2010-10-16

o jardim rendido às "Estranhas Criaturas"

O livro do Henrique já me tinha sido veementemente recomendado por um amigo comum. Ontem tive o privilégio de o adquirir pelas mãos do autor (com direito a autógrafo que, apesar de ser mulher de lágrima fácil, me comoveu profundamente).

É conhecida a minha condição de crente cristã católica, tal como o é, a do Henrique como ateu. Nos respectivos blogues assumimos isso. No meu percurso de fé e de religiosidade já muitas mutações aconteceram. E não faço ideia das que me esperam.

De há algum tempo a esta parte deixei de procurar um director espiritual que correspondesse às minhas necessidades e anseios. Deixei de ter paciência para aturar discursos formatados, com a única finalidade de  satisfazer consciências adormecidas e submissas, a uma evangelização centralizadora e desumanizada.

Esta atitude pessoal, faz com que esteja muito mais atenta a realidades diferentes da minha (no contexto de fé). Realidades que se auto excluem da vivência religiosa católica e que por ela, a maioria das vezes, também não são consideradas. Ou o são negativamente.

O Henrique, logo no primeiro texto do seu "grande" livro, na página nove, escreve:

Nem quando todos os recém-nascidos forem baptizados com lama, amamentados a aguardente. A água benta destes rios parados, onde cada narciso escolhe o deslumbramento que mais lhe convém à morte, não comove ninguém. Talvez os empresários da cortiça, as aves marítimas mergulhadas no petróleo ou os fundadores da nova paisagem industrial: refinarias no horizonte a suster o que resta de um sol-posto às avessas. Em cada igreja um santuário, um santo usurário, a água podre dos domingos. Atestam as últimas análises o mergulho seguro. Cuidado, de tão confundida com as margens essa água pode bem ser terra. E na terra nem deus ousa mergulhar.


Meu querido Henrique, talvez muito distante das motivações que te levaram a escrever este texto, ele torna-se, para mim, um forte apelo e confronto espiritual. Acaba, no fundo, por ser o "guia" que noutros contextos desdenho. Obrigada.



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