amor pelo céu

Como uma nuvem na luz;

Se como muros que se derrubam,

Para saudar a verdade erguida no meio,

Pudesse derrubar seu corpo, deixando só a verdade de seu amor,

A verdade de si mesmo,

Que não se chama glória, fortuna ou ambição,

Mas amor ou desejo,

Eu seria aquele que imaginava;

Aquele que com sua língua, seus olhos e suas mãos

Proclama ante os homens a verdade ignorada,

A verdade de seu amor verdadeiro.

Liberdade não conheço senão a liberdade de estar preso em alguém

Cujo nome não posso ouvir sem arrepio;

Alguém por quem me esqueço desta existência mesquinha,

Por quem o dia e a noite são para mim o que quiser.

E meu corpo e espírito flutuam em seu corpo e espírito

Como troncos perdidos que o mar afoga ou levanta

Livremente, com a liberdade do amor,

A única liberdade que me exalta,

A única liberdade por que morro.

Tu justificas minha existência:

Se não te conhecer, não vivi;

Se morrer sem te conhecer, não morro, porque não vivi.

Luis Cernuda


imagem-"winter light" Ingmar Bergman


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